segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A complexa relação entre cristãos e Israel

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui uma ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há pouco mais de 60 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos. E atenção que interesse, neste contexto, não tem obrigatoriamente que significar “interesseiro”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Em muitos casos estes não são apenas os judeus que vivem na diáspora, muitos dos quais até são bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é confinado à América.

Os Evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas as razões são mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista. A crença de que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para se verificar o fim dos tempos e o regresso de Cristo em todo o seu esplendor.

Na maior parte esses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem aceite a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral. Um grande número de voluntários nas forças armadas de Israel (que aceita alguns estrangeiros) são cristãos evangélicos que sentem ser o seu dever preservar aquele país e defendê-lo dos seus inimigos. Mais importante que isso, contudo, é a ajuda financeira e política que este sector garante.

Fora da América o caso muda de figura. Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com anti-semitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anti-cristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
 No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto nos territórios ocupados (onde está a diminuir), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana

Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade geral da zona que acaba por desembocar em perseguições anti-cristãs. Esta atitude ficou bem vincada no último sínodo para os bispos do Médio Oriente, por exemplo.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados, sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição, e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas.

Por fim, temos o factor grego e russo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. Entretanto, não esqueçamos que o Patriarcado de Constantinopla se encontrava sedeada precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
 Aos olhos dos Otomanos os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso e a sua presença no Império era mais bem tolerada. Na Terra Santa isso ainda hoje se faz sentir. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras coisas, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas por outro da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Uma última nota para recordar que tudo isto está em permanente mudança, é natural que assim seja quando depende de tantos factores. Por exemplo, o aumento do fundamentalismo islâmico no Médio Oriente, e na Palestina em particular, poderá empurrar muitos cristãos árabes para o colo de Israel. Outro factor é demográfico. Com o crescente êxodo de cristãos árabes vai diminuindo a influência das suas comunidades no Médio Oriente e isso também pode ter os seus efeitos.

Filipe d’Avillez

Sem comentários:

Enviar um comentário

Partilhar