Showing posts with label Guerra Justa. Show all posts
Showing posts with label Guerra Justa. Show all posts

Monday, 12 December 2022

Amar Jesus nos marginalizados, a caminho do Natal

Espero que tenham tido um óptimo feriado. Para mim o 8 de Dezembro é especial, porque faz 17 anos que comecei a construir a maior e mais bela obra da minha vida. O dia em que me casei. Pude voltar ao local onde tudo começou, agora com os meus filhos, e ver a Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, já com as obras de restauro praticamente concluídas. Se tiverem possibilidade visitem, porque está absolutamente espetacular!

Nas notícias, temos esta semana um novo episódio do Hospital de Campanha. Neste episódio conversamos com Luís Abrantes, que trabalha no Vale de Acór, e nos ajuda a compreender como é possível ver Jesus nos marginalizados, nas feridas da sociedade, naqueles que o mundo acha que são descartáveis. É uma excelente maneira de entrar no espírito de Natal, o verdadeiro espírito de Natal, que celebra e encontra a dignidade na fragilidade.

Todos sabemos o que é uma Conferência Episcopal. Mas para que serve uma Conferência Episcopal? E, mais importante, para que é que o Papa Francisco acha que servem as conferências episcopais? Um artigo interessante a ler no The Catholic Thing desta semana.

E por falar em dignidade, voltamos ao tempo em que essa palavra aparece travestida. Tal como “compaixão”. Eu acredito na boa-vontade de muitos dos que nos tentam convencer que a eutanásia pode ser um acto de bondade. Mas é preciso mostrar que estão enganados e que nada há de digno numa morte higienizada, encomendada e receitada. Não tenho sobre isso nenhum texto novo, mas tenho uns quantos antigos que não perderam actualidade. Comecem por este, depois é só seguir os outros links.

O Papa Francisco escreveu uma carta ao povo ucraniano. A carta é bonita, mas aparentemente não diz nada em especial de novo. Olhando mais de perto, contudo, encontramos uma frase que mostra o que acontece quando volumes e volumes de teoria esbatem de frente com a realidade. Leiam aqui como o Papa reconhece implicitamente, nesta carta, que existem guerras justas e que a batalha que os ucranianos travam encaixa nessa definição.

Como sabem, gosto especialmente de realçar o cruzamento entre o futebol e a religião, sem, claro, sacralizar o desporto. O meu mais recente artigo para o World Mission é precisamente sobre esse fenómeno. Cliquem aqui, nem que seja para ver a belíssima fotografia que escolheram para acompanhar o texto.

Wednesday, 7 December 2022

O Papa e a Guerra Justa. Volumes de teoria e uma frase de realidade

O Papa tem falado frequentemente de guerra desde que foi eleito. Por exemplo, tem tido a clarividência para dizer – e bem – que estamos a viver uma “Terceira Guerra Mundial às prestações”, apesar de na Europa central e ocidental estarmos no maior período de paz da nossa história.

Tem também insistido na necessidade da paz e apelado ao fim de múltiplos conflitos em todo o mundo, incluindo os que já foram esquecidos pelo resto dos líderes mundiais.

Mas o Papa tem sido também criticado por estar a pôr em causa a tradição cristã da Teoria da Guerra Justa. Na encíclica “Fratelli Tutti”, Francisco diz o seguinte:

Nas últimas décadas, todas as guerras pretenderam ter uma ‘justificação’. O Catecismo da Igreja Católica fala da possibilidade duma legítima defesa por meio da força militar, o que supõe demonstrar a existência de algumas ‘condições rigorosas de legitimidade moral’. Mas cai-se facilmente numa interpretação demasiado larga deste possível direito. Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques ‘preventivos’ ou ações bélicas que dificilmente não acarretem ‘males e desordens mais graves do que o mal a eliminar’. A questão é que, a partir do desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas e das enormes e crescentes possibilidades que oferecem as novas tecnologias, conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes. É verdade que ‘nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem’. Assim, já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!

Segundo a tradição cristã os critérios para que uma guerra seja considerada justa são as seguintes:

  • Deve haver a certeza de uma ameaça duradora e grave por parte da entidade à qual se vai declarar guerra
  • Todos os outros meios para pôr fim ao conflito devem ter sido esgotados
  • Deve existir uma perspectiva séria de sucesso
  • O uso da força armada não deve produzir um mal maior do que aquele que pretende eliminar

A forma mais simples de entender o argumento do Papa Francisco é de que na era das armas nucleares estas condições nunca se cumprem, porque o risco de causar um mal maior do que aquele que se pretende evitar estão sempre presentes.

Francisco tem sido muito criticado por esta posição. Parece-me justa e equilibrada esta apreciação do jesuíta Francisco Sassetti da Mota, numa recensão que aparece nas páginas finais da edição de Novembro da revista Brotéria, a uma obra que reúne textos soltos do Papa sobre a temática da guerra:

É discutível que tudo o que o Papa Francisco afirma seja tecnicamente rigoroso. (…) o enamoramento por uma linguagem radicalmente pacifista é ingénuo, pouco fundado na tradição cristã e em muitos casos perigoso para o inocente oprimido. Mas essa falta de rigor em alguns pontos não pode condenar o que o Papa Francisco tem para dizer de mais fundamental: a violência perturba a ordem desejada por Deus.

Tem-se pensado muito nesta problemática desde que começou a guerra na Ucrânia. Em primeiro lugar, quantos de nós, quando a guerra começou, acreditavam que a Ucrânia tinha sérias perspectivas de sucesso no campo de batalha? Desse ponto de vista, devíamos ter defendido a rendição imediata. Uma das frases mais significativas desta década foi “não preciso de boleia, preciso de munições”, e com isso começou a desenhar-se o fantástico desempenho das forças armadas ucranianas que estão cada vez mais próximas de libertar o seu território todo.  

O Papa tem sido incansável a falar da guerra na Ucrânia, criticando sem margens para dúvidas a invasão russa. Tem sido por vezes criticado por recordar que do lado russo também há sofrimento, por exemplo, ou por apelar a negociações quando os russos não revelam qualquer intenção de devolver à Ucrânia a soberania sobre os territórios ocupados. Mas permaneceu sempre a dúvida. O Papa acredita que os ucranianos devem estar a fazer valer a sua posição pelo uso da força? Dito de forma mais simples: O ucraniano que parte para combater os russos nos territórios ocupados está a fazer bem, ou mal?

Depois de textos suficientes para encher um volume sobre a guerra e a paz, o Papa disse finalmente uma frase que parece dar-nos a resposta que procuramos. Na carta escrita ao povo ucraniano, por ocasião dos nove meses da guerra, Francisco diz: “Penso em vós, jovens, que, para defender corajosamente a vossa pátria, tivestes de pegar em armas em vez dos sonhos que nutríeis para o futuro”.

Reparem na escolha da palavra, nada acidental. “Tivestes”. Não “optastes”, não “quisestes”, mas “tivestes”. E mais, esse pegar em armas não é uma mera fatalidade, é um acto de coragem. 

É numa situação como a guerra da Ucrânia que toda a teoria sobre guerra, paz, justiça e injustiça cai por terra e temos de nos confrontar com a realidade. Uma nação poderosa, liderada por um tirano, invadiu uma terra estrangeira, sob falso pretexto, procurando subjugá-la, eliminar a cultura dos seus habitantes, espalhando terror, tragédia e morte. Perante isto não há teorias bonitas sobre espadas convertidas em arados, não há cálculos frios sobre se a defesa tem probabilidades de sucesso ou não, e daí ser ou não lícita. O que há é uma obrigação moral de defender o inocente, de travar o assassino, de fazer frente à injustiça.

Esteve bem o Papa em reconhecer a força desta realidade e de perceber quando escreve aos ucranianos – que tanto tem apoiado, e por quem tanto tem rezado – que eles precisam tanto de lições de guerra justa como precisam de boleias.


Leia também: 

Declarações de líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia

E se a Rússia perder esta guerra? O que vem depois da ressaca

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Todos pela Ucrânia, mas até quando?

Dimensões religiosas da Crise na Ucrânia

Igrejas Ortodoxas na Ucrânia - Em que ficamos?


Wednesday, 18 April 2018

Actualizar a Teoria da Guerra Justa

Nota: Este texto foi escrito e enviado para publicação antes de os EUA, França e Reino Unido terem lançado ataques coordenados à Síria. Contudo, todo o teor do texto mantém-se actual. 

Ao longo de séculos a “teoria da Guerra Justa” foi proposta e desenvolvida por uma série de grandes pensadores – Cícero, Agostinho, Aquino, Francisco de Vitória, Francisco Suárez, Hugo Grócio e outros.

No passado o que estes pensadores tinham em comum, para além da intenção de combater a praga incessante de guerras, era a visão do que era a guerra. Nomeadamente, alguma nação com uma capacidade militar formidável ameaçava outra nação, ou nações. Estas teriam então de deliberar se os seus recursos militares eram adequados, se os meios não-militares poderiam ainda anular a ameaça, ou se, como último recurso, a acção militar os poderia proteger ou se tornaria a situação pior.

Os princípios sublinhados pelos teóricos da Guerra Justa incluem: a urgência da ameaça, a viabilidade da negociação, identificação da autoridade certa, consoante os diferentes sistemas políticos, para declarar ou iniciar guerra, discernir se as consequências da guerra poderiam ser piores que a rendição e ainda as considerações éticas sobre armas letais, tratamento de prisioneiros de guerra e o sofrimento de não-combatentes, etc.

Uma imagem de exércitos perfilados, por vezes com aliados, a enfrentar e a conquistar outros exércitos no campo de batalha, era partilhada por todos estes teóricos, até durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, a que se juntavam infantarias poderosas, explosivos, poder aéreo, submarinos e outros produtos da engenharia moderna.

Mas o cenário começou a alterar-se seriamente durante e depois da Segunda Guerra Mundial – arsenais nucleares, guerra de guerrilha, agentes químicos ou biológicos tremendamente letais – em suma, a possibilidade de mortandade em quantidades e intensidades jamais concebíveis. Se Júlio César ou Genghis Khan tivessem uma bomba atómica provavelmente hesitariam em usá-la para conquistar os territórios que planeavam ocupar.

Ainda a semana passada, depois de ter dito que estava “prestes” a abandonar a Síria, o Presidente Trump ameaçou lançar mísseis contra a Síria, por causa do ataque mortífero com armas químicas contra civis em Douma, ocupada por rebeldes. O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que “uma agência de informação estrangeira” levou a cabo este ataque e um membro da Comissão de Inquérito da ONU aponta para indícios de que os rebeldes anti-Assad possam ser responsáveis.

De facto é estranho que Assad, que tem estado a ganhar a guerra contra os rebeldes, tivesse provocado esta retaliação internacional nesta altura. Mas os Estados Unidos e os seus aliados russos e britânicos estão perfeitamente convencidos de que ele ordenou o ataque e que tem de haver uma resposta tanto para punir a Síria e dissuadir novos ataques da mesma natureza.

É precisamente neste campo que se tornaram bastante complicados os “juízos prudenciais” que, outrora, eram bastante simples. Uma primeira pergunta a colocar por um teorista da Guerra Justa seria: Existe alguma ameaça clara ao nosso país? Obviamente, a Síria não ameaça directamente, de forma alguma, os Estados Unidos. Mas de facto, um ataque à Síria, que tem a Rússia como aliada, poderia levar a uma nova Guerra Fria, ou pior.

O Presidente Trump lançou um ataque com mísseis à Síria em Abril de 2017 e parece confiante que seria possível repetir a façanha sem enfurecer o urso russo. Mas este tipo de diplomacia arriscada não se limita a desafiar os poderes constitucionais para fazer guerra que o Presidente detém, resultam num improviso no que toca a justificar as guerras. Para além disso, a deposição de Assad, em vez de melhorar a situação, poderia levar os extremistas islâmicos ao poder, o que não é melhoria alguma.

E estas complexidades não se limitam ao Médio Oriente. A Teoria da Guerra Justa tradicional não parece capaz de lidar com muitas outras realidades contemporâneas e precisa desesperadamente de se ser aprofundada e desenvolvida se queremos continuar a contar com a sua orientação para as nossas nações e os nossos líderes. Eis alguns exemplos de assuntos que precisam de ser analisados cuidadosamente:

·         A doutrina da Destruição Mútua Assegurada (DMA), em que duas potências nucleares em guerra poderiam facilmente aniquilar-se uma à outra – ou até conduzir a um estado de apocalipse caso outras potências nucleares entrassem no combate – prevalece ainda. Haverá alguma crise contemporânea tão grave que justificaria o recurso a armas nucleares para atacar de forma preventiva um rival? Milhares de “células” terroristas surgem à volta do mundo. Algum exército, marinha ou força aérea pode ser usada efectivamente contra elas?

·         O uso alargado de “escudos humanos” – lança-mísseis em hospitais, explosivos armazenados em escolas, terroristas a estabelecer-se em cidades, rodeados de não-combatentes inocentes e impedindo os civis de sair da cidade. Haverá justificação para destruir um hospital ocupado por terroristas a operar artilharia?

·         A possibilidade de acidentes devido a erros, levando a guerras por nada. O recente incidente no Havai recorda-nos que já houve incidentes parecidos, que poderiam mesmo ter selado o destino do mundo, no passado.

·         Líderes de potências nucleares loucos e/ou suicidas que se estão nas tintas para a aniquilação mútua. O DMA baseia-se no pressuposto de que os líderes mundiais são agentes racionais e não misantropos com tendências suicidas.

·         Jihadistas sob influência de crenças religiosas, apostados em converter o mundo, se necessário pela força.

Apocalipse, quando?
Num mundo ideal, talvez procurássemos:

·         O desarmamento nuclear e a proibição absoluta da proliferação – embora seja difícil imaginar isto a acontecer depois de que se passou com Khadaffi, que desarmou em 2003.

·         Sistemas de inteligência à prova de erro, capazes de impedir planos de ataque transmitidos eletronicamente.

·         A rejeição da construção de mais mesquitas sem garantia de reciprocidade e construção de igrejas no Médio Oriente. A falta de reciprocidade tem facilitado a importação de agentes religiosos violentos, operando sob o disfarce unidirecional de “liberdade religiosa”.

Mas há outras sugestões mais práticas e menos idealistas, como:

·         Bombardeamentos “cirúrgicos” de reactores nucleares em “estados pária”, como Israel fez no Iraque em 1981 e na Síria em 2007, o que requer recursos de informação muito detalhados.

·         Identificação e destruição de todos os arsenais químicos e biológicos, bem como o desmantelamento de arsenais capazes de produzir explosões nucleares a alta atitude, causando uma “pulsão electro-magnética” capaz de incapacitar os recursos electrónicos em várias nações.

·         Um “Plano Marshall” nuclear, oferecendo auxílio em troca da transformação de instalações nucleares perigosas em centrais nucleares pacíficas – avançando assim a profecia bíblica que prevê a transformação de espadas em arados (Isaías 2, 4).

·         Pegando no exemplo do assassinato de Osama bin Laden e outros terroristas, o assassinato dos líderes mais demoníacos, que escravizam as suas populações e ameaçam destruir os Estados Unidos.

Segundo o famoso “relógio do juízo final”, mantido pelos Cientistas Atómicos, a humanidade está actualmente a “dois minutos da meia-noite”. Por isso aqueles de entre nós que sonhamos com a paz mundial sentem uma certa urgência. Não se trata de uma urgência exagerada, talvez tenha chegado o momento de “pensar fora da caixa”.

Os desenvolvimentos diplomáticos recentes indicam que possa estar prestes a realizar-se um encontro inédito entre o Presidente Trump e Kim Jong-un, da Coreia do Norte em Maio. O Presidente insiste na desnuclearização como pré-condição para um encontro e Kim parece pronto a aceitar isso, dizendo que “o assunto da desnuclearização da Península Coreana pode ser resolvido” se os EUA e a Coreia do Sul responderem “com boa vontade”.

Depois de fracassados tantos esforços diplomáticos para remover uma das maiores ameaças à paz mundial, podemos de facto depositar alguma esperança neste tipo de encontro?

Kim não se encontra na posição vulnerável de Khadaffi no que diz respeito ao desarmamento. Ele continua a ter a China a apoiá-lo, e tem a Coreia do Sul pronta para a reunificação. Transformar “espadas em arados” naquela região não é totalmente inimaginável – embora seja certamente “fora da caixa”.

Mas para dizer a verdade a estratégia menos prática para a paz mundial seria provavelmente a mais eficaz. Estou a pensar na batalha de Lepanto, em 1571, em que uma pequena frota cristã derrotou uma armada turca, bem como na cruzada do Rosário na Áustria, em 1955, que conduziu à retirada dos exércitos soviéticos. Por outras palavras, estou a falar numa cruzada do Rosário mundial. Mas sim, eu sei, isto é demasiado “fora da caixa”.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 14 de Abril de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 17 September 2014

O que a Guerra é Realmente

Tem surgido alguma ambiguidade, tanto no Vaticano como na Casa Branca, sobre o que se deve fazer acerca da barbaridade que está a ocorrer no Médio Oriente e que tem chocado todo o mundo. Nem se sabe bem o que se lhe deve chamar.

Começou com um artigo escrito pelo Pe. Luciano Larivera, S.J., no La Civiltà Cattolica (uma revista jesuíta publicada em Roma e que é considerada uma referência, se bem que indirecta, do pensamento do Papa): “Obviamente, para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse. É fundamental estudar e perceber como é que o Estado Islâmico luta. A sua é uma guerra de religião e aniquilação”.

Isto é simples realismo cristão e a mais pura verdade sobre o actual conflito, que os nossos líderes americanos parecem recusar-se a aceitar. Mas depois de muitas distorções nos media, o padre Antonio Spadaro, SJ, o editor chefe do Civiltà, explicou: “O Estado Islâmico pensa que é uma ‘guerra de religião’, mas nós devemos ter o cuidado de não pensar dessa forma.”

Tudo bem. Há muito que o Cristianismo abandonou a ideia de que é legítimo o uso da força para promover a fé – como Bento XVI sublinhou no seu discurso profético em Ratisbona. Mas não deixamos de ter a responsabilidade de dizer a verdade sobre o que se está a passar bem como encarar a questão de como responder a uma força agressiva que mata os inocentes, escraviza sexualmente as mulheres, decapita ocidentais em público e declara ter como objectivo a imposição, pela força das armas, da sua religião aos não-crentes.

Entramos aqui num terreno sempre polémico: onde é que deixamos os princípios morais absolutos – que são a primeira competência da Igreja – e entramos na aplicação prudente desses princípios, em contextos complicados. Excepto em casos de agressão injusta, o juízo sobre o uso legítimo da força cabe aos líderes seculares e não aos papas nem aos bispos.

O mundo secular raramente compreende a distinção. No voo de regresso da Coreia, em meados de Agosto, o Papa disse: “É lícito travar um agressor injusto. Sublinho o verbo: travar. Não digo bombardear nem fazer guerra, digo impedir de alguma maneira”.

Os media seculares, e mesmo alguns órgãos católicos, reagiram mal: Se não é para bombardear, então qual é a estratégia do Papa? Como se o Sumo Pontífice tivesse de ter uma estratégia militar, qual presidente dos EUA. A minha aposta é de que o Papa estava a afirmar a necessidade de agir – naturalmente através do uso da força –, mas deixando claro que, apesar do horror da violência do Estado Islâmico, não cabe ao Papa defender os bombardeamentos americanos nem as decisões práticas de qualquer outra nação.

Mas na semana passada disse à Comunidade de Sant’Egidio: “A guerra nunca é uma forma satisfatória de corrigir injustiças... A guerra conduz as pessoas a uma espiral de violência que se torna difícil de controlar. Destrói aquilo que levou gerações a estabelecer e abre caminho a conflitos e injustiças ainda piores”.

"Diálogo" ao estilo do Estado Islâmico
Calculo que na emoção do momento, como tende a fazer, Francisco foi um bocadinho mais longe do que queria. O pensamento moral católico há muito que aceitou que as autoridades católicas têm por vezes a responsabilidade de recorrer à força. E temos exemplos de guerras boas, como a derrota dos nazis pelos aliados. Como explica o Catecismo da Igreja Católica:

[2307]Cada cidadão e cada governante deve trabalhar no sentido de evitar as guerras.

Apesar desta admoestação da Igreja, por vezes torna-se necessário usar a força para obter os fins da justiça. Este é um direito, e o dever, de todos os que têm responsabilidade pelos outros, tal como líderes civis e forças policiais. Enquanto os indivíduos têm o direito de renunciar a toda a violência, aqueles que preservam a justiça não o podem fazer, embora deva ser sempre um último recurso, “falhados todos os esforços de paz”.

É claro que existem os limites das condições sobre a decisão de ir para a guerra (ius in bellum) e o comportamento durante o combate (ius in bello). O juízo prudente dos líderes civis nestas matérias é, justamente, alvo de escrutínio cuidadoso. Em retrospectiva, muitos dos que acreditavam que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça vieram mais tarde a concluir que a decisão do presidente Bush de atacar o Iraque foi um erro. Da mesma forma, muitos consideram agora que a decisão de Obama de retirar as tropas do Iraque foi um erro e que, por isso, ele depara-se agora com limites à sua acção contra o Estado Islâmico que podem bem tornar a sua estratégia inútil. Este é um problema grave, uma vez que um dos critérios para a guerra justa é a existência de uma possibilidade razoável de sucesso, que é como quem diz, a existência de um benefício proporcional na decisão de matar pessoas e partir coisas.

É claro que o Papa sente a tragédia de todas as guerras e o pecado que está por detrás delas: “Ganância, intolerância, sede de poder... Estes motivos estão por detrás da decisão para ir para a guerra e, demasiadas vezes são suportadas por uma ideologia; mas em primeiro lugar há uma paixão ou um impulso distorcidos. A ideologia é apresentada como justificação quando não existe qualquer ideologia, mas apenas a resposta de Caim: ‘Que me interessa isso? Serei eu o guarda do meu irmão?’”

Noutras alturas, porém, ele e a Igreja reconhecem que o “uso justo da força” – caso queiram evitar a palavra “Guerra”, como parece ser a vontade da Casa Branca – serve precisamente para podermos ser os “guardas do nosso irmão”. Talvez seja necessário recordar o Vaticano disso. Irmãos cristãos, yazidis, curdos e muçulmanos de várias confissões, foram expulsos das suas casas, mortos ou marcados para genocídio. Não é possível negociar com os agressores. Não há diálogo ao alcance dos homens que seja capaz de fazer a menor diferença na mortandade.

Podemos preferir que não fosse assim. Podemos lamentar a herança da história e da violência do passado. Podemos reconhecer os nossos próprios pecados e pedir a Deus uma solução que não somos capazes de encontrar sozinhos. Mas entretanto temos apenas os meios ao nosso alcance e não podemos demitir-nos da responsabilidade de proteger aqueles que sofrem agressões.

Mesmo que não possamos fazer nada, podemos pelo menos dizer a verdade, porque: “para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse”.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 15 de Setembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar