quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os Cistercienses Estão de Volta a Zirc

Pe. Placid Czismazia.  Pe. Chris Rabay.  Pe. Roch Kereszty.  Pe. Gilbert Hardy. E, claro, o Pe. David Balas. Estes são os nomes de alguns dos Cisterciences húngaros com quem tive a bênção de estudar quando fiz os meus estudos de pós-graduação na Universidade de Dallas. Todos tinham fugido da Hungria depois da supressão do mosteiro cisterciense de Zirc (pronuncia-se Zeerts), nos arredores de Budapeste. Podíamos ouvir as suas histórias mil vezes e mal teríamos passado a superfície.

Há a história do Pe. Placid, por exemplo, a passear pelas ruas de Budapeste durante a ocupação nazi, arriscando execução sumária no caso de ser apanhado, para poder visitar os seus alunos nas suas casas e acompanhar os seus estudos de Latim e Grego. Disse-me uma vez que queria dar-lhes a máxima regularidade possível e uma sensação de esperança, de estarem a preparar-se para um futuro melhor depois da guerra. E que mais fazer quando o mundo está embrenhado em guerra do que estudar línguas clássicas?

Depois havia o Pe. Chris Rabay, com cerca de um metro e meio, mas duro que nem pedra e com a constituição de uma boca de incêndio, de quem se dizia que tinha carregado um dos seus irmãos cistercienses às cavalitas através das montanhas, depois de este ter partido o tornezelo durante a perigosa travessia.

Havia ainda o Pe. Gilbert Hardy, o paradigma do burocrata da Europa de Leste: os papéis todos em ordem, os formulários todos assinados, os ficheiros completos. Eu irritava-o imenso. Quando era reitor chamou-me ao seu gabinete e exigiu saber: “Rahndy, em que prrugrama estáz?”. “Estou a acabar o mestrado em Teologia e já comecei o mestrado em Filosofia”. Abanou a cabeça. Esta não era a ordem correcta. Perguntou de novo, muito de vagar: “Em que prrugrama estáz?”. Ao que dei exactamente a mesma resposta. Andámos assim para a frente e para trás onze vezes, ele a perguntar, eu a responder. Lembro-me de pensar na altura que ele daria um bom vilão do James Bond. Estava cheio de medo que ele carregasse num botão e me atirasse para uma piscina de tubarões.

As histórias não têm fim. Mas todas essas histórias individuais são parte de uma história maior. Um desses tipos de “história maior” – a história maior de todas – é a história da salvação: a história da nossa queda e redenção pela morte sacrificial de Cristo na Cruz, a sua ressurreição dos mortos e ascensão para a direita de Deus, de onde nos envia o seu Espírito Santo e onde espera para nos receber no seio do Seu Pai, na comunhão eterna de amor Trinitário.

A maioria dos homens que referi aceitaram, para usar as palavras de T.S. Elliot, a “constituição do silêncio". O que é feito agora das suas vidas, das suas lutas, da sua sabedoria, do seu amor? Enquanto cristãos acreditamos que nada foi obliterado nem se perdeu com a morte. Pelo contrário, ficou preservado e glorificado na sua verdadeira Fonte e Fim, naquele que é tanto o Alpha como o Omega.

Mas há outra história, um pouco mais próxima de nós. As autoridades comunistas mandaram esvaziar e fechar o mosteiro cisterciense em 1950. Muitos dos monges fugiram do país e estabeleceram novas abadias em locais inóspitos e selvagens como Spring Bank, Wisconsin e Dallas, Texas, enquanto outros continuaram a viver clandestinamente na Hungria, alguns como padres diocesanos, outros como leigos, mantendo os seus votos e celebrando missas em privado, na medida do possível.
 
A abadia de Zirc
Mas em 1989, depois de o povo da Hungria ter sido libertado do “paraíso comunista” que os soviéticos lhe tinham impingido, aconteceu uma coisa incrível: A ordem cisterciense recebeu o mosteiro de Zirc de volta, bem como quatro escolas. O problema era (e é), que o mosteiro de Zirc foi construído ao longo de séculos e em tempos passados tinha servido de abrigo a centenas de monges. Agora vivem lá cerca de 35. É como um miúdo de cinco anos a tentar calçar os sapatos tamanho 44 do pai. Vai levar uns quantos anos até caberem nos paramentos que lhes foram deixados pelos seus antecessores.

Mas recordo-me de um pequeno poema do Robert Frost, no qual ele avisa:

Quando, por vezes, a multidão for conduzida
A levar longe de mais o elogio ou a culpa,
[Devemos] escolher algo como uma estrela
Para fixar a nossa mente e para nos fixar.

Quando formos tentados pelo medo de que a Igreja vai ser “varrida pelas forças da história” – aborto, casamento gay, supressão de instituições e empresas católicas – devemos lembrar-nos que houve uma época em que as forças do poder e do dinheiro conspiraram com a elite intelectual da Hungria para suprimir os cisterciences e destruí-los completamente. Dizia-se que viviam “na idade das trevas” e que estavam condenados a “serem ultrapassados pela história”, enquanto se pensava (e alguns católicos concordavam), que os seus opressores representavam o futuro: algo brilhante, reluzente e novo. “Vamos enterrar-vos”, diziam (esquecendo que a ressurreição sempre foi o presente especial de Cristo para os fiéis).

E hoje, onde andam esses reformadores utópicos? Varridos para a lixeira da história, naquele espaço que reservamos não só para os falecidos, mas para os brutos, os reles e os cobardes. Não estão apenas mortos, a sua memória é motivo de desprezo.

E os cistercicienses? Os cistercienses estão de volta a Zirc – bem como em Spring Bank e Dallas. A rezar. A ensinar. Como fazem há séculos. Provando novamente que, apesar das mais recentes maquinações do Inimigo:

Tudo estará bem e
Todas as coisas estarão bem
Pela purificação do motivo
Na terra da nossa súplica


Randall Smith é professor na Universidade de St. Thomas, Houston, onde recentemente foi nomeado para a Cátedra Scanlon em Teologia.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 6 de Abril 2014 em The Catholic Thing)

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1 comentário:

  1. Eis as boas histórias. Eis a esperança. Eis as boas notícias. Eis a mansidão da fé e do serviço.
    Obrigado Filipe.
    Fernando Católico

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