Monday, 14 December 2015

Jubileu da Misericórdia e as dificuldades do maçon

De regresso depois de uma semana de férias, trago-vos novamente o essencial da informação religiosa.


Neste link encontra uma série de perguntas e respostas sobre o que é um jubileu, porque é que este é extraordinário e o que são indulgências, por exemplo.

Ainda ligado a este assunto, o Papa elaborou hoje sobre a história da Portuguesa que conheceu e que lhe deixou muito boa impressão, que tinha mencionado em entrevista à Renascença.

E da série de conversas sobre Deus, na Capela do Rato, Henrique Monteiro afirma que tem muita dificuldade em explicar às pessoas que é maçon e não católico, mas que isso não o impede de acreditar em Deus.

Deixo-vos com o artigo da semana do The Catholic Thing, “Sobre o Conhecimento Divino”. 

Wednesday, 9 December 2015

Sobre “Conhecimento Divino”

James V. Schall S.J.
Numa questão dirigida a Talássio (um ermita sírio), Máximo o Confessor (morto no ano 662) afirma: “Ele (Cristo) designou a Santa Igreja como candelabro, através do qual a palavra de Deus deita luz pela pregação e ilumina com os raios da verdade quem estiver na casa que é o mundo, e enche as mentes de todos os homens com conhecimento divino.” Lendo estas antigas palavras, perguntamos: Que é este “divino conhecimento” de que Máximo fala?

A lógica indica que o conhecimento “divino” não é o mesmo que o conhecimento “humano”, caso contrário não poderíamos compreender a diferença. O “conhecimento divino” diz respeito unicamente a Deus. Se alguém diz que o possui está a dizer que é Deus, algo que não é inédito entre a nossa espécie. Não segue, porém, que os seres humanos não tenham qualquer conhecimento. Claramente temos. O nosso desafio intelectual é relacionar o conhecimento “humano” ao “conhecimento divino”.

Tudo bem, mas como é que sabemos o que quer que seja sobre “conhecimento divino”? O facto é que não sabemos, a não ser que Deus nos informe sobre ele. Será que o fez? A Revelação não é mais que isso mesmo.

Onde é que isso nos deixa? Como é que sabemos que coisas nos são reveladas? Não podemos responder a essa questão enquanto não percebermos o que podemos conhecer por nós. Por outras palavras, a nossa atenção ao “conhecimento divino” depende do nosso conhecimento “humano”.

O que é que estou a dizer com tudo isto? Não conseguimos já compreender através da razão algumas coisas que em tempos eram considerados mistérios inefáveis? Sim. Contudo, muitos assuntos fundamentais continuam a confundir-nos. E então, qual é o mal de estar confundido?

A bem dizer, nada, só que não nos contentamos com a nossa incapacidade de compreender tudo. O nosso mundo está cheio de mitos e teorias que pretendem explicar tudo o que não conseguimos compreender por nós. À primeira vista esta incapacidade parece um sinal de caos. À segunda vista, contudo, significa uma verdadeira inquietação nas nossas almas. Sabemos que é suposto sabermos as razões últimas das coisas.

O próximo passo é delicado. Haverá alguma coisa que pretende ser conhecimento “divino” e não apenas “humano”?. Aristóteles disse que nos devíamos esforçar por saber tudo o que pudermos sobre coisas “divinas”. A diferença entre os deuses e os homens é que os deuses são sábios, mas os homens não passam de amantes e buscadores da sabedoria dos deuses. Aristóteles sugeriu ainda que, se os deuses sabiam o que é a felicidade, essa devia ser a primeira coisa que nos diriam.

Este tipo de observação deixa-nos a pensar. Será possível que os deuses tenham feito o que Aristóteles sugeriu? Bom, sim, é bem possível. Como é que poderíamos saber se o fizeram? Provavelmente, concluímos, porque as suas respostas ou instruções se dirigiram precisamente à nossa ignorância mais profunda sobre a nossa razão de ser neste mundo.

São Máximo, o confessor
Como é que formulamos esta questão? Em Mateus (19,16), um jovem pergunta: “Que devo fazer para obter a salvação?” Não é esta a pergunta que todos fazem? Talvez não nestes precisos termos, mas mesmo que digamos “a minha vida não tem significado”, estamos implicitamente a responder à questão do jovem.

O que é que este “bem”, este “ser salvo”, tem a ver com o “conhecimento divino”? Se não sabemos porque é que existimos, não segue que mais ninguém o saiba. Pode bem ser que a nossa falta de conhecimento seja precisamente o que nos abre à aceitação do conhecimento sobre nós mesmos. Compreendemos que este conhecimento sobre nós é justamente “divino”. É algo que aceitamos como verdade que vem de fora, não é algo que compreendamos por nós. Mas não deixa de explicar.

Onde é que isto nos deixa? Máximo prossegue: “Através da virtude e do conhecimento, Cristo conduz ao Pai todos os que estiverem resolvidos a caminhar com Ele, que é o caminho da rectidão, em obediência aos mandamentos divinos”.

Mas isto não implica que aqueles que não são obedientes aos “mandamentos divinos” e que não são virtuosos, rejeitando o conhecimento, estão em grandes sarilhos? É isso mesmo que implica.

Se o “divino conhecimento” sobre nós mesmos nos for oferecido, podemos recusá-lo? Claramente que sim. Então é possível que o mundo contenha tanto aqueles que ouviram falar sobre o “conhecimento divino” e aqueles que tendo ouvir falar dele, rejeitaram-no.

Se for este o caso, é provável que estas duas “cidades”, aqueles que aceitaram e os que rejeitaram, possam viver juntos em paz? Não é provável. Porquê?

O “conhecimento divino” é um conhecimento sobre aquilo que somos, e não apenas um sentimento. Máximo fala de “raios de verdade” na “casa que é o mundo”. Através da “virtude e do conhecimento”, ao caminhar em “obediência aos mandamentos divinos” – a rejeição dos mesmos deixa-nos em guerra uns com os outros. Nenhuma reflexão explica melhor o estado do mundo em que vivemos.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 4 December 2015

Atirador era do Estado Islâmico, Carminho é de Deus

A fadista Carminho
Ao que parece, e como parecia provável, o homicida que anteontem matou 14 pessoas na Califórnia tinha sido radicalizado e pelos vistos jurou lealdade ao Estado Islâmico.

Continuam a decorrer, na capela do Rato, as “Conversas sobre Deus” com Maria João Avillez e diversos convidados. Esta semana foi a vez da fadista Carminho, que falou sem cerimónias da importância de Deus na sua vida.

Na próxima semana o Actualidade Religiosa vai descansar, voltando a partir do dia 14, se Deus quiser. Entretanto fiquem atentos à Renascença, que vai fazer uma excelente cobertura do início do Jubileu da Misericórdia, espreitem, caso ainda não o tenham feito, o meu artigo sobre a exposição “Real Bodies” e não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o futuro do Islão.

Thursday, 3 December 2015

Mais uma tragédia nos EUA, porta da Misericórdia em Vila Viçosa

Alaa Murabit, a especialista canadiana de origem libía
Nova tragédia, desta feita nos Estados Unidos. Um casal matou 14 pessoas e feriu mais de 20 num ataque. Sabe-se que o casal é muçulmano e tudo indica que o ataque foi bem planeado, mas ainda não é dado como adquirido que se trata de um acto de terrorismo islâmico.

Sobre esta questão da radicalização, a Renascença falou hoje com uma jovem activista canadiana de ascendência líbia, que se encontra em Portugal para participar numa conferência, precisamente dedicada ao combate à radicalização.



Fátima já tem programa para o novo Ano Litúrgico e, atenção a todos os devotos de Nossa Senhora da Conceição, a única porta santa da diocese de Évora será no santuário em Vila Viçosa.

Wednesday, 2 December 2015

Na Nigéria, mais 100 "real bodies" do Boko Haram

Forças Armadas dos Camarões
O Papa esteve esta manhã na audiência geral em Roma, mas ainda com o coração em África, lamentou as desigualdades que testemunhou e disse que a República Centro-Africana era o país que mais queria visitar.

Esta manhã os Camarões anunciaram terem morto 100 elementos do Boko Haram numa operação, libertando nada menos que 900 pessoas!

Em França continua a operação de “limpeza” depois dos ataques de Paris. Já foram encerradas quatro mesquitas e encontradas 330 armas, algumas das quais são consideradas de guerra.

Recentemente uma amiga perguntou-me se podia levar o meu filho a ver a exposição Real Bodies. Respondi que não e aqui explico porquê. Admito que a questão é debatível, deixe a sua opinião.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing. David Carlin pergunta qual será o Islão do futuro, argumentando que é urgente eliminar o Estado Islâmico antes de a maioria dos muçulmanos se convencerem que é esse o tipo de religião que tem sucesso.

E Agora Islão?

David Carlin
Ao contrário do Catolicismo, o Islão não tem qualquer autoridade central, nenhum Papa que possa emitir sentenças definitivas sobre o que é ou não é ortodoxo. Nesse aspecto, o Islão é mais como o Protestantismo, que tem centenas de denominações concorrentes, cada uma das quais diz ser detentora da “verdadeira” versão do Cristianismo.

Pelo menos era assim no mundo protestante até há cerca de 100 anos. Com a chegada do protestantismo ecuménico, porém, uma grande parte do mundo protestante – a parte não-fundamentalista – decidiu que todas as versões do Cristianismo são basicamente iguais em termos de verdade. O mundo islâmico ainda não chegou a um ecumenismo tão abrangente. Os muçulmanos ainda insistem que a verdadeira versão do Islão é a sua.

O Estado Islâmico considera que representa o verdadeiro Islão. Por outras palavras, o verdadeiro Islão é aquele que estabelece (ou reestabelece) o Califado; que procura, com recurso à violência militar, conquistar o mundo; que pressiona os cristãos e outros não-muçulmanos, através da persuasão, da perseguição e do terror, a aceitar o Islão. Trata-se de uma versão moderna do Islão que imita o Islão primitivo que, surgindo na Península Arábica logo a seguir à morte do profeta, conquista rapidamente o Império Persa e uma grande secção do Império Romano, da Síria no Oriente até Espanha no Ocidente.

A maioria dos muçulmanos, incluindo uma grande maioria dos académicos muçulmanos, diria, como é evidente, que o Islão do Estado Islâmico não é o verdadeiro Islão. Podem não estar de acordo sobre o que constitui o verdadeiro Islão, mas concordam sobre o que não é, e não é o Estado Islâmico.

Mas perante isto o Estado Islâmico responde de duas maneiras. Uma é a resposta retórica: “Os nossos objectivos e práticas assemelham-se, muito mais do que as vossas, aos objectivos e às práticas dos primeiros califas, aqueles que sucederam imediatamente o Profeta. Como eles, somos muçulmanos militantes. Somos guerreiros de Allah. Somos jihadistas. Vocês, por outro lado, são gatinhos. Não estão dispostos nem a matar nem a morrer pela nossa santa religião”.

A outra resposta é dada no campo. O Estado Islâmico está a ter sucesso. Estabeleceu um estado (ou um quase-estado) no Iraque e na Síria. Estabeleceu alianças com organizações semelhantes desde a Indonésia à Nigéria; para todos os efeitos está agora à cabeça de uma federação jihadista global. Atingiu os infiéis em França, na Rússia e noutros locais e tudo indica que o fará novamente no futuro. Pela primeira vez desde o declínio do Império Otomano, o Ocidente teme o Islão militante. “Contra factos não há argumentos”, dirá o Estado Islâmico “e o facto é que nós temos sucesso, vocês não”.

Como já afirmei, não existe um Papa muçulmano que possa dizer que o Estado Islâmico não representa o verdadeiro Islão. A verdadeira definição do Islão será decidida numa espécie de referendo informal, levado a cabo ao longo dos próximos 50 a 100 anos pelos cerca de 1,5 mil milhões de muçulmanos do mundo. Se o Estado Islâmico continuar a ter sucesso, e se tornar ainda mais poderoso e bem-sucedido, é muito provável que uma maioria dos muçulmanos do mundo acabe por decidir que a versão de Islão do Estado Islâmico é a verdadeira.

Que Islão terá o futuro?
Esta é a verdadeira justificação para usar força militar massiva, incluindo algumas centenas de milhares de “botas no terreno”, para esmagar o Estado Islâmico antes que se torne maior e tenha ainda mais sucesso. O problema não é que o Estado Islâmico mate umas centenas de pessoas em Paris, mais uns milhares em sítios como Londres, Roma, Berlim, Madrid, Moscovo, Washington e Las Vegas. Podemos tolerar uns milhares de homicídios. Aqui nos Estados Unidos toleramos mais de 10 mil homicídios todos os anos. O que não podemos é tolerar uma redefinição do Islão segundo o modelo do Estado Islâmico – um Islão que mobiliza uma quinta parte da população do mundo para conduzir uma guerra santa contra os outros 80%.

Ao eliminar o Estado Islâmico estaríamos a fazer um grande favor a nós mesmos e sobretudo aos nossos netos e bisnetos. Mas estaríamos a prestar um serviço igualmente importante à maioria dos muçulmanos do mundo. Claramente, o mundo Islâmico está numa encruzilhada. Sente que deve responder de forma definitiva à cultura de modernidade que vem dos Estados Unidos em particular e do Ocidente de forma geral, uma cultura incompatível com o estilo de vida tradicional do Islão e que está a tomar conta do mundo e a transformá-lo.

Uma possível resposta é aquela que o Estado Islâmico está a propor: um regresso ao Islão militante do primeiro século depois de Maomé. Outra resposta possível é a modernização do Islão para que consiga abraçar os elementos menos maus da modernidade. Se o Estado Islâmico for eliminado, o mundo muçulmano não terá outra alternativa que não virar-se para a resposta da modernização.

Trata-se de um grande “se”. Quando falo do futuro com os meus alunos alerto-os sempre para o seguinte: “Embora seja possível prever os movimentos do sol, da lua e dos planetas, é praticamente impossível prever o futuro da humanidade”.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sexta-feira, 20 de Novembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 1 December 2015

Exposição Real Bodies? Nem morto, quanto mais vivo

Isto sim, corpos verdadeiros, em toda a sua beleza
Recentemente uma amiga perguntou-me se podia levar o meu filho mais velho, que está aprender agora sobre os diferentes sistemas do corpo humano, à exposição Real Bodies, na Cordoaria Nacional.

Agradeci, disse que sabia que tinha a melhor das intenções, mas que não queria que o meu filho fosse a essa exposição e que eu não seria visto lá morto, quanto mais vivo.

Não tenho nada contra o corpo humano, pelo contrário, a minha objecção vem de ter muito a favor do corpo humano e de sentir que a exposição não o trata com a dignidade que merece e que tem, mesmo depois de morto.

O grande problema desta exposição é precisamente aquilo que ela apresenta como sendo o seu principal trunfo: Os corpos são verdadeiros. E no meu entender o corpo é algo que não deve ser objecto de exposição cultural, precisamente porque o corpo não deve ser objecto de comércio.

Porque é disso que se trata. Quem vai à cordoaria paga um valor para obter algum tipo de satisfação a partir da exploração de um corpo que não é o seu. Podem chamar-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe prostituição cultural.

O problema da prostituição não é apenas a procura do prazer sexual de uma forma desregrada, se fosse estaria ao mesmo nível que a masturbação. O problema da prostituição é a redução de uma pessoa, de uma filha ou de um filho muito amado por Deus, a um objecto. É a diminuição de um ser humano a algo transaccionável. É isso que o “Real Bodies” faz.

A nossa dignidade é inerente à nossa condição humana e não termina com a nossa morte. Não nos é lícito pintar bigodes nos cadáveres dos nossos amigos nem embalsamar os seus membros para colocar por cima da lareira. O Cristianismo herdou do Judaísmo, e tem sublinhado sempre, que os restos mortais não são apenas lixo, ou a casca que deixamos para trás quando a alma vai para o Céu. Todos os domingos os cristãos afirmam a sua crença na Ressurreição dos Corpos no fim dos tempos porque este corpo que possuímos, que nos limita mas que é fonte inesgotável de alegria e do prazer que vem de vivermos em comunidade, da mais alargada à mais íntima, é igual àquela em que Cristo achou por bem encarnar.

Respondem-me os cépticos que as pessoas que estão no Real Bodies doaram os seus corpos para o efeito. E depois? Muitas prostitutas são escravas do tráfego humano, mas outras estão lá porque querem. Isso não torna a prostituição menos degradante e condenável. Pelo contrário, o facto de haver pessoas que sentem que a única forma de dar algum sentido à sua morte é serem plastificados, ou seja lá como se chama a técnica, e expostos para serem observados por turistas e curiosos para o resto da vida, é verdadeiramente triste e preocupante.

E o aspecto científico? Concordo que é perfeitamente lícito o estudo de cadáveres para fins científicos, seja de pesquisa, seja de aprendizagem. Mas não brinquem comigo, não é isso que se passa na cordoaria. De resto acho que é natural que mesmo um cadáver que seja doado para estudo científico seja depois dignamente sepultado.

Cada vez mais me convenço que um dos grandes problemas do mundo é a dessacralização do corpo humano, com uma sociedade que nos diz que o que interessa não é o corpo que temos, mas o que gostaríamos de ter; que os corpos dos nossos filhos são, nem que seja só até às 10 semanas, nada mais que “aglomerados de células”; cada vez mais ouvimos pessoas a dizer que querem ser cremadas para que os seus restos mortais não fiquem “a ocupar espaço”; a prostituição é legalizada, como se o problema naquela prática fosse apenas a falta de higiene; as nossas ideias de homem e de mulher são agora baseados em modelos totalmente artificiais promovidos pela comunicação social e a pornografia se tornou omnipresente.

Não somos almas numa carapaça descartável. Somos corpo e alma. Quando tudo à nossa volta nos diz que a nossa dimensão física de nada vale, sobretudo se não for fisicamente perfeita, isso desvaloriza a nossa humanidade.

Exposições como o Real Bodies não são o principal problema, são sintomas do principal problema e se alguns sintomas temos de aguentar, há outros que só contraímos se quisermos.

Eu preferia morrer do que ver um filho meu plastificado, montado e exposto para diversão das multidões. Cada uma das pessoas na exposição Real Bodies é filho de alguém, tão digno como eu e como os meus filhos. Não tomarei parte no festival da sua degradação. 

Filipe d'Avillez

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