quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Morreu o padre Dâmaso, um homem santo

O padre Dâmaso e o meu avô, Francis Stilwell
Dois dos santos que tive a sorte de conhecer
Tenho o privilégio de conhecer muitos bons homens e mulheres, incluindo muitos e bons padres, mas são poucos aqueles sobre cuja santidade não tenho dúvidas. O padre Dâmaso era um deles.

A paixão dele por Cristo era aterradora. Era homem para se irritar às vezes, para mandar uma ou outra “atordoada” do ponto de vista teológico, pois era sobretudo um homem da pastoral, mas a forma como brilhava quando falava de Jesus não enganava. Não era só a boca que sorria, era todo o seu corpo, o seu imponente corpo!

Quando fiz a série de reportagens “Vidas Consagradas” para o ano sacerdotal fiz-lhe uma entrevista de fundo. Falou da guerra, dos anos em família numa Holanda ocupada, da relutância com que veio para Portugal e da forma como se tinha apaixonado não só por este país mas por este povo, sobretudo pelos mais pobres e mais fracos.

Poucos anos depois um amigo meu acabou por ir para à penitenciária da PJ, onde o padre Dâmaso era capelão. Foi através dele que enviávamos todas as semanas as cartas que ajudavam a animar o H e pedi ao padre Dâmaso que o procurasse e acompanhasse, coisa que fez imediatamente.

Quando me viu de novo disse-me que o meu amigo era claramente um bom homem. Eram poucos os homens e as mulheres em quem o padre Dâmaso não via bondade.

Celebrava missa todas as semanas na Renascença, e sempre que cá estava eu ia. Normalmente fazia a primeira leitura. Certa vez li a narração do combate entre David e Golias. Ainda hoje esse relato me deixa com os pelos em pé. A fé do jovem David, o seu zelo por Deus, a confiança total no seu senhor e a épica vitória sobre o gigante… Sentei-me à espera da homilia e ouvi o padre Dâmaso dizer simplesmente. “Esta primeira leitura… Mortes, lutas… Deus não é isto. Não vou falar disto”. Só me podia rir por dentro.

Porque uma das vertentes engraçadas sobre a minha relação com o padre Dâmaso era a sua capacidade involuntária de me colocar no meu lugar. Sendo dos poucos que ia à missa na Renascença, sendo neto de grandes amigos dele, estava sempre à espera que ele me desse uma atenção especial. Mas como eu o apanhei numa fase da vida em que as memórias recentes são mais fracas, a verdade é que cada vez que o revia, sobretudo nestes últimos anos, e não obstante o seu sorriso sempre presente, tenho quase a certeza que ele não fazia a menor ideia quem eu era. E para uma pessoa como eu, que se tem em muita conta, não há melhor remédio que nos cruzarmos com um santo que não faz a menor ideia quem nós somos.

O padre Dâmaso foi um homem que se deixou consumir inteiramente por amor. Todo ele era de Deus e para Deus. De manhã vivia para a Eucaristia e à tarde vivia a partir da Eucaristia. A santidade é isso e ao pé disso eu nada sou, de facto. Mas é isso que quero ser. Ele mostrou-me que é possível.

Que privilégio poder dizer que este grande homem não fazia ideia quem eu sou.

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