quarta-feira, 30 de abril de 2014

“Trouble in Mind”

Francis J. Beckwith
“When the deeds that you do don’t add up to zero
It’s what’s inside that counts, ask any war hero
You think you can hide but you’re never alone
Ask Lot what he thought when his wife turned to stone
Trouble in mind, Lord, trouble in mind
Lord, take away this trouble in mind”
Bob Dylan, “Trouble in Mind”

Fez sete anos esta segunda-feira, dia 28 de Abril, que fui recebido novamente na Igreja Católica, depois de quase três décadas como Evangélico. Como já escrevi em vários locais, incluindo no meu livro “Return to Rome” e na minha contribuição para o livro “Journeys of Faith”, havia certas questões teológicas para as quais eu precisava de respostas plausíveis antes de poder ser reconciliado com a Igreja. Pelo menos foi assim que compreendi a minha própria peregrinação.

Mas agora, olhando para trás, com o benefício tanto do conhecimento actual e de sete anos como católico praticante, estou convencido de que a procura dessas respostas às questões teológicas, embora central para o meu regresso, foi auxiliada por uma sede mais profunda, de que não estava bem ciente em 2007.

A minha fé cristã tinha-se tornado, em grande parte, uma extensão dos meus projectos académicos enquanto filósofo profissional. É claro que não há mal em encarar a nossa fé como pertencendo a uma tradição intelectual que pode ser racionalmente compreendida, explicada e defendida. Afinal de contas, alguns dos nossos antecessores mais admiráveis, incluindo Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, para não falar no agora santo Papa João Paulo II, eram filósofos cristãos da melhor qualidade.

Mas no meu caso, quase tudo sobre as minhas crenças tinha sido reduzido a uma questão de procurar argumentos e criticar os meus adversários. A minha fé, ou o que restava dela, tinha-se tornado um programa de investigação intelectual, que agora, em retrospectiva, parecia mais um exercício de autoconvencimento, mais do que uma tentativa de persuadir os outros. Era como um homem que, tendo-se casado, passa todas as horas a tentar ser um bom marido lendo livros sobre o matrimónio, mas ignorando a sua mulher.

Trouble In Mind ( Slow Train by Bob Dylan on Grooveshark

Eu tinha adoptado uma visão sobre-intelectualizada da fé cristã que me tinha fornecido um tesouro inesgotável de críticos a derrotar e de discussões para vencer, mas que me tinha deixado com uma espiritualidade diminuída, sustentada apenas pelas cascatas de ansiedade e de euforia que acompanham o pugilismo filosófico. Por esta razão, frequentemente media o Cristianismo dos outros, não com base na sua identificação com Cristo mas de acordo com a sua concordância inequívoca com uma série de “doutrinas essenciais”, como se o primeiro evento da vida depois da morte fosse um exame de teologia. Estudei, defendi e protegi Jesus, como se ele precisasse da minha ajuda. Não o amava.

Recentemente vi um bocadinho desse antigo “eu” numa série de comentários de um escritor, blogger e apologista protestante. Num post em que descreve o Papa Francisco como um “falso professor”, este autor escreve: “Embora Francisco lave os pés de prisioneiros e beije a face aos deformados, fá-lo com base em, e apontando para, este falso Evangelho, que não conduz a Cristo, mas sim directamente para longe dele”.

Este “falso Evangelho”, segundo o autor, consiste na visão católica da justificação, que, como referi num post, ele claramente não compreende. Mas estas confusões à parte, pensem na mensagem que isto transmite aos evangélicos, bem como não crentes, que o lêem: Seguir Jesus, obedecendo aos seus mandamentos, não é a forma correcta de conduzir pessoas a Nosso Senhor. O que é preciso é convencer as pessoas de que os seus argumentos são melhores que os deles.

Esse era eu, antes do meu regresso a Roma. O que eu não compreendi durante muitas décadas, aquilo que a Igreja Católica de facto ensina, é que a vida da fé, como o estado do matrimónio, requer devoção total de corpo, alma e mente. Estar em comunhão com a Igreja não pode ser reduzido a uma lista de “doutrinas essenciais” para as quais se reúnem uma série de argumentos apologéticos capazes de contrariar os desafios da descrença. Embora a tradição intelectual da Igreja ofereça ao mundo um vasto reservatório de autores, perspectivas, santos e sábios para satisfazer a sede filosófica, a sua sabedoria acumulada deriva da riqueza da sua vida litúrgica.

Era dessa vida que eu tinha sede. Os sacramentos e os sacramentais, as devoções e os livros de orações, a Bíblia e o breviário, fazem tanto parte da minha vida cristã que não consigo imaginar-me sem eles. Mas não é uma piedade de mera solidão. Está fortemente amarrada a uma compreensão do Evangelho vivido na prática das virtudes teológicas: fé, esperança e caridade. É a graça suave, expressada nas mãos estendidas de um Papa a lavar os pés aos seus irmãos. E essa é uma boa nova.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 25 de Abril de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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