quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cinco Paradoxos da Revolução Sexual

Mary Eberstadt
Nota: Este artigo é, na verdade, dois... A primeira parte foi publicada no dia 14 de Fevereiro e a segunda, para simplificar a leitura, foi-lhe juntada no dia 21.

As definições de revolução sexual variam consoante os académicos, mas há uma fórmula simples e incontroversa. A “revolução” diz respeito a mudanças no comportamento e nas normas sexuais que se seguiram à aprovação e adopção de formas de contracepção fiáveis há mais de meio século. O primeiro factor foi a pílula, aprovada para comercialização em 1963 e disponibilizada em larga escala a partir de então. O segundo factor é a legalização do aborto a pedido em 1973 através do caso Roe v. Wade – um desenvolvimento que a aprovação da pílula tornou tudo menos inevitável. A contracepção moderna e a legalização do aborto alteraram não só os comportamentos como as atitudes. Em todo o mundo a tolerância para com o sexo extraconjugal subiu em conjunto com estas outras mudanças, por razões lógicas que já abordei noutros lados, incluindo no meu livro “Adão e Eva depois da Pílula”.

À excepção da internet, é difícil pensar em qualquer outro fenómeno desde os anos 60 que afectou a humanidade em todo o mundo tão profundamente como esta revolução em particular. Alguns dos efeitos são bem conhecidos: há quatro anos, no 50º aniversário da aprovação da pílula contraceptiva, assistimos a uma torrente de comentário e de reflexão, na maioria positiva. A revolução, como foi proclamado – e aclamado – pela revista Time e a maior parte das outras fontes seculares, tinha aplanado o campo do mercado económico entre homens e mulheres, pela primeira vez na história; tinha concedido às mulheres uma liberdade que jamais tinham conhecido. Tudo verdade. Mas há um outro lado desta história que tem sido ignorado por uma sociedade saturada pelos prazeres da revolução. A cada ano que passa acumulam-se mais provas que acabarão por alterar a narrativa cor-de-rosa que predomina. Nesse sentido gostaria de falar de cinco formas em que a revolução alterou a realidade humana como a conhecemos, cinco aparentes paradoxos que revelam o poder da revolução, em particular o seu incrível poder destrutivo.

Comecemos por uma pequena história que capta a escala da mudança. Eu cresci numa série de pequenas vilas em zonas rurais do Estado de Nova Iorque, a norte do Vale do Rio Hudson, no que parecia um planeta diferente da Cidade de Nova Iorque. Esta era, e é ainda, uma região de operários. Era o tipo de sítio em que mais rapazes nos anos 60 iam para o Vietname do que para a faculdade. Em larga medida não mudou, com uma gigantesca excepção, a família.

Nos anos 60 a maioria dos homens trabalhava nas explorações agrícolas, ou nas fábricas de cobre ou de prata locais. A maioria das mulheres casadas ficava em casa. A maior parte das famílias estava intacta – quer as religiosos quer as não religiosos. Não era uma população particularmente devota, a maioria dos residentes eram protestantes, menos de 10% católicos, e as igrejas não estavam propriamente a rebentar pelas costuras aos domingos.

Uma das minhas memórias dessa época é de uma rapariga adolescente que vivia na nossa rua e que engravidou. O pai da criança era um jovem soldado, acabado de regressar da guerra. As fofoqueiras estavam revoltadíssimas porque o rapaz não tencionava casar com ela. Nesses dias isso era chocante. Havia noivas grávidas, até adolescentes, mas os homens que recusavam casar com as mulheres que engravidavam eram objecto de reprovação. As pessoas falavam, e o que diziam não era simpático.

A rapariga acabou por ter o bebé, noutro local qualquer, e seguiu-se uma adopção. Ela regressou e acabou o liceu – tanto quanto sei sem estigma social. Mas o estigma de que me lembro, e bem, foi o que se manteve em relação ao namorado. A ideia de que ele se deveria ter responsabilizado, que era partilhada pela maioria dos adultos naquele local, e naquele tempo, desapareceu com os ventos da revolução.

Avancemos agora alguns 20 anos. No início dos anos 90 regressei e conversei com a minha antiga professora. Ela calculava que entre os 200 finalistas do liceu desse ano, cerca de um terço das raparigas estava grávida. Nem uma era casada. E sem dúvida haveria outras gravidezes para além das visíveis, pois havia boatos de que outras raparigas tinham abortado.

Ou seja, de uma gravidez escandalosa num liceu rural nos anos 70 passámos para muitas gravidezes não escandalosas nesse mesmo liceu em meados dos anos 90. Essa é uma imagem que nos mostra como a revolução sexual transformou o mundo.

O que nos leva ao primeiro dos paradoxos dessa revolução:

Paradoxo um: Se a premissa principal da revolução era a disponibilidade de contraceptivos baratos e fiáveis, porquê o aumento sem precedentes tanto no número de abortos como de gravidezes extraconjugais?

Esta é uma questão profundamente importante. Afinal de contas, quando a contracepção se tornou comum, muitas pessoas de bem-intencionadas a defenderam precisamente porque pensavam que tornaria o aborto obsoleto. A Margaret Sanger é um exemplo disso mesmo. Ela considerava o aborto “bárbaro” e argumentou que a contracepção acabaria com a prática. Entretanto a Planned Parenthood elevou-a ao estatuto de padroeira. Ela estava a fazer um argumento que parecia ser do senso comum: a contracepção fiável iria prevenir o aborto. Muitas mais pessoas, tanto antes como depois dos anos 60, acreditaram na mesma coisa. Mas os dados empíricos desde os anos 60 mostraram que esta lógica está errada. As taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo. Há mais de 20 anos um grupo de economistas explicou a dinâmica destes crescimentos simultâneos com uma clareza admirável.

Antes da revolução sexual as mulheres tinham menos liberdade, mas era esperado que os homens assumissem a responsabilidade pelo seu bem-estar. Hoje as mulheres têm maior liberdade de escolha, mas os homens adoptaram para si uma opção comparável. “Se ela não está disposta a abortar ou a usar contraceptivos”, pensa o homem, “porque é que eu hei de me sacrificar para casar?” Ao remeter o nascimento da criança para a dimensão da escolha da mãe, a revolução remeteu o casamento e o apoio infantil para a dimensão da escolha do pai. Por outras palavras, a contracepção conduziu a mais gravidezes e a mais aborto porque levou ao fim do casamento por “penalti”, ou a ideia de que os homens têm uma responsabilidade igual no caso de uma gravidez não planeada.

Outra teoria interessante sobre o falhanço da contracepção na prevenção do aborto foi aduzida por Scott Lloyd, no “National Catholic Bioethics Quarterly”. Recorrendo a estudos e estatísticas da própria indústria abortista ele (tal como outros) argumenta que a contracepção conduz ao aborto – não inevitavelmente, em casos individuais, claro, mas repetidamente e seguramente, como fenómenos sociais geminados:

“A questão de fundo é esta: os contraceptivos não são tão eficazes como dizem, e o seu falhanço está no cerne da exigência pelo aborto. A contracepção permite encontros e relações sexuais que sem ela não aconteceriam. Por outras palavras, quando os casais usam contraceptivos, concordam em ter relações sexuais numa altura em que uma gravidez seria problemática. Isto conduz ao desejo por um aborto.”

Há muitos esforços nas ciências sociais, e não só, para explicar este mesmo paradoxo; mas a questão principal mantém-se: ao contrário do que a maioria teria adivinhado nos anos 60, tanto o aborto como as gravidezes não planeadas proliferaram apesar da contracepção.

Muitas das pessoas que estavam presentes no início desta revolução não teriam antecipado estas consequências paradoxais. Muitas, em boa-fé, esperavam que a humanidade dominasse estas novas tecnologias e que elas acabariam por contribuir para o bem social. Mas aqueles de nós que estão vivos hoje, em claro contraste, possuem uma imensidão de dados empíricos acumulados ao longo de décadas e podemos ver, através da ferramenta perfeitamente secular das ciências sociais, que a história da revolução sexual tomou um rumo mais sinistro.

Paradoxo dois: A revolução sexual era suposto libertar as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, tem-se tornado mais difícil para elas conseguir aquilo que a maioria das mulheres diz querer: casamento e família.

Não estou a ser tendenciosa. Mulheres de todos os espectros políticos concordam que o casamento, ou a união para a vida, se tornou mais difícil do que outrora fora. Essa é uma razão pela qual temos actualmente barrigas de aluguer e congelamento de ovos – no caso do congelamento, com o apoio entusiástico do mundo empresarial. O objectvo destas inovações – para além dos lucros de um carreirismo ininterrupto – é estender o horizonte da fertilidade natural, para que as mulheres estejam mais livres para permanecer no local de trabalho e para encontrar marido e formar família. A suposta ideia – tal como a ideia por detrás da contracepção livre e do aborto a pedido – é de dar mais poder às mulheres, dar-lhes controlo.

Mas paradoxalmente, muitas mulheres dão por si com menos capacidade de casar, permanecer casadas e constituir família – tudo coisas que a vasta maioria das mulheres continua a descrever como seus principais objectivos. As redes sociais e a imprensa fazem eco desta preocupação com manchetes como “Oito razões pelas quais as nova-iorquinas não conseguem arranjar marido” (New York Post); ou “Porque as licenciadas não encontram amor” (The Daily Beast); ou muitas outras histórias que se preocupam com as mulheres de hoje e a questão do casamento.

Mas os economistas já desvendaram a realidade por detrás destas preocupações, mais resquícios da revolução. No seu livro “Cheap Sex: A Transformação dos Homens, do Casamento e da Monogamia”, o sociólogo Mark Regnerus utilizou as ferramentas da economia para explicar o mercado sexual pós-revolucionário, com o apoio de novos dados.

A essência do argumento é esta:
Muitas mulheres pensam que os homens têm medo do compromisso. Mas os homens, em média, não têm medo do compromisso. A questão é que os homens estão numa posição privilegiada no mercado do casamento, podendo navegá-lo de uma forma que privilegia os seus interesses e preferências sexuais.

Por outras palavras, a mesma força que erodiu o casamento de “penalti” acabou por dar mais poder aos homens e não às mulheres.

Um dos economistas citados por Mark Regnerus, Timothy Reichart, escreveu uma análise semelhante da revolução, num artigo do First Things, chamado “Bitter Pill”, em que utiliza dados dos anos 60 em diante para argumentar que “a revolução resultou numa redistribuição massiva de riqueza e de poder das mulheres e das crianças para os homens”. Especifica: “Tecnicamente, a contracepção artificial cria uma cena a que os economistas chamam o ‘dilema do prisioneiro’, em que cada mulher é levada a tomar decisões racionais que acabam por a deixar a ela e a todas as mulheres numa situação pior”.

Claro que não estamos a falar aqui nos movimentos e comunidades deliberadamente contraculturais que se juntaram para se opor à revolução desde os anos 60. Antes, estamos focados na narrativa cultural em ambientes não-religiosos – o tipo de local em que a revolução não é encarada como sendo problemática. (Ainda).

E nesse mundo, que é agora a cultura predominante, o facto de muitos homens não estarem a assentar, a casar e a constituir famílias é uma preocupação constante. É daí que surgem expressões como “síndrome Peter Pan”, dos anos 80. É por isso que “falha de lançamento” é uma expressão tão utilizada hoje e “manolescent” [homenloscente] se tornou uma palavra no Urban Dictionary.

Todos estes novos termos têm a mesma origem, que é um menor incentivo para os homens casarem, devido ao facto de o mercado sexual ter sido inundado de potenciais parceiras – “sexo barato”, como se lê no título. Também este desenvolvimento não estava entre previsões dos anos 60. Mas há mais. 

Um terceiro paradoxo tornou-se dominante na telenovela das redes sociais dos nossos dias, passa-se assim: Era suposto a revolução sexual capacitar as mulheres. Em vez disso, trouxe-nos os escândalos sexuais de 2017 e o movimento #MeToo. Para além de ter tornado o casamento mais difícil para qualquer mulher, permitiu ainda um nível de predação sexual nunca visto fora do âmbito de exércitos conquistadores.

Tomemos o exemplo de Hugh Hefner, fundador da Playboy, que morreu o ano passado. O seu império comercial assentava, claro está, em fotografias pornográficas de um grande número de mulheres. Tornou-se um exemplo da sua própria suposta filosofia, a filosofia Playboy de bebidas sofisticadas, música e, claro, sexo fácil. Foi uma ideia que se espalhou rapidamente e podemos supor que a maioria das pessoas não conhecia as verdades sórdidas que mais tarde emergiram da mansão Playboy, e não só, sobre a exploração que estava por detrás da publicidade vistosa.

Apesar disso, quando Hefner morreu muitos progressistas, incluindo autodenominadas feministas, não se pouparam a elogios ao apóstolo da revolução. Porquê? Porque ele mascarava os seus objectivos de predador na linguagem do progressismo sexual. Tal como um escritor da Forbes resumiu, “a Playboy publicou o primeiro artigo a apoiar a legalização do aborto em 1965, oito anos antes da decisão de Roe v. Wade que permitiu a prática – e antes ainda de o movimento feminista abraçar a causa. Também publicou números de telefone gratuitos para mulheres que queriam obter abortos seguros.”

Sharon Tate, Hugh Hefner, Barbi Benton e Roman Polanski
Por outras palavras, o apoio de Hefner por estas causas parece estar intrinsecamente ligado ao seu desejo de poder viver de uma forma que explora as mulheres. Esta geminação aplica-se a muitos dos escândalos sexuais que têm rebentado nos noticiários. As histórias dos Weinsteins, etc., revelam este papel estratégico do aborto na vida de numerosos homens que vêem as mulheres como objectos sexuais e desprezam a monogamia. Sem o recurso à liquidação fetal, onde estariam homens deste calibre? Em tribunal, a pagar fortunas em pensões alimentares.

Cada vez mais pensadores, mesmo fora do mundo religioso, estão a chegar à mesma conclusão. A revolução sexual não cumpriu as promessas feitas às mulheres; pelo contrário, deu ainda mais liberdade aos homens – sobretudo homens sem as melhores intenções. Francis Fukuyama, um cientista social não religioso, escreveu há quase 20 anos no seu livro “The Great Disruption” que “uma das maiores fraudes impostas durante a Grande Disrupção foi a noção de que a revolução sexual era neutra do ponto de vista de género, e que beneficiaria homens e mulheres em igual medida… De facto, a revolução sexual serviu os interesses de homens e acabou por impor fortes limites aos ganhos que as mulheres poderiam esperar da sua libertação de papéis tradicionais”.

Com essa observação, Fukuyama junta-se a uma longa e crescente lista de pensadores não-religiosos que agora, em retrospectiva, podem compreender melhor aquilo que alguns dos líderes religiosos dizem desde sempre. A revolução democratizou, efectivamente, a predação sexual. Já não era necessário ser rei ou senhor do universo noutra dimensão para poder abusar ou assediar mulheres de uma forma contínua. Tudo o que era preciso era um mundo em que a maioria das mulheres usam contracepção e não beneficiam de protectores masculinos. Por outras palavras, o mundo que nos foi entregue pela revolução.

Há um quarto paradoxo que ainda mal foi estudado, pelo menos de forma sistemática, e que precisa de o ser. Trata-se do efeito da revolução sobre o Cristianismo. Ao olhar para trás percebemos que a história da revolução tem acompanhado, simultaneamente, a polarização das igrejas por dentro ao mesmo tempo que cria laços mais fortes entre denominações diferentes do que alguma vez tinham existido.

Há décadas que os comentadores discutem o que os anos sessenta significaram para as igrejas. Alguns acolheram as inovações do Concílio Vaticano II, por exemplo, e outros saudaram as transformações teológicas radicais das principais igrejas protestantes. Outros ainda deploram estas mudanças. Seja como for, os observadores do Cristianismo hoje chegam a uma conclusão inevitável: a revolução sexual é a questão mais divisiva que atinge a fé.

Isto aplica-se tanto a católicos como a protestantes. Em 2004 o livro “A Church at War”, de Stephen Bates, um livro sobre a Comunhão Anglicana, resumia assim o seu principal argumento na contra-capa: “A política sexual vai levar ao divórcio entre Anglicanos e Episcopalianos?” Alguns anos mais tarde, escrevendo sobre o mesmo assunto em “Mortal Follies: Episcopalians and the Crisis of Mainline Christianity”, William Murchison concluiu que “para os episcopalianos, como para muitos outros cristãos, as principais questões são o sexo e a expressão sexual, nem um nem outro visto como um meio para um fim maior, mas sim como o fim em si”.

No seu livro de 2015 “Onward”, Russell Moore reflecte sobre a tensão entre evangélicos progressistas e tradicionalistas da seguinte forma: “No que diz respeito à religião na América, neste momento, o progresso resume-se sempre a sexo”.

Tal como noutros exemplos, parece seguro dizer que o estado de divisão que existe hoje não é nada que os cristãos dos anos 60 desejavam. As vozes dentro das igrejas que pediam apenas um Cristianismo “mais aberto” não sabiam o que vinha aí, que se transformou na guerra civil figurativa de hoje, que atravessa denominações e a fé em si.

Por agora termino com um quinto paradoxo. A revolução sexual não se ficou pelo sexo. O que muitas pessoas pensavam tratar-se de uma transformação privada das relações entre indivíduos acabou por reconfigurar de forma radical não só a vida familiar, mas a vida em si.

Talvez o efeito menos compreendido da revolução seja aquilo a que se podem chamar os seus efeitos macrocósmicos – a forma como continua a transformar e deformar não apenas indivíduos, mas sociedades e política também.

Algumas destas mudanças são demográficas: em grade parte do mundo desenvolvido as famílias são hoje mais pequenas e mais estilhaçadas por dentro do que em qualquer outro período da história.

Alguns efeitos são políticos: famílias mais pequenas e fracturadas colocaram uma pressão sem precedentes sob os estados sociais do Ocidente, ao reduzir a base fiscal necessária para a sustentar.  

Há ainda efeitos sociais que só agora começam a ser mapeados, como o grande aumento de pessoas a viver sozinhas, ou a demonstrar índices muito reduzidos de contacto humano ou de outras formas que constituem o campo em crescimento de “estudos de solidão” – também isto acontece em muitos países ocidentais.

Depois há as consequências espirituais, que também não podiam ter sido previstas nos anos sessenta, sobretudo por aqueles que argumentavam que uma mudança de paradigma moral ajudaria os cristãos a serem melhores cristãos.

Já argumentei noutro lado que a revolução deu aso a uma nova fé secularista e quási-religiosa – o conjunto de crenças mais potente desde o marxismo-leninismo. De acordo com esta nova fé, o prazer sexual é o bem-maior e não existe qualquer padrão moral para além do consentimento entre adultos para o que quer que seja que desejem fazer uns com os outros. Quer tenham consciência disso ou não, muitas pessoas modernas tratam a revolução sexual como uma espécie de fundação religiosa – intocável em termos de revisão, independentemente das consequências que provocou.

Estes são apenas alguns exemplos do novo mundo que precisa de ser estudado e isto vai absorver-nos intelectualmente durante muito tempo. Devemos ter esperança nesses esforços futuros. Afinal de contas, levou mais de cinquenta anos para a opinião mudar sobre apenas alguns aspectos negativos do legado da revolução. Poderão ser precisos mais cinquenta, ou cem, para que seja feito um apanhado empírico e intelectual completo e honesto. O revisionismo sobre os efeitos da revolução no mundo ainda agora começou.

Termino com um pensamento. O grande escritor russo Leo Tolstoy foi a dada altura enviado pelo seu jornal para fazer uma reportagem sobre o que se passava num matadouro local. O que viu abalou-o profundamente. A descrição que fez incluiu uma frase imortal que penso aplicar-se à nossa situação hoje. Depois de relatar os factos, Tolstoy observou, com simplicidade devastadora, “não podemos fingir que não sabemos estas coisas”.

É nesse ponto que se encontra a humanidade em 2018 no que diz respeito à revolução sexual. Não podemos continuar a fingir que não sabemos estas coisas, estas coisas que a revolução provocou.

Nos anos idílicos da década de 60 muitas pessoas de boa-fé podiam alegar ignorância sobre as consequências vindouras. Poucos podiam adivinhar quantos milhões de crianças nas gerações seguintes cresceriam sem pais em casa, por exemplo, ou quantos mais milhões seriam abortados; ou quantos homens e mulheres de casas destroçadas acabariam por sofrer de diversas formas, recorrendo a drogas – a epidemia de opiáceos não se pode resumir ao marketing – e outros comportamentos autodestrutivos.   

Há apenas meio século, muitas pessoas esperavam que a revolução não provocasse danos colaterais humanos. E, justiça lhes seja feita, quem, nesses anos, poderia ter previsto a autêntica biblioteca de ramos de ciências sociais que, entretanto, foi criada, demonstrando apenas alguns dos danos humanos afligidos a homens, mulheres e filhos da revolução?

Há cinquenta anos algumas pessoas até esperavam que as novas liberdades e controlos tecnológicos acabariam por estabilizar o casamento. A encíclica Humanae Vitae, que também completa os seus 50 anos este ano, acabaria por se tornar desprezada ao longo das décadas precisamente por prever o contrário – precisamente por insistir que a revolução iria ferir o romance e a família, e permitir o comportamento predatório dos homens e a maldade de governos.

É um paradoxo dentro do paradoxo que muitas pessoas, incluindo dentro da Igreja Católica, mesmo em altos cargos, resistiram furiosamente à rejeição que a Humanae Vitae fez da revolução – ou, já agora, qualquer rejeição da revolução – não obstante as provas.

Mas em 2018 será que algum de nós pode, em boa-fé, fingir que não sabe estas coisas que foram empiricamente documentadas? A resposta tem de ser não.

Em 1953, quando a primeira edição da Playboy chegou aos escaparates, talvez muitas pessoas quisessem acreditar na sua conversa sobre aumentar a sofisticação e a urbanidade dos homens americanos. Em 2018 não podemos continuar a fingir que a generalização da pornografia representou menos do que um desastre para o romance e um dos factores principais para os divórcios de hoje, bem como outras rupturas familiares.

Em 1973 nem mesmo os apoiantes de Roe vs. Wade podiam imaginar o que aí vinha: alguns 58 milhões de micro-humanos que nunca teriam a oportunidade de nascer, só nos Estados Unidos; generocídio, ou a matança selectiva de micro-meninas por serem meninas, em várias nações do mundo, também aos milhões. Nem podiam antever o grande salto tecnológico que acabaria por revelar a verdade sobre o aborto de uma vez por todas: a ecografia.

Será que os defensores actuais do aborto podem alegar a mesma ignorância?

Encarar os factos de forma honesta, e usá-los para estabelecer uma narrativa verídica, não é apenas uma forma de nos lamentarmos: é capacitador. Ao rejeitarmos estarmos sujeitos às falsidades da revolução, ainda que se tenham tornado a narrativa dominante dos nossos tempos, estamos a abraçar a liberdade de escrever uma narrativa nova, e mais verdadeira.

Só falta dar mais um passo na revisão do legado da revolução rumo à verdade: acabar de fingir que não conhecemos o registo histórico e empírico, quando cada ano que passa o revela cada vez, tanto à ciência como à razão. 


Mary Eberstadt é investigadora na Faith and Reason Institute. Alguns dos seus anteriores artigos para o The Catholic Thing, ou em que o seu trabalho é discutido, podem ser encontrados aqui. É autora de vários livros, incluindo It’s Dangerous to Believe e How the West Really Lost God.

(Primeira parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 10 de Fevereiro de 2018)
(Segunda parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 17 de Fevereiro de 2018)

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