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Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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Tuesday, 4 July 2017

Deus te guarde Charlie Gard

Charlie Gard com os pais
Nos últimos dias tem-se falado bastante do caso de um bebé inglês, chamado Charlie Gard. É uma história triste, de contornos difíceis e polémicos que infelizmente colocou os pais contra o hospital onde tem sido tratado e acabou por merecer comentários do Papa e do Trump. A história explicada aqui.

O Papa vai visitar a sede da FAO em Outubro e diz que é preciso mais do que boas intenções para combater a fome.

Decorre por estes dias o torneio de futsal de padres, este ano em Santiago do Cacém.


E a Congregação para a Doutrina da Fé mudou de chefia. O novo responsável é o jesuíta Luis Ladaria.

Por fim, conheçam o caso deste Centro de Noite para idosos que pretende dar algum merecido descanso aos cuidadores.

Wednesday, 4 March 2015

As conspirações de Fátima e os novo pecados mortais

O Papa disse esta quarta-feira que o abandono dos idosos equivale a um “pecado mortal”. Bem dito.

Não sabemos se foi por influência directa ou não, mas ontem Francisco recebeu uma colecção das obras completas do padre António Vieira

Foi publicada ontem nova legislação que regulará a reforma dos assuntos económicos. Segundo um influente observador do Vaticano, o cardeal australiano George Pell sai reforçado com estas mudanças. Vamos ver no que dá.

Entretanto ontem foram libertados mais quatro cristãos na Síria. Neste artigo damos algumas das explicações possíveis por detrás desta atitude do Estado Islâmico, embora não haja certezas para além do facto de que ainda há cerca de 200 cristãos detidos pelos terroristas.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing, este diz-nos directamente respeito, enquanto portugueses. Howard Kainz fala de Fátima e das teorias da conspiração que existem à volta das aparições. A não perder!

Não esqueçam que é já amanhã que estreia o Godspell. Não percam a oportunidade de ver!

Monday, 12 November 2012

"Oração dos idosos sustenta o mundo"

No dia em que a filha de um pastor evangélico veio a Lisboa e parou o trânsito, outras coisas se passaram no mundo.

O Papa Bento XVI visitou um lar de idosos e deixou palavras muito fortes e muito importantes sobre a velhice. Diz Bento XVI que a qualidade de uma civilização julga-se no modo como os idosos são tratados. Amen!

Os bispos vão falando sobre o actual momento de crise em Portugal. D. António Couto espera que o Governo se deixe de atitudes derrotistas.

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