quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre “Conhecimento Divino”

James V. Schall S.J.
Numa questão dirigida a Talássio (um ermita sírio), Máximo o Confessor (morto no ano 662) afirma: “Ele (Cristo) designou a Santa Igreja como candelabro, através do qual a palavra de Deus deita luz pela pregação e ilumina com os raios da verdade quem estiver na casa que é o mundo, e enche as mentes de todos os homens com conhecimento divino.” Lendo estas antigas palavras, perguntamos: Que é este “divino conhecimento” de que Máximo fala?

A lógica indica que o conhecimento “divino” não é o mesmo que o conhecimento “humano”, caso contrário não poderíamos compreender a diferença. O “conhecimento divino” diz respeito unicamente a Deus. Se alguém diz que o possui está a dizer que é Deus, algo que não é inédito entre a nossa espécie. Não segue, porém, que os seres humanos não tenham qualquer conhecimento. Claramente temos. O nosso desafio intelectual é relacionar o conhecimento “humano” ao “conhecimento divino”.

Tudo bem, mas como é que sabemos o que quer que seja sobre “conhecimento divino”? O facto é que não sabemos, a não ser que Deus nos informe sobre ele. Será que o fez? A Revelação não é mais que isso mesmo.

Onde é que isso nos deixa? Como é que sabemos que coisas nos são reveladas? Não podemos responder a essa questão enquanto não percebermos o que podemos conhecer por nós. Por outras palavras, a nossa atenção ao “conhecimento divino” depende do nosso conhecimento “humano”.

O que é que estou a dizer com tudo isto? Não conseguimos já compreender através da razão algumas coisas que em tempos eram considerados mistérios inefáveis? Sim. Contudo, muitos assuntos fundamentais continuam a confundir-nos. E então, qual é o mal de estar confundido?

A bem dizer, nada, só que não nos contentamos com a nossa incapacidade de compreender tudo. O nosso mundo está cheio de mitos e teorias que pretendem explicar tudo o que não conseguimos compreender por nós. À primeira vista esta incapacidade parece um sinal de caos. À segunda vista, contudo, significa uma verdadeira inquietação nas nossas almas. Sabemos que é suposto sabermos as razões últimas das coisas.

O próximo passo é delicado. Haverá alguma coisa que pretende ser conhecimento “divino” e não apenas “humano”?. Aristóteles disse que nos devíamos esforçar por saber tudo o que pudermos sobre coisas “divinas”. A diferença entre os deuses e os homens é que os deuses são sábios, mas os homens não passam de amantes e buscadores da sabedoria dos deuses. Aristóteles sugeriu ainda que, se os deuses sabiam o que é a felicidade, essa devia ser a primeira coisa que nos diriam.

Este tipo de observação deixa-nos a pensar. Será possível que os deuses tenham feito o que Aristóteles sugeriu? Bom, sim, é bem possível. Como é que poderíamos saber se o fizeram? Provavelmente, concluímos, porque as suas respostas ou instruções se dirigiram precisamente à nossa ignorância mais profunda sobre a nossa razão de ser neste mundo.

São Máximo, o confessor
Como é que formulamos esta questão? Em Mateus (19,16), um jovem pergunta: “Que devo fazer para obter a salvação?” Não é esta a pergunta que todos fazem? Talvez não nestes precisos termos, mas mesmo que digamos “a minha vida não tem significado”, estamos implicitamente a responder à questão do jovem.

O que é que este “bem”, este “ser salvo”, tem a ver com o “conhecimento divino”? Se não sabemos porque é que existimos, não segue que mais ninguém o saiba. Pode bem ser que a nossa falta de conhecimento seja precisamente o que nos abre à aceitação do conhecimento sobre nós mesmos. Compreendemos que este conhecimento sobre nós é justamente “divino”. É algo que aceitamos como verdade que vem de fora, não é algo que compreendamos por nós. Mas não deixa de explicar.

Onde é que isto nos deixa? Máximo prossegue: “Através da virtude e do conhecimento, Cristo conduz ao Pai todos os que estiverem resolvidos a caminhar com Ele, que é o caminho da rectidão, em obediência aos mandamentos divinos”.

Mas isto não implica que aqueles que não são obedientes aos “mandamentos divinos” e que não são virtuosos, rejeitando o conhecimento, estão em grandes sarilhos? É isso mesmo que implica.

Se o “divino conhecimento” sobre nós mesmos nos for oferecido, podemos recusá-lo? Claramente que sim. Então é possível que o mundo contenha tanto aqueles que ouviram falar sobre o “conhecimento divino” e aqueles que tendo ouvir falar dele, rejeitaram-no.

Se for este o caso, é provável que estas duas “cidades”, aqueles que aceitaram e os que rejeitaram, possam viver juntos em paz? Não é provável. Porquê?

O “conhecimento divino” é um conhecimento sobre aquilo que somos, e não apenas um sentimento. Máximo fala de “raios de verdade” na “casa que é o mundo”. Através da “virtude e do conhecimento”, ao caminhar em “obediência aos mandamentos divinos” – a rejeição dos mesmos deixa-nos em guerra uns com os outros. Nenhuma reflexão explica melhor o estado do mundo em que vivemos.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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