terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Exposição Real Bodies? Nem morto, quanto mais vivo

Isto sim, corpos verdadeiros, em toda a sua beleza
Recentemente uma amiga perguntou-me se podia levar o meu filho mais velho, que está aprender agora sobre os diferentes sistemas do corpo humano, à exposição Real Bodies, na Cordoaria Nacional.

Agradeci, disse que sabia que tinha a melhor das intenções, mas que não queria que o meu filho fosse a essa exposição e que eu não seria visto lá morto, quanto mais vivo.

Não tenho nada contra o corpo humano, pelo contrário, a minha objecção vem de ter muito a favor do corpo humano e de sentir que a exposição não o trata com a dignidade que merece e que tem, mesmo depois de morto.

O grande problema desta exposição é precisamente aquilo que ela apresenta como sendo o seu principal trunfo: Os corpos são verdadeiros. E no meu entender o corpo é algo que não deve ser objecto de exposição cultural, precisamente porque o corpo não deve ser objecto de comércio.

Porque é disso que se trata. Quem vai à cordoaria paga um valor para obter algum tipo de satisfação a partir da exploração de um corpo que não é o seu. Podem chamar-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe prostituição cultural.

O problema da prostituição não é apenas a procura do prazer sexual de uma forma desregrada, se fosse estaria ao mesmo nível que a masturbação. O problema da prostituição é a redução de uma pessoa, de uma filha ou de um filho muito amado por Deus, a um objecto. É a diminuição de um ser humano a algo transaccionável. É isso que o “Real Bodies” faz.

A nossa dignidade é inerente à nossa condição humana e não termina com a nossa morte. Não nos é lícito pintar bigodes nos cadáveres dos nossos amigos nem embalsamar os seus membros para colocar por cima da lareira. O Cristianismo herdou do Judaísmo, e tem sublinhado sempre, que os restos mortais não são apenas lixo, ou a casca que deixamos para trás quando a alma vai para o Céu. Todos os domingos os cristãos afirmam a sua crença na Ressurreição dos Corpos no fim dos tempos porque este corpo que possuímos, que nos limita mas que é fonte inesgotável de alegria e do prazer que vem de vivermos em comunidade, da mais alargada à mais íntima, é igual àquela em que Cristo achou por bem encarnar.

Respondem-me os cépticos que as pessoas que estão no Real Bodies doaram os seus corpos para o efeito. E depois? Muitas prostitutas são escravas do tráfego humano, mas outras estão lá porque querem. Isso não torna a prostituição menos degradante e condenável. Pelo contrário, o facto de haver pessoas que sentem que a única forma de dar algum sentido à sua morte é serem plastificados, ou seja lá como se chama a técnica, e expostos para serem observados por turistas e curiosos para o resto da vida, é verdadeiramente triste e preocupante.

E o aspecto científico? Concordo que é perfeitamente lícito o estudo de cadáveres para fins científicos, seja de pesquisa, seja de aprendizagem. Mas não brinquem comigo, não é isso que se passa na cordoaria. De resto acho que é natural que mesmo um cadáver que seja doado para estudo científico seja depois dignamente sepultado.

Cada vez mais me convenço que um dos grandes problemas do mundo é a dessacralização do corpo humano, com uma sociedade que nos diz que o que interessa não é o corpo que temos, mas o que gostaríamos de ter; que os corpos dos nossos filhos são, nem que seja só até às 10 semanas, nada mais que “aglomerados de células”; cada vez mais ouvimos pessoas a dizer que querem ser cremadas para que os seus restos mortais não fiquem “a ocupar espaço”; a prostituição é legalizada, como se o problema naquela prática fosse apenas a falta de higiene; as nossas ideias de homem e de mulher são agora baseados em modelos totalmente artificiais promovidos pela comunicação social e a pornografia se tornou omnipresente.

Não somos almas numa carapaça descartável. Somos corpo e alma. Quando tudo à nossa volta nos diz que a nossa dimensão física de nada vale, sobretudo se não for fisicamente perfeita, isso desvaloriza a nossa humanidade.

Exposições como o Real Bodies não são o principal problema, são sintomas do principal problema e se alguns sintomas temos de aguentar, há outros que só contraímos se quisermos.

Eu preferia morrer do que ver um filho meu plastificado, montado e exposto para diversão das multidões. Cada uma das pessoas na exposição Real Bodies é filho de alguém, tão digno como eu e como os meus filhos. Não tomarei parte no festival da sua degradação. 

Filipe d'Avillez

2 comentários:

  1. Filipe,
    Tencionava ir à exposição com os meus netos. Apesar do título da mesma, não percebi, porventura pelas mesmas razões que o levaram a escrever este artigo,que se trata de corpos verdadeiros. Ainda estou com dificuldade em acreditar que uma tal exposição esteja a ter lugar. Venho dar-lhe os parabéns pela força e clarividência das suas palavras. Com todo o respeito e interesse que tenho pela Actualidade Religiosa, que sigo diariamente, acho que este seu texto deveria ser divulgado também noutros media. Um beijo, Ana Ulrich

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  2. Muito bem!
    Abraço
    Rodrigo

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