quarta-feira, 29 de maio de 2019

Ruanda: Memória, Arrependimento, Reconciliação

Filip Mazurczak
Este ano assinalam-se 25 anos sobre o genocídio do Ruanda, um dos eventos mais horríveis de um dos séculos mais sangrentos da história. Ao longo de uma mera centena de dias os hútus naquela nação mataram até um milhão de tutsis enquanto o mundo se limitava a observar. Tristemente, alguns dos responsáveis eram católicos. Para que a reconciliação continue a avançar no Ruanda, convém reconhecer este facto desconfortável. Não nos devemos esquecer que a fé não foi causa do genocídio, mas serviu de inspiração para muitos actos de humanidade naquele inferno do Ruanda.

Há aqui várias lições a reter.

Em primeiro lugar, proporcionalmente, a aniquilação dos tutsis é comparável com os genocídios mais conhecidos do Século XX: a Shoah e o genocídio arménio. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazis alemães assassinaram dois terços dos judeus na Europa; e entre 1915 e 1923 os nacionalistas Jovens Turcos exterminaram três em cada quatro Arménios no Império Otomano. Entre Abril e Julho de 1994 os hútus mataram 70% dos tutsis no Ruanda.

Apesar de terem usado sobretudo armas primitivas, como batões e catanas, os hútus foram mais eficientes que o Terceiro Reich ou o regime Otomano. Estes levaram vários anos a eliminar a maioria dos judeus europeus ou arménios otomanos, mas aos hútus bastaram três meses para matar uma proporção semelhante de tutsis.

Talvez a lição mais preocupante sobre a natureza humana a retirar do inferno do Ruanda seja o facto de não serem necessários meios sofisticados como Zyklon B ou fuzilamentos em massa em locais como Babi Yar para cometer homicídio em larga escala. Para isso bastam corações inflamados de ódio.

Para os católicos o genocídio do Ruanda é especialmente preocupante. De acordo com o censos de 2002, quase três em cada cinco ruandeses identificava-se como católico. E mais, para além de leigos também houve padres envolvidos no caos provocado pelos hútus.

Este facto já foi aproveitado por polémicas anticatólicas. No livro “Deus não é Grande”, do já falecido Christopher Hitchens, o genocídio do Ruanda é apresentado como mais um dos muitos exemplos dos males provocados pela Religião. Mas essa não é a verdade completa.

Tal como noutros casos de vergonhas praticadas por católicos, devemos reconhecer estes factos trágicos e não os minimizar. Em 2017 o Papa Francisco pediu perdão pelo papel dos padres neste genocídio. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que é um tutsi e católico, chamou a esta declaração um “novo capítulo” no processo de cura.

No Catolicismo o reconhecimento dos nossos próprios pecados, o pedido de perdão e a penitência não só conduzem o pecador de volta a Deus, mas também pode ter consequências públicas. Em 1965, por exemplo, os bispos católicos da Polónia enviaram uma carta aos seus homólogos alemães, perdoando a nação alemã pela brutal ocupação nazi do seu país e pedindo eles próprios perdão. Apenas duas décadas depois de os alemães terem morto seis milhões dos seus concidadãos, muitos polacos acharam absurdo, e até obsceno, que os seus bispos achassem que tinham de pedir perdão por o que quer que seja.

Contudo, os bispos argumentaram que bastava que um polaco tivesse feito mal a um alemão, que isso já mereceria um pedido de perdão. A carta dos bispos lançou as bases para a reconciliação entre polacos e alemães e pouco depois o chanceler da Alemanha ocidental Willy Brandt reconheceu formalmente a fronteira do pós-guerra.

O bispo Célestine
Entre os promotores da carta estava o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, que mais tarde, já na qualidade de Papa São João Paulo II, compreendeu o valor de arrependimento público – não humilhação, mas uma expressão genuína de arrependimento – por males passados.

A honestidade histórica, porém, requer que nos recordemos também de outras coisas. Por exemplo, o genocídio do Ruanda não foi motivado principalmente por paixão religiosa; não foi como os massacres da Guerra dos Trinta Anos. Foi, antes, motivado pelo terrível tribalismo que habita a nossa natureza humana decaída e que desperta em tempos de conflito.

Durante a Segunda Grande Guerra, o regime Ustashe da Croácia assassinou 400 mil pessoas, na maioria sérvios, mas também judeus e ciganos. Os ustashe apelavam ao catolicismo popular para incitar ao ódio aos sérvios ortodoxos; porém, as suas tácticas genocidas contradiziam claramente a mensagem universalista do Evangelho. Tal como a Ustashe, os hútus também apelaram por vezes a sentimentos religiosos por razões de conveniência política. Contudo, os padres que foram cúmplices destes crimes agiram contra a fé católica.

À medida que o Ruanda entrou numa espiral de guerra civil, muitos tutsis católicos também morreram; aos hútus não interessava a denominação, mas a animosidade étnica. E embora alguns padres tenham sido cúmplices do genocídio, outros foram fiéis ao Evangelho, tal como o padre hútu Célestin Hakizimana, agora bispo, que escondeu cerca de 2.000 tutsis em Kigali e subornou as autoridades para não assassinarem os que estavam à sua guarda.

O genocídio do Ruanda também foi oficialmente condenado pela Igreja Católica, ao mais alto nível. O Papa São João Paulo II, que sempre se interessou muito por África, foi o primeiro líder mundial a descrever as matanças como genocídio e condenou-as repetidamente, começando apenas dois dias depois de terem começado. Isto contrasta fortemente com as Nações Unidas e com os estados ocidentais, que tinham a capacidade militar para salvar centenas de milhares de pessoas, mas nada fizeram.

Já Shakespeare dizia que o diabo pode citar as escrituras em seu favor. Alguns dos assassinos em massa hútus de 1994 não citaram propriamente as escrituras, mas apelaram ao tribalismo feroz, mascarado de catolicismo cultural. Mas o facto de que houve pessoas da Igreja entre os autores do genocídio permanece um grande escândalo. O testemunho dos Papas recentes, bem como do bispo Célestin Hakizimana mostram, contudo, que mesmo depois destes escândalos históricos, a substância não adulterada da fé também pode desempenhar um papel fundamental em curar as feridas de sociedades problemáticas e em restaurar a solidariedade humana.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

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