quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Elogio do (verdadeiro) jejum

Helen Freeh
Recentemente chamou-me a atenção um panfleto na minha paróquia. Continha sugestões inovadoras para sacrifícios quaresmais. Partes eram atribuídas ao Papa Francisco, mas outras partes eram escritas por alguém certamente bem-intencionado, mas claramente tonto. Perguntava em letras garrafais: “Está a pensar deixar de comer chocolate para a Quaresma? Para uma Quaresma mais profunda, pense antes em…” E depois vinha a lista: Jejue de dizer palavras ofensivas e diga coisas simpáticas; jejue de rancor e encha-se se paciência; jejue de egoísmo e seja compassivo para com os outros. E por aí fora.

Depois veio a linha que, sinceramente, me fez rir alto: “Jejue de pornografia”. A ausência de uma compreensão correcta de jejum católico seria cómica se não fosse tão tragicamente enganadora para católicos com falta de catequese.

Devemos sempre evitar pecados como palavras cruéis, rancor injusto, egoísmo e, claro, pornografia! Estas não são coisas boas das quais nos abstemos temporariamente, para oferecer como sacrifício a Deus como parte do nosso jejum. São só coisas más que ofendem sempre a Nosso Senhor e que devíamos sempre evitar fazer.

A ideia de abdicar de pecados como parte da nossa Quaresma confunde a própria natureza e propósito do jejum, que é privarmo-nos de um bem em nome de um bem maior – a proximidade e, por fim, a união com Deus. Não se pode “jejuar” de pecado. Se jejuamos de palavras ofensivas e de pornografia durante a Quaresma, devemos depois voltar a elas na Segunda-feira de Páscoa e anunciar orgulhosamente que no ano seguinte vamos deixá-las novamente? A própria noção é absurda.

Há já algum tempo que muitos de entre nós têm abandonado a compreensão tradicional de jejuar de bens físicos, considerando-o um acto superficial, antiquado ou impensado. Isso leva as pessoas a fazer as “sugestões inovadoras” referidas acima e muitas outras que os leitores facilmente podem imaginar.

O que é que nos leva a descartar a ideia do jejum corporal? Será um medo visceral de privar o corpo de luxos ou de nos sentirmos fisicamente desconfortáveis? Será uma forma de escravatura das nossas dependências físicas, disfarçada de enfoque nas coisas aparentemente superiores e “espirituais”?

Este salto de mortificações corporais para espirituais arrisca-se a tornar-se uma espécie de espiritualismo, em que alguém crê que o espírito é inteiramente à parte da matéria ou do corpo. Ou talvez um tipo subtil de gnosticismo em que se descarta a importância do corpo e, por isso, as mortificações do corpo são vistas como sendo desnecessárias para o crescimento espiritual.

Um católico não deve deixar-se enganar por estas mudanças das práticas tradicionais. Não devemos denegrir a mortificação da carne ou simplesmente considerá-la uma coisa do passado. A natureza do corpo não muda com o tempo e nunca deixa de pedir a sua própria satisfação. Mesmo que diga palavras bonitas e reduza a sua pegada ecológica, colocando os plásticos no ecoponto certo, as dependências corporais mantêm-se presentes, escondidas, até serem postas à prova.

Cristo tentado no deserto
Esse é o problema com estas tentativas erradas de “aprofundar” o tempo quaresmal. A Quaresma não é um período ou de crescimento espiritual ou de melhorar a disciplina corporal. Porque a oração e o jejum andam de mãos dadas. Os três pilares da época penitencial da Quaresma são a oração, o jejum e a esmola. Jejuar sem ser de comida e de bebida real é como dar esmola sem ser com dinheiro verdadeiro. O jejum é de bens físicos e as esmolas para os pobres são de dinheiro verdadeiro ou de bens materiais.

As oferendas espirituais são, como é evidente, muito boas e justas e uma necessidade para quem deseja avançar no caminho da perfeição. Mas para a maioria de nós o progresso costuma fazer-se da ordem natural para a ordem sobrenatural das coisas.

Os nossos corpos estão intimamente ligadas às nossas almas. Os críticos podem pensar que o jejum de gelado, chocolate, doces e por aí fora são actos “menores” ou “impensados” só porque muitos homens e mulheres de fé têm feito as coisas assim ao longo dos anos. Mas permitam-me sugerir, humildemente, que na nossa cultura indulgente a primeira coisa que uma pessoa deve tentar fazer é abdicar dos bens materiais de comida e de bebida.

É precisamente porque é difícil abdicar de bens destes que a pessoa que deixou de consumir café, por exemplo, precisa de recorrer ao auxílio da oração. Quando começarmos a ganhar maior autocontrolo sobre o corpo, então podemos passar para o próximo nível espiritual em que para além de abdicar destes bens espirituais, aprofundamos também a ligação espiritual a Nosso Senhor. Pedimos a graça de ter fé, esperança e amor mais profundos; para ser mais castos, temperados, diligentes, pacientes, bondosos e humildes.

Por isso, durante esta Quaresma, mortifique o seu corpo abdicando daquele café matinal, ou da doçura das sobremesas, e não deixe que ninguém o convença que essa disciplina corporal é simplista ou ultrapassada. E, já agora, arrependa-se dos seus pecados também.


(Publicado pela primeira vez no sábado, 22 de Fevereiro de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

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