James Matthew Wilson |
Há meio século havia muitos católicos entre as fileiras dos
autores mais respeitados da América, a maioria dos quais viam uma grande e
fecunda interligação entre a sua vocação literária e a sua vocação batismal.
Basta pensar em Thomas Merton e em Flannery O’Conner para se ter uma ideia
disso mesmo.
Como os leitores bem sabem, o debate público hoje em dia é
marcado por um espírito de fúria acéfala e acusação imediata e isso ficou
patente na reação crítica ao ensaio de Gioia. Foram publicadas muitas respostas
e a maioria foram de indignação. Se Gioia não via uma abundância de arte e
literatura católica, então não estava a procurar com suficiente atenção. Ela
existe, às pazadas, à espera de leitores.
Por mais bem-intencionadas que fossem essas respostas, não
perceberam o ponto. É evidente que o artigo “O Autor Católico Hoje” foi escrito
com o objetivo de levar tanto os autores com os leitores católicos a tomarem
nota uns dos outros “Hoje” como já aconteceu no passado. Normalmente os autores
preocupam-se, e bem, em produzirem boas obras; os leitores em ler o que lhes
parece ser de qualidade.
O que não é um mau princípio, mas para edificar, renovar
ou mudar uma cultura, essas duas atividades devem ser levadas a cabo com uma
certa consciencialização ou intenção. E, a maioria das pessoas simplesmente não
refletem sobre esse tipo de coisas se não tiverem sido provocadas por um bom
lamento. Têm mais com que se preocupar.
Mas o artigo de Gioia pô-las a preocupar-se. Os autores
puseram as mãos no ar, irritados por não estarem a ser reconhecidos e muitos
leitores exprimiram, talvez pela primeira vez, desgosto por não haver ninguém
da qualidade de T.S. Eliot a escrever nos nossos dias. Claro que o Gioia não
queria apenas exasperar os seus leitores, mas inspirar a criação de
instituições. Ele queria que todas as pessoas interessadas se interrogassem
sobre que tipo de instituições podiam ser criadas para apoiar e cultivar a
renovação da literatura católica.
As respostas não tardaram. Há alguns anos já tinham sido
fundados os jornais literários “Image”
e “Dappled Things” e a pequena editora
Wiseblood Books começou a
publicar romances, poesia e crítica ao estilo de O’Connor. Esta foi uma
oportunidade para alertarem o mundo para o seu trabalho. O próprio Gioia
organizou uma conferência de três dias no Institute for Advanced Catholic
Studies, da University of Southern California, sobre o Futuro
da Imaginação Literária Católica. Compareceram centenas de pessoas,
incluindo alunos dos liceus católicos da zona.
E nos meses seguintes aqueles que se tinham reunido na
conferência voltaram para casa e tentaram fazer algo novo. A professora de
Inglês Mary Ann Miller fundou a revista Presence, focada na poesia
católica. Outros, de Fordham e da Layola de Chicago, concordaram em tornar a
conferência um evento bienal. Realizou-se em Fordham, em Abril de 2017 e em
Chicago, em Setembro de 2019. Outros ainda criaram séries de leitura e de
conferências nas suas universidades ou casas, para juntar autores e
leitores.
O sonho do Poeta, de Cézanne |
Faço a revisão desta breve história hoje, enquanto
considero a pequena parte que nela desempenho e que ainda agora está a começar.
Há cerca de um ano a Franciscan University Press, de
Steubenville, no Ohio, pediu-me para lançar uma série de poesia. Propus a
criação da Colosseum Books, que tem a seguinte missão:
No mundo antigo, os
progressos civilizacionais de Roma foram transformados e levedados pelo
espírito do Cristianismo. O Coliseu era um símbolo do esforço e do sofrimento
envolvido neste renascimento, mas também de vitória final e de união, na medida
em que o Cristianismo emergiu para tomar posse dos tesouros de Atenas e de
Jerusalém, com a capital espiritual em Roma. Na era moderna, o autor inglês
Christopher Dawson editou a revista Colosseum, um fórum para estimular a
relação entre o mundo intelectual católico e a cultura e a arte contemporâneas.
Nas suas páginas grandes mentes como as de Dawson, Jacques Maritain e E.I.
Watkin estudaram e discutiram as proezas literárias de T.S. Eliot, Sigrid
Undset e outros autores do renascimento literário católico e não só.
Animados pelo mesmo
espírito de luta e renascimento, transformação e síntese, propomo-nos a
publicar obras novas importantes, escritas por poetas contemporâneos que
mereçam a atenção de leitores sérios. Os volumes serão simultaneamente obras de
humidade e de ambição, de engenho e de espírito, criados por autores atentos às
responsabilidades laborais do artista e da compreensão clássica das belas artes
enquanto ocasião de epifania e beleza. Recordar-nos-ão do verdadeiro alcance do
intelecto, o grande drama da vida humana, a disciplina e dedicação do trabalho
sério e o grande destino do Homem.
Agora, que nos aproximamos da publicação dos dois primeiros
Livros Colosseaum, esta Primavera, pediram-me ainda que criasse um programa
para aspirantes a autores. Daí que o primeiro Instituto
de Verão Colosseum terá lugar em Julho, juntando quinze jovens poetas no
Campus da Franciscan University ao longo de quatro dias de discussão sobre a
filosofia da arte e da beleza, a história da forma poética e um atelier para
aperfeiçoarem o seu próprio estilo. Planeamos trazer autores de renome para
lerem as suas próprias obras e partilhar a sua sabedoria enquanto tentamos, de
alguma forma, edificar a cultura literária católica, que está a precisar de
renovação.
Não é natural que um empreendimento deste estilo gere
grande indignação ou revolta. Mas, um dia, dentro de alguns anos, alguém há de
se queixar: “Porque é que já não há grandes autores católicos?”. E algum leitor
casual poderá responder: “Bom, grandes, não sei, mas digo-te já uma dúzia que
são bons”. Isso já seria um bom começo.
James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo,
entre os mais recentes, “The Hanging God
(Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the
Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no
departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de
Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville
Press, na Franciscan University. Veja
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(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de março de 2019)
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A leitura do texto parece permitir concluir que T.S. Eliot era católico. Ainda que próximo do Catolicismo, Eliot era anglicano.
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