quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Modéstia e Caridade

Anthony Esolen
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.

E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial. Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por atentado ao pudor.

Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando fui abrir a porta.

Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas informações, não era nada de privado.

Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”, enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.

Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O contexto é muito importante.

Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente enquanto não estava a pintar.

Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.

Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente nada em Peoria.

Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.

"Um par de chanatas e um sorriso"
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os “teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.

Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto. Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só. Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.

Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável, mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.

Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.

Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais abaixo”, ou então “vai-te lixar”.

Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses pensamentos.

E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a violência.

Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade, a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à linguagem e ao comportamento físico.

Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

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2 comentários:

  1. O seu artigo estava médio-bem até esta infeliz conclusão, «que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola». Isto é o que os americanos chamam, e com razão, rapist culture. Uma mulher veste um vestido de plástico descartável porque se sente bem com ele e sim, provavelmente quer que os membros da sociedade a achem bonita. Os sociólogos chamam a isto teoria do reconhecimento. No entanto, «achar bonita» não é o mesmo que objetificar sexualmente. O senhor quando toma banho e se veste bem para ir jantar fora com a sua mulher, quer que ela o ache bonito, mas não quer que ela o use na cama devido à indumentária que escolheu - para isso existe a Teologia do Corpo, para que os esposos ultrapassam a objetificação sexual um do outro, e não se usem um ao outro. O senhor certamente passa pelos mesmos cartazes da Tezenis que eu todos os dias. Eu adoro-os. Se a si o põem em euforia, desiluda-se: a Rita Ora não tem qualquer intenção consigo, não quer provocar-lhe pensamentos pecaminosos, ela apenas quer que eu, Carminho, vá comprar aquela lingerie à Tezenis.

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  2. Olá Carminho, obrigado pelo comentário!

    Antes de mais, só uma clarificação. O artigo não é meu, é do Anthony Esolen. A minha responsabilidade está na selecção do mesmo para publicação e na tradução. Nem sempre estou 100% de acordo com os artigos do The Catholic Thing que publico, às vezes apenas o faço para promover o debate ou opiniões diferentes. Neste caso, contudo, estou em grande medida de acordo com o que ele escreve, por isso aceito o repto de responder ao seu comentário.

    Dito isso, gostaria de começar por aquilo que certamente temos em comum. Qualquer pessoa, homem ou mulher, tem uma dignidade indelével. Ninguém é um objecto, seja sexual seja de outra natureza. Isso aplica-se a si, a mim, à Rita Ora, à irmã Lúcia e à prostituta.

    Agora, como diz Esolen, vivemos em sociedade e as coisas que fazemos, que dizemos ou que vestimos, comunica algo sobre nós. Quando os deputados do Bloco de Esquerda – e agora os putos do PCP também – vão para o Parlamento em calças de ganga e t-shirt, não o fazem só porque assim se sentem confortáveis. Eu também prefiro vestir-me assim do que com fato e gravata, mas sei que a roupa que visto transmite mais do que o meu conforto ou falta dele. O que o tipo do BE está a dizer é que se está a borrifar para as convenções sociais, que elas nada valem, que as quer derrubar definitivamente e construir algo novo.

    Claro que há aqui subjectividade. A roupa de uma mulher pode provocar em mim pensamentos impuros não porque é imodesta, mas porque eu sou um depravado. Não estou a sugerir as pessoas andarem de burqa só porque há homens que não se conseguem controlar. Mas qualquer mulher deve ter a noção de que os homens não pensam como elas pensam e que a roupa que usam vai provocar efeitos sobre quem as vê. O exemplo que dás é de uma mulher que se veste para ficar bonita. Mas vestir-se para estar bonita é diferente do que vestir-se para parecer boazona. Nenhum de nós é suficientemente ingénuo para pensar que não há quem se vista com essa intenção.

    Os cartazes da Tezenis são um bom exemplo. Aí discordo completamente de ti. Eu sei que a Rita Ora não tem qualquer intenção comigo, mas não tenho a menor dúvida que o departamento de marketing da Tezenis sabe que os seus cartazes põem a maioria dos homens em euforia e que é precisamente essa a intenção, até porque não são poucos os homens que compram lingerie para oferecer às suas mulheres ou namoradas. Haverá também algumas mulheres que, vendo que a Rita Ora, naquelas poses e com aquela roupa, coloca os homens em euforia, pensarão que querem provocar o mesmo efeito.

    Como disse no post do Facebook, a maioria dos discursos ou textos sobre vestuário modesto fazem-me querer arrancar cabelos. Não sou contra os bikinis nem tenho tempo para quem diz que as mulheres não deviam usar calças. Mas penso que as mulheres deviam ter noção, porque acredito que muitas não têm, que se entrarem numa sala cheia de homens com um decote excessivamente generoso, serão recordadas não como a miúda gira, ou a mulher interessante, ou aquela pessoa das calças encarnadas, mas sim como um decote ambulante com uma mulher à volta.

    Querem fazê-lo à mesma? Estão no seu direito e não vou ser eu com certeza a fazer o sermão moralista. Mas isso não muda a realidade do que a maioria dos homens vai pensar ou sentir.

    Mais uma vez, obrigado pelo comentário!
    Filipe

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