quarta-feira, 8 de maio de 2019

Transgénero: Quando a verdade se torna punível por lei

Matthew Hanley
E se eu lhe dissesse que não existem bases científicas para definir o género com base em genética, anatomia ou órgãos genitais? Ficaria convencido, ou achava-me louco?

Porém, essa é a opinião expressa na revista “Nature”, encarada há muito tempo como uma publicação científica fiável. Agora, baniram a classificação de macho e fêmea, descrevendo-a como “uma ideia terrível que deve ser eliminada” uma vez que ameaça “desfazer décadas de progresso” da ideia de que o sexo e o género são apenas “construções sociais”. Poder-se-ia pensar que a “Nature” estaria preocupada em criar problemas de credibilidade, mas não têm de se preocupar, pois as mentiras colossais estão na ordem do dia. 

No que diz respeito à “discrepância entre o género e o sexo que consta da certidão de nascimento”, a “Nature” elogia a Academia Americana de Pediatria por aconselhar os médicos a “tratar as pessoas de acordo com o seu género escolhido, independentemente da aparência ou da genética”. Temos aqui os pediatras apostados na apologia do transgénero: sem dúvida uma marca de uma cultura que fez as suas pazes com o desprezo pelas crianças, pela ciência e pela natureza humana.

Entretanto a Associação Americana de Psicologia (APA) emitiu orientações avisando para o perigo de abraçar o conceito de “masculinidade tradicional”. Mas se nos fiarmos na APA, então porque é que as autoridades médicas haviam de encorajar uma mulher a tornar-se homem? Ao que parece a abordagem reinante é de levar as mulheres com perturbações a sujeitar-se a cirurgia de mudança de sexo – um acto de mutilação – para adquirir uma aparência externa pouco convincente, mas também de as encorajar, daí em diante, a desdenhar todos os traços prejudiciais associados com a masculinidade.

Há outra contradição que é frequentemente ignorada: se a transição de um sexo para outro é algo que devemos abraçar com tanto entusiasmo, como um bem a facilitar devido à nossa apreciação iluminada da “fluidez” de género, porque é que existem obstáculos a abordagens legítimas para ajudar pessoas a deixar a homossexualidade?

Embora o fenómeno seja ainda raro, tem havido um crescimento no número de casos de identificação transgénero em anos recentes – às vezes em grupo e aparentemente do nada. Tornar-se transgénero já não convida ao gozo mas até, nalguns casos, é uma forma de aumentar a popularidade entre os pares. Dizê-lo em nada menoriza o verdadeiro sofrimento que alguns adolescentes sentem, de forma aguda, mas que tendem a ultrapassar com o passar do tempo.

O senso comum sugere que o pico de casos de transgénero se deve ao Zeitgeist, contra a qual a classe médica, de forma particular, deve estar atenta. Em vez disso tornou-se cúmplice da sua emergência.

Dizemos a nós mesmos que vivemos num país livre. Ninguém está a “forçar” ninguém a promover a falsidade de que um homem se pode tornar uma mulher, ou vice-versa. Mas só porque não vivemos na China Maoísta, não significa que uma forma da sua Revolução Cultural não tenha vindo aqui parar.

Que o diga Anastasia Lin, que saiu da China aos 13 anos e agora vive no Canadá. Escrevendo recentemente no Wall Street Journal, ela aponta o dedo ao objetivo final das turbas politicamente corretas: “O objectivo não é persuadir ou debater; é humilhar o alvo e intimidar todos os outros. O objectivo final é destruir todo o pensamento independente.”

Esperemos apenas que todo o extremismo que vai explodindo ao nosso redor possa ajudar mais pessoas a compreender que o alvo neste caso, tal como com a revolução sexual em termos mais gerais, é o próprio Cristianismo, bem como a sua ordem social e moral. Isto significa, por definição, que é o homem em si que se encontra na mira, algo que muitos dos que adoptaram a pseudorreligião pós-cristã do “humanitarismo” parecem ignorar.

Lin explica que a geração dos seus pais na China “aprendeu a não dar nas vistas e a ter cuidado com o que diziam, mesmo aos amigos mais próximos, com medo de serem acusados de crime de pensamento”, lamentando assim aquilo que começa a acontecer por aqui também. Demasiados de nós, num sem número de profissões, sabem como essas palavras são verdadeiras.

A coação, em qualquer das suas formas, torna-se obrigatória sempre que se tenta impor uma mentira às massas. Os exemplos multiplicam-se diante de nós. Um professor na Arizona State University argumenta, no “American Journal of Bioethics”, que os pais não devem poder impeder os seus filhos de adquirir tratamentos para bloquear a puberdade.

Segundo o pensamento invertido tão típico do nosso tempo, é a negação destes “tratamentos” que constitui abuso infantil, e não o encorajamento das ilusões e a promoção de medidas agressivas que na maior parte das vezes são prejudiciais e, em sentido real, experimentais, uma vez que simplesmente não existe qualquer prova que justifique o seu uso.

Por agora, essa proposta não passa disso mesmo na América. Mas o Supremo Tribunal de British Columbia, no Canadá, decretou no mês passado que o pai de uma menina de 14 anos não pode impedir a sua tentativa quixotesca de se transformar num rapaz. Ela tem um direito antinatural a bloqueadores de puberdade. Mais, o pai foi avisado para ter cuidado com a língua: chamar menina à sua filha, ou usar pronomes femininos em referência a ela seria considerado “violência familiar”, pois a verdade é agora uma ofensa punível por lei.

E, como consequência lógica disso mesmo, desde então ele já foi declarado “culpado” desse “crime”.

À luz desta mostra de poder ameaçadora, não adianta nada apelar à razão. No final de contas estamos perante uma guerra de vontades. Mas uma tomada de posição contra a irracionalidade dos tiranos do género pode funcionar. Veja-se o que aconteceu com os muçulmanos no Reino Unido, que conseguiram retirar um currículo pró-LGBT das escolas dos seus filhos.

O facto de a turba LGBT ter conseguido derrubar todos os outros, mas ter recuado neste contexto, revela que a sua principal motivação é o desmantelar da sensibilidade cristã mais do que qualquer crença inflexível na ideologia do género. Veja-se bem quem venceu esta guerra de vontades.


Se ao menos a fé e a arte da persuasão estivessem mais na moda, talvez mais pessoas vissem que o abandono do Cristianismo e da natureza inata não beneficiam o homem. Pelo contrário, tendem para a ruína, como muitos descobrem depois de se deixarem levar pela maré do transgénero. 

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Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 2 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

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