segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eutanásia, dignidade e individualismo

Propaganda nazi pró-eutanásia
Hoje os idiotas são outros.
O debate da eutanásia já chegou, fruto de um manifesto e da promessa de uma iniciativa legislativa do Bloco de Esquerda.

Os argumentos e as estratégias a que estamos a assistir são os mesmos de sempre, que já foram usados noutros países, incluindo aqueles que começaram por prometer só eutanásia voluntária para doentes terminais e agora já matam crianças, idosos a pedido das famílias e pessoas com meras depressões.

Em primeiro lugar está sempre o chavão da dignidade. E quem é que pode ser contra a dignidade? Ninguém, claro. A questão está então em saber se aquilo que é proposto é realmente algo que dignifica as pessoas ou não. E não é, muito pelo contrário.

Ao dizer que as pessoas têm o direito a uma morte digna, o que os defensores da Eutanásia estão a dizer implicitamente é que existe algo de indigno numa morte natural que possa envolver sofrimento ou degeneração física. Isso é, pura e simplesmente, uma monstruosidade.

Cada homem e cada mulher tem uma dignidade que é inviolável, que não lhe pode ser tirada e que é inerente ao próprio facto de ser humano. Quando dizemos que alguém está a fazer uma coisa indigna – se uma mulher se torna prostituta ou um homem comete um crime horrendo – não estamos a dizer que perderam a sua dignidade mas sim que esse acto ou essa escolha nos choca precisamente pelo contraste com o respeito que essa dignidade pede e merece.

O toxicodependente mais degradado do mundo não é menos digno que o Papa ou que um deputado ou deputada. É porque tem essa dignidade indelével que nos custa tanto vê-lo no estado em que está.

Se a dignidade não pode ser afectada ou diminuída pelos nossos actos ou pelas nossas escolhas, menos ainda pode ser afectada ou diminuída por um processo natural de envelhecimento ou doença. Dizer que sim implica dizer que o homem só é verdadeiramente digno quando está no auge da sua saúde e desenvolvimento. À medida que decai, torna-se menos digno e, por isso, menos humano. Esta noção terrível é, infelizmente, uma consequência lógica da ideia de que os nascituros são menos humanos que os que já nasceram e estão mais desenvolvidos.

E é isto que nos leva à segunda questão. O que é que eu tenho a ver com isso? Se o Sr. José quer morrer, quem sou eu para me colocar entre ele e a sua ideia de “morte digna”? Não temos cada um direito a escolher o nosso próprio destino?

Eis-nos perante o triunfo do individualismo. A minha vida, os meus direitos, o meu destino, as minhas escolhas, o meu corpo… O único problema com este raciocínio é que nós não somos, nenhum de nós, unicamente indivíduos, somos pessoas que vivem em sociedade, em grupos, em famílias, em nações.

É evidente que temos direito a tomar decisões sobre a nossa vida, mas não na medida em que afectam de tal forma a sociedade que tornam a vida mais perigosa para todos os outros. Não posso, usar “o meu tempo” e “a minha vida” e “o meu dinheiro” para mandar construir “a minha central nuclear” na “minha quinta”. É tudo meu, menos o custo social…

E qual é o custo social da legalização da Eutanásia? Porque é que a escolha individual do Sr. José tem alguma coisa a ver comigo? Porque a consagração dessa opção como um direito põe em causa o pilar central da sociedade em que eu vivo e que as leis existem para sustentar.

Porque a legalização da Eutanásia diz-me a mim e à minha família que vivemos num país em que a dignidade das pessoas se mede pela sua aptidão física ou ao sabor das suas vontades. E está também a abrir as portas da legitimidade a todas as pressões que a partir de agora os idosos e doentes passarão a sentir por serem fardos para os seus familiares.

A aprovação desta lei fará com que eu e a minha família passemos a viver num país que em vez de dizer aos cidadãos mais frágeis “estou aqui para te ajudar” passa a dizer “estou aqui para te ajudar a morrer”, como se isso fosse resolução não só para o seu problema mas para o nosso também.

E por fim, e acima de tudo, obriga-me a viver num país que assume que entre duas pessoas, uma tem dignidade e outra não. E essa é uma ideia tão perigosa que em nada nos surpreende que o primeiro regime na história moderna a legalizar e codificar a eutanásia assentava precisamente sobre ela.

Por isso não, esta não é uma questão que diz respeito apenas a cada um, diz respeito a todos. E é uma questão que não precisa de eutanásia, precisa de ser abortada mesmo antes de vir a nascer.


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1 comentário:

  1. Esta lei eventualmente aprovada pela A.R. é uma lei sem sentido humanista, esquece a pessoa como um todo, indivisível.

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