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Friday, 2 February 2024

Ajudar trapistas no Palaçoulo e desbaptismos na Bélgica

A polémica da semana é o cartaz da Semana Santa de Sevilha 2024. O cartaz dividiu opiniões, levando até um grupo a marcar uma missa de desagravo. Tendo falado com especialistas na área da arte, admito que estou algo dividido sobre o assunto. Aproveito, por isso, para convidar os meus leitores que tenham alguma opinião fundamentada sobre o cartaz para me enviarem por mail as vossas ideias.

Na Bélgica existe outra polémica que, parecendo até cómica ou distante, poderá bem vir a ter repercussões em Portugal e toda a União Europeia. Uma pessoa pediu à sua paróquia para apagar o seu registo dos assentos de baptismo. A paróquia recusa. Noutros países em que isto aconteceu, os tribunais têm-se colocado do lado da Igreja, mas aqui o Tribunal deu razão à pessoa e à Autoridade de Protecção de Dados. A Igreja recorreu, e isto pode mesmo chegar a um tribunal europeu. Este é, para mim, um sinal perfeito dos tempos em que vivemos, os tempos do pensamento mágico, em que alguém acha que só porque lhe apetece, pode obrigar todo o resto do mundo a alinhar numa fantasia, neste caso fingindo que um facto histórico – o facto de ela ter sido baptizada – simplesmente não aconteceu. Há aqui uma ligação evidente com a ideia de que é possível, por exemplo, mudar de sexo. É uma ideia que desenvolvo neste artigo “A Consagração da Mentira”, que vos convido a ler.

Como muitos já saberão, as Monjas Trapistas do Palaçoulo tiveram um incêndio na sua hospedaria, onde viviam enquanto esperam a construção do mosteiro. Já muita gente contribuiu para ajudar a financiar os reparos, de tal forma que o MBWay das monjas ultrapassou o limite mensal. Felizmente há sempre a possibilidade de fazer transferência. Aqui encontram todos os detalhes necessários. Toda a ajuda é preciosa!

O Papa Francisco pergunta se nos incomoda o grito dos oprimidos. É uma excelente pergunta para ir preparando a Quaresma, que está a quase a chegar!

E da China chega uma notícia interessante. Depois de vários actos unilaterais por parte do Governo, que punham em causa a posição do Vaticano naquele país, foi agora instalado um novo bispo, de uma nova diocese, criada por Roma. Mais do que pontos a favor de um ou outro, se Deus quiser isto poderá demonstrar que o acordo entre a China e Roma está finalmente a permitir uma normalização das relações. A notícia está aqui em português, e analisada aqui pelo The Pillar.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre a autoridade de Cristo. O Pe Paul Scalia explica que ao contrário no nosso tempo, em que pomos em causa a autoridade de tudo e todos, os contemporâneos de Jesus davam uma enorme importância ao conceito, e queriam mesmo saber com que autoridade Cristo pregava e actuava. É um artigo que vale bem a pena ler, com base no Evangelho do passado domingo.

Thursday, 1 February 2024

A Consagração da Mentira

Uma das características da mentalidade que começa a ser dominante no nosso tempo é a sua difícil relação com a verdade. Não falo aqui da divulgação de notícias falsas, pois isso, infelizmente, não é um exclusivo de nenhum grupo social, e não há falta de casos de “fake news” em meios católicos. Falo, sim, da dificuldade em aceitar que existem factos cuja realidade não depende dos nossos sentimentos ou estado de espírito, que há verdades que estão acima da “minha verdade”. Neste contexto, qualquer sugestão de que existem verdades imutáveis torna-se uma fonte insuportável de opressão, que deve ser silenciada.

Decorre actualmente na Bélgica um delicado processo jurídico que pode vir a ter repercussões para toda a Igreja Católica na União Europeia. Tornou-se moda, ao longo dos últimos anos, a ideia de pedir para ser “desbaptizado”. Isto é, pessoas que mais tarde abandonam a fé ficam de tal forma ofendidas pelo facto de terem sido baptizadas no passado, que pedem que os seus nomes sejam retirados dos assentos de baptismo das paróquias.

A Igreja, obviamente, tem recusado fazê-lo. Nalguns casos, como na Bélgica, perante estes pedidos a Igreja insere uma nota, na margem do livro de registos, manifestando que a pessoa expressou essa vontade, mas o próprio registo não é apagado.

Contudo, pelo menos uma pessoa considerou que isso não é suficiente e queixou-se à Autoridade de Protecção de Dados, que mandou a Igreja apagar o registo. A Igreja recorreu e o caso está agora em tribunal. Uma vez que outros tribunais nacionais emitiram sentenças a favor da Igreja nestes casos, se o tribunal belga se puser do lado da Autoridade de Protecção de Dados o caso pode ter de ser resolvido ao nível do Tribunal Europeu e, nesse caso, terá repercussões para toda a União Europeia.

O problema aqui não está no facto de haver uma pessoa que se quer desvincular totalmente da Igreja, e que naturalmente se está a marimbar para a doutrina cristã de que o baptismo deixa uma marca indelével na alma, pelo que o “desbaptismo” não é possível. O problema está, antes, no facto de a pessoa pensar que a sua vontade e o seu estado de espírito actual podem fazer desaparecer um facto histórico. E o facto histórico é que aquela pessoa foi baptizada na Igreja X, pelo ministro Y, no dia Z de um determinado ano. Pensar que a Igreja deve ser obrigada a apagar esse momento da história, ou que pode sequer fazê-lo, com um golpe de caneta correctora, é viver no reino do pensamento mágico.

É o mesmo paradigma que leva pessoas a imaginar não só que é possível “mudar de sexo”, como se a biologia fosse um factor irrelevante na nossa composição física, mas que toda a sociedade deve ser obrigada a alinhar nessa fantasia, sob pena de perseguição jurídica.

Aliás, esta é uma realidade que já existe na legislação portuguesa, segundo a qual uma pessoa que fez uma “mudança de sexo” pode exigir que a sua certidão de nascimento seja alterada para o sexo da sua preferência. Também aqui há a consagração de uma mentira. A certidão de nascimento não existe para consolo emocional de ninguém, mas sim como prova de um facto histórico. Naquele dia, o médico José das Couves assinou um documento em como fez o parto a um nado vivo do sexo masculino. Estar a alterar os termos 20 anos mais tarde, com base numa intervenção cirúrgica, faz do José das Couves um mentiroso e transforma um registo histórico numa arma de afirmação de uma vontade pessoal, desligada dos factos.

Uma questão de liberdade religiosa?

Para além deste atentado claro à verdade e aos factos, que por si já é preocupante, levanta-se aqui um problema de liberdade religiosa, tanto no caso dos assentos de baptismo, como no caso da mudança das certidões de nascimento.

Por um lado, a Igreja Católica não aceita o “rebaptismo”, por acreditar precisamente que um baptismo não pode ser “desfeito”. Caso a Igreja seja obrigada a extirpar dos seus registos o baptismo de um fiel, pode acontecer essa pessoa mais tarde pedir para ser baptizada de novo, sem explicar o seu passado, e a Igreja não ter forma de saber que o baptismo já aconteceu. Dir-me-ão que não é a coisa mais grave do mundo, e que até há casos de pessoas que são baptizadas à condição, por não se saber se já foram baptizadas em criança mas não houve registo, ou o registo se perdeu, ou foram baptizados de uma forma que poderá não ter sido válida. Mas o ponto não é esse, o ponto é que os registos de baptismo são propriedade da Igreja, usados para questões de organização e disciplina interna, e como tal não vejo como pode ser o Estado a obrigar à sua alteração.

Mas o caso apresenta-se como mais grave na questão da mudança da certidão de nascimento. Caso uma mulher, que foi sujeita a operação de “mudança de sexo” e agora apresenta-se como homem, se aproxima da Igreja e pede para ser baptizada, mesmo que existam dúvidas sobre a sua verdadeira identidade, não há documento que a Igreja possa pedir para a comprovar. E se, mais grave, essa mulher mais tarde pedir para ser admitida ao seminário e eventualmente ordenada, e caso ninguém desconfie, pode dar-se o caso de a Igreja “ordenar” uma mulher, em clara contradição com a sua doutrina, sem ter forma de saber a verdade. Claro que muitos acham isto irrelevante, por acharem absurdo e antiquado a proibição de ordenação de mulheres, mas é precisamente porque há gente que assim pensa que a Igreja tem de estar protegida pela liberdade religiosa, para não ser obrigada a agir contra as suas convicções.

E isto para não falar em eventuais problemas de saúde. Há doenças que são mais preponderantes entre mulheres do que entre homens. Se uma pessoa que nasceu mulher, mas agora se apresenta como homem e tem documentos que indicam ser homem e ter nascido homem, aparece no hospital com uma série de sintomas, os médicos poderão descartar certos cenários por pensar estarem dianto de um homem, e assim falhar o diagnóstico. Isto não é apenas um problema individual, é um problema de saúde pública, ou pode sê-lo. É por isso que quando o Sistema Nacional de Saúde pede às pessoas para preencher o seu sexo, não está interessado em saber o que se passa nas suas cabeças, nem as suas deambulações mentais sobre a construção social dos géneros. É uma questão de cromossomas, e de bom-senso.

Viver na verdade

O Cristianismo professa a verdade. É certo que para os cristãos a verdade vai para além de uma questão factual, pois a verdade para os cristãos não é um acontecimento histórico, ou uma conclusão lógica, mas uma pessoa. Mas também é verdade que o por Cristo se identificar como o Caminho, a Verdade e a Vida, e por ter dito que a Verdade nos libertará, o Cristianismo defende o valor e a importância de se professar a verdade, mesmo quando essa verdade é desconfortável (e quantas verdades desconfortáveis temos tido de enfrentar nas últimas décadas!).

E é por isso, por acreditar que não se deve compactuar com a mentira, e que a verdade é em si um valor, que o Cristianismo rejeita este novo-pensamento, e é também por isso que o pensamento moderno rejeita o Cristianismo e defende, apesar de todos os apelos à tolerância por todos os outros tipos de pensamento e ideias, a sua eliminação e subjugação.

Contudo, a verdade é um bicho teimoso. Recusa-se a simplesmente desaparecer, e mais cedo ou mais tarde ressuscita e manifesta-se mais forte que nunca. Às vezes demora anos. Às vezes demora três dias.  

Wednesday, 15 November 2023

A transformação prometida pelo baptismo

Pe Brian Graebe

O Vaticano esteve nas notícias novamente, a semana passada, por causa da resposta a perguntas sobre a elegibilidade de pessoas transgénero para serem baptizadas ou servirem como padrinhos ou testemunhas dos sacramentos. A maior parte do documento, em si, não tem nada de controverso. A fasquia para negar os sacramentos a alguém, especialmente no caso do baptismo, é muito alta. Salvo uma hostilidade aberta à fé (e nesse caso é pouco provável que a pessoa procure sequer o sacramento) a presunção deve ser sempre a favor de baptizar.

A prática da Igreja comprova essa generosidade. O sacramento requer um elemento muito comum – a água – e qualquer pessoa, mesmo um ateu, pode administrá-lo validamente. Seja qual for a questão psicológica que uma pessoa transgénero esteja a atravessar, ou com a qual se confronta, a graça salvífica de Deus está ao dispor de todos os que a procuram de coração sincero. Na medida em que reafirma estas verdades básicas, a resposta do Dicastério para a Doutrina da Fé sublinha a visão acolhedora e inclusiva da Igreja a que o Papa Francisco tem dado prioridade.

Ao mesmo tempo, contudo, o documento peca por aquilo que deixa de fora. No rito do baptismo a Igreja, na pessoa do seu ministro, deve afirmar não apenas a verdade sobrenatural do sacramento, mas também a verdade natural do recipiente.

Ao longo do rito do baptismo o ministro, normalmente um padre, opta por pronomes masculinos ou femininos, com base no sexo do baptizando. Um homem pode acreditar que é uma mulher, e talvez até escolha usar um nome de mulher. Em si, isso não o deve desqualificar de ser baptizado. Contudo, o padre tem obrigação de se referir a ele como um homem. Por exemplo, na oração antes do baptismo propriamente dito, o padre diz: “Ajudemos com as nossas preces este nosso irmão, preparado para receber a vida nova do Baptismo. Oremos a Deus nosso Pai, para que, na sua grande misericórdia, o guie e acompanhe até à fonte baptismal.” Só nesta oração, a masculinidade – se for o caso – do catecúmeno é afirmada três vezes.

A Igreja não pode ser cúmplice do erro. Referir-se a este catecúmeno como uma mulher, usando a linguagem correspondente, seria tomar parte de uma mentira e semear mais confusão. Pastoralmente, a escolha da linguagem a usar no rito devia fazer parte de uma conversa mais longa com o candidato, bem antes da realização da cerimónia, em que o padre explica, com sensibilidade e com clareza, a antropologia da Igreja, procurando também compreender melhor o entendimento e motivação do candidato em procurar o sacramento. Infelizmente, estas considerações – pastoral, doutrinal e litúrgica – não constam da recente resposta do Vaticano.

Mas este problema não está limitado ao baptismo. A afirmação do sexo biológico estende-se também ao papel de uma pessoa transgénero enquanto padrinho ou testemunha. A Igreja pede que haja, sempre que possível, um padrinho, pelo menos um, embora possa haver – e frequentemente haja – dois. Nesse caso deve ser um padrinho e uma madrinha.

Esta paternidade espiritual deve espelhar a paternidade física. Se um homem transgénero, que se considera mulher, se apresentar para ser padrinho num baptizado, e partindo do princípio que preenche os restantes critérios, deve ficar bem claro que ele se apresenta como padrinho, junto de uma madrinha.

Aceder ao pedido de que este homem seja uma madrinha, junto de um padrinho, seria uma distorção do significado espiritual da instituição de padrinho e, novamente, confirmaria e perpetuaria o erro identitário de que este indivíduo sofre. Tal acomodação representa uma falsa compaixão e a subordinação da verdade objectiva à subjectividade dos sentimentos.

Os sacramentos não são propriedade da Igreja, mas de Cristo. Servem para conformar a alma mais perfeitamente com Ele, que é a verdade e que nos convida a permanecer nessa verdade. Essa verdade inclui a biologia da pessoa, que Deus criou homem e mulher.

Ao deixar de fora estas importantes considerações, o documento do Vaticano levanta mais questões do que aquelas a que responde. A confusão dos nossos tempos requer que a Igreja seja uma voz cada vez mais firme no deserto, por mais impopular ou desconfortável que isso possa ser.

O fenómeno transgénero não dá quaisquer sinais de retroceder. Pelo contrário, existe um esforço agressivo em todos os sectores da sociedade – e até dentro da Igreja – de o normalizar e até de penalizar quem utiliza os “pronomes errados”.

Por isso, a Igreja tem de ter a coragem das suas convicções. O seu acolhimento é também, e sempre, um convite e um desafio à conversão, convidando cada alma a deixar para trás o “velho eu” e revestir-se de Cristo. Essa é a identidade que o baptismo oferece, e a transformação que promete.


Brian A. Graebe, é padre na arquidiocese de Nova Iorque e autor de Vessel of Honor: The Virgin Birth and the Ecclesiology of Vatican II (Emmaus Academic).

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Novembro de 2023)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Friday, 10 November 2023

Madrinhos, padrinhas e outros enganos

A Santa Sé publicou um esclarecimento esta quinta-feira sobre se as pessoas transexuais podem ser baptizadas, ou ser madrinhas ou padrinhos. Ia escrever sobre isto, mas a explicação tem tantas condicionantes, que me parece que a questão vai sempre parar ao bom-senso do pároco ou do bispo. Nalguns casos existirá, noutros não. Em todo o caso, embora me pareça fantástico que se demonstre preocupação pastoral por todos, lamento que seja a Igreja a usar termos como “transexual”, legitimando aquilo que não passa de um artifício linguístico. Talvez não seja o mais importante, mas acho que poderia ter sido evitado.

Surgiram, no fim-de-semana e durante a semana, notícias que indicam que a Igreja, nomeadamente o Patriarcado de Lisboa, castigou um padre por denunciar casos de abuso sexual de menores. Houve de facto uma sentença de um tribunal canónico contra um padre. Esse padre, de facto, denunciou casos de abuso sexual de menores. Ainda assim, o título da notícia é falso, ou pelo menos enganador, e essa é apenas a última de uma longa lista de tragédias no caso que envolve o padre Nuno Aurélio e o padre Joaquim Nazaré. Está tudo explicado no meu artigo.

Um dos pontos do artigo sobre o caso do Pe Nuno Aurélio é que já basta os tiros que a Igreja dá no pé, para não andarmos a inventar outros. Um bom exemplo de um caso que foi tratado da pior forma, pelo menos até agora, é o do Pe Marko Rupnik, que vai finalmente enfrentar um tribunal canónico. Stephen White conta os pormenores do caso no artigo desta semana do The Catholic Thing e verbaliza o que todos estamos a pensar: “Como é possível?!”

Persiste a guerra na Terra Santa. Um bispo iraquiano suplica que o conflito não se espalhe para o resto da região, outro do Líbano exige que a Comunidade Internacional intervenha para assegurar um cessar-fogo, e a irmã Nabila, que se encontra em Gaza, revela estar de coração partido com a destruição da escola que era um farol de esperança para a comunidade católica local.

Mas há mais guerras pelo mundo, e no Sudão a casa das irmãs salesianas, que cuidam de mais de 40 crianças e suas mães, foi atingido por uma bomba. Por milagre, não morreu ninguém.

Numa altura em que o panorama político do nosso país parece tresandar mais do que é costume, que tal uns perfumes de inspiração bíblica? É só dar um salto a Viseu.

Realiza-se este fim-de-semana o Meeting de Lisboa, organizado pela Comunhão e Libertação. O programa desta edição parece muito interessante, nomeadamente a exposição sobre uma organização criada para documentar os crimes dos soviéticos, que foi encerrada na Rússia por ordem de Vladimir Putin. Eu espero lá passar, vocês também o devem fazer, se puderem.

Wednesday, 19 July 2017

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 9 January 2017

Soares, Serrão e muito frio em Itália

Mário Soares com o Papa João Paulo II
Caso não tenham percebido, morreu Mário Soares. Sucedem-se as reacções, entre as quais algumas de figuras religiosas, como D. Manuel Clemente, D. Manuel Martins e a própria Conferência Episcopal. A Renascença destacou o facto de Soares ter defendido a Igreja num tempo de crise e o mesmo fez a directora de informação, Graça Franco.

Ontem também morreu Daniel Serrão, um homem que vivia bem com a morte, mas que amava a vida.

O Papa está muito preocupado com o frio que se faz sentir em Itália e reforçou o apoio aos refugiados. Ontem baptizou 28 crianças e disse aos pais que a sua principal responsabilidade é ajudá-las a crescer na fé.

Hoje o Papa discursou perante o corpo diplomático acreditado na Santa Sé e pediu colaboração entre líderes religiosos e políticos para lidar com o fundamentalismo e com o terrorismo.

Apresento-vos a Joana Gomes, uma jovem que deixou tudo para ir trabalhar com refugiados. Um exemplo a ter em conta e que podem conhecer melhor aqui.

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