quarta-feira, 4 de março de 2020

Não Devemos Branquear o Legado de McCarrick

Stephen P. White
Há uma tradição, que ainda é observada nalguns lugares, segundo a qual o chapéu cerimonial de um cardeal – o galero encarnado – é pendurado do tecto da catedral quando ele morre. Ali fica, pendurado pelo seu cordel eclesiástico, até que sucumbe à corrupção do tempo e cai. Essa última desintegração do galero é entendido como um sinal – numa mostra de humor católico – que a alma do defunto saiu finalmente do purgatório.

Tendo sido despido do seu cargo de cardeal e laicizado, o galero de Theodore McCarrick não será pendurado com o dos seus antecessores na catedral de St. Matthew, em Washington. Mais, as suas armas foram removidas da parede da catedral, onde tinham estado entre as dos seus antecessores e sucessores.

Quem visitar hoje a Catedral de St. Matthew não encontrará qualquer referência a Theodore McCarrick enquanto Arcebispo de Washington.

Há muitas razões pelas quais podemos querer apagar o legado de McCarrick da catedral. Certamente aqueles que foram traídos por ele – as suas vítimas, os seus amigos, os padres, o seu rebanho – não gostariam de ver o seu nome e as suas armas expostas publicamente, sobretudo, como era o caso, tão perto do sacrário.

Tal memorial ao McCarrick poderia tornar ainda mais difícil a alguns ultrapassar a revolta e a confusão dos últimos anos, rumo à cura e à restauração da confiança. É por isso, segundo nos dizem, que o actual arcebispo de Washington, Wilton Gregory, ordenou pessoalmente que a placa de McCarrick fosse retirada.

Com o devido respeito pelo arcebispo Gregory, porém, julgo que se tratou de um erro.

A remoção do nome e das armas de McCarrick da catedral poderá tornar as coisas menos dolorosas para nós no curto prazo, mas duvido que melhorem o que quer que seja a longo prazo. Nem para nós, nem para ele, nem para os fiéis que virão muito depois de todos nós termos partido.

Em primeiro lugar temos o simples facto de que Theodore McCarrick foi, na verdade, arcebispo de Washington. Foi nomeado para o cargo no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e manteve-se até à reforma em 2006. Toda a vergonha com que cobriu esse mandato, o mal que fez à arquidiocese, não será desfeito por ignorarmos essa realidade e as questões difíceis que levanta.

O escândalo do pecado é uma preocupação legítima e a obsessão lasciva com o pecado – sobretudo o pecado sexual – é moralmente perigosa. A tentativa de nos protegermos da dor e do escândalo do pecado – nosso ou dos outros – transforma-se, com demasiada facilidade, num exercício de autoilusão. Por demasiadas vezes a tentação de proteger os fiéis da realidade dos pecados do clero tornou uma situação má ainda pior.

Ninguém pode dizer, com seriedade, que nas últimas décadas a Igreja Católica americana tem sido demasiado transparente em relação às fraquezas dos seus padres e (sobretudo) dos seus bispos. Uma cultura eclesiástica que tentou branquear as falhas da Igreja acabou, sem dúvida, por tornar a crise dos abusos ainda pior. Haverá maior prova disso do que a carreira do próprio Theodore McCarrick?

Alguns poderão argumentar que apagar o nome de McCarrick da catedral é um castigo justo. Talvez a dor de ver o seu legado destruído desta forma seja uma certa forma de justiça, e talvez até lhe faça algum bem, espiritualmente. Talvez.

Mas também há algum valor em reconhecer os limites da justiça que podemos fazer. A justiça de Deus não vem apenas nesta vida, mas na plenitude dos tempos. Se nos esquecermos disto o impulso para tentar à força obter toda a justiça no espaço das nossas curtas vidas, e à nossa maneira, torna-se incomportável. Enganamo-nos se pensamos que tudo deve – ou pode – ser corrigido à medida das nossas expectativas.  

O que leva a outra razão pela qual me preocupa a decisão de apagar a ligação entre McCarrick e a catedral: o próprio Theodore McCarrick.

A velha tradição de a queda do galero significar que a alma de um prelado saiu do purgatório tem uma fundação séria. Os nossos pastores precisam das nossas orações, mesmo depois da morte. Não rezamos pelos nossos mortos porque temos a certeza da sua bondade, mas precisamente porque não temos. As lembranças do nosso pecado e da nossa fraqueza – e sobretudo do pecado e da fraqueza dos nossos pastores – são importantes porque nos recordam da necessidade de rezar fervorosamente pela salvação das almas.

Ao contrário daqueles homens cujos chapéus encarnados estão pendurados nas catedrais pelo mundo, Theodore McCarrick ainda está vivo. Quem somos nós para dizer que não existe esperança para a sua salvação? E se existe, então não devemos rezar por ele?

O Evangelho instrui-nos: “Ama o teu inimigo e reza por quem te persegue”. Parece um mandamento fácil de obedecer, no abstracto, mas eu, pelo menos, acho muito complicado fazê-lo com convicção quando estamos a falar de um homem como Theodore McCarrick. Rezar pelas suas vítimas? Claro. Pelo seu sucessor? Evidente. Pelo seu antigo rebanho? Sem dúvida. Mas pelo próprio “Uncle Ted”?

Mas algo me diz que eram precisamente de “casos difíceis” como este que o Senhor estava a pensar.

Quer queiramos, quer não, Theodore McCarrick continua a ser nosso irmão. Une-nos o nosso baptismo, em Cristo. Não é por ignorar as suas feridas, nem esquecendo-nos de como elas surgiram, que tornamos o Corpo de Cristo mais perfeito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020)

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