terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mitras na política

Em Espanha os bispos deram a conhecer em Outubro uma nota para ajudar os católicos a decidir em quem votar nas próximas eleições.

Sem falar em partidos, na prática os bispos excluem o PSOE de Zapatero, actualmente no Governo, quando colocam no topo da lista de prioridades o combate a leis que atentam contra a vida e contra a noção tradicional de casamento como sendo entre um homem e uma mulher.

Por outro lado, enfatizam também os cuidados a ter com os mais frágeis, incluindo os pobres, os idosos e os imigrantes, bandeiras sociais mais comummente associados à esquerda, quer se concorde ou não.

Esta semana os bispos americanos deram um murro na mesa aofalar abertamente sobre um conflito crescente com a administração democrata queactualmente manda no país. Os bispos queixam-se de que há quem os queira empurrar de volta para a sacristia e recordam que a liberdade religiosa não se limita à liberdade de culto, mas engloba também a liberdade de viver a fé na sociedade e reflecti-la nas posições e nas instituições.

Tanto em Espanha como nos EUA há uma cultura maior de intervenção política das figuras religiosas que não existe em Portugal. Seja por que razão for, os bispos portugueses preferem manter um perfil mais discreto no que diz respeito à ingerência no jogo político. Não é só uma questão de feitio, trata-se de uma escolha. Perante a posição do episcopado espanhol, que durante os anos de governação de Zapatero chegou a patrocinar gigantescas manifestações em Madrid, os bispos portugueses decidiram conscientemente seguir outro rumo.

Neste campo a Igreja será sempre presa por ter cão e presa por não ter. Há críticos de ambos os lados e o consenso não me parece possível. A evidência também não nos permite tirar muitas conclusões. Nem em Espanha nem em Portugal foi possível travar as leis que se queriam travar. Dirão uns que pelo menos em Espanha a Igreja tomou uma posição firme, dirão outros que lá se queimaram pontes de diálogo que cá continuam de pé.

A verdade é que a tendência de remeter a religião para a esfera do privado é crescente e não se resume à Europa. Pessoalmente não me faz a menor confusão ouvir a voz dos bispos na praça pública, a gritar se for preciso. Temo mesmo é o dia em que por mais que gritam ninguém dá por isso.


Filipe d'Avillez

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