quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Direito ao Erro

Brad Miner
O novo livro de Robert R. Reilly, “Making Gay Okay: How Rationalizing Homosexual Behavior is Changing Everything”, fala da natureza, compreendida como o telos no sentido do qual todas as coisas criadas procuram a sua perfeição.

Fala também de sodomia, um comportamento claramente antinatural e que, como Reilly comprova meticulosamente, sempre foi visto como tal. Veja-se Sócrates, Platão e Aristóteles – todos gregos, claro, cuja cultura é frequentemente (e erradamente) descrita como homofílica – todos eles criticaram a sodomia como desordenada.

A prova do homossexualismo emergente na América tem estado diante dos nossos olhos há décadas, mas a maioria, tendo visto os sinais, simplesmente partiu do princípio que o objectivo final não seria muito mais do que a tolerância. Quem diria, há vinte anos sequer, que o movimento pelos direitos homossexuais procurava uma autêntica transformação cultural?

Aliás, há apenas dois anos podia-se dizer – com o que hoje parece um optimismo absurdo – que afinal de contas, sempre que os cidadãos tinham sido chamados a decidir sobre a questão do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a iniciativa tinha sido chumbada. Mas depois vieram os tribunais, na sua sabedoria, para corrigir a vontade torta do povo. Como é que chegámos a isto?

A filosofia política ocidental dividiu-se em dois ramos distintos no século XVIII: Um radica em Edmund Burke e William Blackstone e atravessa a fundação dos Estados Unidos, desembocando no conservadorismo moderno; outro, com origem em Jean-Jacques Rousseau e a Revolução Francesa, levou ao liberalismo contemporâneo. Este segundo ramo, o liberal, continua sob a influência da visão antiteleológica de Rousseau e  foi reforçada pelo existencialismo, multiculturalismo e outros entusiasmos de esquerda. O primeiro ramo, o conservador, que manteve a teleologia, tem passado grande parte dos últimos dois séculos a tentar encontrar uma forma, que não o totalitarismo, de subjugar as paixões pagãs soltas pelo segundo.

Porque se o Homem é a última fonte do sentido, se a humanidade não discerne os fins morais inerentes à Natureza, fixados pelo Deus da Natureza, então, como escreve Reilly, encontramo-nos diante de um paradoxo, sobretudo para os que defendem os “direitos homossexuais”, isto porque...

… os proponentes da homossexualidade estão a defender uma causa que apenas pode vingar se obliterar a própria compreensão de Natureza da qual depende a nossa existência enquanto povo livre... A sua reivindicação de direitos subverte os direitos que reivindicam. Porquê? “Se a Natureza for negada, então a justiça reduzir-se-á necessariamente a aquilo que é desejado o que, por sua vez, se transforma na lei do mais forte”.

Dizer que as uniões homossexuais são normais, após milhares de anos a acreditar no contrário, implica “pôr de lado Sócrates, Platão, Aristóteles, o Antigo Testamento e o Novo, Agostinho e Aquino”. Reilly cita exemplos de mudança de normas culturais e de decisões judiciais recentes, através dos quais este “pôr de lado” já começou.

Claro que não é só a sodomia que tem sido libertada por este determinismo anti-teleológico, mas a contracepção e o aborto também, bem como o divórcio, sexo pré-matrimonial e em breve, quiçá, a pedofilia e o bestialismo.

Escrevendo sobre Lawrence v. Texas, a decisão do Supremo Tribunal de 2003 que considerou inconstitucional uma lei que bania o sexo “gay”, Reilly pergunta: “Porque é que levou mais de dois séculos para que o tribunal descobrisse um direito à sodomia?” Responde que foi porque o Tribunal considerou que os fundadores simplesmente não tinham compreendido a liberdade e “as suas múltiplas possibilidades”.

Pelos vistos o próprio tribunal também não o tinha compreendido no caso de Bowers v. Hardwick, 17 anos antes, quando declarou que não existia qualquer direito constitucional à sodomia.

Os juízes e os seus apoiantes nos media decidiram que a tradição é, frequentemente, um sinónimo de opressão. Quanto aos que se mantêm agarrados “aos nossos deuses e às nossas armas”, as elites vêem-nos como perdidos naquilo a que Engels chamou “falsa consciência”.


O Governo tem sido movido a agir não tanto por compaixão, mas mais por pressão dos media e dos lobbies. O mesmo tem acontecido através da cultura.

Foram essas pressões que levaram a uma campanha bem-sucedida, em 1973, para retirar a homossexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística, a bíblia de desordens mentais da Associação Psiquiátrica Americana, onde constava desde 1952.

A indústria do entretenimento tem feito todos os esforços para povoar os filmes, comédias e séries de personagens homossexuais, com o objectivo de nos dessensibilizar para o “amor que não ousa manifestar-se”, agora conhecido como o “amor que não nos dá um minuto de descanso”.

“Making Gay Okay” inclui capítulos curtos sobre o impacto e as consequências de parentalidade homossexual, “estudos” homossexuais e a influência do homossexualismo nas Forças Armadas, política externa e o movimento dos escuteiros.

Nos anos 80 estava num jantar em que um activista homossexual disse a umas feministas que os homens gay apoiavam absolutamente o aborto. Questionei-me na altura sobre a coincidência de interesses. Era demasiado bronco, ou ingénuo, para compreender a forma como partilham esta inversão da realidade.

Talvez porque, em mais novo, abracei brevemente (mas com vigor) a moda da “liberdade sexual”, quem sabe, a primeira das inversões da verdade. Há muitos na minha geração que sentem relutância em criticar as escolhas sexuais dos outros, tendo tomado decisões tão erradas quando eram mais novos.

Chegou a hora de crescer.

“Making Gay Okay” é uma lição em filosofia, psicologia, história, direito, política e ciência. Para dizer a verdade, até vai aprender coisas que preferia não saber, como o significado de “bug chasing”, por exemplo. Mas para isso vai ter de comprar o livro.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 19 de Maio 2014 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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