segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A não nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal

Ontem o Papa nomeou 19 novos cardeais. Para os lusófonos destacam-se duas coisas, em primeiro lugar a presença de D. Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro. O Brasil, maior país católico do mundo, em termos demográficos, vê assim reforçada a sua representatividade no colégio eleitoral para três cardeais.

Esta nomeação era esperada, na medida em que qualquer decisão do Papa Francisco pode ser esperada…

A segunda notícia, portanto, foi a ausência de D. Manuel Clemente da lista dos futuros cardeais. Sobre isto há várias considerações a ter em conta.

1º O Papa tinha obrigação de nomear D. Manuel Clemente? Em certo sentido sim. Há várias dioceses onde existe a tradição de o arcebispo titular, ou Patriarca no caso de Lisboa e de Veneza, serem feitos logo cardeais no primeiro consistório depois da sua nomeação. Contudo, no caso de Lisboa não existe só uma tradição mas uma bula, mesmo, que o estipula. Nesse sentido, sim, o Papa está obrigado pela bula do seu antecessor.

Por outro lado, e por ridículo que possa soar, uma bula obriga o Papa na medida em que ele apetece manter-se obrigado, porque a autoridade da Bula vem precisamente da mesma fonte que a pode decidir revogar ou simplesmente ignorar. Nesse sentido, o Papa não estava obrigado a coisa nenhuma.

2º Muita gente tem citado a “regra” de não poder haver dois cardeais eleitores da mesma diocese, pelo que D. Manuel terá de esperar até D. José cumprir 80 anos. Para começar, essa regra não existe. O que existe é uma prática recente nesse sentido, mas não está nada escrito em lado nenhum.

3º Portanto, o que se passou ontem, e sem qualquer juízo de valor, apenas constatação, foi que o Papa optou por ignorar uma regra escrita para cumprir uma tradição que, assim, se vê reforçada e vai ganhando peso.

4º Mas com tudo isto estamos a partir do princípio que o Papa vai, de facto, nomear D. Manuel Clemente cardeal quando D. José cumprir 80 anos. Eu acredito que assim seja, mas não há qualquer garantia nesse sentido. Pode fazê-lo, respeitando assim pelo menos nessa forma, a tradição no que diz respeito ao Patriarcado de Lisboa, mas também pode decidir fazer como fez com a bula… ignorar. Os cépticos farão bem em pôr os olhos em Veneza, o único outro Patriarcado latino no Ocidente e em Bruxelas, cujos responsáveis também não foram feitos cardeais apesar dos seus antecessores não constituírem obstáculo, ou por já terem ultrapassado os 80 anos, ou por terem sido enviados para outra diocese.

5º O que é que isto nos diz sobre D. Manuel Clemente? Absolutamente nada. Tanto quanto sei o Papa não conhece bem D. Manuel e por isso não terá nada contra ele nem nenhuma razão pessoal para não o nomear. Mas talvez nos diga alguma coisa sobre as prioridades do Papa e a realidade da Igreja em Portugal…

O Papa fez questão de nomear alguns cardeais de dioceses obscuras (Haiti, Burkina Faso, só para dar dois exemplos), que não estavam sequer representadas no colégio dos cardeais. Já há muito que se comentava que o colégio dos cardeais era demasiado eurocentrico e ocidentalizado. Francisco parece estar a querer mudar isso.

Tendo em conta a realidade da igreja portuguesa, que pode ser descrita como morna na melhor das intenções, seria de espantar que Portugal seja sacrificado neste novo equilíbrio de forças? Sobretudo quando lembramos que já temos dois cardeais eleitores, D. José e D. Manuel Monteiro de Castro.

Cardeal Cerejeira com tripla tiara... outros tempos
Como já disse, eu acredito que D. Manuel venha a ser nomeado quando D. José cumprir 80 anos, talvez até antes. Mas já está visto que a bula deixou de ter valor e isso, por si só, diz muito sobre um país que já foi um dos principais do mundo católico, sobretudo no que diz respeito à expansão da fé, mas que caminha rapidamente para ser território de missão.

Convém recordar, também, que há um limite para o número de cardeais que o Papa pode nomear. Claro que não é um limite rígido, mas há um limite do senso-comum. Não fazia sentido nomear 40 cardeais eleitores ontem, por isso é natural que alguns tenham tido que ficar em lista de espera por mais um ou dois anos sem que isso implique qualquer oposição pessoal contra eles.

Por fim, gostaria apenas de comentar outra ausência que me deixou um bocado desiludido, a ausência do Patriarca (ou Arcebispo-maior) da Igreja Greco-católica da Ucrânia, Sviatoslav Shevchuk, que lidera a maior igreja católica de rito oriental.

Alguns católicos orientais argumentam que os seus patriarcas não têm nada que ser feitos cardeais, uma honra menor que a que já possuem e própria da Igreja Latina, que não é a deles. Mas para lá desses preciosismos, a verdade é que a presença de orientais reforça a imagem global de uma Igreja que respira com dois pulmões e não apenas com um.

Shevchuk tornar-se-ia o cardeal mais novo, de longe, com apenas 43 anos, mas não vejo qualquer problema com isso. Se, contudo, a sua não inclusão, tendo em conta que o seu antecessor já não é eleitor, se deve a medo de ofender Moscovo, então é uma verdadeira pena.

4 comentários:

  1. No Consistório em que o Patriarca de Lisboa D. António Ribeiro foi feito Cardeal, (o primeiro, evidentemente, a seguir à sua nomeação, de acordo com a Constituição de Clemente XII), também o foi o então Patriarca de Veneza, Albino Luciani. Na altura, disse-se que o tinha sido um pouco «à boleia» de D. António Ribeiro. Não ficaria bem criar Cardeal o Patriarca de Lisboa (em razão do antigo «privilégio») e não fazer o mesmo ao outro Patriarca do Ocidente, o de Veneza. Assim, Albino Luciani foi Cardeal... e depois foi... o Papa João Paulo I. Donde se conclui que antigas tradições e até antigos «privilégios» podem sempre trazer consigo boas surpresas...

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  2. É uma violação clara do Acordo entre Portugal (D. João V) e o Estado do Vaticano. Lamento que um Chefe de Estado, sendo o sucessor de São Pedro não cumpra acordos internacionais. É um péssimo exemplo!!!

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  3. Talvez tenha chegado ao conhecimento do papa algumas cerimónias públicas de D.Manuel Clemente que são totalmente discordantes da politica actual do Vaticano, que é de abertura de espirito, modernidade e aproximação aos problemas das pessoas. Lembro-me de imediato da primeira missa que celebrou, na presença, com beija mão, das mais altas estruturas do Estado. Fez lembrar o Estado Novo e o Papa Francisco é avesso a estas carunchosas abordagens da igreja.

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  4. Mas se as tradições não são para cumprir, porque é que o Patriarca-Emérito, D. José Policarpo, não continuou ao serviço do Patriarcado de Lisboa até aos 80 anos? D. Manuel Clemente continuaria na Diocese do Porto, onde estava fazendo um bom trabalho pastoral! E não teria havido a dificuldade de nomear novo bispo para essa Diocese!!!

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