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Friday, 13 January 2023

O legado de Bento XVI e os avisos do Cardeal Pell

A Igreja despediu-se a semana passada de Bento XVI, num belíssimo funeral presidido por Francisco. Será este o novo normal do Vaticano, a que nos devemos habituar? A resignação vai tornar-se regular? Falámos de tudo isto para o novo episódio do podcast Hospital de Campanha, com Henrique Mota, o fundador da Princípia Editora, provavelmente o homem que mais obras de Bento XVI publicou em língua portuguesa. Henrique Mota também privou algumas vezes com o antigo Papa e neste episódio recordamos a sua personalidade e alguns aspectos da sua teologia que mais nos marcaram.

Não deixem de ler os dois artigos de homenagem a Bento XVI do The Catholic Thing da semana passada, de Robert Royal e de David Warren. O desta semana também é sobre Ratzinger, nomeadamente sobre o seu importantíssimo legado teológico.

Entretanto fomos apanhados de surpresa pela morte de outro homem importante na Igreja, o cardeal australiano George Pell. O cardeal ficou conhecido por ter sido acusado e condenado a pena efectiva de prisão por abusos sexuais, mas depois foi ilibado pelo Supremo. Neste artigo explico que esse episódio da sua vida deve servir de alerta para nós em Portugal, que estamos prestes a receber o relatório da Comissão Independente. O relatório vai provocar muita discussão e muita indignação, mas é bom que não leve a um estado de histerismo, como aconteceu noutros países, e que conduz a injustiças.

Por falar em injustiças, o bispo Rolando Alvarez, de Matagalpa, na Nicarágua, vai mesmo permanecer em prisão preventiva e ser julgado por atentar contra a integridade da nação.

Convido-vos ainda a ler o meu mais recente artigo para a revista World Mission, dos Combonianos na Asia, que por ocasião do Natal recorda-nos que os refugiados do nosso tempo são para nós, ou devem ser, ícones da Sagrada Família.

Podem ainda ler a minha análise das mais recentes declarações do Patriarca Cirilo, de Moscovo, sobre o conflito na Ucrânia, nas quais se mostra particularmente preocupado com a divisão da Igreja, e não tanto com o bombardeamento de alvos civis por parte das forças russas. As declarações completas dele, e de outros, aqui.

Thursday, 12 January 2023

Hospital de Campanha - Recordar Bento XVI em conversa com Henrique Mota

Entrámos em 2023 com a notícia da morte do Papa Emérito Bento XVI e o seu funeral celebrado pelo Papa Francisco. Para melhor entender o seu pontificado único, e que tanto nos provocou, convidámos o Henrique Mota, fundador da Editora Principia, que tanto pela sua experiência passada com Bento XVI  como pela edição de tantas das suas publicações nos trouxe histórias e episódios e uma visão próxima desta personalidade que tanto nos marcou.

Pedimos desculpa pelo estático que se ouve ao princípio, mas é só no primeiro minuto do som, depois passa! 

 

Wednesday, 11 January 2023

O Legado de Bento XVI: Teologia Ancorada no Logos

Roland Millare
No tempo dos Padres da Igreja não existia qualquer incompatibilidade entre servir a Igreja como intelectual e o chamamento à santidade. O monge do deserto Evgário (c. 346-399) exorta-nos a recordar que “aquele que é teólogo reza”. Durante um bom período, ser santo e ser intelectual era a norma para homens e mulheres como São Tomás de Aquino, São Boaventura, Santa Teresa Benedita da Cruz e São João Paulo II.

Através da sua obra escrita, e pelo testemunho da sua vida, Bento XVI mostrou como devemos praticar a exortação do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, de começar e terminar a teologia “de joelhos”. Por outras palavras, a vocação académica e o chamamento à santidade nunca devem ser mutuamente exclusivos.

Nas suas reflexões sobre a história e o desenvolvimento da teologia na história da Igreja, Bento XVI distingue cuidadosamente entre dois métodos teológicos: o escolástico e o monástico.

A teologia monástica, naturalmente representada por monges (tipicamente abades), dedica-se sobretudo a inspirar e encorajar os desígnios amorosos de Deus, enquanto que a teologia escolástica interessa-se por demonstrar a relação próxima entre a fé e a razão. Os teólogos escolásticos interessam-se em apresentar explanações sistemáticas da razoabilidade da fé e da unidade da revelação divina.

Agora e sempre, espera-se que o Cristianismo possa dar ao mundo razões da sua esperança (1 Pedro 3,15). Todos os crentes devem poder dar uma razão, ou apologia, da sua esperança a quem a pedir neste mundo. A teologia monástica ou a teologia escolástica do período medieval não são capazes, por si, de penetrar os corações empedernidos dos homens e das mulheres dos tempos modernos.

O teólogo no mundo moderno deve beber profundamente da sabedoria de ambos os métodos no estudo, oração, fé e contemplação. Se o teólogo quiser tornar o logos razoável então deve estar profundamente enraizado numa vida alimentada regularmente pelo Logos Encarnado, através da leitura orante das Escrituras, oração mental consistente e a celebração da liturgia.

No que toca à verdade temos dois caminhos distintos: a verdade (logos) que recebemos ou a que construímos para nós mesmos. No decurso do seu trabalho, Ratzinger sublinhou a perspectiva de Giambattista Vico (1668-1774), que distingue entre uma verdade que é exclusivamente produzida (verum quia factum) e uma verdade que nos antecede (verum est ens). Posto assim, esta escolha levou Ratzinger a tomar como sua a tese de Romano Guardini: a primazia do logos sobre o ethos.

A ameaça que nos coloca na pós-modernidade é que a sociedade optou pela escolha de ver a verdade apenas como o produto dos nossos próprios esforços. A verdade torna-se assim sujeita ao capricho individual autónomo, ou à vontade da turba. O juiz Anthony Kennedy, tornou-se o porta-voz desta mentalidade na sua sentença do caso Planned Parenthood v. Casey (1992): “No cerne da liberdade está o direito de cada um definir o seu próprio conceito de existência, de sentido, do universo, e do mistério da vida humana”.

Assim o logos torna-se subordinado ao ethos através do liberalismo e todas as formas de filosofia materialista.

A linha actual na comunicação social tem sido de que a maior contribuição do Pontificado de Bento XVI foi a sua resignação. Mas a história poderá bem demonstrar que ele lembrou a Igreja de como podemos interagir efectivamente com o mundo moderno – em particular o Estado moderno – com a constante mensagem de que a razão, o direito natural, o logos, são capazes, com o assentimento da fé, de alcançar muito mais do que a concepção limitada de razão do homem moderno. Como escreveu James V. Schall, S.J., Bento XVI colocou as fundações para uma teologia da política, ou política filosófica, verdadeiramente cristãs.

Nos seus discursos na Universidade de Ratisbona, no Bundestag alemão, em Westminster Hall, no Reino Unido, e no grande discurso que foi impedido de dar na Universidade La Sapienza, em Roma, Bento XVI explicou a quem estivesse disposto a escutar e a ler cuidadosamente que a sociedade apenas pode florescer com o livre exercício, em conjunto, da fé e da razão.

Bento XVI descreveu a sua própria teologia como “inacabada” ou “fragmentária”, porém, à medida que formos descobrindo os tesouros que se encontram nos seus livros, artigos, homilias e discursos, encontrarmos a rica teologia que está ancorada na Palavra de Deus como nos foi revelada na Escritura e na Tradição, interpretada fielmente pelos Padres da Igreja, em especial por Santo Agostinho.

Embora várias partes da sua sinfonia teológica estejam por terminar, ele desenvolveu os contornos de um método teológico que volta a enfatizar a unidade entre a fé e a razão, Oriente e Ocidente, Escritura e Tradição, antigos e modernos, e muito mais. Desenvolveu uma teologia completamente aberta que entra em diálogos frutíferos com outros.

Bento XVI também deixa à Igreja uma nova teologia missionária que tem o potencial de alcançar a humanidade moderna através tanto da fé como da razão. A descrição da teologia monástica que o próprio faz, resume bem a sua abordagem à teologia:

Fé e razão, em recíproco diálogo, vibram de alegria quando ambas estão animadas pela busca da união íntima com Deus. Quando o amor vivifica a dimensão orante da teologia, o conhecimento, adquirido pela razão, alarga-se. A verdade é procurada com humildade, acolhida com estupefacção e gratidão:  numa palavra, o conhecimento cresce unicamente no amor pela verdade. O amor torna-se inteligência e a teologia, autêntica sabedoria do coração, que orienta e ampara a fé e a vida dos crentes.

Já não temos de “esperar por um São Bento novo e, sem dúvida, muito diferente”, para citar Alasdair MacIntyre, porque Bento XVI foi beber à fonte da Palavra de Deus e à celebração da Sagrada Liturgia para colocar a teologia no caminho definitivo da renovação e da santidade: a face de Jesus Cristo – o eterno Logos.


Roland Millare, STD é Vice-Presidente de Currículo e Director de Programas para Iniciativas do Clero para a Fundação São João Paulo II, em Houston. É doutorado em Sagrada Liturgia pela Universidade Litúrgica, na Universidade St. Mary of the Lake, em Mundalein. É ainda professor assistente de teologia de candidatos ao diaconato na Universidade de St. Thomas, em Houston e na Diocese de Fort Worth. É autor de A Living Sacrifice: Liturgy and Eschatology in Joseph Ratzinger (Emmaus Academic, 2022).

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 7 de Janeiro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 4 January 2023

Multidões no adeus a Bento XVI

É paradigmático. O Papa que passou o seu pontificado inteiro a surpreender os mais cépticos com a sua popularidade está a fazer o mesmo na morte. As autoridades em Roma esperavam cerca de 30 mil pessoas por dia no velório de Bento XVI, mas os números têm sido mais ou menos o dobro.

O enterro do Papa Bento XVI é amanhã e quem quiser pode acompanhar na SIC Notícias, onde eu estarei, em estúdio, a comentar.

Logo no dia em que o Papa morreu publiquei um post em que coloquei links para os principais artigos, reportagens, etc., sobre Bento XVI. Deixei de o actualizar nos últimos dias, pois a informação já é excessiva, mas convido-vos a ler este meu texto em que elogio a sua capacidade teológica, recordando um episódio que foi de grande importância também nas relações da Igreja com o mundo judaico.

Esta semana o The Catholic Thing publicou uma série de textos de homenagem a Bento XVI, por isso em vez de um artigo mais longo, hoje publiquei no blog dois desses pequenos textos, traduzidos para português. Um é do criador do site, Robert Royal, o outro do comentador David Warren. Ambos valem a pena.  

Há mundo para lá de Roma, e infelizmente as tragédias também não param. Em Moçambique, novo ataque em Cabo Delgado, desta vez a um par de aldeias cristãs.

E a guerra na Ucrânia também continua, tal como o meu acompanhamento das principais declarações dos líderes religiosos relevantes. Os quatro principais foram actualizados ao longo dos últimos dias, com particular destaque para o Patriarca de Moscovo, Cirilo, e para o primaz da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, Sviatoslav Shevchuk.

Benedictus qui venit in nomine Domini

Já esperávamos, devido à sua avançada idade e ao facto de o Vaticano ter avisado para a deterioração do seu estado de saúde, que Bento XVI estava perto de entrar para a eternidade. Mas, como sempre acontece quando alguém morre – ainda para mais um amado mestre, um académico, pastor e Papa – quando esse dia chega de facto não deixa de ser um choque, e tudo muda.

Joseph Ratzinger contribuiu de tal forma para a Igreja e para o mundo que o seu nome e legado entrarão agora na grande herança cultural da fé Católica, como matéria permanente para reflexão sobre numerosas coisas, tanto humanas como divinas.

Houve grandes momentos públicos na sua vida que deixaram marcas grandes nas recentes décadas. Por exemplo, foi acusado por alguns de ter sido um progressista durante o Concílio Vaticano II, mas de ter “passado para o lado negro” durante as manifestações estudantis de 1960. Mas uma análise rigorosa dos factos (veja-se, por exemplo, o livro “Bento XVI: Uma Vida”, de Peter Seewald), mostra que essa ideia é simplesmente errada.

O pensamento de Ratzinger movia-se de forma calma, silenciosa, consistente e a uma profundidade que não era afectada nas suas bases pelos tumultos sociais. A sua grande consistência, só por si, é um ponto de referência que deixa grandes saudades.

Os seus alunos mais radicais respeitavam-no – e elogiavam-no – por isso, ainda que tenha vindo a reconhecer os limites do “diálogo” com certo tipo de radicais no meio académico, na Igreja e no mundo em geral. Tratou-se de um discernimento que o serviu bem quando, enquanto bispo e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve de confrontar dissidentes, movimentos como a teologia da libertação e aquilo a que mais tarde veio a chamar o “Concílio dos Média”, que era bem diferente daquele que ele e o jovem Karol Wojtyla tinham ajudado a formar.

Para mim houve um encontro pessoal que resumiu grande parte da sua vida e pensamento. Foi-me pedido que escrevesse a história da Guarda Suíça por ocasião do seu 500º aniversário e ofereci-lhe um exemplar de “The Pope’s Army”, no dia 6 de Maio de 2006. Estávamos rodeados de uma multidão, mas pegou no livro e, tratando-o com o carinho de um verdadeiro bibliófilo, começou a folheá-lo, olhando com atenção para diferentes capítulos, e disse: “Isto é maravilhoso, agora posso ler sobre estes guardas que me protegem”.

A propósito, embora ainda haja muito por esclarecer sobre a sua resignação, os Guardas Suíços disseram-me na altura que, entre outras coisas, ele estava fisicamente exausto a um ponto que era doloroso ver.

Sempre me pareceu que a escolha do nome Bento – um entre dezasseis com o mesmo nome – era um símbolo de muitas coisas em que ele acreditava na sua vida. Benedictus, “abençoado” certamente, por ter nascido quem nasceu, e onde nasceu, e ao longo de uma longa vida. Benedictus, no sentido da continuidade com Bento XV, que quase um século mais cedo lidou com a Primeira Guerra Mundial e com os seus efeitos por todo o mundo. Mas, finalmente, Benedictus porque ainda que fosse Papa – e apesar de tanta sabedoria – era um mero cristão, numa longa linha que remonta ao próprio Cristo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Saturday, 31 December 2022

Morreu o Papa que surpreendeu o mundo

Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.

Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.

O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.

Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”

Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.

Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.

Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.

As viagens eram menos frequentes que as de João Paulo II, mas ainda assim significativas tendo em conta que Bento XVI tinha 78 quando foi eleito. Houve várias de grande importância, a primeira de todas enquanto Papa, à Jornada Mundial da Juventude em Colónia, em 2005; a viagem ao Reino Unido, primeira visita de Estado às ilhas britânicas de um Papa; a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, onde debaixo de uma ferocíssima tempestade o Papa, tocado pela insistência de dois milhões de jovens que não o abandonavam, manteve-se firme dizendo aos presentes: “A vossa força é maior que a chuva”, enquanto os seus colaboradores o tentavam proteger com guarda-chuvas brancos; a ida a Cuba, uma das últimas, onde terá concluído que lhe começavam a faltar as forças para prosseguir com a missão que lhe tinha sido encarregada.

Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.

Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.

Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.

A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.

Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.

Em retrospectiva, a escolha não deveria ter sido tão surpreendente assim. O Papa já tinha dito, no livro-entrevista conduzido por Peter Seewald, que aceitava a ideia de resignar se sentisse incapacidade de desempenhar a sua função. Foi recuperada também a fotografia que na altura tinha passado bastante despercebida, de Bento XVI a deixar o seu pálio, símbolo de autoridade, em cima do túmulo do Papa Celestino V, um dos poucos na história da Igreja a resignar por sentir que não era capaz.

Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.

Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.

Morreu o Papa Bento XVI

Morreu hoje o Papa Bento XVI. 

Neste espaço irei colocando links para os principais textos, reportagens e notícias que surgirem sobre ele. 

Que o Senhor lhe dê eterno descanso. Obrigado por tudo nosso querido Papa, que foste apresentado como um feroz Rottweiler, mas revelaste-te um afável Pastor Alemão.

O funeral de Bento XVI já está marcado para o dia 5 de Janeiro. O seu testamento espiritual foi divulgado pela Santa Sé e pode ser lido aqui na íntegra












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