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Wednesday, 8 November 2023

O Caso Rupnik: Como é que isto ainda está a acontecer?

Stephen P. White

A semana passada a Santa Sé anunciou que o Papa Francisco tinha decidido levantar o prazo de prescrição nas alegações contra o antigo jesuíta e famoso artista Pe Marko Rupnik. O padre esloveno tem sido acusado por mais de duas dúzias de mulheres de abusos sexuais, espirituais e psicológicos, praticados ao longo de várias décadas. A decisão do Papa de levantar o prazo de prescrição neste caso é, por isso, bem-vindo.

Contudo, a decisão de levantar o prazo de prescrição sobre estas alegações teria sido muito mais bem-vindo caso tivesse sido tomada bem mais cedo, e se o caso, até agora, tivesse sido tratado com um pingo de transparência, e se a concessão à justiça não tivesse tido de ser arrancado a ferros, por assim dizer, ao Papa, por um grito colectivo de indignação e justa revolta por parte dos fiéis e, especialmente, por muitas vítimas de abuso sexual na Igreja.

Não temos espaço aqui para elencar todos os detalhes da saga do caso de Rupnik, nem sequer os detalhes que são públicos, mas é necessário fazer um pequeno resumo para compreender o quão inexplicável e desadequado tem sido o tratamento dado a este caso.

As primeiras alegações conhecidas sobre as más-práticas e os abusos sexuais cometidos por Rupnik chegaram à atenção dos jesuítas em 2018. Tendo sido consideradas credíveis, estas alegações foram encaminhadas para a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Elas incluíam a alegação de que Rupnik tinha dado absolvição a uma cúmplice no pecado contra o Sexto Mandamento – um crime grave que incorre em excomunhão automática.

Em Março de 2020, depois de os jesuítas terem determinado que Rupnik tinha provavelmente incorrido excomunhão, e depois de terem enviado o caso para a CDF para maior investigação, mas antes de a congregação ter confirmado (e subsequentemente levantado) a dita excomunhão, o Pe Rupnik foi convidado a pregar um sermão quaresmal ao Papa na Cúria Romana.

Um ano mais tarde, em 2021, os jesuítas levaram a cabo outra investigação de alegações contra Rupnik feitas por membros femininos da sua antiga comunidade na Eslovénia. Esta investigação determinou que existiam indícios suficientes para desencadear um processo penal contra Rupnik. Pela segunda vez em dois anos, as alegações credíveis contra ele foram submetidas à CDF, desta vez com a recomendação de que fosse iniciado um processo penal.

Estas alegações foram submetidas à Congregação para a Doutrina da Fé em Janeiro de 2022. Nesse mesmo mês, o Papa Francisco encontrou-se pessoalmente com Rupnik. Um mês mais tarde o padre foi sujeitado a novas restrições pelos seus superiores jesuítas. Em Outubro de 2022 a CDF – agora conhecida como Dicastério para a Doutrina da Fé – determinou que tinha sido ultrapassado o prazo de prescrição, e por isso não seria aberto um processo canónico.

No início deste ano, em 2023, os jesuítas abriram outra investigação interna contra Rupnik – pelas minhas contas, a terceira investigação no espaço de cinco anos. Entretanto, Rupnik violou as restrições que lhe tinham sido impostas pelos jesuítas. Esta persistente desobediência levou-o eventualmente a ser expulso da Sociedade de Jesus em Junho deste ano.

O que nos traz à decisão, tornada pública há duas semanas, de que o Pe Marko Rupnik tinha sido incardinado na diocese Eslovena de Koper onde, segundo uma declaração daquela diocese, “goza de todos os direitos e deveres dos padres diocesanos”.

Como é que é possível que alguém, no ano 2023, pudesse pensar que a resolução justa para o caso de um padre que enfrenta tantas alegações, confirmadas como sendo credíveis em tantas investigações diferentes, de tantos acusadores, ao longo de tantos anos, passasse por devolvê-lo discretamente ao ministério, num local diferente e sob as ordens de um novo superior?

Nada disto faz sentido. Não faz sentido se ele for culpado, e não faz sentido se ele for inocente. Talvez por isso ninguém pareça estar interessado em defender a forma como tudo isto tem sido tratado. Chegámos ao ponto exasperante em que a interpretação mais caridosa possível de tudo o que se passou é a incompetência burocrática.

Se existe uma explicação boa, razoável ou sequer plausível para a forma como se tem lidado com o caso, o Vaticano, como de costume, não tem mostrado qualquer vontade de se explicar a ninguém.

Com Roma a querer dizer o menos possível, a mensagem que se passa não é de preocupação pelas vítimas, nem de dedicação à transparência, nem um esforço para restaurar a confiança, nem a determinação de que a justiça seja não só feita, como se veja que foi feita. Antes, a mensagem que passa (certamente sem intenção) é de um gritante desprezo pela inteligência dos fiéis e de total desrespeito pelas vítimas dos abusos sexuais na Igreja.

O problema de tudo isto vai muito para além da culpa ou da inocência do próprio Rupnik, ou sequer da necessidade de justiça e de cura para os que possam ter sofrido os seus abusos. É a paciência das vítimas de abusos que está a se repetidamente posta à prova, a confiança dos fiéis que está cada vez mais saturada e os obstáculos à proclamação do Evangelho que se tornam cada vez maiores à medida que a credibilidade da Igreja diminui.

A revolta que se fez sentir com a notícia do regresso de Rupnik ao ministério foi de tal ordem que a Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores interveio, convencendo o Santo Padre a mudar de rumo. Ainda bem para a Comissão, e ainda bem para o Papa por voltar atrás no que diz respeito ao prazo de prescrição.

Tudo dito, é difícil imaginar uma resolução para o caso de Rupnik que possa desfazer a percepção já criada por este caso, nomeadamente de que não obstante todos os esforços de reforma, muito elogiados, do Papa Francisco, na verdade pouca coisa mudou. Como é que a Igreja pode afirmar credivelmente ter aprendido com as suas falhas do passado no que diz respeito a criminosos influentes como Maciel e McCarrick, quando ainda hoje se continuam a passar-se casos inexplicáveis como o de Rupnik?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 2 de Novembro de 2023)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Friday, 3 November 2023

Papa confirma Dubai e erros transparentes

Imagem gerada com
inteligência artificial

O Papa Francisco confirmou na quarta-feira que vai à COP28, que se realiza no Dubai. Francisco estará lá de 1 a 3 de Dezembro, podendo por isso ainda receber a delegação da organização da JMJ, no dia 30 de Novembro, na Santa Sé. Não é todos os dias que um jornalista consegue um furo a nível mundial, portanto permitam-me regozijar um pouco com o facto de eu ter dado esta notícia há 15 dias, publicada aqui no Expresso (só para assinantes) e aqui no The Pillar.

Na quarta-feira passada a Conferência Episcopal enviou para as redacções uma nota dando conta do número de pessoas – padres e leigos – que foram afastadas cautelarmente das suas funções por suspeitas de abuso sexual desde que foi publicado o relatório da Comissão Independente. A surpresa com que vi esses números foi grande, pela simples razão de que estavam todos errados. Não escrevi nada sobre o assunto no mail da semana passada porque precisei de mais tempo para poder verificar e ter a certeza que o erro não era meu, mas agora posso afirmá-lo com segurança. Escrevi aqui um texto a explicar como é que surgiu o erro, e a tirar algumas conclusões. Sublinho que não foi por deter informações secretas que percebi que os números estavam mal, bastou-me recorrer a dados que são públicos, seja por notas publicadas pelas dioceses, seja por informação recolhida por mim e entretanto publicada no meu blog, aqui, aqui e aqui.

Digo-o no meu texto, mas quero deixar claro aqui que não estamos perante um caso de encobrimento por parte das comissões diocesanas (de onde partiram os erros), mas sim de descuido, ou pelo menos estou disso convencido. Contudo, se todos concordamos que a transparência é um dos factores essenciais para lidar com este flagelo na Igreja, então os organismos da Igreja têm uma responsabilidade acrescida de fornecer números e informações rigorosas. Temos um longo caminho para fazer nesse sentido.

Ainda sobre o tema dos abusos, agora chegou a vez de Espanha, e houve um volte-face no caso do Pe Rupnik, que afinal vai ser julgado pelos crimes de abusos sexuais sobre freiras de quem era director espiritual.

Chegou ao fim o Sínodo sobre a Sinodalidade. Foi sem estrondo, nem dramas. Recordemos, porém, que o processo ainda vai a meio.

Continua a tragédia da guerra na Terra Santa. Os líderes cristãos da região não fizeram grandes declarações nos últimos dias, à excepção do Patriarcado Greco-Ortodoxo, que criticou duramente o facto de Israel estar a atingir centros culturais, desportivos e locais de culto em Gaza. A Ajuda à Igreja que Sofre tem estado em contacto diário com a comunidade católica que está na Igreja da Sagrada Família em Gaza. É grande o cansaço, e só não falo em desespero porque, como diz a irmã Nabila, “só temos Deus”. Rezem, por favor, pela paz em geral, mas especialmente para que Deus console estes cristãos em Gaza. E se quiserem enviem-me mensagens que eu talvez consiga fazer-lhes chegar através da AIS. No caso da minha família, enviámos uma fotografia dos filhos com um desenho a dizer que estamos a rezar por eles. Parece pouco, mas é um encorajamento para quem lá está, saber que não estão esquecidos.

E porque a guerra na Terra Santa nos pôs a falar novamente sobre a questão do terrorismo islâmico, o artigo desta semana do The Catholic Thing fala precisamente sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão, recorrendo a citações de grandes pensadores, incluindo São João Paulo II.

Friday, 29 September 2023

Tragédia para cristãos no Iraque e Nossa Senhora do Rugby

Começo com uma tristíssima notícia. Mais de cem pessoas terão morrido num incêndio que deflagrou durante a festa de um casamento, no norte do Iraque. Porque é que esta notícia diz respeito à Actualidade Religiosa? Porque atingiu precisamente a já frágil e sofredora comunidade cristã daquele país, embora a maioria dos órgãos de comunicação social – certamente por ignorância e não por preconceito – não o tenham referido. Aqui explico porque é que este é mais um golpe duro para os cristãos iraquianos.

É já no sábado o consistório que elevará D. Américo Aguiar a cardeal. Em princípio eu estarei na SIC Notícias de manhã para comentar o assunto, e sairá um artigo no Expresso sobre o Colégio dos Cardeais depois desta nova remessa criada por Francisco, fiquem atentos e para a semana envio links. Entretanto, o novo bispo de Setúbal deu uma entrevista em que faz um balanço da JMJ.

Infelizmente, as minhas previsões sobre a tragédia humanitária e limpeza étnica em Nagorno Karabakh estão a realizar-se. Mais de metade da população arménia daquele enclave já se refugiou na Arménia propriamente dita. É o fim de uma cultura milenar, num dos berços e últimos redutos do Cristianismo na região do Cáucaso.

A selecção portuguesa de rugby está a entusiasmar e domingo tem um novo teste de fogo contra uma Austrália aparentemente enfraquecida. O rugby é o tema do meu mais recente artigo no The Pillar. Mas o que é que o rugby tem a ver com religião, perguntam? Pois perguntam muito bem. Talvez Nossa Senhora do Rugby possa esclarecer.

O caso do Pe Rupnik continua a dar que falar e agora tem uma nova dimensão portuguesa. Saibam tudo aqui.

E o Papa esteve em Marselha para uma visita relâmpago, onde falou sobretudo da importância de tratar os migrantes como pessoas plenas de dignidade.  

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Stephen White explica porque é que um dos grandes problemas da nossa sociedade é o facto de termos perdido a noção do pecado.

Friday, 23 June 2023

Falta de Liberdade Religiosa no Mundo e de noção na TVI

O Papa confirmou esta quinta-feira que vem a Lisboa. Claro que isto vale o que vale, uma vez que nem o Papa pode prever o futuro, mas é um excelente indicador para a JMJ.

Quase dois terços da população mundial vivem em países onde a liberdade religiosa não é respeitada. Esta é uma das conclusões do Relatório da Liberdade Religiosa da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que hoje está a ser lançada um pouco por todo o mundo. Este é o único relatório não-governamental do género, que cobre todos os países e todas as religiões. Vale a pena aceder ao relatório e explorá-lo.

Como noticiei a semana passada, em primeira mão, o processo relativo ao Pe. Mário Rui foi arquivado e o seu afastamento provisório foi levantado. No domingo, quando ele voltou a celebrar missa publicamente, a TVI achou boa ideia fazer uma reportagem que anunciou no telejornal com a legenda “Padre pedófilo reza missa”, juntando assim a ignorância religiosa à ignorância jornalística e jurídica. Imediatamente surgiu um coro de vozes a protestar e a sugerir fazer uma reclamação à ERC. Neste artigo explico porque é que esta causa em particular nada tem a ver com as nossas opiniões privadas sobre o Pe Mário Rui e o seu caso, mas com a exigência que devemos ter em relação ao jornalismo português. Explico ainda, no post, como podem fazer a dita reclamação.

Entretanto o Patriarca confirmou que outro dos quatro padres de Lisboa também já viu o seu processo arquivado. Já actualizei a cronologia e o post com os dados detalhados sobre os casos conhecidos até agora.

Ainda no triste tema dos abusos, o Pe. Rupnik, o artista conceituado que afinal era um abusador em série, foi expulso dos jesuítas. Reflecti sobre o caso do Pe. Rupnik neste texto, quando o escândalo rebentou, e aconselho a leitura deste texto para compreenderem melhor o que se passou com ele agora.

A Irmã Lúcia poderá estar a caminho dos altares. O Papa abriu caminho ao seu processo de beatificação, esta quinta-feira.

Estive recentemente em mais dois episódios do programa E Deus Criou o Mundo, da Antena 1, onde falámos sobre a perseguição aos cristãos na Nicarágua e aos muçulmanos na China; o papel dos padres na política; o perfil do próximo Patriarca de Lisboa e a posição das religiões sobre as redes sociais. A partir daqui podem ter acesso aos links para os podcasts.

Termino com o apelo para que leiam o artigo desta semana do The Catholic Thing. Devemos contar que o nosso cônjuge mude depois de casar? Stephen P. White escreve sobre o sarilho em que se meteu quando deu a resposta errada num inquérito que supostamente não tinha respostas erradas. Vale muito a pena ler, sobretudo para quem é casado, pretende casar, ou trabalha com casais.

Monday, 26 December 2022

O caso do Padre Rupnik e a purificação do templo

O mais recente escândalo que está a abalar o mundo católico é a da acusação de assédio sexual de religiosas por parte do famoso jesuíta e artista Marko Rupnik. Podem ler tudo o que se sabe sobre este caso aqui, mas leiam também a minha reflexão em que explico que embora haja semelhanças importantes entre o abuso de menores e as relações entre adultos, há também algumas diferenças fundamentais. Se isto justifica a forma como o Vaticano lidou com este caso? Não chego tão longe. A Igreja tem avançado muito na forma de lidar com situações de abuso de menores e talvez seja altura de aplicar algumas dessas lições a outras áreas, como esta. Leiam e comentem, ou no blog ou respondendo para mim, caso tenham alguma coisa a acrescentar. Todos somos poucos para contribuir para estas reflexões.

Várias instituições católicas escreveram ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que ele vete a lei da eutanásia.

O ex-reitor do Santuário de Fátima critica a actual gestão daquele espaço, pedindo uma “purificação do templo”.

Nos últimos dois dias foram raptados mais dois padres na Nigéria. Uma praga sem fim naquele país.

As discussões sobre masculinidade estão na moda. Por um lado, os que insistem que qualquer característica masculina é “tóxica” e do outro os que consideram que um verdadeiro homem deve ser musculado, usar barba, fumar cachimbo e tratar a mulher com condescendência. Onde está o bom-senso? Felizmente ainda existe e o artigo desta semana do The Catholic Thing em português é um bom exemplo disso, com Stephen White a argumentar que se queremos homens que vivem a sua masculinidade de forma saudável não temos de fazer mais do que educá-los para a virtude. Leiam que vale mesmo a pena, e partilhem, sobretudo com homens e jovens pais.

O Mundial acabou, com o troféu a ir para o país do Papa e do jogador com uma tatuagem gigante de Jesus no braço. Fui acompanhando e sublinhando as dimensões religiosas do torneio no Twitter, podem ver aqui, ou aqui, caso não tenham conta no Twitter.

Esta semana, por estarmos em vésperas do Natal, não há Hospital de Campanha, mas se ainda não o fizeram ouçam o mais recente episódio, sobre como amar os mais frágeis da nossa sociedade.

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

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