quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ratisbona Revisitada: As Raízes da Violência Islâmica

James V. Schall S.J.
Num recente artigo no “L’Osservatore Romano”, Sandro Magister comentou a ausência de respostas significativas à violência contra os cristãos no Médio Oriente. Mas este “silêncio público dos líderes espirituais islâmicos não surpreende. Acontece o mesmo cada vez, e em cada parte do mundo, que ocorre um acto de violência com origem muçulmana”. A matança de cristãos por parte de muçulmanos claramente não é vista como um problema islâmico, ou pelo menos não como um problema que seja discutido livremente em público.

Este silêncio não se pode explicar apenas com um “calculismo oportunista, ou por medo de represálias”. No Egipto, ambas as facções islâmicas que lutam pelo poder reclamam o direito a usar a força e encaram a acção política como “jihad, como guerra santa.” Logo, a violência é legitimamente usada como um princípio de acção sancionado pela religião.

Para compreender as causas desta violência, sugere o jornal do Vaticano, devemos regressar à conferência de Ratisbona de Bento XVI de 2006. A reacção violenta do mundo islâmico perante esta conferência foi a “trágica confirmação” da verdade da sua tese. “A violência oriunda da fé é um produto inevitável da ligação frágil entre fé e razão no pensamento islâmico e no seu entendimento de Deus”.

A violência recorrente nos países islâmicos, tanto contra os seus próprios crentes como contra aqueles que pertencem à “área de guerra”, isto é, todos os outros, tem raízes teológicas. “Nenhum Papa anterior a Bento XVI teve a visão e a coragem de tecer um juízo tão claro sobre o Islão, nem de formular com tanto rigor as diferenças entre o Islão e o Cristianismo.”

Muitos, mesmo no interior da Igreja, criticaram Bento XVI. Porém, quando ele viajou para a Turquia nesse mesmo ano, realçou que o Islão tem de enfrentar os mesmos problemas que o Cristianismo durante o Iluminismo, nomeadamente, “direitos humanos e uma verdadeira liberdade de fé e da prática religiosa”.

Qual era a principal conclusão de Bento XVI? Ilustrou-a recordando uma conversa medieval entre um imperador bizantino e um cavalheiro persa. A questão básica estava em saber se era divinamente permitido espalhar a fé pela violência, como o Islão tinha feito contra as terras cristãs no Médio Oriente. Algumas passagens do Alcorão dizem que não; outras dizem que sim. Como se pode justificar a utilização das que sancionam a violência? Justificam-se com a filosofia, ou talvez com ausência dela. Esta justificação é aquilo que de que se fala quando se menciona as “origens intelectuais” da violência islâmica. Não se trata de uma mera aberração, foi concebida como uma forma de seguir a vontade de Alá.

Como assim? A revelação cristã dirigiu-se à razão, daí a sua atenção a Platão e Aristóteles. Isto significa que a razão era autónoma. Algo contrário à razão – como a ideia de que Deus aprovava da violência para forçar uma conversão – não podia ser algo “revelado” por Deus acima da razão.

Ele, o Logos, também é responsável por tudo o que no mundo não é Deus. Esta proibição não significa que não se pode usar a força para nos protegermos contra uma violência injusta por parte de outros. Significa, isso sim, que a utilização da força bruta para expandir a nossa religião não é de Deus.

Cristãos rezam numa igreja destruída por extremistas

Se esta proibição da violência é ditada pela razão, então como é que os exércitos islâmicos e os indivíduos, ao longo dos séculos, não tiveram dificuldade em recorrer a ela? A resposta é filosófica. Esta justificação filosófica surge de diversas formas ao longo da história. Faz parte da nossa cultura hoje em dia, na forma de relativismo e de multiculturalismo. Basicamente, significa que não existe nada de objectivo. Logo, nada limita nada. Somos “livres” para fazer o que bem entendermos. Esta posição costuma ser apelidada de “voluntarismo”, uma forma dominante de liberalismo.

Na sua forma islâmica, ela parece ter as suas raízes em al-Ghazali e em Ibn Hazm, a quem Bento XVI se referiu. No Islão, a noção de que Deus está limitado por alguma coisa, incluindo os seus próprios decretos ou a razão, é considerada insultuosa. Alá pode fazer o oposto do que comanda. Ele pode chamar bom ao que é mau e mau ao bem. Não está sujeito a qualquer obrigação de revelar a verdade ao homem. E se o fizer pode mudar de ideias e desejar o oposto mais tarde. Estas posições estão claramente referidas na conferência de Ratisbona.

Logo, a raiz filosófica da violência significa que é perfeitamente legítimo usar da violência para converter pessoas, desde que Alá o ordene, como aparentemente faz. Negar esta possibilidade como “irracional” seria em si uma blasfémia. Seria afirmar que a razão pode limitar a liberdade de Alá, à qual nos devemos submeter como sendo a única realidade à qual devemos dar atenção.

Se os líderes muçulmanos não entendem que devam protestar contra a perseguição em larga escala de cristãos, e de outros, em terras muçulmanas, é porque na sua religião lhes falta o critério pelo qual podem julgar como irracional algo que é suposto ser revelação.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 2 de Outubro de 2013 em The Catholic Thing)

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