quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Lento Veneno das Ideias Más

David Carlin
Todos os semestres lecciono uma cadeira de ética (filosofia moral) na faculdade onde trabalho. Digo aos alunos que não têm de concordar comigo; têm direito às suas próprias opiniões, ainda que estas estejam profundamente erradas. Mas tento persuadi-los de que algumas teorias de moralidade, embora populares, estão erradas.

Em particular, argumento contra três teorias populares mas, em minha opinião, perniciosas:

  • A teoria de que as normas que definem o que é certo ou errado são meras criações sociais.
  • A teoria de que somos livres de criar os nossos próprios códigos morais, individuais.
  • A teoria de que tudo é moralmente permissível, desde que não prejudique terceiros de forma evidente e tangível, sem o seu consentimento.

Por outro lado, argumento que existe uma teoria de moralidade verdadeira, nomeadamente a teoria de que todos os seres humanos normais têm um conhecimento inato das regras fundamentais da moralidade, por exemplo, não matar, não roubar, não cometer adultério, não abandonar os filhos, etc. Pode-se chamar a isto uma teoria de moralidade do “direito natural”, mas não insisto nesse nome.

Escusado será dizer que não convenço todos, nem sequer a maioria, dos meus alunos a concordar comigo. Consolo-me dizendo que isso não é grave. Porquê? Porque se calhar estou errado, e nesse caso espero que não concordem comigo. Ou se calhar estou certo e eles verão isso daqui a 30 ou 40 anos. Ou se calhar tenho razão mas eles nunca vão concordar comigo. Mas se Jesus apenas conseguiu persuadir 11 dos seus 12 discípulos, porque é que eu hei de ficar desencorajado por não conseguir convencer todos os meus alunos?

Mas há dias um jovem da minha turma chocou-me (na verdade, achei piada), ao defender clara e francamente uma teoria da moralidade que eu considero verdadeiramente terrível. Ele é um bom aluno, sincero e simpático, e não é de todo o género de miúdo que os professores por vezes encontram, aqueles que discordam do professor só para chatear. De todo, longe disso, é um bom miúdo.

Ele defendeu (não obstante eu ter tentado refutar essa teoria no início desse mesmo semestre) que todos os indivíduos criam a sua própria moralidade e, por isso, que o que é certo ou errado para ti poderá não ser certo ou errado para mim. Desde que tu faças o que crês, pessoalmente, estar certo, então está certo. Da mesma forma, se eu fizer aquilo que pessoalmente considero estar certo, então está certo.

Agora, sempre que um aluno meu defende esta posição eu jogo a cartada do Hitler. “Se o Hitler acreditava que o holocausto era a coisa certa, então achas que ele estava certo em assassinar seis milhões de judeus, para não falar de milhões de outros? É isso que estás a dizer?”

Quando meto o Hitler ao barulho, o aluno tende a recuar da sua afirmação. (Às vezes desconfio que Deus tenha permitido a Hitler cometer estes homicídios em massa para que os professores possam usá-lo como exemplo horrível nas discussões nas salas de aula.) Mas este rapaz não recuou. Ele defendeu a lógica da sua posição, dizendo que o que Hitler fez estava certo porque ele acreditava que sim, e por isso este meu aluno não o condenaria por fazer a coisa errada.

Ao mesmo tempo assegurou-me que ele próprio tinha uma moral pessoal muito diferente. Pessoalmente, jamais cometeria genocídio; seria errado fazê-lo, porque isso vai contra o seu código moral pessoal. Não duvido que seja assim, como disse, é um miúdo porreiro. Não tenho qualquer medo de homicídio em massa quando entro na sala de aula e ele está lá.

Partilha connosco a tu ideia própria de moralidade!
Mas isso recorda-me que podemos mudar de ideias mais facilmente do que de coração. Mudamos as nossas opiniões mais rapidamente do que os nossos sentimentos. E no mais fundo de todos os nossos sentimentos estão as atitudes morais que adquirimos na juventude e na adolescência.

As nossas atitudes morais, porém, sejam boas ou más, são diferentes das nossas opiniões morais. É por isso que é tão difícil convencer uma pessoa a abandonar maus hábitos. Os conselhos que lhe damos podem ser 100% sãos, mas ainda assim ele não se mexe. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, às pessoas que crescem com boas atitudes morais.

Isto significa que as teorias morais más são inofensivas ou que as boas são inúteis? De todo. Se for uma pessoa com boas atitudes morais, então as teorias más provavelmente terão pouco impacto na sua conduta moral. Mas podem vir a ter um impacto sobre os seus filhos.

À medida que os educa, estará a dar-lhes um bom exemplo através da sua conduta (digamos, por exemplo, pela sua honestidade); mas a sua teoria dirá: “pessoalmente, acredito na honestidade, e espero que vocês também acreditem quando forem adultos, mas lembrem-se sempre que esta honestidade não passa de uma preferência pessoal. Lembrem-se de ser tolerantes para com os patifes, mentirosos e ladrões que por acaso não acreditam na honestidade”.

As teorias morais más, então, terão consequências morais más, e as teorias morais boas terão consequências boas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. Levará uma ou duas gerações, talvez cem, duzentos ou trezentos anos. Jefferson escreveu: “todos os homens são criados iguais” em 1776. Isto implicava que a escravatura deveria ser abolida. Mas levou mais 87 anos e uma grande guerra civil até que isso acontecesse.

“As ideias governam o mundo”, disse certa vez um filósofo francês. E é verdade. Mas na maior parte dos casos isso apenas acontece de forma gradual. Hoje existem muitas más teorias morais por aí, não apenas a do meu aluno. Se não os combatermos, acabarão por nos destruir – se não a curto prazo, gradualmente.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 6 de Abril de 2018 em The Catholic Thing)

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