Thursday, 10 November 2022

Hospital de Campanha Episódio 13 - Pe. Tiago Fonseca

Para este episódio convidámos o Pe. Tiago Fonseca que nos fala da sua vocação, de como é ser padre numa altura em que tanto se fala dos pecados e dos crimes cometidos pelo clero, do perigo da solidão entre os sacerdotes e como se pode combater e termina com um apelo às famílias para apoiarem os padres, convidarem-nos para jantar ou, idealmente, para ir ver o Benfica.

Foi uma excelente e animada conversa e ainda por cima o som não nos pregou partidas desta vez, portanto aproveitem e partilhem!


Wednesday, 9 November 2022

Escutar a Comunhão dos Santos

Stephen P. White

As recentes festividades de Todos os Santos e Fiéis Defuntos dão-nos a ocasião para nos afastarmos das circunstâncias presentes da Igreja e do mundo, e para ver as coisas com um horizonte mais alargado.

Mais do que uma constelação distante de exemplos morais, mais do que uma hoste de intercessores a rezar por nós diante do Trono da Graça, a Comunhão dos Santos é aquilo que espera cada um de nós cuja salvação foi alcançada pelo sacrifício de Jesus Cristo. A gloriosa diversidade de santos é aperfeiçoada pelo esplendor de Deus Trino, cuja vida agora partilham em pleno, na mesma medida em que o relfecte.

Se fomos feitos para a beatitude, se é esse o nosso destino final e objectivo, então a comemoração dos Fiéis Defuntos é uma recordação de que o caminho é estreito. As almas no Purgatório irão para o Céu. Mas enquanto rezamos pela sua purificação e rápida entrada na beatitude, não podemos se não recordar a necessidade urgente de arrependimento e de conversão nas nossas próprias vidas.

O que nos traz de volta ao lugar onde estamos, esta Igreja peregrina na Terra. E a verdade é que por aqui as coisas não andam especialmente bem.

Ao longo dos últimos meses e até anos a Igreja tem estado a atravessar mais um dos seus períodos de autorreflexão, que às vezes mais parecem um exercício de umbiguismo do que de examinação de consciência, em particular em torno do Sínodo sobre Sinodalidade.

Roma parece estar a preparar-se para declarar que o sínodo foi um enorme sucesso, antes mesmo de ter começado – isto apesar de algumas sérias preocupações com os níveis de participação e ingenuidade, para usar um termo simpático, em relação a alguns dos fundamentos da fé.

Independentemente do sínodo, é desconcertante ver que muito poucos católicos parecem compreender o que significa “sinodalidade” ou o que este Sínodo pretende alcançar. E é ainda mais desconcertante que toda a gente envolvida no sínodo parece estar disposta a passar ao lado deste facto inconveniente.

Por meio do nosso baptismo, todos participamos da missão da Igreja. Cada um de nós participa desta missão de acordo com a nossa particular vocação e circunstância. E a natureza hierárquica da Igreja e da autoridade eclesial existe para servir, e não para contradizer, esta missão compartilhada. Não existe um sector do Povo de Deus a quem este imperativo missionário não diga respeito.

Esta é, de forma resumida, a visão da Igreja conforme o Vaticano II e o Lumen Gentium, e em todo o lado onde a Igreja floresce é essa a realidade que vemos em acção. Se é isso que significa sinodalidade, então não podia ser mais a favor.

Mas se é isso que significa a sinodalidade, não é certamente assim que o Sínodo tem sido “vendido” e “promovido”.

É compreensível que todos aqueles que são responsáveis por conduzir o processo sinodal queiram que este seja um sucesso. Mas ao enfatizar a radical novidade do Sínodo, numa tentativa aparente de o tornar “relevante” e “excitante”, estão a prestar-lhe um mau serviço. Todo esse marketing e os slogans, que se aproximam do triunfalismo, que estão a sair de Roma parecem quase pensados para exacerbar o problema.

Confiar no Espírito Santo é uma coisa. Confiar nas promessas feitas a Pedro de que as Portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja é uma coisa. Mas confiar cegamente no discernimento e no juízo de um grupo de pessoas escolhidas acima de tudo pela sua disponibilidade para dizer o que quer que seja – por mais implausível e inconsistente – para poder apresentar o processo sinodal, ainda em desenvolvimento, como um triunfo imaculado, é outra coisa completamente diferente.

Na conferência de imprensa de apresentação do Documento da Etapa Continental, um dos conselheiros do secretário-geral do sínodo disse que “a sinodalidade não é uma forma de ser Igreja, é a forma de ser Igreja”. Tudo bem, mas então é suposto acreditarmos que até agora a Igreja não tem sido verdadeiramente a Igreja? Devemos acreditar que todos os ensinamentos e a sabedoria da Igreja ao longo de mais de dois mil anos não foram também fruto de cuidadoso discernimento?

Devemos mesmo acreditar que o sensum fidelium consiste das opiniões de uma proporção minúscula dos católicos que estão vivos hoje, ignorando dois milénios de testemunhos cujo discernimento e santa sabedoria são agora tratados muitas vezes com desprezo e rancor simplesmente porque descobrimos uma coisa nova e brilhante para substituir o que é “antigo” e “atrasado”?

A sinodalidade ou tem raízes profundas na vida da Igreja, ou é radicalmente e totalmente nova, mas não pode ser ambos. Aqueles que enfatizam a segunda para tentar convencer os fiéis de que o progresso está a ser um enorme sucesso – apesar de poucos perceberem alguma coisa do sínodo ou se preocuparem sequer com o assunto – parecem ter vistas curtas. Certamente isso não é um exemplo do tipo de discernimento e reflexão sóbrios dignos deste sínodo ou da Igreja.

A semana passada juntámo-nos ao resto da Igreja na celebração dos santos e para rezar pelas almas dos fiéis defuntos. Enquanto a barca de Pedro atravessa mares revoltos, podemos treinar ser uma “Igreja de escuta” voltando as nossas atenções para o testemunho daqueles que, pelas suas vidas, proclamaram a Verdade que salva. Ouvir, e imitar, aqueles que descobriram o caminho pela graça, através da porta estreita.

Uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus. (Hebreus 12, 1-2)

Eis uma palavra em que podemos confiar. Eis o Povo de Deus, determinado a livrar-se do pecado, com os olhos fixos em Jesus. Eis a Igreja da qual nós pecadores, aqui na Terra, somos apenas uma pequena parte. Ouçamos esta nuvem de testemunhas e caminhemos – ou corramos mesmo – juntamente com eles ao longo do caminho estreito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 3 de Novembro de 2022)

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Tuesday, 8 November 2022

Abusos na Igreja - O caso do cardeal Jean-Pierre Ricard

A revelação, feita ontem, de que um cardeal francês abusou sexualmente de uma jovem de 14 anos numa altura em que ainda era pároco, é muito mais grave do que pode parecer à primeira vista – e à primeira vista é já extraordinariamente grave.

O cardeal em causa é Jean-Pierre Ricard, bispo emérito de Bordéus.

Com este escândalo são pelo menos três os cardeais que na última década foram acusados de impropérios sexuais. O cardeal Keith O’Brien, da Escócia, que foi revelado pela imprensa mesmo antes do último conclave, no qual não chegou a participar, embora nunca tivesse deixado de ser cardeal; o cardeal Theodore McCarrick, de quem se soube em 2018 e acabou mesmo por ser laicizado, e agora Jean-Pierre Ricard. Pelo meio tivemos outro bispo afastado do Colégio dos Cardeais, Giovanni Angelo Becciu, mas por suspeitas de más-práticas financeiras, e não sexuais e mais recentemente tivemos o caso de D. Ximenes Belo, que não sendo cardeal é Nobel da Paz, o que o coloca também num patamar especial.

Em Portugal os bispos têm estado sob pressão por causa dos casos de abuso sexual na Igreja, mas nada que se compare com França. É verdade que o estudo apresentado em França, que aponta para centenas de milhares de vítimas de abuso infantil na Igreja local, é muito questionável, mas independentemente disso, a verdade é que Ricard não é o primeiro, mas sim o décimo-primeiro bispo a ser acusado no âmbito desta questão dos abusos sexuais.

Mas olhando agora mais de perto para a sua acusação em particular – ou melhor, a sua admissão, pois o próprio já admitiu os factos e pediu perdão à vítima, pondo-se ao dispor da justiça civil e canónica – um dos factos mais graves, e que ainda não vi merecer a devida atenção na imprensa portuguesa, é que Ricard fez parte, durante 14 anos, da Congregação para a Doutrina da Fé (agora Dicastério), que ainda é o órgão que trata da maioria dos casos de abuso sexual praticados na Igreja, decretando as sentenças para os padres que são condenados.

Isto significa que durante mais de uma década um homem que sabia ser ele próprio um abusador fez parte do painel responsável por lidar com casos de abusos. E isto é grave porque mesmo que ele tenha feito tudo bem – e não temos qualquer indício de que não tenha sido o caso – isto afecta gravemente a confiança dos órgãos da Igreja que mais precisam de ser insuspeitos para que ela limpe finalmente a sua imagem e vire uma nova página.

É evidente que nenhum sistema é perfeito, e haverá sempre padres e bispos corruptos, como existem polícias, juízes e políticos corruptos. Não há reforma que nos livre disso. Mas se há uma grande lição a retirar deste caso é mesmo para os clérigos.

Pode levar cinco, dez, vinte ou, como neste caso, trinta-e-cinco anos a saber-se. Mas o mais provável é que venha mesmo a saber-se. E quando se souber, quanto mais altos estiverem na hierarquia, quanto maiores as responsabilidades que assumiram, mais isso vai afectar a confiança dos fiéis que vos foram encomendados, mais as almas vão duvidar, mais pessoas virarão costas à mensagem salvadora de Cristo.

Depois de anos a cuidar da sua imagem e reputação, a Igreja está agora a perceber que é preciso colocar as vítimas em primeiro lugar. Mas lembrem-se que também o Povo de Deus merece respeito, merece integridade e verdade dos seus pastores e haverá um momento na vida de cada um dos que cometeu estes abomináveis crimes em que terá de decidir se aceita o cargo, a promoção ou a responsabilidade que lhe está a ser oferecida, apesar de carregar esta bomba relógio consigo, ou se recusa, para pelo menos poupar os fiéis de mais escândalos no futuro quando a verdade vier ao de cima.

Já que fizeram a coisa errada no passado – se for esse o caso – façam a certa agora. E de preferência submetam-se à justiça da Igreja e do Estado, já que a de Deus é certa. 

Monday, 7 November 2022

Arquivamentos sacerdotais e novidades (boas e tristes) episcopais

D. Armando Domingues
Com um dia de atraso, por motivo de aniversário de um filho e respectiva visita ao Oceanário, estou de regresso com mais informação de actualidade religiosa.

E começo com uma notícia fresquinha! A Arquidiocese de Évora informa que o padre que estava suspenso por suspeita de encobrir um caso de abusos não irá a julgamento civil nem canónico. Saiba porque é que este caso é um exemplo a seguir por outras dioceses, e espreite a cronologia para ficar a par dos mais recentes desenvolvimentos no campo dos abusos em contexto eclesial em Portugal.

Não era preciso este mais recente caso para sabermos que há acusações falsas e que, a seguir às vítimas, evidentemente, são os padres que mais estão a sofrer com o peso de toda esta polémica. Por isso repito o desafio feito a semana passada. Apoiemos os nossos padres!

Se, como é possível, estão fartos da conversa dos abusos, lembrem-se que o tema é mesmo importante, mas que felizmente não é o único e foi por isso que o último episódio do Hospital de Campanha foi sobre exemplos de sacrifício e dádiva que existem, felizmente, aos magotes entre os servos e servas de Deus!

Ao nível dos bispos temos uma notícia boa e outra triste. Morreu, de madrugada, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Daniel. Rezem por ele, e pelo D. Manuel, que fica agora mais desapoiado na difícil tarefa de conduzir o Patriarcado. A notícia boa é que a Diocese de Angra já tem novo bispo, D. Armando Domingues, que até agora era auxiliar do Porto.

O Papa está no Bahrain, para uma visita carregada de importância ao nível do diálogo inter-religioso. A visita está a ser acompanhada a par e passo pela Renascença, que tem no local a inigualável Aura Miguel.

Por falar em diálogo inter-religioso, podem ler o que escrevi com base numa conferência do especialista no assunto, e líder da Igreja Católica na Arábia, bispo Paul Hinder. Aconselho ainda a lerem o meu artigo na edição deste mês da Brotéria, disponível online para assinantes, ou em papel, sobre a importância da visita do Papa ao Cazaquistão. No fundo, uma leitura mais profunda e mais desenvolvida deste artigo.

E termino com uma recomendação musical! O meu bom amigo Manuel Fúria lançou novos temas, entre os quais este, dedicado aos cristãos perseguidos. Ouçam, partilhem e ajudem a espalhar o trabalho de um roqueiro católico e bom pai de família!

Friday, 4 November 2022

Abusos - Um exemplo a seguir

A Arquidiocese de Évora informou esta sexta-feira que o padre que estava suspenso por suspeita de encobrir um caso de abusos não irá a julgamento civil nem canónico. Já o leigo, colaborador da paróquia de Samora Correia, vai ser julgado e encontra-se em prisão domiciliária, impedido de contactar com menores de 16 anos. Os detalhes estão já na cronologia.

Tanto o Tribunal como o Dicastério para a Doutrina da Fé entenderam que o padre poderá ter sido imprudente, por não compreender o risco de reincidência, mas não agiu com dolo nem com intenção de encobrir. 

Isto, pelo que me foi possível acompanhar, é o tratamento exemplar de um caso suspeito por parte da paróquia. Há uma suspeita, suspende-se preventivamente o envolvido, neste caso o padre, colabora-se com as autoridades, junta-se a informação e envia-se para Roma e no espaço de poucos meses está tudo resolvido, com transparência e em pratos limpos.

E isto tem uma vantagem adicional. O padre Heliodoro, que se viu no centro desta polémica, escusa de andar para o resto da vida envolto em suspeitas, porque o caso foi tratado com transparência. Não estou a sugerir que o que ele passou foi agradável, mas parece-me ser melhor que a alternativa, de ser tudo tratado em segredo, ou simplesmente abafado, e ser motivo de sussurros para o resto da vida. 

Um dos problemas evidentes da suspensão imediata preventiva é que se torna uma arma perfeita para vinganças pessoais. Tenho alguma coisa contra o padre Y? Escrevo uma carta, invento uma denúncia e tramo-lhe a vida. 

Mas mesmo isto torna-se mais difícil quando tudo é tratado de forma célere e transparente. Antigamente bastava pôr a circular um boato, e dificilmente ele se livrava para o resto da vida. Hoje, se tudo correr bem, a questão fica esclarecida, e bem, por quem tem o dever e o conhecimento de investigar.

Nem todos os casos serão tão claros, obviamente, mas já é um bom começo e parece-me que a Arquidiocese de Évora deve ser elogiada pela forma como agiu, dando um caso complexo por encerrado - no que ao sacerdote diz respeito - no espaço de menos de quatro meses. 

O mesmo poderia ser dito em relação ao caso do pároco de Massamá, no Patriarcado de Lisboa, que se resolveu de forma ainda mais rápida. 

É este o modelo a seguir! Que as outras dioceses ponham os olhos nestes resultados. 

Morte de D. Daniel, bispo auxiliar de Lisboa

Rezemos por D. Daniel, bispo auxiliar de Lisboa, que morreu esta madrugada depois de uma dura luta contra o cancro .

D. Daniel tinha apenas 56 anos. A sua morte prematura deixa o Patriarcado de Lisboa de luto e deixa o Patriarca, D. Manuel, mais desapoiado no seu trabalho. As nossas orações por ele também, que tanto precisa do nosso apoio. 

Segundo informação enviada pelo Patriarcado:

O corpo chegará à Sé de Lisboa esta sexta-feira, pelas 18h00, e às 21h30, a seu pedido, rezar-se-á a recitação do Terço, com os mistérios gloriosos, seguido do Ofício de Leitura.

A Missa exequial vai ser celebrada amanhã, sábado, às 11h00, na Sé, presidida pelo senhor Patriarca.

O féretro seguirá depois para Santo Isidoro e ficará na igreja paroquial até às 16h00, altura em que seguirá para o cemitério local, onde ficará sepultado.

Wednesday, 2 November 2022

Daqui até à Eternidade

Randall Smith

Poucas coisas desafiam a nossa tranquilidade e provocam em nós um sentido de temor existencial mais profundo do que a recordação da morte. Se tudo aquilo que procurámos alcançar – tudo o que aprendemos e experienciámos, toda a gente a quem amámos – se resume a nada, haverá, pensamos nós, algum sentido para a vida?

O Vaticano II observa, e bem, que: “É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre” (Gaudium et Spes, 18).

Ao longo da história muitas pessoas se convenceram de que deve haver uma vida depois da morte para que a vida tenha algum sentido. E, porém, algumas das concepções da vida depois da morte também tornam esta vida sem sentido.

Se o Céu é assim tão maravilhoso, porquê perder o nosso tempo na terra? E o que é feito de tudo aquilo pelo qual nos esforçámos? Todas as nossas relações, os nossos amores, a nossa dedicação aos outros? As coisas que amamos são simplesmente abandonadas quando morremos? Para muitos, mesmo aqueles que crêem na vida depois da morte, o maior medo que existe é de perderem as ligações com aqueles que amam.

Assim, também, a ideia do tipo de boa vida que devemos ter nesta vida não deve contradizer a vida abençoada no Céu, e vice-versa. Se a “melhor vida para o homem” é uma vida de virtude, então não podemos, sob risco de sermos culpados de grave inconsistência, afirmar que a vida dos bem-aventurados no Céu envolve relações sexuais dissolutas com setenta virgens.

De igual modo, se um cristão crê que o Céu é um reino de amor abnegado de Deus e dos outros, mas vive a vida presente em busca de riqueza, poder e estatuto, então essa pessoa não compreendeu a relação essencial entre esta vida e a próxima.

Uma das coisas que a divina Revelação nos mostra, e que se confirma de forma mais plena nas aparições de Jesus Ressuscitado, é que a promessa de Cristo de vida eterna inclui a ressurreição do corpo. Infelizmente, muitos cristãos parecem não ter noção desta crença central da nossa fé. Apesar de repetirmos em cada recitação do credo que cremos “na ressurreição da carne”, é raro o cristão que verdadeiramente se apercebe deste ensinamento cristão.

Se um cristão afirma que a morte implica a libertação da alma do corpo, como Sócrates parece ter defendido, então estariam em contradição não apenas com o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição da carne, mas também com o entendimento cristão da unidade intrínseca entre corpo e alma. Mesmo os cristãos que sabem que a fé implica acreditar na ressurreição da carne perguntarão o que é que isso significa.

Esta é, obviamente, uma questão muito importante, demasiado complexa para encaixar num curto artigo como este, por isso o leitor perdoar-me-á se eu aproveitar para falar do meu novo livro, From Here to Eternity: Reflections on Death, Immortality, and the Resurrection of the Body que acaba de ser publicado pela Emmaus Press. Deixem-me dar-vos só umas luzes, para que decidam por vós se é o género de coisa que gostariam de ler (ou de oferecer a muitos amigos – não que eu esteja a insinuar nada…).

No livro argumento que a revelação mais plena da visão cristã da vida depois da morte se dá na pessoa do Cristo ressuscitado. Há outras imagens de “Céu” nas Escrituras, e não estão desprovidas de importância, mas não deixam de ser apenas imagens. A revelação mais central e importante da vida após a morte é dada pelo próprio Cristo, no seu corpo ressuscitado.

Essa revelação assegura-nos que, depois da morte, podemos, se respondermos às graças que Deus nos deu, partilhar de forma plena no amor trino de Pai, Filho e Espírito Santo. Mas mostra também que estaremos unidos a Deus de tal forma que não perdemos a nossa identidade ou a nossa relação com aqueles que amamos. O Cristo ressuscitado que se revela a si mesmo no Cenáculo continua a ser Jesus, aquele que eles conheciam, e não um “espírito” gnóstico que se libertou depois da morte do seu corpo.

Maria e os Santos não foram “absorvidos” por Deus como uma gota de água a regressar ao oceano. Permanecem pessoas distintas, ainda ligadas a nós no amor, mas cada vez mais intimamente, não só junto a nós, mas agora acima e dentro de nós, rezando por nós de uma forma ainda mais potente a cada momento, unidos a nós precisamente porque unidos ao Corpo Ressuscitado de Cristo.

A Ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos fiéis dão-nos esperança – não apenas a esperança de uma fuga desta vida, deixando para trás todos aqueles que amamos, mas sim uma esperança na transformação e na redenção desta vida – uma caminhada que, ainda que apenas encontre o seu destino na próxima vida, começa agora, hoje, nesta vida.

“Fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo”, escreve São Paulo aos Romanos, “a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.”

Tal como a Igreja há muito que ensina que a graça não viola a natureza, antes a aperfeiçoa, assim também a noção cristã da vida depois da morte não nega o valor desta vida, mas aperfeiçoa-a. A promessa cristã é de que, quando vivemos as nossas vidas em continuidade com Cristo crucificado e ressuscitado, estamos a viver agora uma antevisão da vida de que gozam os bem-aventurados – todos os santos que por estes dias celebramos – no Céu.

Assim, a mensagem crista é esta: Comecem a viver agora a vida do céu, que é a vida do Cristo crucificado e ressuscitado, uma vida purgada do nosso falso eu e do seu egoísmo, abrindo assim caminho para uma “vida eterna”, uma vida devotada ao amor abnegado por Deus e pelo próximo. A “Boa Nova” é o conhecimento de que nenhum poder no mundo, por maior que seja, nem mesmo a morte, pode separar-nos desse amor por Deus e pelo próximo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 1 de Novembro de 2022)

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