Showing posts with label Dicastério para a Doutrina da Fé. Show all posts
Showing posts with label Dicastério para a Doutrina da Fé. Show all posts

Friday, 5 January 2024

Esclarecimentos necessariamente desnecessarios

Espero que tenham entrado da melhor maneira no novo ano, e que ele seja o mais abençoado possível.

O ano não podia ter acabado de pior maneira na Nicarágua, onde só nos últimos quinze dias do ano foram detidos cerca de 20 padres pelo regime sandinista, incluindo pelo menos um no próprio dia 31 de Dezembro.

A Nicarágua é apenas um de muitos países e regiões onde a Igreja sofre por perseguição ou falta de recursos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre existe para acudir a estes casos e ajudar da forma possível, seja materialmente, através de advocacia ou, muito importante, através da oração e do apoio espiritual. Nesta entrevista, a nova presidente executiva da fundação internacional, Regina Lynch, explicou-me quais são as prioridades da organização para o 2024.

Na Igreja continua-se a falar do Fiducia Supplicans. Depois de o prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé ter dito que não haveria mais pronunciamentos ou esclarecimentos sobre a declaração, temos assistido a uma sucessão de… pronunciamentos e esclarecimentos, o mais recente na forma de um comunicado de imprensa. Fiz um apanhado da situação, e da polémica que tem gerado, neste texto.

Por cá, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pediu o fim da “crispação” entre partidos e instituições e o Papa lamentou os dias “vazios de paz” que o mundo está a viver.

O artigo desta semana do The Catholic Thing assinala simultaneamente a solenidade de Maria, Mãe de Deus, que se celebrou no dia 1 de Janeiro, e também o aniversário da morte de Bento XVI. É um excerto da última homilia que ele fez enquanto Papa nessa solenidade, leiam que é muito bonito.

Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Wednesday, 15 November 2023

A transformação prometida pelo baptismo

Pe Brian Graebe

O Vaticano esteve nas notícias novamente, a semana passada, por causa da resposta a perguntas sobre a elegibilidade de pessoas transgénero para serem baptizadas ou servirem como padrinhos ou testemunhas dos sacramentos. A maior parte do documento, em si, não tem nada de controverso. A fasquia para negar os sacramentos a alguém, especialmente no caso do baptismo, é muito alta. Salvo uma hostilidade aberta à fé (e nesse caso é pouco provável que a pessoa procure sequer o sacramento) a presunção deve ser sempre a favor de baptizar.

A prática da Igreja comprova essa generosidade. O sacramento requer um elemento muito comum – a água – e qualquer pessoa, mesmo um ateu, pode administrá-lo validamente. Seja qual for a questão psicológica que uma pessoa transgénero esteja a atravessar, ou com a qual se confronta, a graça salvífica de Deus está ao dispor de todos os que a procuram de coração sincero. Na medida em que reafirma estas verdades básicas, a resposta do Dicastério para a Doutrina da Fé sublinha a visão acolhedora e inclusiva da Igreja a que o Papa Francisco tem dado prioridade.

Ao mesmo tempo, contudo, o documento peca por aquilo que deixa de fora. No rito do baptismo a Igreja, na pessoa do seu ministro, deve afirmar não apenas a verdade sobrenatural do sacramento, mas também a verdade natural do recipiente.

Ao longo do rito do baptismo o ministro, normalmente um padre, opta por pronomes masculinos ou femininos, com base no sexo do baptizando. Um homem pode acreditar que é uma mulher, e talvez até escolha usar um nome de mulher. Em si, isso não o deve desqualificar de ser baptizado. Contudo, o padre tem obrigação de se referir a ele como um homem. Por exemplo, na oração antes do baptismo propriamente dito, o padre diz: “Ajudemos com as nossas preces este nosso irmão, preparado para receber a vida nova do Baptismo. Oremos a Deus nosso Pai, para que, na sua grande misericórdia, o guie e acompanhe até à fonte baptismal.” Só nesta oração, a masculinidade – se for o caso – do catecúmeno é afirmada três vezes.

A Igreja não pode ser cúmplice do erro. Referir-se a este catecúmeno como uma mulher, usando a linguagem correspondente, seria tomar parte de uma mentira e semear mais confusão. Pastoralmente, a escolha da linguagem a usar no rito devia fazer parte de uma conversa mais longa com o candidato, bem antes da realização da cerimónia, em que o padre explica, com sensibilidade e com clareza, a antropologia da Igreja, procurando também compreender melhor o entendimento e motivação do candidato em procurar o sacramento. Infelizmente, estas considerações – pastoral, doutrinal e litúrgica – não constam da recente resposta do Vaticano.

Mas este problema não está limitado ao baptismo. A afirmação do sexo biológico estende-se também ao papel de uma pessoa transgénero enquanto padrinho ou testemunha. A Igreja pede que haja, sempre que possível, um padrinho, pelo menos um, embora possa haver – e frequentemente haja – dois. Nesse caso deve ser um padrinho e uma madrinha.

Esta paternidade espiritual deve espelhar a paternidade física. Se um homem transgénero, que se considera mulher, se apresentar para ser padrinho num baptizado, e partindo do princípio que preenche os restantes critérios, deve ficar bem claro que ele se apresenta como padrinho, junto de uma madrinha.

Aceder ao pedido de que este homem seja uma madrinha, junto de um padrinho, seria uma distorção do significado espiritual da instituição de padrinho e, novamente, confirmaria e perpetuaria o erro identitário de que este indivíduo sofre. Tal acomodação representa uma falsa compaixão e a subordinação da verdade objectiva à subjectividade dos sentimentos.

Os sacramentos não são propriedade da Igreja, mas de Cristo. Servem para conformar a alma mais perfeitamente com Ele, que é a verdade e que nos convida a permanecer nessa verdade. Essa verdade inclui a biologia da pessoa, que Deus criou homem e mulher.

Ao deixar de fora estas importantes considerações, o documento do Vaticano levanta mais questões do que aquelas a que responde. A confusão dos nossos tempos requer que a Igreja seja uma voz cada vez mais firme no deserto, por mais impopular ou desconfortável que isso possa ser.

O fenómeno transgénero não dá quaisquer sinais de retroceder. Pelo contrário, existe um esforço agressivo em todos os sectores da sociedade – e até dentro da Igreja – de o normalizar e até de penalizar quem utiliza os “pronomes errados”.

Por isso, a Igreja tem de ter a coragem das suas convicções. O seu acolhimento é também, e sempre, um convite e um desafio à conversão, convidando cada alma a deixar para trás o “velho eu” e revestir-se de Cristo. Essa é a identidade que o baptismo oferece, e a transformação que promete.


Brian A. Graebe, é padre na arquidiocese de Nova Iorque e autor de Vessel of Honor: The Virgin Birth and the Ecclesiology of Vatican II (Emmaus Academic).

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Wednesday, 8 November 2023

O Caso Rupnik: Como é que isto ainda está a acontecer?

Stephen P. White

A semana passada a Santa Sé anunciou que o Papa Francisco tinha decidido levantar o prazo de prescrição nas alegações contra o antigo jesuíta e famoso artista Pe Marko Rupnik. O padre esloveno tem sido acusado por mais de duas dúzias de mulheres de abusos sexuais, espirituais e psicológicos, praticados ao longo de várias décadas. A decisão do Papa de levantar o prazo de prescrição neste caso é, por isso, bem-vindo.

Contudo, a decisão de levantar o prazo de prescrição sobre estas alegações teria sido muito mais bem-vindo caso tivesse sido tomada bem mais cedo, e se o caso, até agora, tivesse sido tratado com um pingo de transparência, e se a concessão à justiça não tivesse tido de ser arrancado a ferros, por assim dizer, ao Papa, por um grito colectivo de indignação e justa revolta por parte dos fiéis e, especialmente, por muitas vítimas de abuso sexual na Igreja.

Não temos espaço aqui para elencar todos os detalhes da saga do caso de Rupnik, nem sequer os detalhes que são públicos, mas é necessário fazer um pequeno resumo para compreender o quão inexplicável e desadequado tem sido o tratamento dado a este caso.

As primeiras alegações conhecidas sobre as más-práticas e os abusos sexuais cometidos por Rupnik chegaram à atenção dos jesuítas em 2018. Tendo sido consideradas credíveis, estas alegações foram encaminhadas para a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Elas incluíam a alegação de que Rupnik tinha dado absolvição a uma cúmplice no pecado contra o Sexto Mandamento – um crime grave que incorre em excomunhão automática.

Em Março de 2020, depois de os jesuítas terem determinado que Rupnik tinha provavelmente incorrido excomunhão, e depois de terem enviado o caso para a CDF para maior investigação, mas antes de a congregação ter confirmado (e subsequentemente levantado) a dita excomunhão, o Pe Rupnik foi convidado a pregar um sermão quaresmal ao Papa na Cúria Romana.

Um ano mais tarde, em 2021, os jesuítas levaram a cabo outra investigação de alegações contra Rupnik feitas por membros femininos da sua antiga comunidade na Eslovénia. Esta investigação determinou que existiam indícios suficientes para desencadear um processo penal contra Rupnik. Pela segunda vez em dois anos, as alegações credíveis contra ele foram submetidas à CDF, desta vez com a recomendação de que fosse iniciado um processo penal.

Estas alegações foram submetidas à Congregação para a Doutrina da Fé em Janeiro de 2022. Nesse mesmo mês, o Papa Francisco encontrou-se pessoalmente com Rupnik. Um mês mais tarde o padre foi sujeitado a novas restrições pelos seus superiores jesuítas. Em Outubro de 2022 a CDF – agora conhecida como Dicastério para a Doutrina da Fé – determinou que tinha sido ultrapassado o prazo de prescrição, e por isso não seria aberto um processo canónico.

No início deste ano, em 2023, os jesuítas abriram outra investigação interna contra Rupnik – pelas minhas contas, a terceira investigação no espaço de cinco anos. Entretanto, Rupnik violou as restrições que lhe tinham sido impostas pelos jesuítas. Esta persistente desobediência levou-o eventualmente a ser expulso da Sociedade de Jesus em Junho deste ano.

O que nos traz à decisão, tornada pública há duas semanas, de que o Pe Marko Rupnik tinha sido incardinado na diocese Eslovena de Koper onde, segundo uma declaração daquela diocese, “goza de todos os direitos e deveres dos padres diocesanos”.

Como é que é possível que alguém, no ano 2023, pudesse pensar que a resolução justa para o caso de um padre que enfrenta tantas alegações, confirmadas como sendo credíveis em tantas investigações diferentes, de tantos acusadores, ao longo de tantos anos, passasse por devolvê-lo discretamente ao ministério, num local diferente e sob as ordens de um novo superior?

Nada disto faz sentido. Não faz sentido se ele for culpado, e não faz sentido se ele for inocente. Talvez por isso ninguém pareça estar interessado em defender a forma como tudo isto tem sido tratado. Chegámos ao ponto exasperante em que a interpretação mais caridosa possível de tudo o que se passou é a incompetência burocrática.

Se existe uma explicação boa, razoável ou sequer plausível para a forma como se tem lidado com o caso, o Vaticano, como de costume, não tem mostrado qualquer vontade de se explicar a ninguém.

Com Roma a querer dizer o menos possível, a mensagem que se passa não é de preocupação pelas vítimas, nem de dedicação à transparência, nem um esforço para restaurar a confiança, nem a determinação de que a justiça seja não só feita, como se veja que foi feita. Antes, a mensagem que passa (certamente sem intenção) é de um gritante desprezo pela inteligência dos fiéis e de total desrespeito pelas vítimas dos abusos sexuais na Igreja.

O problema de tudo isto vai muito para além da culpa ou da inocência do próprio Rupnik, ou sequer da necessidade de justiça e de cura para os que possam ter sofrido os seus abusos. É a paciência das vítimas de abusos que está a se repetidamente posta à prova, a confiança dos fiéis que está cada vez mais saturada e os obstáculos à proclamação do Evangelho que se tornam cada vez maiores à medida que a credibilidade da Igreja diminui.

A revolta que se fez sentir com a notícia do regresso de Rupnik ao ministério foi de tal ordem que a Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores interveio, convencendo o Santo Padre a mudar de rumo. Ainda bem para a Comissão, e ainda bem para o Papa por voltar atrás no que diz respeito ao prazo de prescrição.

Tudo dito, é difícil imaginar uma resolução para o caso de Rupnik que possa desfazer a percepção já criada por este caso, nomeadamente de que não obstante todos os esforços de reforma, muito elogiados, do Papa Francisco, na verdade pouca coisa mudou. Como é que a Igreja pode afirmar credivelmente ter aprendido com as suas falhas do passado no que diz respeito a criminosos influentes como Maciel e McCarrick, quando ainda hoje se continuam a passar-se casos inexplicáveis como o de Rupnik?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 2 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Friday, 7 July 2023

JMJ bem encaminhada e prefeitos menos que perfeitos

Já falta menos de um mês para o início da JMJ em Lisboa. Foram anos de espera e preparação. Em que estado é que as coisas estão? Passei vários dias a recolher informação, que resultou em mais um artigo para o The Pillar. No final admito que fico optimista, leiam para conferir porquê.

E isto foi antes da revelação de um estudo da PWC que estima um impacto positivo do evento para o país de mais de 400 milhões de euros brutos!

Nem todos os jovens do mundo conseguirão vir a Lisboa. No Iraque, os católicos da Igreja Caldeia fizeram o seu próprio encontro perto de Erbil. Falei com uma das participantes sobre a importância deste tipo de eventos para encorajar uma comunidade que já sofreu tanto nos últimos anos.

A mais recente polémica na Igreja Católica é a nomeação de um bispo argentino, muito próximo do Papa Francisco, para prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. As alas mais conservadoras da Igreja acusam-no de ser demasiado progressista, e inadequado para o cargo. Neste artigo reúno os principais dados que existem sobre ele e os argumentos de um lado e de outro, e recordo que nas últimas décadas os ocupantes deste cargo sempre foram alvo de críticas e de caricaturas que acabam por nunca corresponder à realidade. Saibam mais aqui.

À medida que sai mais informação sobre a situação em Cabo Delgado, mais nos vamos apercebendo da dimensão da tragédia causada por fundamentalistas islâmicos naquela região de Moçambique. O que tinha sido inicialmente descrito como um ataque isolado, afinal foi um massacre que terá causado mais do que as 1300 vítimas entretanto apontadas pelo Governo.

Num belo gesto, o Papa Francisco criou uma comissão para estudar e registar os “novos mártires”. Esta comissão não se limitará aos católicos, mas abrangerá todos os cristãos, seja qual for a sua confissão.

Continua-se a falar do Sínodo para a Sinodalidade. Esta semana que passou, o bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, escreveu um artigo a criticar o processo sinodal, que foi publicado no The Catholic Thing. Pouco depois o autor Stephen P. White escreveu sobre o mesmo assunto, elencando algumas das críticas, mas explicando porque razão mesmo os mais cépticos não devem descartar à partida um processo que vai certamente marcar o futuro da Igreja.

Thursday, 6 July 2023

O novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé: Entre o medo, o mito e a realidade

No início deste mês o Papa Francisco nomeou um novo prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF). E assim nasceu uma nova polémica.

Dependendo de quem lemos, o novo prefeito, o arcebispo Victor Manuel Fernández, ou é o delfim do Papa Francisco, e principal inspirador das reformas que este está a tentar implementar na Igreja, ou é o malévolo génio por detrás de Francisco e da sua campanha de destruição da tradição e da moral.

Precisamente porque vivemos num tempo em que as pessoas acabam por receber informação essencialmente de fontes que estão já alinhadas com as suas ideias e os seus preconceitos, achei que seria boa ideia resumir alguns dos pontos principais sobre esta nomeação, e o que ela pode significar. Não entendam este artigo como o resumo definitivo da situação, mas sim como uma ajuda para entender quem é Fernández e qual o seu peso neste pontificado.

Fernández era até agora Bispo de La Plata, na Argentina. Há anos que é muito próximo do Papa Francisco, tendo sido o seu perito em teologia no encontro de bispos da América Latina, em Aparecida, no Brasil, que em larga medida tem sido um modelo para este pontificado.

Enquanto amigo e confidente do Papa, Fernández tem sido também influente na elaboração de algumas das posições teológicas de Francisco. Nomeadamente, terá sido o arquitecto teológico por detrás do Amoris Laetitia, que abriu caminho ao regresso aos sacramentos de pessoas em situação matrimonial irregular. Isso faz dele um santo para progressistas e o demo para os mais tradicionalistas.

Contudo, para melhor entender esta situação é preciso lembrar que Fernández vem de um contexto paroquial, do contacto directo com as vidas dos fiéis no terreno. As suas posições – e isto tem sido fundamental para o Papa – partem deste princípio, de que a teologia só serve para alguma coisa se for ao encontro das vidas concretas e reais das pessoas. Uma teologia aérea, de ideais que não são vividos no terreno, é um exercício vão.

Como disse o próprio Fernández, num texto publicado na sua página do Facebook, “tenho orgulho de ter sido aquele pároco jovem que tentava chegar a todos, usando as mais diversas linguagens. Por isso é que quando o Papa fala do meu currículo refere que fui reitor da Faculdade de Teologia, mas ao mesmo tempo diz que fui pároco de ‘Santa Teresita’. É porque para ele é importante que um teólogo se meta na lama e trate de usar uma linguagem simples e que chegue a todos”.

Até agora o cargo de prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé era entendido como uma espécie de “polícia teológico”, responsável por avaliar e censurar os trabalhos de teólogos em todo o mundo. Na carta que escreveu a acompanhar esta nomeação, o Papa diz a Fernández que outrora o departamento que ele agora chefia usava de “métodos imorais”. Alguns leram isso como uma crítica a Ratzinger, que se tornou conhecido precisamente por ser prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), ganhando o epíteto de “Rottweiler” de João Paulo II, mas é mais provável que seja uma referência directa aos métodos do Santo Ofício, ou Inquisição, que perseguia heresias e hereges, em muitos casos entregando-os às autoridades civis para serem executados.

Francisco, pelo contrário, quer que Fernández se preocupe em contribuir para a reflexão teológica, em vez de a atrofiar. O tempo dirá o que isto significa na prática.

Cultura de cancelamento e puritanismo

Uma das expressões que mais está na moda actualmente é “cultura de cancelamento”. Resumidamente, trata-se da manifestação de um tique puritanista, que de católico nada tem, de vasculhar o passado de alguém e depois expor os eventuais podres, ou erros, dessa pessoa, por mais antigos ou irrelevantes que sejam, para manchar a sua reputação para sempre, evitando que seja escutada. Digo que isto nada tem de católico precisamente porque o catolicismo defende a conversão e acredita num Deus que “faz novas todas as coisas”. Quantos santos que veneramos nos nossos altares sobreviveriam a esta metodologia?

Contudo, a cultura do cancelamento está bem viva dentro da Igreja e é usada por guerreiros de teclado de ambos os lados da barricada.

Recordemos para este efeito o que se passou com o cardeal Gerhard Müller. Müller, se bem se recordam, era o prefeito da CDF quando Francisco assumiu o Pontificado, tendo sido nomeado para esse cargo por Bento XVI, em 2012. Hoje, Müller é recordado com saudade pelos mais conservadores e tradicionalistas como um guardião da ortodoxia teológica. Mas o que é que os mesmos tradicionalistas diziam dele em 2012? Leiam este post do influente blog Rorate Caeli, que aquando da sua nomeação elencou todas as suas supostas heresias, que considerava mais graves até do que o facto de ele ser amigo de um influente defensor da Teologia da Libertação. Pois é, a vida dá muitas voltas!

No caso de Fernández, uma das armas de arremesso que tem sido usada é a sua autoria de um livro sobre o beijo, chamado “Cura-me com a tua boca”. Nos meios de língua inglesa até se chegou ao ponto de traduzir um dos seus poemas de forma enganosa, vertendo a palavra “bruja” para “bitch”. No mesmo post do Facebook que referi acima, Fernández explica que esse livro não era mais do que uma tentativa de fazer uma catequese para tentar alcançar um público jovem da sua paróquia. Não vou citar tudo, podem ir lá ler, mas admito que a sua explicação me pareceu mais plausível e sensata do que as críticas veementes que tenho visto.

Resumindo, basta olhar para as últimas décadas para perceber que as caricaturas que nos tentaram vender dos prefeitos para a Doutrina da Fé estavam invariavelmente erradas. Ratzinger não era um neo-nazi disfarçado de padre que perseguia furiosamente os teólogos liberais; Müller não era um hippie herege e Fernández muito provavelmente não é aquilo que muitos temem, nem aquilo que muitos esperam. Aliás, este artigo, escrito em 2018, sublinha o facto de a faculdade de Teologia de que foi reitor e o seminário a que presidiu serem consideradas das mais ortodoxas da Argentina, e ainda o facto de ele ter sido sempre defensor firme, mesmo indo contra a corrente, dos valores da vida e do casamento, defendendo os seus colegas e subordinados quando estes eram criticados por abraçarem as posições da Igreja neste campo.

Há que confiar que o novo guardião da ortodoxia seja isso mesmo, tendo noção também que o seu papel agora não é o de investigação ou proposição teológica, mas sim de avaliação do trabalho que vai sendo feito, nomeadamente dos textos que saem da Santa Sé, embora num espírito mais colaborativo do que talvez tenha sido usado pelos seus antecessores.

Por fim, e de forma mais sintética, dois apontamentos:

Abusos: Um dos papéis do DDF é lidar com casos de abusos na Igreja em todo o mundo. Fernández já admitiu que não se sente preparado para isso, e precisamente por isso Francisco pediu-lhe que se concentrasse mais na questão teológica, uma vez que o departamento que lida com as questões dos abusos já está montado e oleado, precisando apenas de supervisão.

Sucessor?: Uma das teorias que tenho lido é de que com esta nomeação o Papa lança Fernández como seu sucessor e herdeiro, tornando-o assim um dos principais candidatos a próximo Papa. Embora esta teoria seja proposta pelo único jornalista que eu conheço que sugeriu que Bergoglio tinha hipótese de ser eleito Papa em 2013, eu tenho sérias dúvidas de que tal acontecerá. Acho muito pouco provável os cardeais escolherem outro argentino, sobretudo um que – como será expectável – será bastante novo quando for o próximo conclave, uma vez que neste momento tem apenas 60 anos, prestes a fazer 61.

Thursday, 15 June 2023

Pe. Mário Rui: Afastamento levantado

[Nota: Rigorosamente, o processo ainda não foi arquivado, apenas foram levantadas as restrições ao ministério do Pe. Mário Rui. Contudo, este levantamento indica que o processo será formalmente arquivado muito brevemente. Fica feito o reparo, com o meu pedido de desculpa pela falta de rigor

O processo relativo ao Pe Mário Rui, do Patriarcado de Lisboa, foi arquivado. O arquivamento foi comunicado pelo Patriarca ao próprio na quarta-feira, dia 14, e torna-se pública a partir desta quinta-feira. Não sei se haverá comunicado no site do Patriarcado (se não há, devia haver), mas a informação também me foi confirmada por fonte próxima da Comissão Diocesana e sei que o próprio sacerdote fez questão de enviar uma longa declaração a amigos e paroquianos.

Antes de mais, esta é obviamente uma boa notícia. O arquivamento é sinal de que não foram encontrados quaisquer indícios que corroborem a denúncia anónima que foi feita contra ele à Comissão Independente. Sei que a alegada vítima também nunca se deu a conhecer, por isso não havia qualquer matéria que pudesse levar a que o processo continuasse.

Os textos que eu escrevi sobre o Pe. Mário Rui deram sempre azo a bastante discussão e muitas críticas, o que só atesta a sua enorme popularidade junto de muitos fiéis. Mas sempre fiz questão de dizer que nesta matéria de abusos é importante seguir os processos à letra. Isto implica que era importante investigar esta denúncia, o que foi feito, mas significa também que, uma vez arquivado o processo, esta decisão também deve ser aceite por todos e, por isso, o Pe. Mário Rui deve ser considerado inocente e tratado como tal.

Se bem se recordam, juntamente com o Pe. Mário Rui foram preventivamente afastados mais três padres do Patriarcado de Lisboa. Ao que consegui apurar, os processos destes sacerdotes estão um pouco mais atrasados, daí hoje só ser notícia a conclusão deste.

Em relação a este processo, algumas notas:

O processo decorreu mais ou menos dentro do tempo previsto, de três meses. Em tempo de Igreja, e mesmo em tempo de justiça civil, pode-se dizer que foi rápido e eficaz, dentro das expectativas deixadas por anteriores processos no Patriarcado de Lisboa e não só, o que mostra que as reformas impostas por Roma estão também a funcionar a este nível.

Nestes três meses o que é que se passou? A Comissão Diocesana recebeu do Patriarcado a lista de padres referidos em denúncias e recomendou ao patriarcado o afastamento provisório deste padre em particular, entre outros, para melhor investigação; foram recolhidos alguns dados provisórios e enviados para Roma; o Dicastério para a Doutrina da Fé mandou abrir uma investigação ao nível do Patriarcado e esta decorreu, sem que tivessem sido encontrados outros indícios que validassem quer a denúncia original, quer qualquer outra situação que se enquadre na tipologia de abuso de menores; o processo foi arquivado.

Este é um dado muito significativo. O abuso de menores tende a ser um padrão de comportamento. É raro – embora exista – o abusador que só abusa de um menor em toda a sua vida. Logo, os abusadores tendem a deixar um rasto por onde passam, que pode ser identificável numa investigação. Ora, durante o seu ministério o Pe. Mário Rui esteve muito envolvido em muitos ambientes onde teve contacto com menores, nomeadamente escolas, agrupamentos de escuteiros, movimentos, etc., O facto de, durante a investigação, não se ter encontrado qualquer outro indício para além da denúncia citada pela Comissão Independente, e que por falta de denunciante nunca passou de anónima, abona muito a favor da inocência do acusado.

Com o levantamento do seu afastamento provisório, o Pe. Mário Rui volta agora ao ministério activo, sem qualquer restrição.

Disse, numa primeira instância, que não apreciava o tom e o estilo com que ele escreveu uma primeira declaração, quando soube que era acusado, e mantenho essa minha opinião em relação a esta segunda declaração que ele publica hoje, em que dá conta do arquivamento. Discordo sobretudo das críticas que faz à Comissão Diocesana, que me parece que apenas cumpriu o seu mandato e as orientações vindas do Vaticano. Todo este processo já é suficientemente difícil, não me parece útil nem desejável minar o trabalho dos que foram escolhidos pelo Patriarca para o levar a cabo, por mais que uma pessoa em particular se tenha sentido injustiçado pela acusação que lhe foi feita.

Com este último desenvolvimento, actualizei a lista de casos para reflectir o arquivamento do processo do Pe. Mário Rui e também a cronologia.

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

Partilhar