quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sermão Pascal sobre os Sacramentos

“Vocês mesmos são aquilo que recebem.”

A minha promessa não foi esquecida. Prometi àqueles de vós que foram baptizados, um sermão para explicar o sacramento da mesa do Senhor, que agora podem ver, e da qual partilharam na noite de ontem. Devem saber aquilo que receberam, aquilo que estão prestes a receber, o que devem receber todos os dias.

O pão que podem ver no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. O cálice, ou melhor, o que o cálice contém, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo. Foi por meio destas coisas que o Senhor Cristo quis apresentar-nos o seu corpo e o seu sangue, que derramou por nós, para o perdão dos pecados.

Se receberem bem estas coisas, vocês mesmos são aquilo que recebem. Sabem, o apóstolo diz que nós, sendo muitos, somos um pão, um corpo (1 Cor. 10, 17). É desta forma que ele explica o sacramento da mesa do Senhor; um pão, um corpo, é o que todos somos, por mais que sejamos.

Neste pão é-vos dado a perceber claramente o quanto devem amar a unidade. Acaso este pão foi feito de um só grão? Não foram muitos os grãos de trigo? Mas antes de se unirem no pão, cada um era separado; foram juntados por meio da água e de bater e esmagar. Se o trigo não for moído, afinal de contas, e amolecido com água, não se pode pôr neste formato, a que se chama pão.

Da mesma forma, também vocês foram moídos e batidos, por assim dizer, pela humilhação do jejum e o sacramento do exorcismo. Depois veio o baptismo e foram, por assim dizer, amolecidos pela água para poderem ser moldados na forma de pão. Mas não é pão ainda sem o fogo para o cozer. Então o que significa o fogo? É o crisma, a unção. O óleo, que alimenta o fogo, como vêem, é o sacramento do Espírito Santo.

Reparem nisso quando lemos os Actos dos Apóstolos; começamos agora a ler esse livro. Hoje começa o livro a que chamamos os Actos dos Apóstolos. Quem quiser progredir tem assim os meios para o fazer.

Quando se reunirem na Igreja, ponham de lado as histórias tontas e concentrem-se nas Escrituras. Aqui somos os nossos livros. Por isso prestem atenção e vejam como o Espírito Santo virá no Pentecostes. E é assim que ele virá; mostrar-se-á em línguas de fogo.

Santo Agostinho e Santa Mónica
Reparem que ele insufla-nos daquela caridade que nos deve fazer arder por Deus, fazendo-nos pensar pouco do mundo, queimar a palha e purgar e refinar os corações como ouro. Por isso o Espírito Santo vem, fogo após água, e são cozidos como pão, é o corpo de Cristo. E é assim que se representa a unidade.

Agora têm os sacramentos pela ordem em que ocorrem. Primeiro, após a oração, são convidados a elevar os corações; é assim que deve ser para os membros de Cristo. Afinal de contas, se vocês se tornaram membros de Cristo, onde está a vossa cabeça? Os membros têm cabeça. Se a cabeça não tivesse ido antes em frente, os membros não lhe seguiriam.

Onde foi a nossa cabeça? O que é que pronunciaram no Credo? Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai. Por isso a nossa cabeça está no céu. É por isso que, depois das palavras, “corações ao alto”, respondemos, “o nosso coração está em Deus”.

E não devem atribuir isso ao vosso poder, aos vossos méritos, aos vossos esforços, este elevar do coração ao Senhor, porque é pelo Dom de Deus que devem ter o coração no alto.

É por isso que o bispo, ou o presbítero que oferece, depois de termos respondido “o nosso coração está em Deus”, continua dizendo “demos graças ao Senhor nosso Deus”, porque os nossos corações foram elevados ao alto. Demos graças, porque se Ele não nos tivesse permitido elevá-los, os nossos corações continuariam cá em baixo na terra. E vocês afirmam a vossa concordância, dizendo “é nosso dever, é nossa salvação” dar graças ao que nos levou a erguer os nossos corações ao nível da nossa cabeça.

Então, depois da consagração do sacrifício de Deus, porque ele quis que nós próprios fôssemos o seu sacrifício, como é indicado por onde o sacrifício foi colocado em primeiro lugar, que é o sinal da coisa que somos; é por isso que, feita a consagração, rezamos a oração que o Senhor nos ensinou, que vocês receberam e pronunciaram.

Depois disso vem o cumprimento, “a paz esteja convosco”, e os cristãos beijam-se uns aos outros com um beijo sagrado. É um sinal de paz; o que é indicado pelos lábios deve acontecer na consciência; isto é, tal como os seus lábios se aproximam dos lábios do seu irmão ou da sua irmã, assim os vossos corações não se devem retrair dos deles.

São, por isso, grandes sacramentos e sinais, sacramentos verdadeiramente sérios e importantes. Querem saber como a sua importância é-nos incutida? O apóstolo diz, “Portanto, qualquer que comer este pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11,27).

O que significa receber indignamente? Receber com desprezo, receber com escárnio. Não se deixem pensar que aquilo que podem ver não interessa. O que conseguem ver passa, mas a realidade invisível que é significada não passa, mas permanece.

Vejam, é recebido, é comido, é consumido. O corpo de Cristo é consumido? A Igreja de Cristo é consumida? Os membros de Cristo são consumidos? Deus nos livre! Aqui estão eles a ser purificados, ali serão coroados com os louros da vitória.

Por isso aquilo que é significado permanece eternamente, embora aquilo que significa parece passar.

Por isso recebam os sacramentos de tal modo que não pensem em vocês mesmos, mantendo a unidade nos corações, elevando sempre os corações ao alto. Que a vossa esperança não esteja na terra, mas no Céu. Que a vossa fé esteja firme em Deus, que seja aceitável para Deus. Porque aquilo em que crêem, sem ver, verão ali, onde terão alegria, sem fim.

– Proferido c.411-415


St. Agostinho (354-430) nasceu na actual Argélia. Depois de uma juventude desregrada, tornou-se um católico fiel, por influência da sua mãe, Santa Mónica, e do seu professor, Santo Ambrósio de Milão. Dois dos seus livros, “Confissões” e “A Cidade de Deus” são considerados dos maiores exemplos de apologética cristã.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo de Páscoa, 1 de Abril de 2018)

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