quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem Queres Ser?

Randall Smith
Estávamos a discutir o extraordinário livro de Christopher Browning “Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland”, no qual descreve as circunstâncias à volta do massacre de quase 2000 mulheres e crianças judaicas no dia 13 de Julho de 1942, na pequena aldeia de Józefów, na Polónia.

Em lágrimas, o comandante do batalhão, Major Wilhelm Trapp, explicou aos seus homens a “tarefa desagradável” que lhes tinha sido confiada. Cada mulher e criança da aldeia seria levada para a floresta e forçada a deitar-se de barriga para baixo na terra. Colocando as baionetas entre as omoplatas, os soldados deviam dar-lhes um tiro na nuca. Adolescentes, avós, crianças com seis meses: todos deviam ser mortos até à aldeia estar vazia.

Terminada a explicação da tarefa, Trapp fez uma oferta extraordinária: se algum dos homens de entre eles não tivesse vontade de participar, podia retirar-se. Dos cerca de 500 homens no batalhão, apenas 12 o fizeram.

Todos os semestres discuto com os meus alunos porque é que tão poucos aceitaram a proposta, recusando-se a tomar parte na matança. Há uma série de razões, cada um dos quais está detalhado no excelente livro do Prof. Browning. Alguns dos homens que participaram no massacre afirmam que não tiveram tempo para pensar devidamente no assunto; outros dizem que “os tempos e o lugar eram outros” e que “naquela altura as circunstâncias eram diferentes”. Outros ainda disseram que não queriam “parecer fracos” diante dos outros, como se matar mulheres e crianças inocentes fosse algo que os fizesse parecer fortes.

A maioria das razões dadas por estes homens para não se terem recusado a tomar parte no massacre parecem-me, basicamente, treta, excepto uma: alguns dos homens disseram que tinham medo do que lhes poderia acontecer caso recusassem as ordens: “E se alguém nos apontar uma arma à cabeça e disser que nos mata se não matarmos os prisioneiros? Com a arma encostada à cabeça, sob pena de ser executado, temos culpa se matarmos o preso? Temos o dever de preservar a nossa vida, não? Se sim, seria ‘imoral’ matar o preso para preservar a nossa própria vida?”

Com estas perguntas os meus alunos revelam ser jovens adultos intelectualmente desenvolvidos. Porém, isto revela também alguns dos perigos para as suas vidas morais que derivam de lhes ensinar a ética da forma como costuma ser ensinada. Um professor meu referiu, certa vez, que os livros que são mais frequentemente roubados de bibliotecas são de ética, o que comprova algo de que ele sempre tinha suspeitado: que os cursos de ética não costumam tornar as pessoas melhores e mais virtuosas, pelo contrário, tendem a torná-las piores. Um bocadinho de conhecimento pode ser uma coisa muito perigosa.


Não quero ser mal-entendido. Não estou a criticar todos os cursos de ética ou de teologia moral. Seria estranho, uma vez que lecciono um desses cursos todos os semestres. Não, o que me preocupa é a forma como a ética costuma ser ensinada. Há uma série de assuntos importantes envolvidos em todos os dilemas morais que os meus alunos propuseram.

Cemitério judaico de Józefów
Na teologia moral clássica há distinções muito bem definidas entre níveis de culpabilidade, dependendo no grau de voluntariedade ou involuntariedade do acto. Determinar correctamente a culpabilidade de um agente é crucial, por exemplo, num tribunal por parte de um juiz ou de um júri.

Nas gerações anteriores essa consideração desempenhava um papel importante no confessionário. Se me obrigarem a fazer algo contra a minha vontade, cometi um pecado? Talvez até um pecado mortal? Se for escravo num galeão muçulmano, por exemplo, (para citar um famoso caso histórico), devo recusar-me a remar para os meus supervisores muçulmanos se isso implicar a minha execução? Nestas circunstâncias o que é que constitui cooperação “formal” com o mal, que em certos casos é permissível? Todas estas questões são interessantes e importantes, em certos contextos e por razões particulares.

Mas neste caso eu prefiro colocar a pergunta aos meus alunos do seguinte modo: Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão? Por enquanto não me interessa saber o que pensas que seria a solução “moralmente correcta”. Nem quero avaliar a culpabilidade de outra pessoa envolvida na situação. O que quero saber, muito concretamente, é o que é que esperas que seria a tua decisão? Que tipo de pessoa queres ser? As nossas decisões formam-nos.

Invariavelmente os meus alunos respondem: Espero que seria a pessoa com a coragem para não disparar, mesmo que isso me custasse a vida. E aí têm a resposta.

Podemos falar de “moral” e de “ética” como se fossem uma série de regras abstractas que nada tivessem a ver com o nosso carácter ou com a nossa formação enquanto pessoas completas e íntegras. Quando compreendemos a ética desta forma errada damos por nós a dizer parvoíces como: “Eu sei que não é moralmente correcto, mas ainda assim acho que é a decisão certa”, ou: “Pode não ser a decisão mais moral, mas é a melhor decisão” – como se o acto “moral” estivesse numa categoria totalmente diferente do que é “bom”.

São Tomás de Aquino pedir-nos-ia para considerar que categoria de virtude é relevante nesta situação. No caso referido, a virtude relevante é a coragem. Então perguntamos o que faria uma pessoa corajosa. E ao escolher correctamente, tornamo-nos aquilo que escolhemos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

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2 comentários:

  1. Obrigado, por este admirável texto. Faz pensar. Li e reli. Tremo de pensar na minha resposta ao teste da arma apontada à cabeça de um inocente.

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