David Carlin |
Em
particular, argumento contra três teorias populares mas, em minha opinião,
perniciosas:
- A teoria de que as normas que definem o que é certo ou errado são meras criações sociais.
- A teoria de que somos livres de criar os nossos próprios códigos morais, individuais.
- A teoria de que tudo é moralmente permissível, desde que não prejudique terceiros de forma evidente e tangível, sem o seu consentimento.
Por outro
lado, argumento que existe uma teoria de moralidade verdadeira, nomeadamente a
teoria de que todos os seres humanos normais têm um conhecimento inato das
regras fundamentais da moralidade, por exemplo, não matar, não roubar, não
cometer adultério, não abandonar os filhos, etc. Pode-se chamar a isto uma
teoria de moralidade do “direito natural”, mas não insisto nesse nome.
Escusado
será dizer que não convenço todos, nem sequer a maioria, dos meus alunos a
concordar comigo. Consolo-me dizendo que isso não é grave. Porquê? Porque se
calhar estou errado, e nesse caso espero que não concordem comigo. Ou se calhar
estou certo e eles verão isso daqui a 30 ou 40 anos. Ou se calhar tenho razão
mas eles nunca vão concordar comigo. Mas se Jesus apenas conseguiu persuadir 11
dos seus 12 discípulos, porque é que eu hei de ficar desencorajado por não conseguir
convencer todos os meus alunos?
Mas há
dias um jovem da minha turma chocou-me (na verdade, achei piada), ao defender
clara e francamente uma teoria da moralidade que eu considero verdadeiramente terrível. Ele é um bom aluno, sincero e simpático, e não é de todo o género de
miúdo que os professores por vezes encontram, aqueles que discordam do
professor só para chatear. De todo, longe disso, é um bom miúdo.
Ele
defendeu (não obstante eu ter tentado refutar essa teoria no início desse
mesmo semestre) que todos os indivíduos criam a sua própria moralidade e, por
isso, que o que é certo ou errado para ti poderá não ser certo ou errado para
mim. Desde que tu faças o que crês, pessoalmente, estar certo, então está
certo. Da mesma forma, se eu fizer aquilo que pessoalmente considero estar
certo, então está certo.
Agora,
sempre que um aluno meu defende esta posição eu jogo a cartada do Hitler. “Se o
Hitler acreditava que o holocausto era a coisa certa, então achas que ele
estava certo em assassinar seis milhões de judeus, para não falar de milhões de
outros? É isso que estás a dizer?”
Quando
meto o Hitler ao barulho, o aluno tende a recuar da sua afirmação. (Às vezes
desconfio que Deus tenha permitido a Hitler cometer estes homicídios em massa
para que os professores possam usá-lo como exemplo horrível nas discussões nas
salas de aula.) Mas este rapaz não recuou. Ele defendeu a lógica da sua
posição, dizendo que o que Hitler fez estava certo porque ele acreditava que
sim, e por isso este meu aluno não o condenaria por fazer a coisa errada.
Ao mesmo
tempo assegurou-me que ele próprio tinha uma moral pessoal muito diferente.
Pessoalmente, jamais cometeria genocídio; seria errado fazê-lo, porque isso vai
contra o seu código moral pessoal. Não duvido que seja assim, como disse, é um
miúdo porreiro. Não tenho qualquer medo de homicídio em massa quando entro na
sala de aula e ele está lá.
Partilha connosco a tu ideia própria de moralidade! |
Mas isso
recorda-me que podemos mudar de ideias mais facilmente do que de coração.
Mudamos as nossas opiniões mais rapidamente do que os nossos sentimentos. E no
mais fundo de todos os nossos sentimentos estão as atitudes morais que
adquirimos na juventude e na adolescência.
As nossas
atitudes morais, porém, sejam boas ou más, são diferentes das nossas opiniões
morais. É por isso que é tão difícil convencer uma pessoa a abandonar maus
hábitos. Os conselhos que lhe damos podem ser 100% sãos, mas ainda assim ele
não se mexe. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, às pessoas que crescem com
boas atitudes morais.
Isto
significa que as teorias morais más são inofensivas ou que as boas são inúteis?
De todo. Se for uma pessoa com boas atitudes morais, então as teorias más
provavelmente terão pouco impacto na sua conduta moral. Mas podem vir a ter um
impacto sobre os seus filhos.
À medida
que os educa, estará a dar-lhes um bom exemplo através da sua conduta (digamos,
por exemplo, pela sua honestidade); mas a sua teoria dirá: “pessoalmente,
acredito na honestidade, e espero que vocês também acreditem quando forem
adultos, mas lembrem-se sempre que esta honestidade não passa de uma
preferência pessoal. Lembrem-se de ser tolerantes para com os patifes,
mentirosos e ladrões que por acaso não acreditam na honestidade”.
As teorias
morais más, então, terão consequências morais más, e as teorias morais boas
terão consequências boas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. Levará
uma ou duas gerações, talvez cem, duzentos ou trezentos anos. Jefferson
escreveu: “todos os homens são criados iguais” em 1776. Isto implicava que a
escravatura deveria ser abolida. Mas levou mais 87 anos e uma grande guerra
civil até que isso acontecesse.
“As ideias governam o mundo”, disse certa vez um filósofo
francês. E é verdade. Mas na maior parte dos casos isso apenas acontece de
forma gradual. Hoje existem muitas más teorias morais por aí, não apenas a do
meu aluno. Se não os combatermos, acabarão por nos destruir – se não a curto
prazo, gradualmente.
David
Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode
Island e autor de The Decline
and Fall of the Catholic Church in America
(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 6 de Abril
de 2018 em The Catholic Thing)
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