terça-feira, 8 de novembro de 2011

Auto-imolação

Há muitas formas de uma pessoa se matar por uma causa. Desde colocar-se no lugar de um condenado, como fez S. Maximiliano Kolbe a fazer-se explodir para causar o máximo de danos ao inimigo, como faziam os Kamikazes japoneses e fazem ainda militantes sobretudo islamistas ainda hoje.

Mas curiosamente a forma que parece criar maior efeito mediático é a auto-imolação. Vimo-lo recentemente no Médio Oriente. No final do ano passado um jovem tunisino incendiou-se em protesto contra a falta de oportunidades no seu país e passados três meses caiu o ditador do Egipto, o mais populoso estado da região.

Não há qualquer indício de que Mohamed Bouazizi fosse motivado por factores religiosos quando se incendiou a 18 de Dezembro de 2010. Mas o próprio acto está carregado de simbologia religiosa.

A imolação é a principal forma de sacrifício nas tradições abrâamicas e por isso ressoa na mente de cristãos, judeus e muçulmanos. Os sacrifícios queimados chegavam mais rapidamente a Deus, para além disso deixavam totalmente destruído o holocausto e por isso garantiam que este se reservava ao Senhor e que não seria aproveitado por mais ninguém.

É também por isso, estou convencido, que o gesto de Bouazizi cativou tanto os seus concidadãos e, por fim, todo o mundo árabe, muito mais do que se ele se tivesse feito explodir, ou se suicidasse de uma forma mais convencional.

Agora a tendência das auto-imolações chegou ao Tibete. Nos últimos meses já 11 monges ou freiras se mutilaram ou mataram desta forma, sempre invocando o nome do Dalai Lama e a liberdade do Tibete como motivação.

Entre os budistas a tradição até é antiga, há imagens famosas de auto-imolações em protesto contra a guerra do Vietname, mas penso que será inédito um surto desta dimensão, que não dá mostras de abrandar.

Resta saber se os efeitos finais na China e no Tibete serão os mesmos que foram no Médio Oriente. Durante quanto tempo poderá o regime chinês demonizar o Dalai Lama por estes gestos que se vão repetindo?

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