sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Podem também ler as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal. Aqui podem ler a transcrição da entrevista a Brad Miner e a do padre José Maria Brito.

5 comentários:

  1. Vi e.. ainda a digerir...
    Também não o entendi como justificação da apostasia, pelo contrário, como os pormenores/situações que já foram tão bem apontadas no texto. A serenidade, convicção e um ligeiro esboço de sorriso (após o grupo de cristãos que saíram da cela terem recusado pisar a imagem), contrastam fortemente com a falta de paz de espírito e do semblante carregado dos padres que renunciaram.
    Ao longo de todo o filme surgiu-me a passagem "Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por Minha causa e pelo Evangelho salva-la-á!"

    ResponderEliminar
  2. http://agridoceedoce.blogspot.pt/2017/01/lets-go-movies-os-livros-e-os-filmes.html?m=1

    Tomo a liberdade de partilhar este post que escrevi hoje no meu blogue.

    Obrigada,

    PAULA FERRINHO

    ResponderEliminar
  3. Diz-se que durante o filme se ouve o galo cantar três vezes ... Não dei por nada. Alguém reparou?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ouve-se, sim. Eu já ia preparado e estava atento, mas da maneira que o filme que está feito pode passar despercebido. Foi uma decisão interessante do Scorsese, não quis tornar o cantar do galo demasiado óbvio para o espectador.

      Eliminar
  4. Gostei de tudo, fotografia, realizaçõa, actores todos os minutos são preciosos e têm um significado, apesar da história sombria e totalmente triste; acho que a fé dos que acreditam em Deus só pode sair reforçada depois desta visualização, fiquei certa de que seria a primeira a apostatar porque não aguentava nem um dia daquela tortura e não fiquei certa de que Deus queira mesmo o nosso martírio físico em vez encontrarmos outras formas de levar a Sua palavra pelo mundo; também que renegar a fé naquelas cicusntâncias não significa renegar a Fé muito pelo contrário e que o consolo daquela gente, mesmo que inocente e inculta, eram mesmos os Padres e daí que foi melhor que eles não se tivessem entregue logo ao princípio pois seria negar-lhes o únio consolo daquela vida miserável. Ontem achei que o Ferreira era um miserável e um corrupto não por ter apostatado, porque só posso compreender que ele o tenha feito mas porque me pareceu um “vendido” mas quando cheguei a casa já estava a pensar que não era nada assim, que ele estava totalmente controlado e manipulado por aqueles “budistas” horrendos ( iguais aos “católicos” horrendos que por Évora, castelo de Vide, Toldedo, etc etc faziam exactamente a mesma coisa aos judeus que recusavam adoptar outra fé, outros nomes, outros hábitos) e que a vida dele era cheia de um vazio e de uma tristeza que ele traduzia por “paz” para enganar os outros ou talvez a si próprio.
    O que mais me preocupou foram os Holandeses. Os Holandeses estão a borrifar-se para a Fé e para Deus são mesmo assim, não é por mal é o ADN deles, na verdade esses parece que viviam em paz, faziam o comércio que lhes dava o rendimento que lhes permitia elevar o nível de vida e não guerreavam por causas ou por religião. Será que é a forma certa de estar neste mundo? No artigo que anexo para lerem se quiserem o Padre jesuíta que o escreve demonstra que, na dificuldade de encontrar fontes credíveis para contar a história do Ferreira depois de ter apostatado ( para os japoneses era um troféu, para os portuguese era uma vergonha e , para os jesuítas um fim insuportável) as fontes mais credíveis eram realmente os relatos dos Holandeses, que tinham uma posição distanciada mas que presenciaram e contaram, também com verdadeiro horror, os suplícios a que eram submetidos os padres e os cristãos jesuítas.

    ResponderEliminar

Partilhar