segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Santa Sé v. Ordem de Malta: “Estou certo que terá um desenlace positivo”

Transcrição integral da entrevista que fiz a D. Augusto de Albuquerque de Athayde, Conde de Albuquerque e presidente da Assembleia Portuguesa da Ordem Soberana e Militar de Malta. A reportagem pode ser lida aqui.


A actual polémica entre a Santa Sé e a Ordem de Malta tem afectado a Ordem em Portugal?
Em nada.

Em Portugal estamos com a situação perfeitamente arrumada. Temos a consciência que somos membros de uma ordem católica de cavalaria com 900 anos de história e que está em Portugal desde a fundação do Estado, e que é aliás um dos pais fundadores da nacionalidade portuguesa. Os cavaleiros de São João, antes de serem de Malta, já estavam em Leça do Balio no tempo da Condessa D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.

E portanto há uma solidez e uma serenidade espiritual, sociológica e histórica e também uma consciência da prática dos dois deveres principais de qualquer membro da Ordem de Malta no mundo, que é a defesa da fé cristã e por outro lado o apoio aos mais desfavorecidos, os que chamamos Nosso Senhor dos Pobres e os desvalidos e que precisam de um apoio na óptica de prática do amor cristão e ao próximo.

Esta situação dá-se ao nível das altas esferas, e não da assembleia portuguesa, que é uma associação que em nada é tocada nem envolvida nesta situação. Portanto, como os ingleses diriam, é “business as usual”.

Se se der o caso de algum membro da ordem em Portugal ser contactado pela comissão de inquérito do Vaticano, estão dispostos a colaborar?
Há aqui uma distinção que gostaria de frisar. Por um lado, a assembleia portuguesa está totalmente com fidelidade, obediência e apoio incondicional ao príncipe e grão-mestre Fra Matthew Festing e ao seu Governo, neste caso em particular ao grande-chanceler, que é o Fra John Critien. Isto é um ponto base, a assembleia portuguesa unida, nos seus cerca de 280 membros, está com total sintonia e alinhamento com o Príncipe e grão-mestre e seu grande-chanceler interino.

Dito isto, o que a comissão nomeada pelo Vaticano propõe, que também respeitamos, é que quem quer que vá, eventualmente, dar alguma achega ou fazer algum tipo de esclarecimento a nível individual e a título particular à comissão é livre de o fazer, mas não é obrigado a isso. É livre de o fazer, a título particular, nunca a título institucional, representativo de uma associação ou de um subpriorado ou de um grão-priorado, que são as estruturas administrativas em que a associação se divide no mundo inteiro.

Se alguém o quiser fazer, pois muito bem, será da responsabilidade de cada qual e a associação portuguesa está à margem, ou acima, disso.

Agora, a comissão, nomeada pelo Vaticano e pelo Santo Padre, se bem percebi não está em posição de obrigar ninguém a ir fazer depoimentos, apenas sugere que quem quiser o faça. Mais, também posso dizer que tudo isto é uma situação que não envolve de qualquer forma ou maneira a associação portuguesa, porque ela não tem a ver com o essencial da questão, que se passou há vários anos, na estrutura do Malteser International, um braço assistencial da ordem internacional, na dependência do grande hospitalário, quer era então o agora cessante grande chanceler, Albrecht von Boeselager, no Myanmar, portanto não temos nada a ver com isso. É uma questão que nos transcende completamente a nível administrativo e de gestão da representação da ordem em Portugal.

Conhecia pessoalmente von Boeselager?
Sim! Muito bem. Era o grande-chanceler e antes foi grande hospitalário. Estou como presidente aqui há 11 anos, já fui vice três anos antes, vou a Roma quase de três em três meses, e a reuniões. Portanto conheço-o há muitos anos e sempre tive uma relação normal, institucional com ele. Aliás, houve três visitas do Príncipe e grão-mestre a Portugal nos últimos seis anos e meio, uma delas de Estado, a convite do Presidente da República, e eu integrei a comitiva com ele, portanto conheço-o mais ou menos bem.

Tem algum comentário a fazer ao processo que levou à sua demissão?
Não. Não tenho comentário nenhum a fazer. Absolutamente nenhum. É um pelouro que não tem a ver com as funções que cabem nem no âmbito das actividades da associação portuguesa, nem no âmbito do presidente da associação portuguesa, não tenho nenhum comentário a fazer.

São decisões tomadas internamente nas altas esferas do Estado da Ordem Soberana e Militar de Malta, pelo seu governante máximo que é o seu Príncipe e grão-mestre, no qual reside a soberania da ordem, portanto não tenho comentários de qualquer tipo ou natureza a fazer.

Cardeal Raymond Burke
Esta disputa pode ter a ver com o braço-de-ferro entre os cardeais que endereçaram uma carta ao Papa com dúvidas sobre o Amoris Laetitia, em que se inclui o Cardeal Burke, e o Papa? Ou seja, entre conservadores e uma ala mais reformista?
Acho, francamente, que não tem a ver. Esta questão é do foro interno da Ordem de Malta, acho que o facto de o Cardeal Patrono, Sr. Cardeal Burke, ser um Cardeal conservador em relação a outras linhas que existem no Vaticano é um assunto diferente.

Acho que a ordem não está a ser instrumentalizada numa luta entre cardeais de tendências diferentes. Pelo contrário, a Ordem de Malta está – e insisto neste ponto – plenamente, de corpo, alma e coração com o Príncipe e grão-mestre o seu actual Governo, o grão-chanceler interino, numa óptica de defender a soberania da instituição em matéria de jurisdição interna, e portanto tudo o que se terá passado será matéria de pura e simples jurisdição e tomada de decisão interna.

Aliás, a comissão, pelo que percebi, foi nomeada para esclarecimento de factos para conduzir a uma espécie de paz e concórdia. Não tem a ver com uma contestação à soberania da instituição nem a uma instrumentalização da mesma. É apenas uma comissão - aliás chefiada por um antigo núncio e diplomata do Vaticano - que procura a paz e a concórdia, mas não há qualquer antagonismo ou desrespeito espiritual ou de natureza hierárquica entre a Santa Sé e a Ordem, ou vice-versa, há uma questão administrativa, política também, talvez, do foro interno da Ordem, mas que se resolverá e bem na estrutura e no seio da ordem com superior iluminação e direcção do Príncipe e grão-mestre.

Reconhece legitimidade então à comissão de inquérito?
Reconheço legitimidade para emitir uma opinião.

Mas não reconheço legitimidade para dar instruções internas ao Príncipe e grão-mestre.

Acredita que tudo isto pode ter um desenlace positivo?
Estou certo que terá um desenlace positivo, porque acho que o mais importante é que, no mundo como ele está, e sendo a Ordem de Malta uma entidade com uma finalidade de defesa da fé, dignificação do homem e da Cristandade, e sendo o Vaticano por um lado, nesta natureza dualista da Ordem, e sendo o Vaticano uma entidade de quem espiritualmente a Ordem depende, mas por outro de quem a ordem é independente numa óptica de soberania, estou convencido que já somos tão poucos neste mundo tão conturbado, tão ateu e agnóstico, e tão cheio de alçapões e de materialismos doentios, somos tão poucos a remar contra a maré que espero bem que a concórdia e o bom-senso acabem por prevalecer, a bem do cumprimento das nossas missões enquanto cristãos.

2 comentários:

  1. Tanto você como o Augusto Ataíde são uns patetas snobs que se julgam inteligentes...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anda um tipo a disfarçar anos e anos para ser cruelmente desmascarado assim...

      Eliminar

Partilhar