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Wednesday, 31 May 2023

Sóbria Embriaguez

Pe. Paul Scalia

Coitado de São Pedro. A primeira mensagem Urbi et Orbi, por assim dizer, do primeiro Papa, começou de forma pouco auspiciosa. Não foi com uma audaz proclamação de Cristo, mas sim com um desmentido de que os discípulos estivessem bêbados. “Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia” (Actos 2, 14-15).

É uma cena com bastante piada, e merece estar incluída na primeira leitura do Domingo de Pentecostes – mas não só pelo humor. São Pedro toca aqui num aspecto antigo, mas essencial da devoção ao Espírito Santo: a sóbria embriaguez. Talvez mais valia ter dito que de facto os apóstolos estavam embriagados, mas não da forma como as multidões supunham. Estavam sob o efeito da sóbria embriaguez do Espírito Santo que mais tarde seria encorajada por São Paulo: “E não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito” (Efésios 5,18).

Santo Ambrósio pegaria mais tarde neste tema e escreveria o verso: Laeti bibamus sobriam ebrietatem Spiritus – “Alegres bebamos a sóbria embriaguez do Espírito”, enquanto ensinava que “aquele que se embriaga de vinho cambaleia; aquele, porém, que se inebria do Espírito Santo é enraizado em Cristo. Verdadeiramente excelente é esta embriaguez que produz a sobriedade da alma!” Esta é uma embriaguez que não conduz ao cambalear a arrastar da voz, mas à estabilidade e à clareza. Temos de deixar que o Espírito a produza em nós.

Tal como qualquer paradoxo, é preciso que ambas as partes sejam professadas com igual força. A embriaguez que não seja do espírito é devassidão, ou, na melhor das hipóteses, patetice. A sobriedade sem esta embriaguez é rígida e morta, sem a liberdade que o Espírito concede.

Talvez a característica mais evidente de uma pessoa embriagada seja a alegria. Isso condiz bem com o fruto que o Espírito Santo deseja produzir em nós, a distintiva alegria dos seguidores de Cristo. Trata-se da própria alegria de Deus que a alma possui, independentemente das circunstâncias, e até por entre grandes sofrimentos.

Isto é o que encontramos ao longo dos Actos dos Apóstolos, protagonizados pela Igreja animada pelo Espírito Santo. Os Apóstolos deixam o sinédrio “cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41). O Espírito leva Paulo e Silas a cantar na prisão de Filipos. E assim continuou a ser ao longo da história da Igreja, nas vidas de todos os que se entregaram ao Espírito. São Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá alegraram-se na sua pobreza. Tal como Paulo e Silas em Filipos, também São Maximiliano Kolbe cantou na câmara da morte em Auschwitz.

Vivemos num tempo zangado, sem humor. E há muitas coisas sobre as quais devemos estar zangados. Ainda assim, embora toda a gente deseje a alegria, a maioria das pessoas contentam-se com o prazer. Embriagados pelo Espírito, os cristãos devem revelar a alegria que só Ele traz e que Deus deseja para todos.

Mais, o homem embriagado fala livremente – aliás, até demasiado livremente para boa companhia. Há um descuidado nas suas palavras e acções. Está inconsciente ou despreocupado com o que as pessoas pensam ou dizem dele. Não busca a aprovação dos outros com as suas palavras. Assim também, todos os que são conduzidos pelo Espírito devem falar com a mesma candura e sem se preocuparem com o respeito dos homens. Deve haver uma certa negligência e audácia quando se fala da fé.

Não é que isso nos permita sermos ordinários ou arrogantes. Disso já temos o que baste. Antes, dá-nos a coragem de falar com alegria sobre as questões difíceis e complicadas da fé, sem procurar adequá-las ao pensamento do mundo. Ao fazê-lo, encontramo-nos em boa companhia – não só a de Pedro e dos Apóstolos no Pentecostes, mas também do Senhor quando a sua própria família anunciou “está fora de si” (Marcos 3,21).

Mas também é preciso sobriedade. Esta não é uma embriaguez que arruína vidas e leva ao arrependimento. Pelo contrário, traz maior sobriedade, uma razoabilidade mais profunda e uma maior claridade de pensamento e de palavra. Em Éfeso os artesãos revoltaram-se contra Paulo e os outros discípulos que tinham “virado o mundo de pernas para o ar” (Actos 17,6). O Cristianismo virou de facto o mundo pagão às avessas. Mas fê-lo apenas para introduzir uma nova forma de pensar, que já não estava alinhada só com o pensamento humano, mas com a sabedoria divina. Se esta embriaguez vira as coisas às avessas, é só para as colocar numa base mais firme.

Um outro paradoxo desta sóbria embriaguez é o facto de nos ter sido adquirida pela triste Paixão de Nosso Senhor. Na sua própria hora de sóbria embriaguez, Cristo conquista para nós o Espírito ao verter o seu Sangue na Cruz. Assim, o dom do Espírito está associado ao Precioso Sangue de Jesus. “Sangue de Cristo, inebria-me”, cantamos no Anima Christi. E na Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue, o padre reza depois da comunhão que “sejamos sempre lavados pelo Sangue de nosso Salvador; torne-se ele em nós uma fonte que jorra para a vida eterna.”

E hoje no altar, onde se re-apresenta o verter do seu sangue, rezamos que o Espírito produza nas nossas almas aquela sóbria embriaguez através da qual levamos aos outros a chocante alegria do Evangelho que estabiliza o mundo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 28 December 2022

Os Dons do Espírito Santo

A alegria do Natal brota da dádiva que Deus faz do seu Filho à humanidade. Mas o nascimento de Cristo é apenas a primeira fase de um acto de redenção que culmina na morte, ressurreição e ascensão de Cristo ao Céu, onde está à direita do Pai, e o envio do Espírito Santo, por quem “o amor de Deus é derramado nos nossos corações” (Romanos 5,5).

A palavra “graça” vem do latim “gratia”, que significa “presente”. O maior presente de Deus para nós é o Seu Filho, e esse é o presente que nunca se esgota. No Evangelho de João, depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, diz-lhes que deve “partir”, mas que o faz “para seu bem”. Porque se não partir, “não virá o paráclito”. Mas se Ele for, diz-nos, “enviá-lo-ei a vós” (João 16,7). Já antes Jesus tinha identificado o Paráclito como “O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome” (João 14,26).

Se Jesus não tivesse partido, continuaríamos a procurá-lo para fazer tudo por nós – “Jesus, cura estes doentes”, “Jesus, dá de comer a estes pobres”, “Jesus, cuida de nós” – quando na verdade devemos tornar-nos membros do Corpo de Cristo. Nós somos os olhos, os ouvidos e as mãos de Cristo agora. Nós curamos os doentes, alimentamos os pobres, espalhamos a boa nova do amor de Deus, tornamo-nos instrumentos da Graça de Deus.

Tornamo-nos alter Christus, “outros Cristos”, “filhos adoptivos” do Pai. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Romanos 8,14) “E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações” (Gálatas 4,6).

O Cristianismo entende que a vida moral é uma participação na vida trina de Deus – a comunhão eterna de amor que existe desde toda a eternidade. E no coração daquilo a que chamamos “graça” está o dom do Espírito de uma parte desse amor trino e eterno.

Temo, porém, que por vezes pensemos na “graça” como se fosse uma varinha mágica que nos transforma de um sapo num príncipe, ou como a aranha radioactiva que transformou o Peter Parker no Spiderman – como se quando a graça se infunde em nós passássemos a rebentar de sabedoria, os nossos olhos e ouvidos irradiassem luz e a impureza do pecado deixasse de nos tocar ou tentar.

Talvez seja assim para alguns, mas talvez não seja isso que devemos esperar. Há uma longa e sábia tradição na Igreja que diz que não devemos confundir a obra do Espírito Santo com certos sentimentos ou uma experiência em particular. A Graça de Deus trabalhar frequentemente de formas que não se vêem, nem se notem, tal como o dom que foi o Seu Filho passou em larga medida despercebido e longe da vista.

E se a obra da graça nas nossas vidas for tão despercebida e discreta como o aumento do amor nos nossos corações? Os casais crescem em amor. Mas se forem ver todos os dias provavelmente não notam uma diferença muito grande. Contudo, se simplesmente se dedicarem ao bem-estar e à felicidade um do outro, um dia acordarão e verificarão que o seu amor – o amor que os levou a dedicarem-se um ao outro – cresceu.

Às vezes os pais dizem que quando olham para os seus recém-nascidos apaixonam-se logo, e que isso muda as suas vidas. E porém, a mudança de vida que se segue – de autocentrado para altruísta e atento – costuma ocorrer ao longo de semanas e anos, e tende a envolver muito menos desse sentimento “fofinho” inicial. Mas o Espírito Santo está lá o tempo todo, mudando o coração, um bocadinho de cada vez, ao longo do tempo.

Outro erro comum é imaginarmos que a graça de Deus tem sempre resultados instantâneos, como um relâmpago de Zeus. Mas há uma boa razão para muitas das parábolas de Jesus sobre o Reino envolverem a plantação de sementes, e estações para crescimento.

Há vários anos uma das minha alunas perguntou ao filósofo Alisdair MacIntyre como poderia adquirir as virtudes, uma vez que não conhecia ninguém que as possuísse. MacIntyre sugeriu que ela devia alistar-se nos fuzileiros, ou então na frota pesqueira. A chave está em trabalhar com os outros numa situação em que a nossa segurança e bem-estar dependem de eles cumprirem bem com as suas funções, e em que a sua segurança e bem-estar dependem de nós cumprirmos bem as nossas funções. É uma resposta interessante, ainda que nem sempre praticável.

Na teologia crista, porém, para além das “virtudes adquiridas” temos a tradição das “virtudes infundidas”. Quando reconhecemos que não possuímos as virtudes, podemos rezar por elas. Eu posso não ter sido criado com coragem, sabedoria ou entendimento (e não fui), mas posso rezar por eles. Isso não significa que deva esperar acordar amanhã a rebentar de coragem, sabedoria e entendimento. Nem significa que já não precise de fazer a minha parte para crescer nas virtudes da coragem, sabedoria e entendimento.

A graça não viola a natureza, aperfeiçoa-a. Deus não opera esta mudança em nós sem a nossa colaboração. A graça não é magia; é o amor que ganha raízes e cresce ao longo do tempo, para transformar aqueles que, tal como a Virgem Maria, dizem “sim”.

Quando a graça opera em nós é possível que nem o sintamos ou reparemos. Pode parecer, à primeira vista, algo muito natural, como o parto de uma criança. Mas não será essa uma das lições do Natal? Que a graça pode entrar no mundo praticamente despercebida, em lugares e de formas que podemos não esperar e dar frutos de formas que excedem as nossas maiores esperanças?

Se decidirmos dedicar-nos ao bem-estar e à felicidade uns dos outros, a Graça de Deus já está a operar em nós. Se nos dedicarmos a isso, esse amor crescerá. Só precisamos de um pouco de fé.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 27 de Dezembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 23 November 2016

Personalidades na Trindade

Howard Kainz
O termo “personalidade” tem vários significados, tanto positivos como negativos. Mas o mais comum, e neutro, é este do Oxford English Dictionary: “A qualidade, ou conjunto de qualidades, que torna uma pessoa um indivíduo distinto; o carácter pessoal ou individual distinto de uma pessoa, especialmente de tipo marcado ou fora do comum”.

Como cristãos, acreditamos que existem três pessoas em Deus. Trata-se de uma união na distinção. O Filho é diferente do Pai, o Espírito é diferente do Pai e do Filho, etc.

Pode soar a politeísmo e os muçulmanos, e outros que advogam um monoteísmo rigoroso, consideram-no chocante. Mas como diz São Tomás, em relação à acusação muçulmana de politeísmo, esta incompreensão deve-se ao enfoque míope na geração física e na incapacidade de compreender a possibilidade de uma geração puramente espiritual.

Logo, a elaboração por parte dos cristãos da única natureza divina, enquanto puro espírito, em Pai, Filho e Espírito Santo não é contraditória nem deve ser entendida como referente a “três deuses”. Estas três Pessoas não são, por isso, personalidades idênticas, como se fossem clones, e não devemos surpreender-nos pelo facto de terem características de personalidade distintas entre si. O que podemos dizer sobre estas características?

O Filho: Nós cristãos, imbuídos pela religião do Filho, naturalmente sabemos mais sobre a personalidade de Jesus Cristo, que veio viver entre nós e, por vezes, até nos iluminou sobre as suas qualidades pessoais. Convenientemente, descreveu-nos aquilo que é e como aparece aos outros: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11,29).

Por vezes, nos Evangelhos, Jesus permite que brilhe diante dos homens a prova do seu poder e da sua natureza divina, como na Transfiguração (Mc. 9,1), ou quando os guardas que o iam prender caiem por terra quando Ele se identifica (Jo. 18,6), ou nos seus múltiplos exorcismos, em que os demónios sentem um poder que emana dele.

Mas a maioria dos seus contemporâneos, embora maravilhados com as suas curas e os seus exorcismos, quando estavam na sua presença provavelmente não repararam em nada mais do que um pregador calmo e modesto. Os seus vizinhos estranharam onde é que um carpinteiro teria ido buscar tanta sabedoria, pois conheciam-no e à sua família e não compreendiam o que se estava a passar. E até os seus primos não reconheceram nada de especial nele e só creram depois da Ressurreição (Mt. 13,55-56)

Jesus também nos fala dos seus interesses pessoais na vida: não julgar os pecadores, mas salvá-los (Mt. 9,13), embora no final dos tempos Deus Pai o encarregue do poder último de julgar (Jo. 5,22)

O Pai: O Novo Testamento está repleto de referências a Deus Pai, mas este conceito de Deus enquanto “Pai” também existe no Antigo Testamento: Nos profetas (Is. 63,16, 6,8; Jer. 3,4, 3,19), no Salmo 89 e sobretudo no Livro da Sabedoria, em que Deus é descrito como o “pai do mundo”, que formou o primeiro homem (10,1), trata os justos de forma paternal (2,16, 11,11), e governa todas as coisas de forma providencial (14,3).

No Evangelho de João aprendemos que Jesus experimentava a presença constante do Pai (Jo. 5,19), que fala sobre aquilo que aprende na sua presença (8,38, 12,50) e acrescenta que, de facto, o Pai trabalha através dele (14,10). Jesus, que habitualmente põe em prática aquilo que vê no Pai, pode dizer a Filipe “aquele que me vê, vê o Pai” (Jo. 14,9).

Fresco da Santíssima Trindade em Urschalling, Alemanha
As principais descrições que Jesus faz do Pai dizem respeito a um Criador beneficente, que distribui e mantém toda a natureza de bens no mundo, para serem usados, bem ou mal; que é quem providencia de forma mais solícita, olhando até pelos pássaros do ar e pelos lírios do campo, satisfazendo as necessidades mais íntimas de todos, bons e maus (Mt. 5,45, 6,8) e que, como um arquitecto nos bastidores, prepara continuamente mansões para os fiéis (Jo. 14,2, 20,23).

O Espírito Santo: Embora Miguel Ângelo tenha feito um belo trabalho a representar Deus Pai na Capela Sistina, nos Evangelhos o Pai aparece apenas como uma nuvem (Mt. 17,5, Mc. 9,6, Lc. 9,35). O Espírito Santo, que aparece apenas como uma pomba (Mt. 3,16, Mc. 1,10, Lc. 3,22, Jo. 1,32) ou como línguas de fogo (Act. 2,3) seria um desafio ainda maior à capacidade artística do pintor. (Tenho uma vaga memória de ter visto uma representação feminina do Espírito Santo numa Igreja na Europa há várias décadas).

No Novo Testamento o Espírito Santo é comparado ao vento, soprando onde quer, fora do controlo dos homens (Jo. 3,8), distribuindo graças especiais (Gal. 5,2), incluindo dons extraordinários como a profecia ou a cura (Act. 2,17, 1Cor. 12,8-9) e por vezes a inspirar as palavras dos seguidores de Jesus, sobretudo em circunstâncias difíceis e quando desafiados pelas autoridades (Lc. 12,11).

O místico luterano alemão, Jacob Boehme (1575-1624), autor de “Os Três Princípios da Essência Divina” e “A Tripla Vida do Homem”, passou a maior parte da sua vida fascinado pela doutrina da Trindade. Escreveu imenso sobre as várias operações e reflexos do Pai, Filho e Espírito Santo no Universo e argumentou contra muçulmanos e outros que negaram a Trindade.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel (1700-1831) considerava a visão trinitária do mundo de Boehme fascinante, mas criticava os seus entusiasmos místicos que “punham a cabeça em água” e por isso desenvolveu uma mundovisão filosófica mais “científica”, caracterizada por tríades.

Hegel também se juntou a Boehme na defesa do Cristianismo Trinitário. Falando sobre o surgimento do Deísmo durante a Revolução Francesa, Hegel escreveu que o Ser Supremo do Deísmo, elogiado por Voltaire e outras figuras do Iluminismo, não passava de um “Além” nebuloso, comparável à “exalação de gás estagnado” e de seguida oferece a sua própria “fenomenologia”, analisando a emergência final de uma “religião revelada” trinitária.

É comum ouvirmos dizer que a família nuclear cristã é um reflexo da Trindade, e assim é. Mas claro que existe uma variedade enorme e diversificada de outros reflexos no nosso mundo, mais até do que os milhares imaginados por grandes místicos como Boehme.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 22 de Novembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 6 November 2013

O Poder do Crisma

por Kristina Johannes
Esta era uma missão secreta. Destino final: Cidade do México.

O telefonema chegou tão tarde que nem teve tempo para pedir uma cópia da certidão de nascimento do Estado onde nasceu, longe daquele onde actualmente vivia. Também não tinha passaporte e não fazia ideia como faria para entrar e sair do México sem essa documentação. Contudo, não hesitou em pagar milhares de dólares para comprar um bilhete de avião para si e para a sua criança.

Desembarcou num Estado fronteiriço e encontrou-se com os seus contactos que iriam introduzi-la no México e ajudá-la a sair de novo. Tinha consigo a carta de condução, o terço e fé de que Deus trataria do resto.

Entrou na carrinha com os seus novos amigos que a acompanhariam nesta missão. A carrinha aproximou-se da fronteira e passou sem problemas. Como é que seria o regresso?

Passadas algumas horas, com a missão cumprida, o veículo dirigiu-se de novo para a fronteira. Retirou o terço e começou a rezar, os outros juntaram-se. Quando o agente se aproximou até reteve a respiração. Olhou para a carrinha e perguntou: “Os passageiros são todos cidadãos americanos?” Responderam afirmativamente e mandou-os seguir sem mais confusões. A mulher respirou de alívio e começou a rezar outro terço em acção de graças.

Que missão secreta era esta? Acreditam que se tratava de obter o sacramento do Crisma para a sua criança, uma vez que esta lhe tinha sido negada por não ter chegado à idade da razão, conforme estipulado pela sua diocese americana?

A manta de retalhos que são as políticas sobre a idade do Crisma nos Estados Unidos conduziu a uma situação em que aqueles que querem recorrer à idade canónica universal para o Crisma precisam de ser bastante imaginativos. A concessão de excepções em relação à idade diocesana para o Crisma é extremamente rara, apesar das admoestações de Roma sobre o assunto.

Como é que se chegou a esta situação?

Alguns apontam para a decisão de S. Pio X de baixar a idade de recepção da Confissão e da Comunhão, sem ter aludido à idade do Crisma. Até então, a ordem tradicional tinha sido Baptismo, Crisma, Confissão e, finalmente, a Santa Eucaristia. Por essa ordem, a Eucaristia era vista como o completar do processo de iniciação.

O Código de Direito Canónico diz o seguinte sobre quem vai receber o Crisma:

Can.  889 §2  Fora de perigo de morte, para alguém receber licitamente a confirmação,
requer-se que se tiver o uso da razão, esteja convenientemente instruído, devidamente disposto e possa renovar as promessas do baptismo

Can.  891 O sacramento da confirmação administre-se cerca da idade da discrição, a não ser que a conferência episcopal determine outra idade, ou exista perigo de morte, ou, a juízo do ministro, causa grave aconselhe outra coisa.

A questão está no cânone 891, que permite às conferências episcopais estabelecer uma idade mais alta que a da discrição. Foi o que fizeram os bispos dos Estados Unidos. A norma complementar do cânone 891, nos Estados Unidos, diz: “A Conferência Episcopal dos Bispos Católicos, de acordo com as prescrições do cânone 891, decreta que o sacramento do Crisma, no rito latino, será administrado entre a idade da discrição e cerca dos 16 anos de idade, dentro dos limites determinados pelo bispo e com respeito pelas excepções legítimas, expressas no cânone 891.


Porque é que algumas pessoas consideram isto um problema? Porque em demasiados sítios o resultado foi um profundo mal-entendido sobre a natureza do sacramento do Crisma, que se transformou num sacramento em busca de uma teologia.

Para alguns tornou-se uma espécie de profissão pública, em que as pessoas confirmam a sua fé diante da comunidade. Para outros é visto como um rito de passagem para a maioridade católica. Noutros ainda é simplesmente uma forma conveniente de manter os alunos na catequese durante os anos do liceu. Nenhuma destas lógicas é digna do grande sacramento através do qual somos confirmados na nossa fé, não pela nossa acção, mas pela Graça do Espírito Santo.

Quando eu era catequista ilustrava o poder deste sacramento através da imagem dos apóstolos, reunidos cheios de medo no quarto superior, antes do Pentecostes. Depois da vinda do Espírito Santo, estes mesmos homens partiram sem medo para proclamar o Evangelho, resultando na conversão em massa de 3000 pessoas. A diferença? O Crisma!

Tal como diz no Catecismo, “A Confirmação dá-nos uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé pela palavra e pela acção, como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar com valentia o nome de Cristo e para nunca sentir vergonha em relação à cruz.” [1303]

Quando Bento XVI era Papa ainda tive esperança de que emitisse um decreto para o Crisma, parecido com o que São Pio X publicou para a Comunhão. Pareceu apontar nesse sentido quando, na sua exortação apostólica Sacramentum Caritatis, escreveu: “é necessário prestar atenção ao tema da ordem dos sacramentos da iniciação. (...) Em concreto, é necessário verificar qual seja a prática que melhor pode, efectivamente, ajudar os fiéis a colocarem no centro o sacramento da Eucaristia, como realidade para qual tende toda a iniciação.” [18]

Talvez estas políticas parcimoniosas sobre o Crisma mereçam a atenção do actual Papa. Quem não quereria este dom para os seus filhos logo que eles se tornam responsáveis pelas suas acções e, por isso, necessitados desta força, sobretudo nos tempos em que vivemos?


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 3 de Novembro de 2013)

Kristina Johannes é enfermeira e instrutora de métodos naturais de planeamento familiar. Foi porta-voz da Alaska Family Coalition, que conseguiu a aprovação da emenda constitucional de protecção do casamento naquele Estado.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 12 March 2013

Inspiração do Espírito Santo não é magia

Transcrição integral da entrevista a Maria Cortez de Lobão sobre o papel do Espírito Santo no Conclave. Reportagem aqui.

Como é que funciona a inspiração do Espírito Santo no Conclave?
O Espírito Santo é o amor de Deus e a teologia da encarnação diz que aquilo que acontece na perfeição e definitivamente em Jesus, que é a encarnação do próprio Deus, acontece em nós de maneira progressiva, se o deixarmos.

Isso é o que permite a São Paulo dizer Deus habita em mim e, à comunidade nascente, vós sois Templo do Espírito Santo.

Esta realidade faz com que este amor de Deus que habita em nós não funcione contra a nossa natureza, nem apesar da nossa natureza, mas com a nossa natureza. Isto porque Jesus prometeu que ficava connosco até ao fim dos tempos e que nos enviaria o espírito. O Espírito é este amor com que o pai e o filho se amam e que é de tal forma grande e total que pode ser partilhado por nós, sobretudo os que foram baptizados e vivemos desta realidade.

Se pensarmos, até o nosso amor humano faz coisas deste género. Duas pessoas que se amam podem estar longe fisicamente mas sentem se está a acontecer alguma aflição ao outro, se há um momento de especial alegria.

Este amor que partilhamos já é indício deste amor que Deus quer partilhar connosco e que partilha através dessa presença a que chamamos o Espírito Santo.

O que se pretende aqui perceber é que temos os cardeais, que são pessoas que dedicam a vida à procura da vontade de Deus e que, com as suas características, feitios, capacidades e dons querem por isso ao serviço de Deus. Essa escuta, a que chamamos oração, essa atitude, que é a que tem Nossa Senhora, permite-nos grandes coisas. O Espírito Santo é por vezes inesperado e temos grandes exemplos disso na história da Igreja. O primeiro concílio de Jerusalém é exemplo disso. Havia uma divergência entre Pedro e Paulo sobre como acolher quem vinha de fora do Judaísmo e o que parecia lógico era que se pedisse que primeiro fizessem um trajecto dentro da fé judaica para compreenderem a promessa, a fidelidade de Deus e onde é que se caminhava para compreender o que era o Messias.

São Paulo dizia que não faz sentido porque Em Cristo somos homens novos.

Foi preciso juntarem-se em oração e depois de explicadas as razões de cada um chegaram à conclusão na oração que o caminho era não pedir aos gentios que se convertessem ao judaísmo e surge uma frase nos Actos dos Apóstolos que diz “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outras obrigações que não estas.

A força do Amor de Deus naquela comunidade que procura sinceramente a vontade de Deus é tão real que é possível dizer uma coisa dessas.

Aqui, cada um dos Cardeais, com as suas características e os seus dons, quer pôr esses dons ao serviço de Deus. Portanto, como o Espírito Santo trabalha através dos Dons e não contra os dons, com certeza que podemos dizer, compreendendo bem isto, que o Espírito está presente no Conclave e faz com que o coração de cada um se abra àquilo que é a perspectiva do que é preciso para a Igreja neste momento.

Não intervém contra a liberdade dos cardeais, nem por magia…
A liberdade é sempre preservada. São Tomás de Aquino diz que isso é o mais importante. A liberdade de consciência, uma consciência formada, educada e informada, muito rezada, é o nosso reduto precioso e ninguém força a mão a ninguém. O Espírito Santo não funciona através da violência, mas sim do amor, e o amor consegue coisas inesperadas, mas sempre de uma maneira positiva e criativa, que é o seu apanágio.

Já houve maus papas, mas nem estes conseguiram atentar contra o depósito da fé…
Bento XVI disse a certa altura que da promessa que temos de Jesus, que fica connosco até ao fim dos tempos, e que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, temos a certeza que o erro não vai ser ensinado e não vai prevalecer. É uma certeza pela negativa, mas muito importante. Deus não se impõe. Espera que sejamos dóceis a esse amor, ao Espírito Santo, mas de qualquer maneira daquilo que é importante, e até os Papas menos desejáveis nunca ensinaram nada contra o depósito da fé, isso dá-nos uma grande confiança, saber que quem conduz a Igreja, de facto, é Jesus, como o Papa disse antes de ir para Castel Gandolfo antes da última audiência. Por isso temos de ter toda a confiança e serenidade, apesar dos nossos erros.

Mas da mesma maneira que o Espírito Santo apoia-se nas nossas qualidades para ir à frente com o projecto de amor que tem para nós, os nossos defeitos às vezes até servem para algumas coisas que seriam inesperadas de perceber e através dos nossos defeitos podemos perceber o que não devemos fazer.

Há épocas históricas que explicam certos acontecimentos. Hoje em dia o Papado não tem poder temporal, não é apetecível, e isso é uma grande vantagem para a acção do Espírito Santo se poder fazer com maior liberdade e com maior amor. 

Friday, 25 May 2012

"Pentecostes é entrega da nova lei, gravada nos corações"


Transcrição integral da entrevista ao padre Pedro Lourenço, sobre a importância e o significado da festa de Pentecostes para os cristãos. A notícia encontra-se aqui.

Qual é a importância da festa do Pentecostes?
A solenidade de Pentecostes é o encerramento do tempo da Páscoa, é o último dia do Tempo Pascal. Não é só uma festa de fecho mas de completar aquilo que é o sentido da Páscoa. O tempo pascal é o tempo em que celebramos a Ressurreição de Jesus e o seu dom mais importante, o dom do Espírito.

Cinquenta dias depois há esta celebração para recordar aquilo que aconteceu aos apóstolos, descrito no Acto dos Apóstolos, o dom do Espírito sobre os apóstolos reunidos em oração e, por sua vez, a sua missão para toda a Igreja e envio ao mundo.

É a altura em que a Igreja sai do Cenáculo…
É interessante reparar que a tradição cristã, e a tradição litúrgica na vivência cristã, coloca a celebração do dom do Espírito no chamado dia de Pentecostes que já se chamava assim na própria vivência judaica. Era já um dia significativo para o calendário judaico.

Mas no Evangelho de São João o dom do Espírito não acontece assim separado 50 dias da Páscoa. Na tarde da Ressurreição estavam reunidos os apóstolos e Jesus aparece no meio deles e comunica-lhes o Espírito Santo. Sopra sobre eles e diz: “recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados”.

Portanto o dom do Espírito na perspectiva da teologia de São João é um fruto imediato da Páscoa, na perspectiva dos Actos dos Apóstolos, e isso depois marcou o calendário cristão. Acontece 50 dias depois da Páscoa, a culminar esta obra de Cristo. É a realização da promessa que tinha feito aos discípulos: “Eu vou para o Pai, mas sereis revestidos da força do alto e sereis minhas testemunhas”, neste sentido pode-se dizer que é de facto a manifestação deste dom de Deus que faz com que a Igreja se manifeste ao mundo realizando a sua missão.

A Igreja nasceu na Cruz, mas a manifestação da Igreja e a sua capacidade de testemunhar é fruto do Espírito que se manifesta agora no Pentecostes.

Se os Judeus celebram a entrega da Lei a Moisés neste dia, do ponto de vista cristão pode-se ler o Pentecostes como o dom de interpretar correctamente a Lei?
Essa perspectiva não está excluída, mas mais do que isso, trata-se de entender o espírito como a plenitude da Lei, a nova Lei de Deus, gravada nos corações, pelo dom do Espírito.

Para os judeus esta festa era primeiramente a festa das colheitas, depois ganha esta perspectiva teológica de ser o dom da Lei.

Sem dúvida que os acontecimentos bíblicos servem-se da perspectiva profética que existia na vivência da fé judaica, dando um novo sentido, um sentido cristão, ao que se realizava. O chamado dia de Pentecostes não é um nome cristão, os actos dos Apóstolos dizem que “quando chegou o dia de Pentecostes os apóstolos estavam reunidos”, era já um dia assim chamado no próprio calendário judaico e significava os 50 dias depois da Páscoa judaica, também.

É entendido na perspectiva cristã como o completar-se desta obra pascal pelo dom do Espírito e nesta perspectiva da Lei como a nova Lei dada por Deus a partir de Cristo, que não anula a Lei anterior, que a leva à plenitude, como o próprio Cristo diz.

Que tradições estão associadas a esta festa litúrgica?
Nós agora referimo-nos ao Pentecostes como o quinquagésimo dia, ou seja, cinquenta dias depois da Páscoa, mas nos primeiros séculos os autores referiam-se ao “tempo de Pentecostes”, ou seja ao tempo dos cinquenta dias entre o tempo de Páscoa e o quinquagésimo dia.

Todo este tempo era o “tempo do Pentecostes” e por isso o tempo do Espírito Santo, e na tradição popular portuguesa encontramos as Festas do Espírito Santo, muito vincadas nos Açores. Este culto ao Espírito Santo manifesta-se como experiência de caridade, de vivência da humildade. Isso manifesta-se na caridade fraterna, a matança do boi e da carne que chega para todos, do pão dado a todos, as sopas do Espírito Santo, nos Açores.

Aqui no Continente essas tradições perderam-se bastante, ainda se conserva nalguns locais mas com pouca expressão, por exemplo em Alenquer havia as festas do Espírito Santo; e no Penedo, em Sintra. A festa dos Tabuleiros em Tomar tem, creio, essa origem, com a ideia do pão para todos. Isto ligado à tal tradição judaica de acção de graças pela colheita, aquilo que recebemos como dom de Deus reparte-se para todos pela acção do Espírito, que é amor.

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