quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O Síndrome Chinês

Nota prévia: Nos últimos dias tem-se falado muito sobre as relações entre o Vaticano e a China, desde que saíram notícias que indicam que a Santa Sé terá pedido a dois bispos leais a Roma - da chamada Igreja Clandestina - para darem lugar a dois bispos da associação patriótica - submissos ao Governo. Vejo muita gente alarmada por o que consideram ser uma cedência política de Roma a Pequim. Este artigo, que hoje traduzo e publico aqui, é um exemplo desses.

Eu acho que a realidade é bem mais complexa. A China é um país vasto, as relações entre a Igreja e o Governo não são uniformes e, acima de tudo, opto por dar o benefício da dúvida aos que negoceiam com Pequim em nome do Papa. Espero não estar enganado. Publico o artigo do Robert Royal porque contribui para um debate mais informado sobre a situação na China, apesar de não partilhar inteiramente do seu cepticismo. Aconselho, a par da leitura deste artigo, a entrevista concedida esta quarta-feira pelo cardeal Parolin, sobre o mesmo assunto.

Ao longo de décadas a viver em Washington D.C., já conheci a minha dose de bandidos e aldrabões, fabulistas ou mentirosos claros. Seria preciso um Dante moderno para determinar em que círculo do inferno cada um destes comportamentos merecia. Mas de uma coisa estou certo: pelo menos na minha experiência, nunca encontrei mentirosos mais descarados e manipulativos que os comunistas chineses responsáveis pelas relações com os crentes.

É isso que torna tão preocupante o surgimento de notícias, divulgadas a semana passada, de que o Vaticano tinha pedido a dois bispos clandestinos, fiéis a Roma, para resignar por forma a que dois bispos da Igreja Patriótica, submissa ao regime comunista, pudessem ocupar os seus lugares. Essa notícia levou o anterior cardeal de Hong Kong, o corajoso Joseph Zen, a ir a Roma e colocar-se à porta da Casa Santa Marta e pedir para ser admitido ao Papa Francisco para lhe entregar uma carta dos crentes da Igreja clandestina – que estão dispostos a resistir apesar do alto preço – ao Papa Francisco. Fontes de confiança dizem que o Papa recebeu a carta e prometeu que a iria ler. Entretanto o Cardeal Zen publicou o seu relato desses eventos, confirmando na essência a história e acrescentando que é pessimista quanto ao caminho que o Vaticano está a trilhar. Acrescenta que o governo está a apertar o cerco às instituições religiosas e que, a partir do dia 1 de Fevereiro, “não mais será tolerada a frequência da missa nas igrejas clandestinas”.

O Cardeal Zen tem alertado várias vezes para o facto de os acordos com os comunistas serem pouco fiáveis. (Há cerca de dois anos que corre o boato de um acordo iminente entre a China e o Vaticano, sem que fosse divulgado algo de concreto). A Asia News, uma publicação do Vaticano, reagiu às notícias da semana passada com um aviso sobre a substituição de bispos “legítimos” por “ilegítimos”. Os ChiComs (como nós os chamávamos durante a Guerra Fria) são espertos e astutos. Sabem como manipular os valores ocidentais, neste caso a “unificação” das igrejas, isto é, a inclinação religiosa de se pensar que é possível resolver todos os problemas através do diálogo, da construção de pontes e de arranjos diplomáticos.

Entretanto a China continua a demolir cruzes nalgumas igrejas, a fechar outras e a dinamitar outras ainda. O “New York Times” noticiou há duas semanas que a China tinha destruído a Igreja do Candelabro Dourado, que com 60 mil fiéis é a maior comunidade evangélica no país. A razão invocada foi que o edifício grande e vistoso tinha sido construído em “segredo”, sem as necessárias autorizações, etc. Estas são desculpas habitualmente usadas por regimes tirânicos em todo o mundo quando atacam a religião. Já ouvi altos dirigentes chineses a atribuir estes actos a “excessos e erros” das autoridades locais, mas estes repetem-se com uma regularidade suspeita que ninguém parece determinado a travar.

Os comunistas chineses estudaram a queda da União Soviética em 1989 e a libertação dos países da Cortina de Ferro graças a São João Paulo II, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e muitos outros, no ocidente, que mantiveram Moscovo sob pressão. Eles compreendem o poder da religião e claramente acreditam que podem evitar que o Cristianismo desempenhe o papel na China que desempenhou na Polónia e noutros locais. As ferramentas são familiares: cooptar quando possível, perseguir e destruir, também quando possível, e controlar a informação para dar a entender que se está simplesmente a exigir o cumprimento da lei e da ordem dentro das fronteiras.

Missa católica na China
Do ponto de vista do regime, isso é muito necessário. A maioria dos chineses tem uma vaga ligação às antigas religiões tradicionais. Talvez 15% sejam budistas, e por regra são tranquilos, excepto no Tibete, onde a resistência a Pequim se mantém viva. Depois há cristãos, muitos cristãos, embora não sejam uma grande percentagem, ainda. É difícil encontrar números fiáveis, mas pelo menos 60 milhões é uma estimativa razoável. É seguro dizer que há mais cristãos nas igrejas ao domingo de manhã na China do que em toda a Europa. E isso apesar das graves consequências para quem for apanhado a frequentar igrejas “não aprovadas”.

Cerca de dois terços desses serão protestantes, mas, como é evidente, a Igreja Católica tem uma estrutura institucional mais sólida. Os chineses estão habituados a pensar a longo prazo. Dado o crescimento do Cristianismo, o regime vai passar por dificuldades se de repente houver dezenas de milhões de cristãos que acreditam que todos os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, dotados de dignidade e liberdade humana.

Uma das questões de política externa mais importantes sobre a China é saber exactamente o quão comunista é e, por isso, se ainda possui o velho ADN marxista que a incentiva a extinguir o “ópio do povo”, isto é, a religião. A economia é dirigida, mas não foi destruída de acordo com os princípios marxistas, como foram as da antiga União Soviética e da Europa de Leste. Claro que também não é exactamente capitalista, mas há casos sérios de inovação e de empreendorismo. Ainda assim, a mão pesada do Estado é muito evidente, sobretudo nas medidas de controlo populacional que até os chineses compreendem que vai trazer décadas – pelo menos – de problemas, à medida que a população envelhece. Mas será um sistema ateu puro e duro?

Eu escrevi sobre a história da perseguição aos crentes na China no meu livro “Os Mártires Católicos do Século XX”. Nessa altura o Falun Gong tinha cerca de 10 milhões de seguidores, brutalmente perseguidos pelos chineses porque esse movimento de espiritualidade tradicional era considerado uma “ameaça à estabilidade social”. Porém dizia-se então, como agora, que havia um número significativo de cristãos no Partido Comunista Chinês.

Seja qual for a composição ideológica da China, a independência da Igreja é algo pela qual muitos cristãos lutaram e morreram ao longo de séculos nos países cristãos da Europa. A independência dos regimes políticos é fundamental, para que a Igreja seja livre de desempenhar a sua missão espiritual, não apenas de evangelização, mas também denunciando e trabalhando para remediar a injustiça e a desordem na sociedade, seja qual for o regime sob o qual opera.

O Vaticano parece estar a tropeçar nas suas relações com um regime que podemos ter a certeza não vai respeitar a liberdade da Igreja, uma vez que não respeita a liberdade e a dignidade do seu próprio povo. Os negociadores do Vaticano farão bem em recordar as lições da era comunista na Europa, sobretudo o aviso de Solzhenitsyn, de que devemos compreender verdadeiramente a natureza dos regimes comunistas e não ceder perante a ilusão de que a divisão entre nós e eles “pode ser abolida através de negociações diplomáticas bem-sucedidas”. Porque essa divisão não é política, mas profundamente espiritual.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2018)

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