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Friday, 14 July 2023

Portugal na Pole Position com Américo Aguiar

Esta semana começou com uma notícia estrondosa, logo seguida de uma pequena polémica. Ambas ainda dão que falar.

A notícia estrondosa e surpreendente foi a de que D. Américo Aguiar vai ser elevado a Cardeal pelo Papa Francisco no próximo consistório. Escrevi um artigo no blog para tentar decifrar a notícia e as suas implicações, e depois fui convidado pelo Expresso para fazer uma versão um pouco mais elaborada e completa para publicar no site desse jornal. O artigo no Expresso está aqui, mas é só para assinantes. Em todo o caso, o essencial do texto está no blog.

Entretanto surgiu a polémica. Numa entrevista à RTP, dias antes de se saber da nomeação, D. Américo disse, a propósito da JMJ, “não queremos converter os jovens a Cristo”. A frase tornou-se viral, sobretudo em certos meios das redes sociais, mas também no estrangeiro.

Ora, eu consegui falar com D. Américo e pedi-lhe um esclarecimento sobre essa frase. Podem encontrar aqui o seu esclarecimento e o meu comentário. Uns ficaram satisfeitos com a explicação, outros não. A vida é mesmo assim. Mas leiam e decidam por vocês.

A conversa que tive com D. Américo serviu também para complementar um perfil que escrevi sobre ele para o The Pillar, em inglês, que podem encontrar aqui.

Também no The Pillar publiquei, na semana passada, um artigo sobre Goa. O governador daquele estado tem dito que chegou a altura de apagar os traços portugueses da região. Como disse um historiador de ascendência goesa com quem falei, isso implicaria demolir toda a cidade velha, e deportar uma boa parte da população. Naturalmente os goeses de ascendência portuguesa estão nervosos. Leiam, que vale bem a pena conhecer esta história.

Também este mês foi publicado um artigo meu sobre a questão dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, nomeadamente sobre o trabalho da Comissão Independente, e tudo o que se lhe seguiu. Está na Brotéria, que não tem edição online, mas se tiverem oportunidade de comprar a revista de Julho leiam-no também.

Por fim, esta semana o artigo do The Catholic Thing é diferente do habitual. Brad Miner faz a recensão de um filme que acaba de estrear e que fala do terrível mundo do tráfico de crianças para escravatura sexual. Não é uma leitura propriamente agradável, mas são realidades que devemos conhecer, nem que seja para rezar, muito, pelas vítimas.

Wednesday, 7 December 2022

O Papa e a Guerra Justa. Volumes de teoria e uma frase de realidade

O Papa tem falado frequentemente de guerra desde que foi eleito. Por exemplo, tem tido a clarividência para dizer – e bem – que estamos a viver uma “Terceira Guerra Mundial às prestações”, apesar de na Europa central e ocidental estarmos no maior período de paz da nossa história.

Tem também insistido na necessidade da paz e apelado ao fim de múltiplos conflitos em todo o mundo, incluindo os que já foram esquecidos pelo resto dos líderes mundiais.

Mas o Papa tem sido também criticado por estar a pôr em causa a tradição cristã da Teoria da Guerra Justa. Na encíclica “Fratelli Tutti”, Francisco diz o seguinte:

Nas últimas décadas, todas as guerras pretenderam ter uma ‘justificação’. O Catecismo da Igreja Católica fala da possibilidade duma legítima defesa por meio da força militar, o que supõe demonstrar a existência de algumas ‘condições rigorosas de legitimidade moral’. Mas cai-se facilmente numa interpretação demasiado larga deste possível direito. Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques ‘preventivos’ ou ações bélicas que dificilmente não acarretem ‘males e desordens mais graves do que o mal a eliminar’. A questão é que, a partir do desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas e das enormes e crescentes possibilidades que oferecem as novas tecnologias, conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes. É verdade que ‘nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem’. Assim, já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!

Segundo a tradição cristã os critérios para que uma guerra seja considerada justa são as seguintes:

  • Deve haver a certeza de uma ameaça duradora e grave por parte da entidade à qual se vai declarar guerra
  • Todos os outros meios para pôr fim ao conflito devem ter sido esgotados
  • Deve existir uma perspectiva séria de sucesso
  • O uso da força armada não deve produzir um mal maior do que aquele que pretende eliminar

A forma mais simples de entender o argumento do Papa Francisco é de que na era das armas nucleares estas condições nunca se cumprem, porque o risco de causar um mal maior do que aquele que se pretende evitar estão sempre presentes.

Francisco tem sido muito criticado por esta posição. Parece-me justa e equilibrada esta apreciação do jesuíta Francisco Sassetti da Mota, numa recensão que aparece nas páginas finais da edição de Novembro da revista Brotéria, a uma obra que reúne textos soltos do Papa sobre a temática da guerra:

É discutível que tudo o que o Papa Francisco afirma seja tecnicamente rigoroso. (…) o enamoramento por uma linguagem radicalmente pacifista é ingénuo, pouco fundado na tradição cristã e em muitos casos perigoso para o inocente oprimido. Mas essa falta de rigor em alguns pontos não pode condenar o que o Papa Francisco tem para dizer de mais fundamental: a violência perturba a ordem desejada por Deus.

Tem-se pensado muito nesta problemática desde que começou a guerra na Ucrânia. Em primeiro lugar, quantos de nós, quando a guerra começou, acreditavam que a Ucrânia tinha sérias perspectivas de sucesso no campo de batalha? Desse ponto de vista, devíamos ter defendido a rendição imediata. Uma das frases mais significativas desta década foi “não preciso de boleia, preciso de munições”, e com isso começou a desenhar-se o fantástico desempenho das forças armadas ucranianas que estão cada vez mais próximas de libertar o seu território todo.  

O Papa tem sido incansável a falar da guerra na Ucrânia, criticando sem margens para dúvidas a invasão russa. Tem sido por vezes criticado por recordar que do lado russo também há sofrimento, por exemplo, ou por apelar a negociações quando os russos não revelam qualquer intenção de devolver à Ucrânia a soberania sobre os territórios ocupados. Mas permaneceu sempre a dúvida. O Papa acredita que os ucranianos devem estar a fazer valer a sua posição pelo uso da força? Dito de forma mais simples: O ucraniano que parte para combater os russos nos territórios ocupados está a fazer bem, ou mal?

Depois de textos suficientes para encher um volume sobre a guerra e a paz, o Papa disse finalmente uma frase que parece dar-nos a resposta que procuramos. Na carta escrita ao povo ucraniano, por ocasião dos nove meses da guerra, Francisco diz: “Penso em vós, jovens, que, para defender corajosamente a vossa pátria, tivestes de pegar em armas em vez dos sonhos que nutríeis para o futuro”.

Reparem na escolha da palavra, nada acidental. “Tivestes”. Não “optastes”, não “quisestes”, mas “tivestes”. E mais, esse pegar em armas não é uma mera fatalidade, é um acto de coragem. 

É numa situação como a guerra da Ucrânia que toda a teoria sobre guerra, paz, justiça e injustiça cai por terra e temos de nos confrontar com a realidade. Uma nação poderosa, liderada por um tirano, invadiu uma terra estrangeira, sob falso pretexto, procurando subjugá-la, eliminar a cultura dos seus habitantes, espalhando terror, tragédia e morte. Perante isto não há teorias bonitas sobre espadas convertidas em arados, não há cálculos frios sobre se a defesa tem probabilidades de sucesso ou não, e daí ser ou não lícita. O que há é uma obrigação moral de defender o inocente, de travar o assassino, de fazer frente à injustiça.

Esteve bem o Papa em reconhecer a força desta realidade e de perceber quando escreve aos ucranianos – que tanto tem apoiado, e por quem tanto tem rezado – que eles precisam tanto de lições de guerra justa como precisam de boleias.


Leia também: 

Declarações de líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia

E se a Rússia perder esta guerra? O que vem depois da ressaca

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Todos pela Ucrânia, mas até quando?

Dimensões religiosas da Crise na Ucrânia

Igrejas Ortodoxas na Ucrânia - Em que ficamos?


Wednesday, 17 November 2021

Antes do Black Friday, o Red Week

Sílvio Alves Moreira, possível futuro beato
Sabemos como o mundo da liturgia pode ser polémico e cheio de divergências. Nos Estados Unidos, mais do que em muitos outros países! Por isso os bispos americanos escolheram um luso-descendente para pôr a casa em ordem. O bispo Steven J. Lopes tem um percurso peculiar, que vale a pena conhecer.

Estarão a caminho dois novos beatos jesuítas? Pode ser que sim, e um é português.

Por falar em jesuítas, conseguiram resgatar e acolher 220 cidadãos afegãos em Portugal.

Se vir um monumento iluminado de encarnado esta semana, lembre-se dos cristãos perseguidos! Começa hoje o Red Week. É uma iniciativa da AIS.

Ontem fez um mês que foram raptados 17 missionários no Haiti, incluindo cinco crianças. Há que rezar para que estejam bem!

Como amar uma Igreja que está assolada por crises, guerrinhas e polémicas? Seguindo o exemplo de São Francisco, explica o padre Thomas Weinandy, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

E por fim, um desafio para que se inscrevam num curso sobre Ciência e Religião, organizado pela Brotéria, e que se realiza nos dias 20 e 27 de novembro. Podem inscrever-se num dos dias, ou no curso completo, e o programa completo está aqui.

Thursday, 23 January 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

Tuesday, 13 October 2015

Acesso aos sacramentos para divorciados recasados – revisitado

Concílio de Trento
O ano passado escrevi dois textos sobre este assunto, um primeiro em que levantei uma hipótese de como se poderia arranjar forma de permitir o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares sem pôr em causa a questão da indissolubilidade, nomeadamente “baixando a fasquia” para acesso aos sacramentos, permitindo assim que pessoas em situação de pecado pudessem comungar. Esse texto motivou uma discussão viva e interessante que me levou a escrever um segundo artigo, em que concluí que afinal não me parecia possível fazer-se essa alteração sem, de alguma forma, contrariar a doutrina da Igreja.

Este texto não pretende voltar aos mesmos argumentos, nem apresentar uma ou outra solução, mas apenas levantar algumas questões interessantes que me parece estarem a passar ao lado da maioria dos debates.

Li recentemente o artigo do Padre Miguel Almeida s.j. na mais recente edição da Brotéria, que achei muito interessante. O padre Miguel parece defender o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e embora não me tenha deixado convencido das suas conclusões, convenceu-me de muitos outros pontos pelo caminho.

Os conservadores invocam constantemente – e de forma compreensível – as palavras de Jesus aos seus discípulos “Não separe o homem o que Deus uniu”. Contudo, ainda nos tempos apostólicos aparece evidente que São Paulo, por exemplo, achou-se na liberdade de abrir excepções a estas palavras duras.

Recordo que Jesus não estava a falar especificamente de casamentos cristãos sacramentais. Pelo contrário, estava a falar especificamente de casamentos judaicos, que não eram então, nem são hoje, sacramentais do ponto de vista cristão. Mas o casamento é uma instituição natural e o que Jesus nos diz é que qualquer casamento é, seja sacramental ou não, algo que Deus uniu e que o homem não deve separar. Isto não se aplica a cristãos que optem conscientemente por não casar pela Igreja, mas só pelo civil, mas aplica-se a um casal de hindus, a um casal de aborígenes, de esquimós ou de neo-pagãos da Suécia.

No entanto a Igreja desde cedo permite o chamado privilégio paulino, em que a Igreja usa do seu poder para “ligar e desligar” para dissolver o casamento natural entre dois não-baptizados quando uma das pessoas pretende tornar-se cristã e casar novamente dentro da fé.

Há outros casos levantados no artigo, já do conhecimento dos historiadores e teólgos, que são debatidos para trás e para a frente, mas parece-me que este exemplo do privilégio paulino é indiscutível e claro e abre desde já uma premissa: Se se pode abrir uma excepção ao que Jesus disse, então os Papas e os sucessores dos apóstolos podem abrir outras excepções.

Isto é basicamente o que os ortodoxos já fazem. Mas isso não é, ou parece não ser, o que os defensores da abertura do acesso aos sacramentos para recasados defendem, uma vez que eles não propõem que a Igreja aceite a celebração de novos casamentos. Ora aqui é que se dá um salto lógico que eu não entendo, porque se no privilégio paulino se aceita a dissolução do casamento, permite-se às pessoas regularizar a sua situação, casando novamente. Isto sim, pode ser apresentado como misericórdia. Mas a opção de simplesmente deixar andar a situação da segunda união não resolve o problema de fundo. Aquelas pessoas, por duras que sejam as palavras, estão em situação de adultério e, por isso, em pecado grave e é isso que as impede de comungar.

A solução apenas poderia passar, a meu ver, pela dissolução oficial do primeiro casamento, invocando o poder apostólico de ligar e desligar, para que a segunda união fosse regularizada. Mas aqui chegamos a outro obstáculo, que raramente vejo abordado nestas discussões.
Casamento - uma realidade natural

O Concílio de Trento diz o seguinte no seu cânone VII sobre o sacramento do matrimónio. “Se alguém disser que a Igreja erra quando ensina, segundo a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, que não se pode dissolver o vínculo do Matrimónio pelo adultério de um dos consortes, e quando ensina que nenhum dos dois, nem mesmo o inocente que não deu motivo ao adultério, pode contrair outro matrimónio, vivendo com outro consorte, e que cai em fornicação aquele que casar com outra, deixada a primeira por ser adúltera, ou a que deixando o adúltero se casar com outro, seja excomungado.”

Aqui quase que vejo algumas pessoas a levar a mão à cabeça em desespero: “Mas então ele vai buscar os cânones de um concílio do século XVI? O que é que isso interessa?”

Mas interessa muito, a meu ver, porque é isto que nos torna católicos. Ou nós acreditamos que o Espírito Santo inspira as decisões dos bispos quando falam em união com Pedro ou não acreditamos. Não podemos dizer que o fez em 1963 e que o fez no conclave de 2013 mas que em 1563 não esteve para isso. É por isso que insistimos que não se pode mudar a doutrina, porque estamos ligados ao que herdámos. Se nos desligarmos disso não há nada que impeça os nossos filhos e netos de se desligarem de tudo o resto, não há nada que impeça a minoria de contestar a eleição do próximo Papa e o resto conta-se em cismas.

Tudo isto para dizer que, do meu ponto de vista, quem defende o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares tem de me demonstrar pelo menos uma das seguintes premissas:

1)            Que o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em estado de pecado grave – como é o adultério – não contraria a doutrina estabelecida.
2)            Que é possível contrariar directamente o cânone VII sobre o casamento do Concílio de Trento sem que isso implique uma ruptura com a doutrina do casamento.

Digo isto com a plena consciência de não ser teólogo e de, por isso, não ser especialista. Os especialistas que o vejam como um convite a desmascarar a minha profunda ignorância sobre o assunto, que assim todos ficamos a ganhar!

Peço, por favor, que nada disto seja lido como uma crítica ou um juízo de valor aos muitos casais que se encontram nesta situação e que sofrem com isso. Todos temos amigos, irmãos, pais ou tios que se encontram nessa posição. Pretendo apenas aqui contribuir para o debate, dentro daquilo que é a tradição católica, que devemos preservar.

Monday, 18 May 2015

Cientistas não ligam à “incompatibilidade” entre ciência e religião

Jesuítas com instrumentos científicos
Transcrição integral da entrevista a Francisco Malta Romeiras, a propósito do seu livro “Ciência, Prestígio e Devoção: Os Jesuítas e a Ciência em Portugal (séculos XIX e XX)”. A reportagem pode ser lida aqui.


De que trata o livro?
O meu livro trata das investigações científicas que os jesuítas fizeram no século XIX e no século XX em Portugal.

Trata dos colégios que fundaram, o colégio de Campolide e o Colégio de São Fiel e, numa segunda parte, da revista Brotéria.

Ao longo da história temos visto os jesuítas a serem perseguidos de forma particular. Há alturas em que todas as ordens religiosas são expulsas, mas parece haver pelos jesuítas um ódio especial... Porquê?
Os jesuítas foram expulsos de Portugal três vezes. A primeira foi pelo Marquês de Pombal em 1759 e, no século XIX, foram expulsos antes de todas as outras ordens religiosas. O que acontece é que a Companhia de Jesus era uma instituição muito poderosa em Portugal e na Europa. Por isso criou uma animosidade maior, também em Portugal e na Europa. Os jesuítas dominavam a rede de ensino em Portugal, na Europa e na Ásia. Eles são muito contestados porque são acusados de serem contra a ciência e contra a educação, o que mais tarde se veio a provar não ser verdade.

Mas por serem uma ordem tão poderosa e com tantos interesses, acontece que depois chocava com os interesses do Marquês de Pombal, em Portugal, daí terem sido a primeira ordem a ser expulsa.

Repare-se que só em 1834, quase cem anos depois, é que as ordens religiosas são expulsas por D. Pedro IV. Há aqui uma grande distância que tem a ver com o facto de a Companhia de Jesus não ser uma ordem normal. É uma ordem muito dedicada à educação, muito dedicada à ciência, à missionação e que por isso se revestia de características muito particulares quando comparada com as outras ordens.

Não deixa de ser um paradoxo... Foram expulsos por serem contra a ciência e a educação, quando trabalhavam precisamente na ciência e na educação, mais do que as outras.
Exacto, é completamente paradoxal. E o que acontece, ou tem acontecido até agora, é que os historiadores que olhavam para a história da Companhia, olhavam sobretudo do ponto de vista dos documentos que o Marquês de Pombal produziu. E esses documentos, cheios de retórica, acusavam-nos disso mesmo, de serem obscurantistas, de perseguirem as ideias científicas e filosóficas, e o que se veio a ver, olhando para os documentos produzidos, é que isso não era nada realidade.

Agora, com este livro e com estas investigações, percebe-se que a história afinal é outra, é mais interessante.

Faz parte da sua tese que o anti-jesuitismo foi uma das coisas que depois fez os jesuítas apostar mais nas áreas da investigação científica, talvez para provar precisamente o contrário...
Exacto.

O que acontece é que estão cem anos fora de Portugal, mais ou menos, tirando um breve regresso no reinado de D. Miguel. E quando regressam, em meados do século XIX, a tese pombalina é muito forte, por isso sentem-se na necessidade de combater essa tese. E como se sentem nessa necessidade, o que vão fazer é, nos seus colégios, investir imenso nas ciências naturais. Vão fazer laboratórios, criar colecções científicas, promover expedições com os alunos, por exemplo para ver eclipses. Por exemplo, o Colégio de Campolide é o primeiro lugar em Portugal onde se fazem experiências com radioactividade. Foi um padre jesuíta que foi trabalhar com Marie Curie por volta de 1910 e depois vem para Portugal e trabalha pela primeira vez com radioactividade. Isto acontece sobretudo por causa deste anti-jesuitismo do século XIX, que é pouco original, porque retoma muitas das teses do século XVIII e eles sentem necessidade de combater essas teses.

Francisco Malta Romeiras
Não é algo que se passa só em Portugal, pois não?
Portugal é um caso muito particular. Primeiro porque é o primeiro sítio de onde eles são de facto expulsos. O Marquês de Pombal é o primeiro grande estadista europeu a expulsar os jesuítas. Depois os outros países vão seguir as pegadas de Pombal e isto leva inclusivamente a que a ordem seja extinta em 1773, pelo Papa Clemente XIV. Portanto Portugal é o primeiro sítio e é o sítio mais grave, o sítio onde se produz a maior campanha.

José Eduardo Franco, um grande historiador da companhia no século XVIII e que estudou muito o mito jesuíta e anti-jesuíta, diz que esta foi a maior campanha publicitária de sempre. Por exemplo, a Dedução Cronológica e Analítica, que é o livro mais importante publicado por Pombal, foi traduzido para chinês, para que pudesse chegar a todo o mundo e toda a gente pudesse saber as acusações que tinha contra os jesuítas.

Nos outros países em que a Companhia foi sendo restaurada não há tanto esta necessidade de contrariar o obscurantismo, porque as acusações foram mais fracas, foram sobretudo políticas, económicas e sociais, enquanto que em Portugal a tese científica foi muito importante.

Pode descrever, resumidamente, a importância que os jesuítas tiveram para a investigação científica, sobretudo em Portugal, e em que áreas é que trabalhavam?
Nos séculos XIX e XX os jesuítas em Portugal voltaram-se muito para a botânica e para a zoologia, e começaram nestas áreas porque eram áreas que facilitavam o trabalho de amadores. Isto é, eles que não tinham formação universitária quando começaram, podiam facilmente recolher espécimes de animais e plantas e depois identificá-los.

O que é extraordinário é que eles passaram rapidamente de amadores a profissionais e passaram a contactar com os maiores profissionais da Europa e dos Estados Unidos. Essas foram as primeiras áreas.

Mais tarde, dedicaram-se à bioquímica e à genética e melhoramento de plantas, e trabalharam muito com os laboratórios de Estado que foram fundados na altura do Estado Novo, como por exemplo a Estação Agronómica Nacional e a seguir um dos contributos mais relevantes foi a introdução da Genética Molecular em Portugal, pelo padre Luís Archer, que foi o primeiro doutorado em Genética Molecular, doutorou-se nos Estados Unidos, que veio para Portugal e introduziu esta disciplina importantíssima para a investigação em Biologia, nos anos 60 do século XX.

Por isso começando pela botânica e zoologia, passando pela bioquímica e acabando na genética molecular, os jesuítas foram importantíssimos para a ciência em Portugal no Século XX.

Essa tendência mantém-se actualmente?
Ultimamente é mais raro, desde que acabou a Brotéria Genética, que foi dirigida pelo padre Luís Archer em 2002, não há tantos jesuítas a formarem-se em ciência. Penso que há um ou dois que estão a fazer o doutoramento em física, mas não tem acontecido.

O que é peculiar na Companhia de Jesus é que esta ordem religiosa incentiva sempre os seus membros a prosseguirem os seus estudos e a fazer doutoramentos. Não necessariamente em ciência, pode ser em filosofia, em teologia, há jesuítas que fazem em arquitectura, ou até em ciência política, o que é peculiar é isto, de serem sempre incentivados a estudar mais.

No caso português e no caso do regresso no século XIX a ciência era obviamente uma aposta importante. Quando estão mais instalados, como aconteceu, já cá estão desde 1930, quando regressaram depois de expulsos pela Primeira República, já não é tão importante a ciência.

A sua própria área de formação é científica...
Comecei a estudar bioquímica e agora fiz o doutoramento em história e filosofia das ciências.

Tendo em conta a sua própria formação e os estudos que tem estado a fazer, aquela ideia de que a ciência e a religião estão em campos opostos, faz algum sentido?
Essa tese foi muito popularizada no século XIX por White e Draper e o que acontece é que chegou ao domínio popular as pessoas pensarem que se trata de uma coisa real. O que se vê nos cientistas jesuítas é que não existe esta incompatibilidade, nem sequer esse assunto aparece nos seus trabalhos. As pessoas falam na tese incompatibilista, se há ou não uma conciliação entre as duas áreas, e o que acontece na realidade é que os cientistas não ligam a esta incompatibilidade inventada no século XIX. O caso mais conhecido, de que se fala mais é o de Galileu, no século XVII, e que é apresentado como paradigmático, quando pelo contrário foi apenas um caso raro e que não é representativo do que aconteceu ao longo da história da Igreja e da humanidade.

Esse mito da ciência e da fé como incompatíveis é um mito que hoje em dia os historiadores da ciência não acreditam. Por exemplo, um dos grandes historiadores da ciência americano, que é o John Heilbron diz que a Companhia de Jesus foi a maior instituição que promoveu a Física no Século XVII. Ele diz que é a Igreja Católica e dentro da Igreja Católica, a Companhia de Jesus. Há imensos historiadores da ciência ateus, como por exemplo o Ronald Numbers, que escreveu um livro sobre Galileu e os mitos da história da Ciência, voltam a veicular esta ideia de que não há qualquer incompatibilidade entre fé e ciência. No entanto os escritos do século XIX e o Positivismo fizeram aumentar a consciência desta tese junto das pessoas. Por isso, apesar de no meio académico estar resolvida esta questão, nos meios menos académicos as coisas não são assim são simples.

Aliás, há uma série figuras ligadas a grandes descobertas ou teorias científicas que são não só crentes como clérigos. Estou a pensar em Lemaitre, da Teoria do Big Bang.
Basta pensar em Copernico, ou Mendel, que descobriu os factores da hereditariedade, que era monge.

Mesmo a história de Galileu é muitas vezes mal contada, não é? Ele não foi queimado nem morreu fora da Igreja...
Morreu velho em sua casa, em prisão domiciliária. Nunca foi excomungado nem abandonou a Igreja.

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