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Wednesday, 30 August 2023

As Duas Árvores de Santo Agostinho

O dia 28 de Agosto foi a Solenidade de Santo Agostinho, bem como o dia de anos da minha mãe. Acho que ela nunca leu uma palavra de Agostinho, mas poderá ter ouvido falar das lágrimas que Santa Mónica verteu sobre o seu jovem filho (como se conta nas Confissões) e sentido uma ligação com as deambulações adolescentes do seu próprio filho. Em todo o caso, quando se lê Agostinho é quase impossível não ver paralelos com a nossa própria vida, de uma forma muito pessoal. São Tomás de Aquino é o grande mestre da mente, mas Agostinho é um guia apaixonado para o coração.

Logo na primeira página das Confissões lemos a frase muitas vezes citada: fecisti nos ad te et inquietem est cor nostrum donec requiescat in te (“Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”). Não há mal nenhum em ler isto como apenas uma expressão piedosa, embora eu avise sempre os meus alunos de que não devem presumir compreender o que Agostinho quer dizer aqui com a palavra “coração”. Mas se continuarmos a ler obtemos uma exposição profunda – por entre uma história de tentações e ambições mundanas, e confusões intelectuais e espirituais, que têm tanta força agora como tinham na altura – do que significam verdadeiramente essas palavras aparentemente tão simples.

Os comentadores costumam dizer que “o mundo perdeu a sua história”. O que querem dizer é que deixámos de saber porque é que existimos enquanto pessoas ou sociedades. No fundo, a história que perdemos é a visão bíblica da história. O resultado é que as narrativas com que a substituímos – o iluminismo, nacionalismo, progresso económico e até ciência – que na sua raiz dependiam da existência de um sentido e direcção para a vida, deixaram de ter verdadeira substância.

E isso vê-se nas tentativas desesperadas de estabelecer uma “identidade” através da raça ou de “comunidades” de género, no empenho em cruzadas políticas ou ambientais ou, por fim, nas manifestações modernas de corações inquietos.

De certa forma, mesmo uma obra hercúlea como “A Cidade de Deus”, que foi escrita para refutar a acusação de que foi o abandono dos deuses pagãos pelo Cristianismo que levou ao saque de Roma em 410 pelos Visigodos, reflecte a crença de Agostinho de que a confiança na nossa própria capacidade, independente de Deus, de estabelecer a justiça perfeita na terra não passa de uma ilusão para acalmar a nossa inquietude.

Nas Confissões, Agostinho começa por narrar o desnorte de quem perde a verdadeira história do mundo. Conta o drama da sua própria vida e conversão, intercalada com uma grande dose de filosofia, teologia e psicologia, introduzindo algumas das grandes personagens do seu tempo – filósofos proeminentes, líderes religiosos, políticos, Santo Ambrósio, até o Imperador Romano, bem como muitos amigos e até pessoas comuns.

Mas a sua história pessoal começa finalmente a fazer sentido apenas quando recupera a história macro, um assunto comum para autores de ficção. Louis de Wohl escreveu, há meio século, um romance sobre Agostinho, A Chama Inquieta, que ainda mantém o seu interesse, e a jovem concubina de Agostinho, que nas Confissões nunca é nomeada, foi tratada de forma imaginativa em As Confissões de X, de Suzanne Wolfe.

O Padre Aidan Nichols O.P. admite, com uma humildade que é rara entre os académicos, que “com a possível exceção de Cícero, sabe-se mais sobre Santo Agostinho do que sobre qualquer outra figura da Antiguidade. Sabemos demasiado sobre ele para que seja sequer possível lidar com esse conhecimento”.

Porém, o mesmo autor, em The Singing Masters: Church Fathers from Greek East and Latin West, lida maravilhosamente. (À nossa propria escala mais modesta, através dos cursos do The Catholic Thing, temos feito algumas introduções tanto às Confissões como à Cidade de Deus.)

Ainda assim, o que é que temos a aprender com um homem que morreu há 1600 anos, num local e num tempo tão diferentes que requer um esforço sério – quer de imaginação como de estudo – apenas para começar a compreender alguma coisa sobre ele?

Agostinho debaixo da Figueira
Bom, talvez a primeira coisa seja a compreensão de que apesar de todas essas diferenças há muita coisa que continua a tocar-nos de forma imediata, precisamente porque – não obstante os orgulhosos progressistas de todos os tempos – muitas das coisas humanas não mudam.

O Pe Nichols resume tudo na história das “duas árvores”.

A primeira árvore é a pereira da qual Agostinho e o seu bando de adolescentes roubavam fruta, como se lê cedo nas Confissões, não porque tinham fome ou porque as peras eram boas (não eram), mas por casual perversidade. A refutação mais profunda daquilo a que hoje se chama ser “woke” é a crença clássica cristã de que os corações dos homens – todos os homens, incluindo o mais woke – vacilam entre o bem e – para usar o termo correcto – o mal.

No mundo antigo as pessoas estavam tão cientes da existência do mal que surgiu uma religião – o Maniqueísmo – que defendia a existência de dois deuses, um bom e outro mau. Agostinho passou cerca de uma década envolto nesta falsa fé até conseguir pensar a coisa até ao fim, e sair. Mas muitos outros não saíram. Como escreve o Pe Nichols: “o maior conjunto de escritos maniqueus está em chinês, o que demonstra que a ‘Religião da Luz’ chegou tão longe no Oriente como no Ocidente. Da Argélia à China, este foi o principal concorrente do Cristianismo até ao surgimento do Islão.”

O episódio da pereira, tal como o da árvore da ciência do Bem e do Mal, conta uma história profunda. No final de contas não é a sociedade, ou as condições económicas, ou o contexto familiar que explica o nosso mau comportamento, porque as imperfeições que neles encontramos derivam da mesma fonte humana: corações inquietos atraídos pelo bem e pelo mal.

Mas existe outra árvore na história de Santo Agostinho. No momento da sua conversão, ele escreve: “mas eu, não sei como, me retirei para a sombra de uma figueira” (Livro VIII). O Pe Nichols repara aqui em algo que a muitos de nós poderá ter passado despercebido: que esta segunda árvore é uma figueira, e que foi das folhas de uma figueira que Adão e Eva teceram roupa depois de terem pecado, e se sentirem nus.

Agostinho tinha certamente isto em mente. E por isso aquilo que ele está a narrar é precisamente a inversão da direcção que tomámos naquele dia fatal no Paraíso.

Que é aquilo que acontece sempre que alguém se converte – que se volta para a direcção certa, que recupera a história do mundo, que é também a nossa história pessoal, e vê pacificado o seu coração.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 



Wednesday, 17 May 2023

A que devemos comparar esta geração?

Robert Royal

Um dos aspectos mais impressionantes dos Evangelhos é a facilidade com que Jesus profere frases inesquecíveis, do género que grandes pensadores e poetas só muito raramente conseguem produzir. O escritor americano Randall Jarrell disse que: “Um bom poeta é alguém que, numa vida inteira de se colocar no meio de tempestades, consegue ser atingido cinco ou seis vezes por relâmpagos. Se for uma ou duas dezenas de vezes, então é verdadeiramente grande”. Jesus era – claramente – muito mais que um poeta. Mas não deixa de ser incrível que ele possa ter dito mais coisas memoráveis em poucos minutos de um dia normal do que qualquer outra figura na história. Coitados dos biblistas míopes – ou os muitos por eles influenciados – que crêem que uma boa parte daquilo foi inventada por um bando de pescadores, cobradores de impostos e pregadores itinerantes.

Os ditos, frequentemente simples, de Cristo, são tão grandiosos que mesmo uma multidão de teólogos, filósofos, santos, místicos, mártires, padres, bispos e até papas, ao longo de milénios, só conseguiram começar a compreender o que Ele disse. E, porém, ao mesmo tempo, as suas palavras têm atingido os corações de pessoas comuns, não só nos tempos dele, mas ao longo dos tempos, nas mais diversas culturas, apesar de obstáculos aparentemente inultrapassáveis. São Tomás de Aquino acreditava que um dos maiores milagres do Cristianismo era o facto de um grupo de homens humildes, de uma província longínqua, terem conseguido converter o maior império daqueles tempos, Roma. Trata-se de um mero facto histórico, e foi dito muito antes de a fé ter chegado à América, à maior parte de África, Ásia e ao mundo inteiro.

Esse facto é particularmente reconfortante agora que tudo parece estar ameaçado, pois sugere que por mais que as coisas pareçam ensombradas agora, tanto na Igreja como no mundo, o Evangelho tem mostrado ter um poder escondido e imprevisível. Sempre excedeu o que poderíamos “razoavelmente” esperar. E pode voltar a fazê-lo, a qualquer momento, ainda hoje.

Por outro lado, parece justo preocupar-nos com esta geração que parece não só estar submerso no lodo habitual de pecado e ignorância. A nossa incultura ocidental parece apostada em não só opor-se, como apagar mesmo a memória dos melhores dos nossos antepassados, que fizeram de nós quem somos.

Chega a pintar o passado como um conto irrepetível de opressão – escravatura, patriarcado, colonialismo, “privilégio branco”, etc. Mas todas essas acusações, embora parcialmente verdadeiras, estão a ser usadas não apenas para criticar elementos do passado, mas para obliterar o conhecimento da nossa tradição, que é uma combinação valiosíssima de elementos greco-romanos, bíblicos, medievais, renascentistas, iluministas e modernos. As nossas escolas e universidades dão a impressão de que não vale a pena ensiná-la, quanto mais recordá-la. Todas as culturas são agora “afirmadas” – excepto uma. Nunca aconteceu nada deste género.

Quando as coisas parecem estar mesmo mal, existe uma tentação humana de considerar que é uma situação sem precedentes. Mas esse parece ser mesmo o caso actual. Vale a pena, contudo, recordar um dos ditos de Jesus que parece referir-se ao passado, mas como em tudo o que ele diz, também se aplica a nós. “A que podemos comparar esta geração?” (Mt. 11, 16) No seu tempo, diz ele, as pessoas nem regozijam como deve ser perante as boas notícias, nem lamentam as más. As suas visões das coisas, e por isso as reações às mesmas, estavam distorcidas.

Também o nosso tempo revela reacções estranhas, de um tipo de que vale a pena tomar nota. Chesterton já tinha reparado em parte nisto há um século:

Chesterton
Quando se estilhaça um esquema religioso (como o Cristianismo foi estilhaçado com a Reforma) não são apenas os vícios que ficam à solta. Os vícios ficam, de facto, à solta, e deambulam, e prejudicam. Mas as virtudes também são libertadas; e as virtudes deambulam ainda mais, e as virtudes causam prejuízo ainda maior. O mundo moderno está cheio das antigas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque se isolaram umas das outras e estão a deambular sozinhas. Assim, alguns cientistas preocupam-se com a verdade; e a sua verdade não tem misericórdia. Assim, alguns humanitários preocupam-se apenas com a misericórdia, e a sua misericórdia (lamento dizê-lo) frequentemente não é verdadeira.

Isso explica muita da actual cultura “woke” e de “sinalização de virtudes”. Há muito que compreendemos que nas questões morais, como diz Santo Agostinho, o mal é a ausência de algum bem, qualquer coisa que devia estar presente mas não está, ou que está, mas num grau demasiado grande ou demasiado pequeno. Por outras palavras, é um afastamento da ordem plena do nosso universo. A Igreja é “Católica” precisamente porque é universal, “kata-holos”, em grego, “de acordo com o todo”.

Um excelente contraexemplo é a actual loucura do movimento “trans”. Trata-se de mais do que grupos e indivíduos radicais a promover a mutilação infantil sob o disfarce de “cuidados de afirmação de género”. Uma virtude – a compaixão por jovens com ideias confusas sobre género – cresceu e atingiu proporções tão monstruosas que eclipsou tudo, desde os simples factos da bilogia até milhares de anos de experiência humana. Basta pensar no que significa quando pessoal com formação médica fala em “género atribuído à nascença”, como se a observação normal de que um recém-nascido é rapaz ou rapariga fosse uma mera convenção, notada por um burocrata desconhecido e porventura tendencioso.

Seria fácil gozar com tudo isto, não fosse o facto de haver crianças a serem cirurgicamente desfiguradas ou a levar doses cavalares de químicos para evitar que os seus corpos se desenvolvam de acordo com as suas naturezas.

E é por isso que me parece que há outro factor em jogo, para além do enlouquecimento das virtudes, de que fala Chesterton. É cada vez mais evidente que há um elemento demoníaco em tudo isto.

O Demónio não tem nada de seu para nos propor, por assim dizer. Apenas pode recorrer aos bens criados pelo Criador para tentar criar desordem na criatura. Um dos grandes desafios para os cristãos na presente geração é conseguir identificar e resistir às virtudes desordenadas, e poder resistir às ofensas sobre preconceitos e ódio, reafirmando antes a plenitude da verdade – e do amor. Não é tarefa pequena, nem fácil. Mas foi a ela que a Divina Providência nos chamou.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 15 de Maio de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 4 January 2023

Benedictus qui venit in nomine Domini

Já esperávamos, devido à sua avançada idade e ao facto de o Vaticano ter avisado para a deterioração do seu estado de saúde, que Bento XVI estava perto de entrar para a eternidade. Mas, como sempre acontece quando alguém morre – ainda para mais um amado mestre, um académico, pastor e Papa – quando esse dia chega de facto não deixa de ser um choque, e tudo muda.

Joseph Ratzinger contribuiu de tal forma para a Igreja e para o mundo que o seu nome e legado entrarão agora na grande herança cultural da fé Católica, como matéria permanente para reflexão sobre numerosas coisas, tanto humanas como divinas.

Houve grandes momentos públicos na sua vida que deixaram marcas grandes nas recentes décadas. Por exemplo, foi acusado por alguns de ter sido um progressista durante o Concílio Vaticano II, mas de ter “passado para o lado negro” durante as manifestações estudantis de 1960. Mas uma análise rigorosa dos factos (veja-se, por exemplo, o livro “Bento XVI: Uma Vida”, de Peter Seewald), mostra que essa ideia é simplesmente errada.

O pensamento de Ratzinger movia-se de forma calma, silenciosa, consistente e a uma profundidade que não era afectada nas suas bases pelos tumultos sociais. A sua grande consistência, só por si, é um ponto de referência que deixa grandes saudades.

Os seus alunos mais radicais respeitavam-no – e elogiavam-no – por isso, ainda que tenha vindo a reconhecer os limites do “diálogo” com certo tipo de radicais no meio académico, na Igreja e no mundo em geral. Tratou-se de um discernimento que o serviu bem quando, enquanto bispo e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve de confrontar dissidentes, movimentos como a teologia da libertação e aquilo a que mais tarde veio a chamar o “Concílio dos Média”, que era bem diferente daquele que ele e o jovem Karol Wojtyla tinham ajudado a formar.

Para mim houve um encontro pessoal que resumiu grande parte da sua vida e pensamento. Foi-me pedido que escrevesse a história da Guarda Suíça por ocasião do seu 500º aniversário e ofereci-lhe um exemplar de “The Pope’s Army”, no dia 6 de Maio de 2006. Estávamos rodeados de uma multidão, mas pegou no livro e, tratando-o com o carinho de um verdadeiro bibliófilo, começou a folheá-lo, olhando com atenção para diferentes capítulos, e disse: “Isto é maravilhoso, agora posso ler sobre estes guardas que me protegem”.

A propósito, embora ainda haja muito por esclarecer sobre a sua resignação, os Guardas Suíços disseram-me na altura que, entre outras coisas, ele estava fisicamente exausto a um ponto que era doloroso ver.

Sempre me pareceu que a escolha do nome Bento – um entre dezasseis com o mesmo nome – era um símbolo de muitas coisas em que ele acreditava na sua vida. Benedictus, “abençoado” certamente, por ter nascido quem nasceu, e onde nasceu, e ao longo de uma longa vida. Benedictus, no sentido da continuidade com Bento XV, que quase um século mais cedo lidou com a Primeira Guerra Mundial e com os seus efeitos por todo o mundo. Mas, finalmente, Benedictus porque ainda que fosse Papa – e apesar de tanta sabedoria – era um mero cristão, numa longa linha que remonta ao próprio Cristo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 15 June 2022

Preparem-se para os Dias da Ira

Robert Royal

Não sei se é hoje* que o Supremo Tribunal vai dar a conhecer a sua decisão no caso Dobbs. Nem sei se, quando o fizer, a decisão será idêntica ao rascunho de Samuel Alito, que reverte o Roe v. Wade. O que sei é que seja qual for a margem que o Tribunal dará para que se limite o direito ao aborto, o resultado não serão manifestações “maioritariamente pacíficas”, mas sim a violência.

Os radicais pró-aborto já levaram a cabo ataques contra centros de aconselhamento pró-vida e houve vários incidentes suspeitos em igrejas por todo o país. Os mesmos grupos já prometeram muito mais para o verão e para o outono, e já estão a organizar os “Dias da Ira”.

Uma vez que nós temos sido os mais visíveis defensores da protecção de toda a vida humana, desde a concepção até à morte natural, as igrejas católicas irão ser um alvo específico. Por isso chegou a hora de também nós – não apenas os bispos e os pastores, mas todos os católicos – nos organizarmos para o que aí vem.

Não podemos depositar demasiada confiança nas instituições governamentais. Olhem só para a forma como responderam ao caso do jovem tresloucado que ameaçou matar o juiz Brett Kavenaugh. É verdade que ele foi detido e acusado – depois de se entregar. Mas pouca coisa foi feita para evitar que outra pessoa fizesse o que ele apenas ameaçou.

A questão do aborto está de tal forma politizada que Nancy Pelosi tem travado legislação no Congresso que forneceria mais protecção para os juízes, suas famílias, escrivães e empregados, dizendo que “ninguém está em perigo”. Claro que estão, mas admiti-lo poderia ofender os seus constituintes.

Entretanto o grupo pro-aborto Ruth Sent Us deu a entender num tweet, na Quinta-feira, que está a vigiar Ashley, a mulher de Kavenaugh, e que sabe onde é que dois dos seus filhos vão à escola.

O mesmo grupo divulgou a morada da juíza Amy Coney Barrett, bem como o facto de ela ir diariamente à missa e de enviar os seus sete filhos para uma escola do grupo cristão People of Praise. (Também já chamou à Igreja “uma instituição para a escravatura das mulheres”.)

E Samuel Alito está num abrigo secreto.

Isto é tudo saído diretamente do manual de instruções da Mafia: “Belo estabelecimento que aqui tem. Seria uma pena se alguma coisa lhe acontecesse.”

Se ainda vivêssemos num Estado de Direito, as pessoas da Ruth Sent Us que foram responsáveis pelo envio daqueles tweets já estariam presas. O facto de não estarem – e os media ter-nos-iam dito se estivessem – mostra-nos bem como serão tratados os protestos e a violência depois de sair a decisão de Dobbs.

Mostra também como é que o Twitter, que é tão sensível a mensagens que fazem as pessoas sentirem-se “inseguras” (algumas pessoas, pelo menos), se comportará nesta situação. Juntamente com outros meios de comunicação e redes sociais.

O procurador-geral Merrick Garland disse que este tipo de ameaças é intolerável numa sociedade civilizada. Mas onde está a acção? Não apenas as protecções nominais para aqueles que estão a ser ameaçados, ou a investigação de grupos violentos, mas o poder robusto da lei.

Protesto à porta de casa de um
juiz do Supremo Tribunal
Quando Nicholas John Roske chegou à casa de Kavenaugh estavam apenas dois polícias armados a protegê-la. Um assassino mais experiente, ou um grupo mais determinado, teria conseguido, o que seria por si só um escândalo, mas também poria todo o Supremo Tribunal e o nosso sistema de governo numa situação de desastre iminente.

Entretanto, vêm aí os Dias da Ira. Temos de começar a pensar como vamos responder. No país do Papa Francisco, Argentina, feministas radicais tomaram de assalto e incendiaram igrejas e escritórios governamentais. (Vejam aqui um exemplo). Leigos católicos têm tido que formar cordões para as impedir.

Na minha paróquia tivemos dois carros da polícia estacionados junto à Igreja no domingo depois da fuga do rascunho de Alito. Mas é evidente que o perigo só vai aumentar exponencialmente quando a decisão for oficial. Todos os bispos e todos os párocos no país deviam estar a pensar – agora mesmo, antes de começarem os problemas – sobre quem deverá ser chamado para responder aos protestos e à violência.

Eu já disse ao meu pároco que estou disposto a ir para as barricadas, se chegar a tanto. Esperemos que não chegue.

Mas ao nível local vamos precisar dos conselhos de antigos polícias e ex-militares, pessoas habituadas a lidar com o mínimo de força indispensável com indivíduos e multidões. Responder com violência equivalente seria adoptar os métodos dos nossos adversários.

É triste pensar que a América também já chegou a este ponto, mas a culpa é do próprio tribunal, por ter inventado um direito constitucional ao aborto.

Os meus amigos europeus dizem-me às vezes que nos seus países há menos comoção pública sobre o aborto porque, em vez de ser uma decisão imposta por decreto pelos tribunais, as leis foram mesmo debatidas pelas suas legislaturas. Ao contrário do que os grupos pró-aborto afirmam aqui na América, a maioria dos países europeus têm restrições ao aborto semelhantes ao que o Estado de Mississippi procura na lei Dobbs: aborto legal até às 15 semanas e mais limitado a partir daí.

É evidente que as pessoas na Europa arranjam formas de contornar a lei, e mesmo o aborto feito apenas no primeiro trimestre não deixa de ser uma abominação. Mas é revelador da nossa condição social que mesmo a lei do Mississippi, que corresponde basicamente ao consenso liberal da Europa, é vista por cá como extremista e um atentado radical aos direitos das mulheres.

Agora vamos ter de debater essas questões ao nível estadual.

Entretanto, muitos de nós seremos chamados a chegar-nos à frente, literalmente, para proteger as nossas igrejas e outras instituições que defendem o simples princípio de que a vida humana inocente é sagrada. Esse é um princípio do direito natural, uma conclusão a que se chega através do bom uso da razão e não – como dizem até alguns católicos, como o presidente Biden – a imposição de um dogma religioso aos cidadãos americanos.

As pessoas por vezes brincam, dizendo que se o grande céptico Voltaire voltasse hoje ficaria chocado ao descobrir que a Igreja se tornou a maior defensora da razão humana no nosso mundo pós-moderno e radicalmente relativista. E talvez ficasse ainda mais espantado ao ver católicos, e outras pessoas de boa-vontade a chegar-se à frente, como agora somos chamados a fazer, em defesa da razão – e da vida humana.

* As decisões do Supremo Tribunal são divulgadas às segundas-feiras. Não foi no dia 13, mas pode ser no dia 20 ou no dia 27 de Junho - Tradutor


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é 


A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Friday, 1 April 2022

A reforma da Cúria interessa? Mais do que pensa!

Um dos eventos mais importantes de Março na Igreja Católica foi a publicação de uma reforma da Cúria Romana. Esta foi sempre uma das grandes bandeiras do pontificado de Francisco e levou nove anos a preparar. Ainda assim, a maioria dos leigos pensa que não é nada connosco. Pois enganam-se. Para ajudar a compreender a importância desta medida convidámos o vaticanista Octávio Carmo para participar no segundo episódio do podcast Hospital de Campanha, que já está no ar e podem ouvir aqui.

De resto, neste episódio falamos também de como a Guerra na Ucrânia vai afectar as relações ecuménicas, e sobre a Consagração da Rússia e da Ucrânia a Nossa Senhora. Esse foi também o tema de duas das minhas intervenções na CNN Portugal, na sexta-feira passada, bem como da minha participação no programa da Ecclesia, na RTP2 e ainda o artigo publicado no site dos jesuítas, PontoSJ.

Continuo a coligir as principais declarações de líderes religiosos relevantes desta guerra neste artigo do meu blog.

O artigo do The Catholic Thing desta semana é do Robert Royal. No seu texto ele elogia muito o Papa por ter tido a iniciativa de fazer a consagração, mas discorda com ele em relação ao conceito de Guerra Justa. Podem ler aqui.

Uma constante desta guerra tem sido a fidelidade e persistência de padres e freiras na Ucrânia que não abandonam as suas comunidades. Há exemplos aqui e uma tocante história de um missionário brasileiro que também ficou com o seu povo naquele país martirizado.

Termino comentando que por mais que esta guerra terrível me entristeça, tem sido interessantíssimo observar muitos jornalistas do “mainstream” a compreender a trabalhar tão bem a dimensão religiosa do conflito. Temos tido vários exemplos, em diversos meios de comunicação, mas deixo-vos com este texto do Diário de Notícias que vale bem a pena ler.

Wednesday, 30 March 2022

A Teologia e os Conflitos Humanos

O Cardeal Manning – que foi contemporâneo e seguidor do Cardeal Newman – disse certa vez que “todo o conflito humano é, no final de contas, teológico”. (Podíamos mesmo dizer que tudo o que é humano envolve necessariamente a teologia, mas esse é um assunto complexo para tratar noutro dia). Na actual guerra da Rússia contra a Ucrânia, porém, a teologia não é sequer uma consideração distante, está mesmo à superfície. Mesmo que a guerra chegue a um final aparentemente tolerável, as divisões teológicas permanecerão connosco muito tempo.

Isto porque não é apenas Vladimir Putin que tem falado numa “Guerra Santa” na Ucrânia, mas também líderes religiosos como o Patriarca Cirilo de Moscovo. Putin tem estado a usar cinicamente os ortodoxos como cobertura moral para as suas ambições. Mas também já intuiu que para “tornar a Rússia grande outra vez” a Ortodoxia Russa – que carrega em si muitos dos elementos mais profundos da Santa Mãe Rússia e da sua projecção secular, “o mundo russo” – é uma parte fundamental do plano político.

Já os líderes da Igreja Ortodoxa Russa não têm a mesma desculpa política.

Na verdade, o que estamos a ver agora não é apenas corrupção política entre os líderes religiosos comprometidos, mas uma profunda divisão espiritual que estava de certa forma disfarçada por profissões de fraternidade cristã. Até existem cristãos no Ocidente que, traumatizados pela nossa decadência e “wokeismo” se deixaram convencer de que a Rússia de Putin – com a sua repressão em larga escala, assassinato de dissidentes (incluindo no estrangeiro) e maior taxa de aborto no mundo – é de alguma forma um salvador religioso.

Vários Papas no passado recente fizeram grandes esforços para pôr fim ao cisma entre Roma e a Ortodoxia – e na maior parte das vezes têm sido rechaçados. Antes de a guerra ter começado o Papa Francisco estava a procurar um segundo encontro com o Patriarca Cirilo. O primeiro aconteceu em 2016, no aeroporto de Havana. O local não foi boa ideia, mas pelo menos ambos os líderes exprimiram um “profundo desejo” por unidade. E o Papa disse mais tarde que “falámos como irmãos”.

Esse espírito fraternal não perdurou. Durante a sua videoconferência, no início deste mês, Francisco parece ter criticado abertamente Cirilo por afirmar que esta “operação militar especial” é uma “guerra santa”. Francisco foi ainda mais longe quando, na sexta-feira passada, consagrou a Rússia, a Ucrânia e todo o mundo a Nossa Senhora de Fátima. Cirilo e Putin sabem que Nossa Senhora pediu essa consagração para que os erros da Rússia não se espalhassem pelo mundo, e para que a Rússia se converta. Parabéns a Francisco por ter feito ambas estas coisas, por mais objecções que tenha tido que enfrentar.

Infelizmente, Francisco também contradisse toda a tradição cristã durante o seu encontro com Cirilo, quando disse que todas as guerras são injustas. Na semana passada acrescentou, durante uma conversa com um grupo de organizações de mulheres, que “fiquei envergonhado quando li que um grupo de estados se comprometeu a gastar dois por cento do PIB na aquisição de armamento, em resposta ao que se está a passar agora. É loucura”, disse, lamentando “a velha lógica de poder que continua a dominar a chamada geopolítica”.

É verdade que sim, e assim continuará a ser enquanto os seres humanos decaídos continuarem a existir no planeta. E é por isso que algumas potências – histórica e moralmente imperfeitas – devem, por vezes, impedir que os mais impiedosos de entre nós dominem o mundo.

Quando as nações decidem aumentar os seus orçamentos de defesa, à luz de ameaças que enfrentam, não se trata de “loucura”. Diante de uma Rússia agressiva, os líderes políticos estão apenas a ser responsáveis quando decidem robustecer a defesa nacional. A decisão peca é por tardia.

Francisco parece pensar que a única resposta cristã permissível perante uma ameaça é o “diálogo” e não a dissuasão. Pode-se entender o seu horror pela guerra sem aceitar essa premissa. O diálogo não nos trouxe sequer o entendimento religioso com Cirilo. Estou certo de que Putin adoraria ver diálogo, diálogo infindável – nas igrejas, na NATO, na política americana – enquanto ele continua a atacar uma nação atrás da outra.

Os ucranianos têm uma opinião diferente. É por isso que continuam de pé, e a Rússia teve de se contentar com ambições menores na Ucrânia.

A queda da União Soviética abriu algumas possibilidades – tanto para as Igrejas como para a Rússia. A Igreja Ortodoxa da Rússia – a maior das ortodoxas – foi perseguida e comprometida pelo comunismo. Na sua colaboração – ou possivelmente mesmo trabalho activo – com a KGB, Cirilo desempenhou um papel vergonhoso nessa pérfida aliança.

Agora voltou a comprometer-se, alienando a maioria dos ortodoxos na Ucrânia enquanto abençoa os massacres de Putin. Nestas circunstâncias é difícil imaginar como é que Moscovo continuará a ser parte de qualquer diálogo ecuménico no futuro, ou sequer como é que a Igreja Ortodoxa Russa permanecerá intacta.

O Grande Cisma de 1054 entre a Igreja Ocidental e os Ortodoxos já foi há quase um milénio, e é tanto mais doloroso porque – independentemente das questões como o Filioque – deveu-se sobretudo a questões de jurisdição e de administração. A Igreja Católica não reconhece apenas como válidas as ordens e os sacramentos ortodoxos, mas também as ricas tradições litúrgicas e espirituais do Oriente, que devem ser integradas numa Igreja global e universal.

O próprio Cristo rezou por uma unidade eclesial semelhante à que ele tinha com o Pai. Os cristãos não têm tido muito jeito nesse campo importante mas desafiante. (João: 17,21)

Na sua encíclica de 1995 Ut Unum Sint (Que sejam um só), o Papa São João Paulo II falou de um verdadeiro ecumenismo – não a coisa sentimentalista e mole que vemos frequentemente nas discussões ecuménicas no ocidente – enraizado na realidade histórica e substância espiritual do Oriente e do Ocidente:

a Igreja deve respirar com os seus dois pulmões! No primeiro milénio da história do cristianismo, essa frase referia-se sobretudo ao binómio Bizâncio-Roma; desde o baptismo da Rus' para a frente, ela vê alargarem-se os seus confins: a evangelização estendeu-se a um âmbito muito mais vasto, a ponto de abraçar praticamente a Igreja inteira. Se se considera ainda que esse acontecimento salvífico, verificado ao longo das margens do Dniepre, remonta a uma época em que a Igreja no Oriente e no Ocidente não estava dividida, compreende-se claramente como a perspectiva a seguir para a plena comunhão, seja aquela da unidade na legítima diversidade.

Também o Papa Francisco tem falado de unidade sem uniformidade. O seu desafio, de agora em diante, será pôr isso em prática dentro da Igreja Ocidental. A janela para o Oriente está, por ora, fechada.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 28 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 2 March 2022

Ucrânia, do Político ao Pessoal

Robert Royal
Conheço uma mulher que nasceu no estrangeiro mas é meia ucraniana e meia russa. Frequentemente tomamos o pequeno-almoço juntos, quase todas as manhãs, e conversamos sobre assuntos que estão na ordem do dia. A invasão da Ucrânia pela Rússia deixou-nos bastante agitados, o que não é de espantar, suponho eu, uma vez que somos casados um com o outro e os nossos filhos têm sangue ucraniano e russo a correr-lhes nas veias. Para nós esta não é apenas uma questão geopolítica distante, é também um assunto de família.

Muita da análise desta situação tem explorado os factores históricos que conduziram à situação presente. Ao longo dos próximos dias e semanas iremos publicar alguns textos sobre isso. Mas as pessoas tendem a exagerar factores sociais grandes e impessoais, como se os indivíduos não importassem. A nossa herança familiar obrigou-me a pensar mais uma vez sobre os elementos muito mais pessoais e humanos que frequentemente passam despercebidos, mas que estão muito presentes. Algum outro líder russo para além de Vladimir Vladirimovich Putin, pegando no exemplo actual, teria levado a cabo esta atrocidade?

Há muito que a nossa família tem noção bem viva de realidades históricas e humanas que outros não vêem. A minha mulher Verónica foi educada sobretudo na tradição ucraniana, mas enquanto iconógrafa profissional tem muito contacto com iconógrafos, teólogos e artistas em vários países, incluindo na Rússia. Um conhecido iconógrafo russo acabou de publicar uma declaração, assinada por centenas de líderes políticos e culturais da Rússia (a lista dos signatários pode ser consultada no final do artigo, no site do The Catholic Thing):

A guerra da Rússia contra a Ucrânia é uma VERGONHA

A vergonha é NOSSA, mas infelizmente os nossos filhos, gerações de russos muito novos ou por nascer, também terão de arcar com a responsabilidade. Não queremos que os nossos filhos vivam num país agressor, e que se sintam envergonhados do seu exército atacar um estado vizinho independente. Apelamos a todos os russos para que digam NÃO a esta guerra.

Não acreditamos que uma Ucrânia independente seja uma ameaça à Rússia ou a qualquer outro estado. Não acreditamos nas afirmações de Vladimir Putin de que os ucranianos estão subjugados por “Nazis” e que precisem de ser “libertados”. Exigimos o fim desta guerra!

Temos boas razões para nos sentirmos encorajados por este tipo de afirmações vindos de russos. Os nossos media deviam dar muito mais cobertura às manifestações relativamente grandes (tendo em conta os riscos) que se têm realizado em Moscovo e São Petersburgo, para não falar em Londres, Berlim, Varsóvia, etc., Fontes credíveis dizem que quase dois terços dos russos acreditam que a Rússia não devia ter invadido a Ucrânia.

Também nos devíamos sentir encorajados pela resistência heroica e inesperado sucesso das Forças Armadas ucranianas e combatentes civis, bem como a admirável classe e liderança (tão em falta entre os líderes ocidentais) do Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy. Como acontece tantas vezes, homens maus subestimaram as virtudes de pessoas que tinham a razão do seu lado, como é o caso dos ucranianos.

São Miguel Arcanjo, protector da Ucrânia
Taras Tymos, um dos decanos e professor na Faculdade de Filosofia e de Teologia na Universidade Católica Ucraniana em Lviv, tem estado a postar reportagens em vídeo sobre o conflito. Podem ver um exemplo aqui. (Se clicarem em “Ler Mais” por baixo do vídeo encontram mais informação sobre como enviar apoio financeiro para organizações ucranianas credíveis). Ele procura fornecer actualizações diárias com o rigor e o cuidado possíveis num contexto de guerra. Quem tiver interesse em acompanhar este conflito devia segui-lo.

O professor Tymos tem relatado casos de soldados russos chocados por não serem recebidos de braços abertos como libertadores pelo povo ucraniano. A propaganda de Putin levou-os a acreditar que isso iria acontecer; alguns estão a desistir da luta, rendendo-se, desiludidos. O choque ajuda a explicar porque é que parece ter havido tantas baixas russas e tão pouco sucesso na ocupação dos principais centros urbanos.

E tudo isto ajuda-nos a centrar-nos no que realmente está a acontecer, e o que devemos ter em mente enquanto os acontecimentos se desenrolam. O nosso conflito não é com o povo russo. É muito mais sobre Vladimir Putin pessoalmente e gang de siloviki – ex-agentes da KGB, como ele – que não lhe fizeram frente quando ele optou por levar a cabo esta agressão monstruosa.

Os media oficiais, como é evidente, repetem a linha de Putin de que está a defender o território russo da “agressão” ucraniana. Como sabemos tão bem de observar os media ocidentais, a repetição massiva, até das coisas mais evidentemente absurdas, começa a influenciar mesmo os mais cépticos, que estão bem cientes das mentiras do seu Governo.

Os ucranianos são bastante religiosos: católicos a ocidente, ortodoxos a leste. Tem havido alguma tensão entre as duas igrejas, mas agora estão unidas na resistência. Uma parte da Igreja Ortodoxa da Ucrânia tornou-se autocéfala em 2019, quando o Patriarcado Ecuménico de Constantinopla lhe deu autonomia em relação ao Patriarcado de Moscovo – sendo este último um colaborador do regime de Putin, como era já antes com os soviéticos.

Putin construiu uma catedral para as Forças Armadas Russas que foi inaugurada há dois anos e – política à parte – é uma das igrejas modernas mais espectaculares que existe em qualquer parte do mundo. É um monumento aos enormes sacrifícios que as forças russas fizeram para derrotar regimes como o de Hitler. Infelizmente, agora está para sempre marcado pela sua associação a uma figura que será julgada pela história como um criminoso de guerra.

A realidade no terreno está em evolução constante e no momento em que escrevo isto, na noite de domingo, Putin acaba de colocar as suas forças nucleares num “estado de alerta especial”. O ocidente e grande parte do resto do mundo impôs sanções económicas a uma grande fatia da economia russa, a União Europeia fechou o seu espaço aéreo a aviões russos e a Turquia fechou o Bósforo aos seus navios. Ao mesmo tempo os ucranianos e os russos iniciaram negociações junto à fronteira com a Bielorrússia. É difícil saber como as coisas estarão quando estas linhas forem lidas.

Mas o teólogo ucraniano Taras Tymos, da Universidade Católica Ucraniana, oferece-nos bons conselhos. Ele comenta que embora os ucranianos saibam o que devem fazer para defender a sua nação, mas enquanto cristãos também sabem que devem amar os seus inimigos. E as pessoas que agora rezam os salmos nos seus abrigos têm um sentido mais profundo do significado desses apelos ao Todo Poderoso por protecção contra os seus agressores injustos.

Que essas orações dêem frutos.

Wednesday, 28 August 2019

O Que Pensamos Importa

Recentemente escrevi sobre os Thomistic Institutes, uma iniciativa da Dominican House of Studies em Washington D.C., que organiza palestras e conferências proferidas por católicos ortodoxos de primeira categoria em quase cinquenta (e cada vez mais) das mais prestigiosas universidades e faculdades da América. E a organização está em expansão. Muitos leitores escreveram-me para expressar a sua apreciação por esta rede tão valiosa, mas também para perguntar o que podem fazer se não houver nada do género na sua zona.

Agora temos uma resposta.

No dia 26 de Agosto foi para o ar o Aquinas 101 – um site criado pelos mesmos dominicanos. Cliquem e preparem-se para uma experiência fascinante. Quando estiver completa, esta série terá oitenta e seis breves palestras, cuidadosamente preparadas e dirigidas a qualquer pessoa com um nível de capacidade e de interesse comum.

Este curso é aberto a todos, e é gratuito!

Estamos a falar de uma introdução bem construída e acessível a um dos maiores de todos os pensadores dominicanos, São Tomás de Aquino, que não só nos coloca em contacto com o homem que mais fez para formar o pensamento católico ao longo dos séculos, mas também nos ajuda a ver como essa enorme obra de pensamento tem grande relevância para algumas das questões nevrálgicas que hoje enfrentamos.

Por exemplo, muitas pessoas hoje, incluindo cristãos e até católicos, caíram em algumas confusões básicas sobre a natureza da Fé e da Razão. Conforme explica uma das primeiras palestras desta série, isto leva, por um lado, ao cepticismo – não podemos saber verdadeiramente nada sobre Deus – mas também, por outro, ao que tem sido apelidado de “fideísmo”, a ideia de que cremos sem saber em quê.

Ambas são reações naturais numa era de pós-verdade, mas um católico curioso não quererá deixar que o seu pensamento se mantenha preso neste lamaçal actual. Há ideias melhores e mais “verdadeiras” sobre a verdade, que Aquino e outros nos podem fornecer.

Talvez já tenham visto a sondagem recente que mostra quão poucas pessoas, até entre católicos praticantes, acreditam na Presença Real de Cristo na Eucaristia. Muitos acham que não passa de um mero símbolo. No final de contas, a Eucaristia é um profundo mistério, mas homens santos e dotados como Aquino recorreram às várias ferramentas da tradição e da razão humana para fornecer abordagens racionais e sérias àquilo que no fundo nos transcende a nós e a toda a Criação.

Recentemente o jesuíta Thomas Reese comentou essa sondagem dizendo que não acredita em termos como “substância”, “acidente”, “matéria” e “forma” que Aquino utilizou para explicar a Eucaristia. Mas sem uma qualquer forma de explicação e descrição sólida, não admira que a Eucaristia pareça simplesmente simbólica e que a crença na mesma se torne “fideísta”.

Muitos rejeitam estes conceitos porque acham que as ciências modernas as desacreditaram. Na verdade a ciência não o fez, nem o pode fazer, precisamente porque os pensadores escolásticos usaram esses termos de forma filosófica. Não pode contradizer a ciência – nem antiga, nem moderna, nem pós-moderna, nem nada que ainda aí venha. Mas seria necessário estudar e perceber como os termos Fé e Razão se relacionam para o compreender.

A principal razão pela qual os jovens de hoje abandonam a verdadeira religião e adoptam a descrição “espiritual e não religioso” é porque acreditam que a ciência tornou a religião tradicional inviável.

Podemos simplesmente cruzar os braços e lamentar que tantos tenham caído nesta falácia simplista. (“Ex-católicos” são o segundo maior grupo religioso na América e os “Nenhuns”, i.e., pessoas que dizem que não têm qualquer forma de filiação religiosa, são provavelmente a categoria religiosa que mais cresce na nossa sociedade.) Ou então podemos decidir fazer alguma coisa sobre o assunto, a começar por nós mesmos.

Estudar São Tomás não é pera doce e o próprio admite, em vários pontos da sua vasta obra, que nem toda a gente tem capacidade para estudar filosofia e teologia. Mas esta série foi montada por pessoas perfeitamente cientes destas dificuldades. Como o próprio site explica: “Não é tão difícil como pensa. Na verdade, quando nos habituamos, o pensamento de Aquino ilumina algumas das questões mais importantes. Perceberá até que ele se tornou seu amigo e guia nos caminhos da sabedoria”.

São Tomás de Aquino
Imagine poder falar de sabedoria nos nossos dias e afirmar que “o que pensamos importa”, tal como a Igreja sempre ensinou.

Católicos e protestantes, por exemplo, diferem sobre muitas coisas. Mas, classicamente, podemos dizer que tudo se resume à fórmula central de Lutero: Sola Scriptura – Só a Escritura é que constitui a fé, por oposição à Tradição e à Escritura, ou à Bíblia e a Igreja, ou à Fé e a Razão.

Neste último departamento tem havido filósofos protestantes sérios, claro, e teólogos protestantes como João Calvino ou Karl Barth, que empreenderam reflexões racionais profundas. Ainda assim não seria um exagero dizer que de todas as formas de Cristianismo, a que cultivou quer a fé quer a razão de forma mais consistente ao longo dos séculos é o Catolicismo.

E entre os Católicos o grupo intelectualmente mais fértil, ao longo de quase mil anos, tem sido a Ordem Dominicana. A lista de santos intelectuais e místicos é longa: O próprio São Domingos, Mateus de Paris, Raimundo de Peñafort, Alberto Magno, Tomás Aquino, Mestre Eckhart, Catarina de Sena, Fra Angelico, Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Cardeal Cajetan, Rosa de Lima, Martim de Porres, Pio V (cujo longo pontificado legou aos Papas o seu traje branco), Louis de Montfort, Lacordaire, A. G. Sertillanges, Reginald Garrigou-Lagrange, Vincent McNabb, Aidan Nichols e muitos outros nos tempos modernos.

Claro que há outras escolas de pensamento católico para além do Tomista e do Dominicano. Mas ao familiarizar-se com qualquer uma das figuras citadas acima, já ficará com uma formação valiosa em pensamento e prática católicos – bem como uma perspectiva poderosa sobre muitas questões perenes e controvérsias actuais.

Mas a Dominican House tornou mais fácil para todos estudar Aquino, agora. Vá até ao site e inscreva-se. É grátis; pode estudar ao seu próprio ritmo, a partir de casa; não há notas. O que é que tem a perder? E pense só no que tem a ganhar.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 June 2019

Música portuguesa para o Papa

No sábado vão ser beatificadas 14 monjas concepcionistas, mártires da Guerra Civil de Espanha. Conheça as suas histórias aqui.

O Papa Francisco recebeu esta quarta-feira dois presentes para ouvir em português. Trata-se de uma “missa de Santo António” do maestro Vitorino d’Almeida e do disco “Encontro(s)”, de Luís Zagalo

Lembram-se do Suíço que foi multado por combater o Estado Islâmico? Publiquei agora a transcrição integral da entrevista que lhe fiz, que podem ler aqui.

Os defensores da ideologia do género invocam frequentemente o argumento da liberdade individual. No artigo desta semana do The Catholic Thing, Robert Royal explica porque é que esse conceito é, na verdade, o exacto oposto de verdadeira liberdade. É um assunto urgente, não deixem de ler!

Transgénero e Liberdade Perfeita

Não faltam razões para ler a Divina Comédia de Dante, nem que seja pelo prazer de um encontro com o génio da imaginação. Mas no final de contas a razão mais importante é aquela que o próprio identifica numa carta a um mecenas, Can Grande Della Scala: “o assunto é o homem na medida em que, com os seus méritos e deméritos, no exercício da sua livre vontade, é merecedor de ser premiado ou punido pela justiça”.

Esta escolha torna-se clara no destino de Lúcifer. Podemos discutir longamente como é que certos pecadores vieram a merecer castigos específicos no Inferno de Dante, mas Satanás representa uma escolha principal.

O Satanás de Dante não é o rebelde romântico do “Paraíso Perdido” de Milton, nem um tentador engenhoso como o Escritope de C. S. Lewis. Trata-se aqui do ser que – de forma radical, pura e eterna – rejeitou Deus e toda a ordem do universo que Ele criou. Satanás pensa que se lançou no caminho da liberdade total em relação a tudo isso, mas não podia, literalmente, estar mais errado. 

Dante mostra-nos isto numa imagem inesquecível. Satanás está envolto em gelo no fundo do universo, nos recantos mais longínquos do Inferno. Dá às suas asas de morcego, procurando libertar-se, mas o vento que as asas criam apenas serve para o congelar ainda mais. É como as algemas chinesas com que brincávamos quando éramos miúdos. Mete-se os dedos de cada lado de uma espécie de tubo, mas quanto mais força fazemos para os tirar, mais apertado fica.

Não há outra saída para quem se revolta contra Deus. Satanás foge de Deus e da sua ordem cósmica, mas não há para onde fugir. Apenas existe um Deus, um universo, uma realidade. Rejeite-se isso e rejeita-se tudo, incluindo a fonte do nosso próprio ser – e a liberdade. Pode-se esforçar freneticamente, e cada vez mais, para ser “livre” segundo os próprios termos, mas está a pedir aquilo que é literalmente impossível – uma liberdade perfeita desligada de realidade. E assim se encerra, cada vez mais, em si mesmo.

Na sua “Utopia”, Tomás Moro incluiu um epígrafo: “O demónio, espírito orgulhoso, não aguenta ser gozado”. Pois aqui está um caso de gozo, gozo de si mesmo, em enorme escala.

Tudo isto pode parecer muito distante das nossas vidas diárias. Mas para um Católico na América de hoje a liberdade coloca-nos uma questão crucial. A liberdade está no topo da lista daquilo que a maioria dos americanos diria que o país representa. Os Pais Fundadores preocupavam-se com a possibilidade de a liberdade degenerar em “licença”. Tal como os pensadores antigos e medievais, eles sabiam que a liberdade podia autodestruir-se se fosse isolada da virtude e da verdade. 

A Congregação para a Educação acaba de lançar um documento sobre os transgénero (“Homem e mulher Ele os Criou”), que reconhece a fora como este movimento ideológico se desligou radicalmente não só da biologia mas da ordem cósmica. “Segundo esta visão das coisas, a visão tanto da identidade sexual como da família tornam-se sujeitos à mesma ‘liquidez’ e ‘fluidez’ que caracteriza outros aspetos da cultura pós-moderna, baseadas frequentemente em nada mais do que um conceito confuso de liberdade no campo dos sentimentos e desejos, ou nos desejos momentâneos provocados por impulsos emocionais e a vontade do indivíduo, por oposição a qualquer coisa baseada nas verdades da existência.”

Quando me constou que também convidava ao “diálogo” – o que para alguns é um tipo de tapete mágico que nos permite fugir sem ter de dizer sim nem não – temi que o documento cedesse no que é essencial. Surpreendentemente ele afirma que o diálogo significa reconhecer que algumas pessoas estão a debater-se com emoções fortes e que devem ser respeitadas enquanto seres humanos, mas ao mesmo tempo devem-lhes ser apresentadas as verdades básicas da sexualidade.

Há muito mais a dizer – e talvez venha a sê-lo. A Congregação para a Doutrina da Fé está a preparar um comentário mais puramente teológico sobre os mesmos assuntos. Mas este documento é um guia para instituições educativas e por isso é deliberadamente mais prático que teórico.

O nosso amigo Robbie George já comentou sobre a reação previsível de pessoas como o padre James Martin, S.J., que afirma que a sociologia e a psicologia modernas rebentam com as compreensões tradicionais de género. Afirmações desse género reciclam uma antiga heresia gnóstica segundo a qual alguma realidade interior, desligada do corpo físico, define a sua própria identidade. Trata-se de uma contradição da fé católica, bem como a judaica a islâmica e mesmo o bom pensamento secular. É tudo menos científico obliterar o papel de estruturas observáveis como são os genes masculinos e femininos, que existem em cada célula do corpo humano, apenas com base no que alguém diz ser.

O Dr. Paul McHugh, antigo diretor de psiquiatria na Universidade Johns Hopkins, estudou pessoas que foram sujeitas a “mudança de sexo” e concluiu que na maior parte dos casos não são mais felizes do que eram antes. “No cerne da questão está a confusão sobre a natureza dos transgénero. A ‘mudança de sexo’ é uma impossibilidade biológica.”

Santo Agostinho resumiu da seguinte forma toda a tradição bíblica: “Deus eterno, que és a luz das mentes que te conhecem, a alegria dos corações que te amam e a força das vontades que te servem; concede-nos que te conheçamos para verdadeiramente te amar, e assim amar-te para servir inteiramente a ti, a quem servir é a perfeita liberdade, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.” (Oração para Conhecer a Deus)

A verdade reside onde o temporal e o eterno, a liberdade e a ordem e outras coisas aparentemente opostas se encontram e misturam. O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores é também o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O Altíssimo nasce como bebé humilde numa manjedoura. Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros. E viver em harmonia com a verdadeira ordem do mundo é a única liberdade possível.

Poucos de nós compreendemos isso hoje. As nossas noções de liberdade chegam-nos por via de ‘entertainers’ autoindulgentes, políticos interesseiros, académicos excêntricos e egocêntricos e meios de comunicação autorreferenciais. Mas apesar de toda a celebração de identidade, individualismo, diversidade e singularidade, o resultado não é um tecido social rico, harmonioso e livre, mas o caos privado e público que está à vista de todos os que têm olhos para ver.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 17 de Junho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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