quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um Século de Grandes Papas

João XXIII e João Paulo II: Não estamos a falar só de dois dos Papas mais influentes, mas de dois dos homens mais influentes do século XX – e não só. Não é fácil imaginar como seria a Igreja Católica, ou o mundo, sem eles. Mas facilmente percebemos que quer aquela quer este seriam muito diferentes, de muitas formas. Esse facto, associado à clara santidade de ambos os líderes modernos, é a razão pela qual o Papa Francisco os vai canonizar, em conjunto, este Domingo.

Mas estão em boa companhia. Desde que o grande Leão XIII inaugurou a Doutrina Social moderna da Igreja Católica e renovou os estudos tomistas, a Sé de Pedro tem sido ocupada por homens muito diferentes. Académicos, diplomatas, filósofos, até montanhistas (Pio XI e João Paulo II). Tiveram de lidar com ideologias modernas como o fascismo, nazismo e comunismo – e venceram, eventualmente. O Papa Francisco confronta o materialismo funcional e o ateísmo do nosso tempo. Mas não devemos pensar que isto é algo fora do comum: todos os Papas modernos tiveram de enfrentar desafios sérios.

Ainda assim, como praticamente toda a gente compreende, incluindo não-católicos, João XXIII e João Paulo II ocupam um terreno especial. João XXIII, por exemplo, fez toda a sua carreira como diplomata do Vaticano e nunca foi pároco, mas foi sempre um homem do povo. Ele identificou a necessidade de uma Igreja mais “pastoral” e evangélica – sem que fosse preciso alterar a doutrina para lá chegar. Mas sabemos o que aconteceu depois do Concílio Vaticano II – Grandes renovações, mas também grande confusão. (Lidei com esta questão aqui, no 50º aniversário da abertura do Concílio).

Muito se tem especulado sobre as intenções do Papa Roncalli ao convocar o Concílio e o que ele teria achado do resultado. Mas olhando para a sua vida – mesmo através das muitas biografias que se aproximam do “espírito do Concílio” – é difícil encontrar provas de que o Papa pretendia a grande ruptura de vocações, prática religiosa e ensinamento que se seguiu. Caso tivesse vivido tempo suficiente para assistir a isso teria achado um desastre. O azar dele foi ter convocado o Concílio no mesmo instante em que a cultura ocidental estava prestes a mudar de paradigma, de residualmente cristã, um mundo que ele acreditava que podia ser vigorosamente catequizado, para um mundo pós-, e em grande medida anticristão.

Essa é a cultura em que vivemos actualmente e na qual a Igreja é agora chamada a fazer caminho.

João Paulo II era um bispo activo e jovem durante o Concílio e mostrou na sua diocese de Cracóvia aquilo que ele, e muitos outros, consideravam que o Concílio significava verdadeiramente. Organizou uma série de sínodos em Cracóvia, que ainda decorrem, que implementaram o Concílio de uma forma muito mais fiel e ordenada que em qualquer outra parte do mundo. Para além do seu papel gigante no palco do mundo, e o seu papel na derrota do Comunismo – levando o seu compatriota e também vencedor do Nobel da Paz, Czeslaw Milosz, a dizer que era o único líder mundial do seu tempo que poderia ter sido um dos reis de Shakespeare – a sua mão firme em Roma durante o último quarto do Século XX estabilizou a Igreja inteira.


Já estamos a ver algumas fontes seculares a contestar o seu legado, dizendo que está “manchado” pelo falhanço em lidar com a crise dos abusos sexuais (João Paulo II também foi enganado pelo padre Marcial Maciel nos seus anos finais). Mas ninguém pode fazer tudo. Derrotar o comunismo e recuperar o ensino da Igreja já seria um trabalho a tempo inteiro para a maioria das pessoas, João Paulo II fez ambos e muito mais. O seu pontificado trouxe respeito renovado para a Igreja e um reconhecimento da sua liderança moral que não tinha paralelo em qualquer outro líder mundial do seu tempo.

A Igreja Católica precisa muito de uma integração verdadeira daquilo que é o melhor do legado de ambos estes homens enquanto procura lidar com um mundo que só pode ser descrito como crescentemente hostil ao Catolicismo. Foi genial por parte do Papa Francisco não só decidir canonizar ambos, mas fazê-lo no mesmo dia, este domingo.

O melhor que podemos esperar deste gesto é um regresso a um Catolicismo completo, um Catolicismo definido pela lealdade a todo o corpo doutrinal da Igreja e não a agendas políticas ou ideológicas. Roncalli e Wojtyla estavam ambos suficientemente convencidos da sua fé para entrarem em diálogo com o mundo moderno. Ambos acreditavam ainda que seria possível fazê-lo sem comprometer a doutrina.

Há anos que debatemos a abordagem “pastoral” versus a “doutrinal” – e aplicamos os rótulos com demasiada facilidade a este ou aquele Papa. Os Papas João Paulo I e II tentaram, com as escolhas dos seus nomes, criar uma ponte entre a abertura de João XXIII e a fidelidade agonizada de Paulo VI (que o Papa Francisco recentemente caracterizou como “heróico” e “profético” ao manter o ensinamento quanto à contracepção). Mas isso não resolveu o problema; há mais trabalho a fazer.

Temos de começar por compreender que o pastoral é simplesmente o doutrinal, aplicado de forma caridosa e inteligente. Já o disse antes, mas vale a pena repetir: Uma abordagem pastoral sem a orientação da doutrina é como um médico que lida lindamente com os doentes mas não percebe nada de medicina. Se queremos ajudar os outros, primeiro temos de saber o que é o bem para todos. A aplicação rígida e descuidada de doutrina não é boa prática nem teoria sã. “O conhecimento dirigido ao coração”, para usar um termo do Cardeal Newman, é o ideal católico. João Paulo II e João XXIII, por mais diferenças que tinham entre eles, davam corpo a esse ideal. Esperemos que a Igreja e o mundo compreendam isso um dia.

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O The Catholic Thing fará um acompanhamento intensivo das canonizações, que podem acompanhar através do site, a partir de quinta-feira. Ao longo dos próximos dias vamos ainda proceder à angariação de fundos que ajudam a financiar o nosso projecto.

[Nota: Quaisquer donativos vão directamente para o The Catholic Thing e não para o Actualidade Religiosa]


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 23 de Abril de 2014)

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