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Wednesday, 11 April 2018

O Lento Veneno das Ideias Más

David Carlin
Todos os semestres lecciono uma cadeira de ética (filosofia moral) na faculdade onde trabalho. Digo aos alunos que não têm de concordar comigo; têm direito às suas próprias opiniões, ainda que estas estejam profundamente erradas. Mas tento persuadi-los de que algumas teorias de moralidade, embora populares, estão erradas.

Em particular, argumento contra três teorias populares mas, em minha opinião, perniciosas:

  • A teoria de que as normas que definem o que é certo ou errado são meras criações sociais.
  • A teoria de que somos livres de criar os nossos próprios códigos morais, individuais.
  • A teoria de que tudo é moralmente permissível, desde que não prejudique terceiros de forma evidente e tangível, sem o seu consentimento.

Por outro lado, argumento que existe uma teoria de moralidade verdadeira, nomeadamente a teoria de que todos os seres humanos normais têm um conhecimento inato das regras fundamentais da moralidade, por exemplo, não matar, não roubar, não cometer adultério, não abandonar os filhos, etc. Pode-se chamar a isto uma teoria de moralidade do “direito natural”, mas não insisto nesse nome.

Escusado será dizer que não convenço todos, nem sequer a maioria, dos meus alunos a concordar comigo. Consolo-me dizendo que isso não é grave. Porquê? Porque se calhar estou errado, e nesse caso espero que não concordem comigo. Ou se calhar estou certo e eles verão isso daqui a 30 ou 40 anos. Ou se calhar tenho razão mas eles nunca vão concordar comigo. Mas se Jesus apenas conseguiu persuadir 11 dos seus 12 discípulos, porque é que eu hei de ficar desencorajado por não conseguir convencer todos os meus alunos?

Mas há dias um jovem da minha turma chocou-me (na verdade, achei piada), ao defender clara e francamente uma teoria da moralidade que eu considero verdadeiramente terrível. Ele é um bom aluno, sincero e simpático, e não é de todo o género de miúdo que os professores por vezes encontram, aqueles que discordam do professor só para chatear. De todo, longe disso, é um bom miúdo.

Ele defendeu (não obstante eu ter tentado refutar essa teoria no início desse mesmo semestre) que todos os indivíduos criam a sua própria moralidade e, por isso, que o que é certo ou errado para ti poderá não ser certo ou errado para mim. Desde que tu faças o que crês, pessoalmente, estar certo, então está certo. Da mesma forma, se eu fizer aquilo que pessoalmente considero estar certo, então está certo.

Agora, sempre que um aluno meu defende esta posição eu jogo a cartada do Hitler. “Se o Hitler acreditava que o holocausto era a coisa certa, então achas que ele estava certo em assassinar seis milhões de judeus, para não falar de milhões de outros? É isso que estás a dizer?”

Quando meto o Hitler ao barulho, o aluno tende a recuar da sua afirmação. (Às vezes desconfio que Deus tenha permitido a Hitler cometer estes homicídios em massa para que os professores possam usá-lo como exemplo horrível nas discussões nas salas de aula.) Mas este rapaz não recuou. Ele defendeu a lógica da sua posição, dizendo que o que Hitler fez estava certo porque ele acreditava que sim, e por isso este meu aluno não o condenaria por fazer a coisa errada.

Ao mesmo tempo assegurou-me que ele próprio tinha uma moral pessoal muito diferente. Pessoalmente, jamais cometeria genocídio; seria errado fazê-lo, porque isso vai contra o seu código moral pessoal. Não duvido que seja assim, como disse, é um miúdo porreiro. Não tenho qualquer medo de homicídio em massa quando entro na sala de aula e ele está lá.

Partilha connosco a tu ideia própria de moralidade!
Mas isso recorda-me que podemos mudar de ideias mais facilmente do que de coração. Mudamos as nossas opiniões mais rapidamente do que os nossos sentimentos. E no mais fundo de todos os nossos sentimentos estão as atitudes morais que adquirimos na juventude e na adolescência.

As nossas atitudes morais, porém, sejam boas ou más, são diferentes das nossas opiniões morais. É por isso que é tão difícil convencer uma pessoa a abandonar maus hábitos. Os conselhos que lhe damos podem ser 100% sãos, mas ainda assim ele não se mexe. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, às pessoas que crescem com boas atitudes morais.

Isto significa que as teorias morais más são inofensivas ou que as boas são inúteis? De todo. Se for uma pessoa com boas atitudes morais, então as teorias más provavelmente terão pouco impacto na sua conduta moral. Mas podem vir a ter um impacto sobre os seus filhos.

À medida que os educa, estará a dar-lhes um bom exemplo através da sua conduta (digamos, por exemplo, pela sua honestidade); mas a sua teoria dirá: “pessoalmente, acredito na honestidade, e espero que vocês também acreditem quando forem adultos, mas lembrem-se sempre que esta honestidade não passa de uma preferência pessoal. Lembrem-se de ser tolerantes para com os patifes, mentirosos e ladrões que por acaso não acreditam na honestidade”.

As teorias morais más, então, terão consequências morais más, e as teorias morais boas terão consequências boas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. Levará uma ou duas gerações, talvez cem, duzentos ou trezentos anos. Jefferson escreveu: “todos os homens são criados iguais” em 1776. Isto implicava que a escravatura deveria ser abolida. Mas levou mais 87 anos e uma grande guerra civil até que isso acontecesse.

“As ideias governam o mundo”, disse certa vez um filósofo francês. E é verdade. Mas na maior parte dos casos isso apenas acontece de forma gradual. Hoje existem muitas más teorias morais por aí, não apenas a do meu aluno. Se não os combatermos, acabarão por nos destruir – se não a curto prazo, gradualmente.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 6 de Abril de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 December 2016

O Papa e Hitler: Notícias Falsas e Mentiras

George J. Marlin
Na sua mensagem de Natal “Urbi et Orbi”, no dia 24 de Dezembro de 1940, o Papa Pio XII condenou a Alemanha Nazi pelo seu “uso ilegal de forças destrutivas contra não-combatentes, fugitivos, idosos e crianças; um desprezo pela dignidade, liberdade e vida humana que dá lugar a actos que clamam a Deus por vingança…”

No dia de Natal, um editorial do New York Times reconheceu que “a ordem moral do Papa, numa palavra, está em total contradição com a de Hitler”.

Um ano mais tarde, o discurso de Natal do Santo Padre para o Colégio de Cardeais denunciou os nazis pela violação dos direitos das minorias. Não podia haver lugar, disse, para “(1) opressão aberta ou subtil das características culturais e linguísticas de minorias nacionais; (2) contradição das suas capacidades económicas; (3) limitação ou abolição da sua fecundidade natural”.

Mais uma vez o editorial do dia de Natal do New York Times não só aplaudiu as afirmações do Papa, mas declarou que “a voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolvem a Europa neste Natal… Ele é dos únicos líderes no continente europeu que ainda se atreve a erguer a voz sequer… Não deixou qualquer dúvida de que os objectivos dos nazis são também irreconciliáveis com a sua própria concepção de uma paz cristã”.

Na sua mensagem de Natal de 1942, afirmou: “A Igreja não seria verdadeira consigo mesma, deixaria de ser mãe, se fosse surda ao choro das crianças sofredoras, de todas as classes da família humana, que lhe chega aos ouvidos”. Exigiu que os opositores dos nazis jurassem solenemente “nunca descansar até que as legiões das almas corajosas de todos os povos e todas as nações se ergam, resolvidas a trazer a sociedade de volta para o seu centro de gravidade amovível na Lei Divina e se dediquem ao serviço da pessoa humana e de uma sociedade humana nobre e divina.” Este juramento, concluiu, devia ser feito em nome das vítimas da guerra, “as centenas de milhares que, sem qualquer culpa, mas apenas por causa da sua nação ou raça, foram condenadas à morte ou à extinção progressiva”.

Mais uma vez a direcção editorial do Times louvou o Papa: “Nenhuma homilia de Natal chega a mais gente que a mensagem que o Papa Pio XII endereça a um mundo devastado pela guerra nesta época. Este Natal, mais do que nunca, ele é uma voz solitária a clamar do silêncio de um continente. O púlpito de onde fala assemelha-se mais do que nunca à rocha sobre a qual a Igreja foi fundada, uma ilha minúscula fustigada e cercada por um mar em guerra”.

O editorial referiu ainda que o Papa não é um líder político, mas um “pregador, destinado a erguer-se acima da batalha, imparcialmente ligado… a todas as pessoas prontas a colaborar numa nova ordem que traga uma paz justa”. E concluiu, “o Papa Pio expressa com tanta paixão como qualquer outro líder do nosso lado os objectivos de guerra desta luta pela liberdade, quando diz que todos os que trabalham para construir um novo mundo devem lutar pela liberdade de escolha de Governo e de religião.”

Aquilo que acaba de ler não são “notícias falsas”. A verdade é que a Igreja foi uma opositora incansável de Hitler. O que é falso é a propaganda anticatólica que chegou primeiro dos soviéticos e mais recentemente de intelectuais.

Se mais provas fossem necessárias, o novo livro de Peter Bartley, “Catholics Confronting Hitler”, que é de muito fácil e agradável leitura, descreve os movimentos de resistência católicos e as operações de salvamento levados a cabo no Vaticano e em toda a Europa ocupada pelos nazis. Muitas vezes este trabalho foi feito em colaboração com judeus e protestantes.

Os católicos pagaram o preço pela sua resistência. Bispos foram exilados ou assassinados, padres e leigos detidos ou executados em campos de morte. Com a bênção do Papa, a hierarquia católica alemã denunciou repetidamente dos púlpitos o programa de eutanásia nazi, bem como o seu neopaganismo e anti-semitismo. Ajudaram e esconderam judeus e, em 1943, os bispos “emitiram uma declaração conjunta a lamentar o despejo e assassinato de judeus”.

Em França os jornais clandestinos escritos por jesuítas e aprovados pelo Papa expuseram os males dos nazis, em particular as teorias raciais, e encorajaram a resistência, inclusivamente contra o Governo fantoche de Vichy. Os núncios papais na Eslováquia, Hungria, Balcãs e países ocupados da Europa ocidental, fiéis às ordens do Papa, protestaram publicamente cada vez que os judeus eram detidos ou arrebanhados para serem deportados. Os seus actos causavam frequentemente atrasos e suspensão de ordens de deportação, permitindo a dezenas de milhares de judeus encontrar refúgio nas casas e edifícios da Igreja.

O futuro Papa São João XXIII era delegado apostólico na Turquia e na Grécia durante a guerra e salvou a vida a incontáveis judeus na Hungria, Eslováquia, Bulgária e Roménia. Salvou pelo menos 50 mil judeus, emitindo certificados de baptismo.

Para além destes esforços clandestinos, a Pontifícia Comissão de Assistência, criada pelo Papa Pio XII, distribuía comida, artigos médicos e roupa a centenas de milhares de pessoas desalojadas. O Gabinete de Informação do Vaticano, segundo Bartley, “permitiu a dois milhões de pessoas manterem-se em contacto com entes queridos, pessoas que se julgavam desaparecidas, presos de guerra e pessoas em campos de concentração”. Países amigos “tinham de exceder as suas quotas de refugiados judeus quando estes chegavam às suas fronteiras munidos de documentos assinados por oficiais do Vaticano”.

Estas respostas à opressão nazi levaram Albert Einstein a reconhecer que “só a Igreja Católica se opôs ao ataque hitleriano contra a liberdade”.

E em Setembro de 2008, numa conferência internacional, académicos judeus e rabinos disseram ao Papa Bento XVI que o Papa Pio XII tinha ajudado a salvar perto de um milhão de vidas judaicas.

Então porque é que persiste este mito sobre o “silêncio” da Igreja? Pela mesma razão que outros mitos anticatólicos se alojaram na nossa cultura. Neste caso não se trata apenas de “notícias falsas”. Porque quando os esforços heroicos de salvamento da Igreja são ignorados ou até mesmo transformados no seu contrário, estamos perante mentiras claras, motivadas pelo Pai da Mentira.  



George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 14 September 2016

“O Papa vs. Hitler”: Uma Recensão e um Pedido

Brad Miner
O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O Canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo “ecodrama” chamado “O Papa vs. Hitler”, sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de “Church of Spies”. Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. “O Papa vs. Hitler” demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto Secretário de Estado do Vaticano, foi ele o principal autor de “Mit brennender Sorge” (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em Latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao Catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: “É quase como se o Diabo estivesse do seu lado”.

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um “consenso” de que a Shoah (o holocausto) “não poderia ter tido a magnitude” que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: “A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo”.

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt. 

Uma boa parte de “O Papa vs. Hitler” lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a “Absolvição de São Leão”. É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era “o Papa de Hitler”, como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da Diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o Cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 28 January 2016

Memórias de infância para acordar terroristas

A acordar terroristas desde 2014
Regressei ontem de Bruxelas, onde estive a cobrir um seminário sobre a resposta da União Europeia ao terrorismo.

Uma das oradoras era uma senhora francesa especializada em processos de desradicalização que explica aqui como uma das chaves para despertar a humanidade dos fundamentalistas são as memórias da infância.

Tive ainda o privilégio de poder ver a homenagem do Parlamento Europeu pelo Dia da Memória do Holocausto, que contou com a presença de sobreviventes. No final o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, disse que é inaceitável comparar o tratamento dos refugiados por parte de alguns países europeus à perseguição dos judeus pelos nazis.

Por falar em judeus e em nazis, quem não ouviu dizer que o Papa Pio XII não fez o suficiente para contrariar Hitler? O debate dura há anos, mas pode ter chegado ao fim, como pode ver neste artigo do The Catholic Thing, que refere documentação recentemente divulgada pela Santa Sé.

Também podem ir ver a transcrição integral da entrevista que fiz ao responsável pela Igreja Católica de rito latino na Jordânia, que aborda uma variedade de temas, incluindo a situação dos refugiados (cá e lá) e a situação do Médio Oriente cinco anos depois da Primavera Árabe.

Monday, 25 January 2016

A Guerra Secreta de Pio XII Contra Hitler

George J. Marlin
Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado" – que o mundo tem aturado a conversa de que Pio XII foi o “Papa de Hitler”. Há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que isso se trata de uma distorção deliberada, mas agora temos a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade.

Quando o Cardeal Eugenio Pacelli se tornou Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, um padre laicizado, que preparasse um dossier sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que tinha negociado com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma.

Pacelli também acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Pior, pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o anti-semitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII estava a reunir-se com cardeais alemães e a discutir o problema de Hitler. As transcrições mostram que ele se queixou que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi que gabou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O Cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937 “Com Grande Ansiedade” (Mit Brennender Sorge, publicada em alemão e não em latim). O texto, escrito em parte por Pacelli antes de este se ter tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber, “a questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado directamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”. Propôs que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e actualizada.” O Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina. Quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. O Papa concordou.

Assim nasceu o plano para construir uma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu interessantíssimo livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler”, Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e actas secretas acabadas de divulgar que descrevem detalhadamente as tácticas clandestinas usadas por Pio XII para tentar derrubar o regime nazi.

Depois de Hitler ter invadido a Polónia em 1939 o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A sua encíclica “Summi Pontificatus” rejeitou o racismo, dizendo que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo.

O Papa foi amplamente louvado por isto – um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas ele próprio sentia que era pouco.

Convencido de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos, que respondiam directamente a ele, que colaborassem com acções clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era um tal Josef Muller, advogado e herói da Primeira Guerra Mundial.

Muller organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Eles forneciam o Vaticano com informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942 Muller conseguiu introduzir Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objectivo era “fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões, para que os cristãos pudessem coordenar a sua luta contra Hitler”.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam todas, devido ao que Muller apelidou de “sorte do diabo”. Mas em relação a estes planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano Valquíria a Gestepo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. No dia 4 de Abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. Depois de um julgamento fantoche foram condenados à morte.

Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o e disse que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que durante a visita de Muller ao Vaticano o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra.

Muller disse que durante a guerra a sua organização anti-Nazi na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras e isso teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis do que já estavam, tendo restringido imensamente a sua liberdade de acção na resistência ao regime. O Dr. Muller disse que a política da resistência católica in interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. Disse ainda que o Papa tinha seguido sempre este seu conselho durante a guerra.

Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu nemesis.

Pode adquirir um exemplar de “Church of Spies” da loja do The Catholic Thing na Amazon, clicando aqui.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 7 November 2014

On "Farewell to Mars"

When I interviewed Brian Zahnd earlier this year, he very kindly gave me an advance copy of “Farewell to Mars”, his book against violence and, especially, the militarization of the Christian message.

I read it with great interest. By nature I am not a tremendously peaceful person. Like so many others, I am attracted to violence be it in film or in real life and have had to curb my own violent impulses, with difficulty, over the years.

The radical call to peace is something that, as a Christian, I struggle with, but which I have hardly any intellectual doubts about.

Let me put this into a context that might be more understandable. As I read “Farewell to Mars”, hundreds of thousands of Christian Assyrians were being expelled from their ancestral homelands in Iraq, by a terrorist organization which I truly believe represents pure evil, in its ideology as well as its motivations and above all, its methods. Women were raped and sold as sex slaves, men were summarily executed, entire families expelled from their homes and forced to trek through the desert to relative safety.

The Yezidis had it even worse and as a reporter I covered, from the safety of my city, the horrendous suffering of the men and women starving and dying of thirst on mount Sinjar, to the point of throwing their children off cliffs so as not to watch them die in agony before their eyes.

Faced with this, my first and very powerful impulse was only one. Go and fight these evil men. If I did not have a wife and four young children to care for, I might have done just that. The second impulse was to celebrate the airstrikes that were finally ordered against the Islamic State. That they should all be killed.

It has been a constant struggle of the mind to look at the terrorists who are killing the innocent, beheading aid workers and raping teenage girls, and come to terms with the fact that these men too, are my brothers. That they too, are created in the image and the likeness of God. It has not been easy, and I confess that when I heard, just yesterday, that the first of about 12 Portuguese members of IS had been killed, my first thought was “great, only 11 more to go”.

So reading Zahnd’s book was a welcome challenge, one I knew would do me good. In “Farewell to Mars” he does the important work of deconstructing the militaristic version of Christianity which so easily glorifies war and violence, condemns the “enemy” and heaps praise and glory on those who are supposedly killing in our name.

Monument commemorating the Portuguese discoveries
Note the cross shaped sword
It is true that he is responding to a reality which is more familiar to American Evangelicals than to this Portuguese Catholic, but there is enough of that sort of thing in our history for me to relate. Just a few hundred meters from my house is an enormous monument commemorating the discoveries, part of which is a huge cross shaped sword, just like the one which makes him feel so uncomfortable in the Air Force Academy Cadet Chapel.

Too easily, indeed, we forget that Christ calls on us to love our enemies, not to rejoice in their deaths. The fact that Zahnd reminds us of this by confessing to us that he too, at one point, led prayer services of war, makes the tone less preachy and more of a wake-up call.

So before I get on to things I am unsure of, or with which I disagree, let me say clearly that this book is a service to true Christianity, whether reformed or unreformed, and that its message is sorely needed today, as it always has been, even though it is likely to shock us and make us uncomfortable, as it did 2000 years ago. Thank you, Brian, for your effort and for the courage it takes to do what you did in “Farewell to Mars”.

But here is where I become the skeptic who you have no doubt met so often. I know you’ve met him, because you say so yourself here: “They begin to say what Jesus did not mean by ‘resist not an evildoer’ and when this teaching does not apply. (By the way, Hitler always shows up in these discussions).”

But, Brian, there is a reason Hitler always shows up in these discussions, as I am sure you know. He represents that type of absolute evil which many people believe can only be stopped with violence. And by many people I do not mean “hawks”, I mean many good, godly men and women. Men like Boehnhoffer. How can you mention Boenhoeffer in a book such as this without mentioning the fact that he was killed precisely because he was implicated in a plot to assassinate Hitler?

But it doesn’t have to be Hitler. It doesn’t even have to be the Islamic State. We could boil it down to the typical example: There is a man with a knife in a playground, starting to stab children at random. You have the opportunity to kill him, what do you do?

Because I understand and relate to the idea that we should turn the other cheek, when it is our cheek to turn. But what do we do in the face of other’s unnecessary and pointless suffering at the hands of an evil we can stop, even if only at the cost of violence? I don’t think that case is quite so clear.

In “Amish Grace”, a book I know you are familiar with, as you quote from it in your previous book about forgiveness, there is the story, told to generations of Amish families, of a man who’s house was attacked by native Americans and who forbade his sons from fetching their hunting rifles to defend the family, even though that meant that he and his children would be killed. So I am not saying the answer is simple. There are good Christian men and women who would hesitate even in these situations to use force against evil. But I am not convinced this is the right thing to do.

Dietrich Bohnhoeffer
I believe Boehnhoffer was right to try and have Hitler killed. I believe it is right to bomb Islamic State positions in defense of the innocent and I think I would take the shot in the playground scenario. I hope I would not feel any satisfaction in the death even of the evil, but that does not mean it isn’t the right thing to do.

There are other examples in the book which I have trouble with. The criticism of the Vietnam war is a case in point. Let’s leave aside the possible other motivations for that or any other war. Let’s take it on face value, even if we are being naïve, that the war was indeed fought to try and spare the South Vietnamese the horrors of life under communism. You say the following:

“The argument was that we had to combat atheistic communism by stopping its spread in Southeast Asia … But how did that work out? Fifty-eight thousand Americans died in Vietnam. The war was lost. Vietnam became communist. Yet somehow the dominos did not fall. Soviet bloc communism ran out of steam and collapsed under its weight a couple of decades later. The fall of communism had more to do with prayer meetings in Poland than bombs dropped on Cambodia. War is, among other things, impatience”.

True. But Vietnam was not the whole story. Thousands died in Korea as well, and effectively managed to stop the advance of the communists across the whole peninsula. The result was not useless, there are millions of South Koreans now who live in freedom who would otherwise have had to live under the insane regime of Pyongyang. If it had taken an international intervention to stop communism from sweeping across Cambodia, would it not have been worth the price, rather than having had to bear the genocidal Khmer Rouge?

Which brings me back to the Islamic State. As we “speak”, a few hundred brave men and women are defending the city of Kobane from a group of fighters who will massacre them all if they fail. Is it not only right, but an obligation, to come the aid of these men and women, militarily? It certainly seems that way to me.

Please, I urge you, don’t get me wrong! I am not picking a fight over a book about peace! I repeat that I fully agree with almost all you have written and I too deplore the fact that Christianity is so often co-opted by those looking to justify their personal vendettas or economic interests. I too agree that there is no “other”, there is only “us”. What I regret, though, is the way you simply brush aside the “Hitler” argument without taking it on, I would, genuinely, like to know your answer.

Thank you for your book, for your thoughts and insight, and for being an apostle of peace which the World so badly needs. God bless you!

Tuesday, 5 August 2014

Iraque, Iraque... pobre Iraque!


Cristão refugiado no Iraque
Faz sentido armar os cristãos iraquianos para poderem defender uma região autónoma? Alguns activistas acreditam que sim. Mardean Isaac, a residir em Londres, diz que nestes assuntos os cristãos no Médio Oriente não deviam ter de seguir os seus bispos.

É que os bispos discordam, tanto num ponto como no outro, como me disse há quase três anos o agora Patriarca dos Caldeus. Contudo, face ao agravamento das perseguições nos últimos dias, Louis Sako exige uma intervenção internacional.

Como de costume temos as transcrições completas da entrevista a Mardean Isaac. Numa primeira parte ele explica quem são os assírios, um termo que designa os cristãos daquela região, mas cuja utilização nem sempre é pacífica. Na segunda fala, então, do projecto de criação de uma região autónoma.

Não se esqueçam, entretanto, que amanhã é o dia de oração pelos cristãos iraquianos e leiam, se ainda não o fizeram, o excelente texto de David Warren sobre a perseguição que está a ter lugar.

Uma voz consistente de apoio aos cristãos perseguidos tem sido a da baronesa Warsi, no Reino Unido. Mas a única ministra muçulmana do actual Governo britânico apresentou hoje a sua demissão por não concordar com a posição de Cameron face ao conflito em Gaza.

Conheça ainda o plano de Hitler para raptar o Papa Pio XII e o cónego de Viseu que está prestes a fazer 100 anos. (Não, Hitler não queria raptar o cónego, que em 1939 nem era cónego ainda, mas já era padre).

Wednesday, 3 July 2013

Eutanásia: O Fundo do Poço

George J. Marlin
Pouco depois da invasão da Polónia, em 1939, Hitler autorizou os médicos alemães a empregar medidas de suicídio assistido involuntário. Foram abertos seis centros de eutanásia, designados, eufemisticamente, Fundações Caridosas para Cuidados Institucionais. Como o nome indica, a matança foi racionalizada como sendo um acto de compaixão.

Os julgamentos de Nuremberga revelaram que este programa inicial, limitado à Alemanha, tinha sido responsável pela morte de 70 mil adultos e cinco mil crianças, apesar de outras estimativas apontarem para os 400 mil. O programa foi encerrado em 1941 por ordem do Führer, porque estava a despertar oposição no país.

O bispo católico de Múnster, August von Galen, causou grande impacto público quando denunciou as políticas de eutanásia a partir do púlpito, em 1941:

Se estabelecermos e aplicarmos o princípio de que se pode “matar” seres humanos improdutivos, então ai de nós quando formos velhos e frágeis! Se podemos matar os improdutivos, então ai dos inválidos que esgotaram, sacrificaram e perderam a sua força e a sua saúde no processo produtivo... Pobres, doentes, improdutivos, e daí? Acaso eles perderam o direito à vida? Vocês e eu temos o direito a viver apenas enquanto formos produtivos?... Ninguém estaria a salvo. Quem poderia confiar no seu médico? O comportamento depravado e a suspeição que entrariam na vida familiar caso esta doutrina terrível seja tolerada, adoptada e praticada são inconcebíveis.

Houve protestos públicos – uma raridade na Alemanha nazi.

A resposta dos nazis foi de transferir os programas para os países conquistados, a leste, onde acabaram por se transformar na Solução Final. O suicídio assistido involuntário tornou-se a “solução médica” para eliminar não só os doentes, mas também os judeus, ciganos e eslavos, que eram considerados raças “doentes”.

Depois da Segunda Guerra Mundial o movimento para o suicídio assistido voltou à clandestinidade. Mas nos anos 60 e 70 estava a regressar, levando o comentador britânico Malcolm Muggeridge a dizer: “Podem submeter isto ao livro dos recordes do Guinness: leva apenas trinta anos para a nossa sociedade humanista transformar um crime de guerra num acto de compaixão.”

Eis que a Euthanasia Education Council mudou de nome para Concern for Dying, Inc.; e a Euthanasia Society of America se transformou na Society for the Right to Die, Inc. Apareceram outras organizações, como a Choice in Dying.

Não deixa de ser preocupante que as mesmas nações que fazem fronteira com a Alemanha e que testemunharam as políticas grotescas de Hitler – A Bélgica, Holanda e o Luxemburgo – tenham legalizado a eutanásia, consagrando-a como direito humano fundamental.

Desde a década de 70 que os tribunais holandeses têm estado a aumentar a quantidade de candidatos à eutanásia. No início dos anos 90 o poder judicial já permitia o suicídio assistido para doentes psiquiátricos que estavam fisicamente sãos. Num caso um psiquiatra foi ilibado de ajudar um doente mental a suicidar-se porque o tribunal concluiu que o doente, embora mentalmente doente, era competente e livre de decidir que queria morrer. O tribunal considerou que seria discriminatório permitir o suicídio assistido apenas para pessoas que sofriam de forma física. A dor psicológica ou mesmo a infelicidade não podem ser excluídas como razões válidas para o suicídio.

Os tribunais holandeses decidiram que quando a consciência de um médico está em conflito com a lei, ele está autorizado a receitar a eutanásia para aliviar o sofrimento. É apresentado como um exemplo de força maior, uma série de eventos imprevistos que anulam as necessidades legais normais.

Propaganda nazi pela eutanásia.
"Negro deficiente mental (inglês). 16 anos a cargo
do Estado a um custo de 35 mil marcos"

Num artigo do “Wall Street Journal”, publicado no dia 14 de Junho de 2013, Naftali Bendavid informa que os casos de eutanásia na Bélgica, onde o procedimento foi legalizado em 2002, aumentaram de 200 em 2002 para 1133 em 2011.

Actualmente, segundo Bendavid, “A lei belga reserva a eutanásia para doentes com sofrimento insuportável e condições incuráveis. Mas o sofrimento não precisa de ser físico nem a doença terminal. A lei também não requer que o doente informe a sua família da decisão.”

Para piorar a situação, é esperado que o Parlamento belga aprove uma lei que permita a eutanásia para menores desde que “um psiquiatra determine que a criança tem capacidade de discernimento” e “desde que os seus pais concordem”.

O Conselho para os Direitos dos Doentes comentou, acerca disto: “Se pôr fim ao sofrimento é uma boa prática médica, porque não há-de o ser para quem tem três anos, cinco ou oito?”

Em resposta, o Arcebispo de Bruxelas, André-Joseph Léonard, disse: “Os menores são considerados incapazes para certos actos, como comprar e vender, casar, e por aí fora. E agora, de repente, são suficientemente maturos aos olhos da lei para poderem pedir a alguém que lhes tire a vida?”

A Bélgica e a Holanda já chegaram ao fundo de um poço. Estão a matar, voluntariamente, os nascituros, os doentes, os novos e os velhos – tudo em nome da compaixão.

João Paulo II já nos avisava para isto na sua encíclica de 1995, “O Evangelho da Vida”:

Mesmo quando não é motivada pela recusa egoísta de cuidar da vida de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa compaixão, antes uma preocupante “perversão” da mesma: a verdadeira “compaixão”, de facto, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de quem não se pode suportar o sofrimento. E mais perverso ainda se manifesta o gesto da eutanásia, quando é realizado por aqueles que — como os parentes — deveriam assistir com paciência e amor o seu familiar, ou por quantos — como os médicos —, pela sua específica profissão, deveriam tratar o doente, inclusive nas condições terminais mais penosas.

Se deixarmos de cultivar um sentido da sacralidade da vida humana até ao seu fim natural – e neste momento a reforma do sistema de saúde de Obama parece apontar nessa direcção – então não se admirem se os nossos hospitais e lares se transformarem em matadouros “compassivos”.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Junho de 2013 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 December 2011

Terços cristãos, meios católicos e respostas nulas

Antes de mais, convido-vos a todos a visitar o site da Escola de Oração que a partir desta semana passou a ter uma nova secção com apontamentos e reflexões diárias para ajudar a rezar. Sou um dos responsáveis pelo novo espaço, espero que gostem. Mais detalhes aqui.

Nas notícias: Um terço da população mundial professa o Cristianismo e metade desses são católicos. O mais recente estudo sobre as religiões no mundo tem uns factos interessantes, a ver aqui.

Uma Bíblia judaica da Biblioteca Nacional (na imagem), que está emprestada ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, está a atrair um grupo de fiéis seguidores que todas as semanas vão ao “virar da página”

Na Alemanha os judeus assinalaram o início das festividades de Hannukah acendendo a primeira luz da menorah no mesmo local onde Hitler anunciou o extermínio dos judeus na Europa, e claro que não foi por acaso.

Mensagens de Natal há muitas, mas a do Arcebispo de Évora merece referência especial porque consegue ser profunda sem falar directamente da crise financeira!

Parece que os lefebvrianos já mandaram uma resposta para Roma… Temia-se que respondessem “não”, afinal mandaram uma “não resposta”. Estarão a tentar ganhar tempo? Estarão em jogo as divisões internas de que falei aqui?

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