quarta-feira, 10 de junho de 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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