quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não é Preciso Gostar do Papa

Randall Smith
Deixem-me esclarecer uma coisa: Não é preciso gostar do Papa. Não é preciso gostar da maneira como ele fala com os jornalistas, da maneira como fala com em público ou do tipo de sapatos que usa. Nem é necessário gostar da forma como aborda diferentes assuntos. Mas é preciso respeitar a autoridade do seu cargo quando ele a exerce de forma oficial.

Ao fazer esta afirmação estou simplesmente a repetir o que o Papa João Paulo II escreveu em Ad Tuendam Fidem, um documento composto com o propósito de “proteger a fé da Igreja Católica contra os erros que se levantam da parte de alguns fiéis”, considerando ser “absolutamente necessário que, nos textos vigentes do Código de Direito Canónico (…) sejam acrescentadas normas, pelas quais expressamente se imponha o dever de observar as verdades propostas de modo definitivo pelo Magistério da Igreja”.

Daí que na Profissão de Fé da Igreja podemos encontrar esta afirmação: “Adiro com submissão da vontade e do intelecto aos ensinamentos aos ensinamentos que o Pontífice Romano ou o Colégio Episcopal enunciam no exercício do seu Magistério autêntico, mesmo que não tencionem proclamar esses ensinamentos por um acto definitivo”. Aliás, de acordo com a Lumen Gentium, “esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.”

Um católico desapontado com o Papa é um católico desapontado. É uma coisa relativamente frequente na história da Igreja. Mas um católico que imagina que participa mais inteiramente do que o Papa no carisma da autoridade magisterial dada pelo Espírito Santo ao próprio Papa, e que decide que ele ou ela é que tem autoridade para estabelecer a fasquia pela qual os ensinamentos oficiais de um pontificado podem ser julgados (e rejeitados), está a cometer o mesmo erro que Lutero. É o mesmo erro cometido por muitos teólogos liberais, que se estabeleceram como a pedra de toque, a fasquia, a autoridade, e o Papa, seja quem for, deve, insistem, pôr-se de acordo com o que eles pensam, ou então ser cuspido como se fosse uma peça de fruta estragada. Este é o caminho da loucura e da divisão.

Devemos aprender tudo o que podemos dos ensinamentos da Igreja, cada bocado de sabedoria. Devemos deixar-nos envolver e desafiar, especialmente quando estes repetem algo que foi ensinado insistentemente por Papas cuja santidade e sabedoria estão acima de qualquer suspeita.

E, francamente, se alguém estiver em desacordo com algum desses ensinamentos deve estar pronto a fornecer contra-argumentos sérios em vez de simplesmente dar aso a expressões infantis de desacordo e desapontamento. Escusado será dizer que a citação descontextualizada de documentos de papas que estavam a lidar com problemas séculos atrás para convencer os católicos contemporâneos de que fazem parte de uma Igreja corrupta é tão convincente como ver protestantes evangélicos a citar textos bíblicos fora de contexto para convencer os católicos em geral de que pertencem a uma igreja corrupta.

De facto, as semelhanças entre o protestantismo e muitas das formas contemporâneas de tradicionalismo antipapal são maiores do que se poderia esperar. É importante recordar que Lutero não tinha qualquer intenção de fundar uma igreja “protestante”, antes pensava em si mesmo como um conservador a reformar a verdadeira Igreja que se tinha perdido no caminho ao fazer acrescentos corruptos à tradição autêntica.

Da mesma maneira, muitos dos ditos “tradicionalistas” vêem-se a si mesmos como estando a preservar a tradição católica autêntica que a dada altura se perdeu – apesar de muitos destes “tradicionalistas” olharem apenas para um período da história da Igreja (normalmente até bastante recente) ou para um documento em particular como a única fasquia que define “a tradição”, tal como Lutero clamava por uma igreja cristã “pura” que imaginava que tinha existido nos primórdios da Igreja, logo a seguir à morte de Cristo (mas que de facto nunca houve) e para as epístolas de Paulo (como ele, Lutero, as entendia).

Se é um “conservador” que acha mais importante o “conservadorismo” ao estilo americano do que ser católico, isso é consigo. Mas aí não tem margem para responsabilizar o liberal que acha mais importante o “liberalismo” à americana do que ser católico. Se é católico, seja católico, e os católicos têm a tradição magisterial e apostólica. A Igreja não é um clube, uma seita ou um partido político.

Por estas razões e por outras, não pode permitir que a sua irritação com o estilo pessoal de qualquer Papa em particular, mesmo que faça coisas que eu e você possamos achar tolices, o distraia dos ensinamentos oficiais deste ou qualquer outro pontificado. Nem sempre temos o Papa que queremos. Às vezes levamos com um pescador tonto que negou três vezes que conhecia Cristo precisamente quando Jesus mais precisava dele. Não acreditamos no homem, independentemente do quão sábio ou santo ele possa ser. A nossa fé encontra-se na promessa de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito para a guiar.

Se acha que há problemas na Igreja (e há sempre, porque somos um povo peregrino), então jejue e reze. Redobre os seus esforços para viver a sua vocação em santidade. Mas se acha que vai ajudar a Igreja com especulação infindável sobre a política interna do Vaticano ou lamentos intermináveis sobre várias pessoas na cúria, então está a deixar que o espírito de divisão penetre onde deve estar apenas o espírito da união e da caridade.

Deixe o Espírito Santo guiar a Arca da Igreja através da actual tempestade. Já temos preocupações suficientes para cultivar as vinhas no nosso próprio quintal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

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