quarta-feira, 7 de março de 2018

Elogio da Água Benta

Michael Pakaluk
Costumava-se dizer que o padre “fazia” água benta, não se limitava a benzê-la. O rito ainda consta do Ritual Romano. O padre faz água benta juntando sal exorcizado a água exorcizada.

Junta o sal em imitação do profeta Eliseu, que dessa forma purificou as águas de Jericó (2 Reis 2, 19-21): “Assim diz o Senhor: Sararei a estas águas; e não haverá mais nelas morte nem esterilidade.”

Neste rito a água benta é vista como uma criatura pura, comunicando o poder de Deus. Logo, tanto o sal como a água devem ser exorcizados primeiro, uma vez que a queda teve repercussões através de toda a criação material, dando a Satanás o domínio até sobre os elementos inertes.

Os exorcismos são impressionantes. Por exemplo, para o sal: “Eu te exorcizo, sal, criatura de Deus, pelo Deus vivo, pelo Deus verdadeiro, pelo Deus santo pelo Deus que ordenou ao profeta Eliseu que te lançasse à água, a fim de curar a sua esterilidade — para que te tornes sal exorcizado em proveito dos fiéis, dando a saúde da alma e do corpo aos que te usarem, fazendo fugir para longe dos lugares em que fores lançado, ilusões, malefícios e fraudes diabólicas, assim como todo espírito impuro, intimado por aquele que há de vir julgar vivos e mortos, e este mundo pelo fogo. Amen.”

Um exorcismo não é apenas uma oração mas sim, como diria o filósofo J.L. Austin, “algo feito com palavras”. O sal e a água são recriados, transformando-se de forma especial em armas contra o maligno. Assim, a oração final do padre sobre a mistura pede a Deus que a santifique para que “proporcione saúde da alma e do corpo a todos os que o tomarem, e que desapareça, de tudo o que for por ele tocado ou salpicado, qualquer impureza e ataque dos espíritos do mal.”

Creio que na maioria das situações a água benta nas igrejas hoje é benzida e não feita, com o padre a limitar-se a pronunciar uma bênção e a fazer o sinal da cruz por cima da água, frequentemente durante a missa.

Longe de mim, que não sou liturgista, afirmar que até a água benta foi diluída. Mas sim, também eu penso que se podemos seguir o exemplo de um grande profeta, e se podemos usar matéria exorcizada, por que não haveríamos de nos valer destes auxílios adicionais?

Certamente não nos convence o argumento de que a graça de Cristo basta, porque aí deixaríamos de ter razão sequer para usar água benta de todo. Mais, Cristo é um mediador que, na sua vida terrena, mostrou uma forte apetência para trabalhar através de matéria mediadora, tal como cuspo e pó.

Antes, sei por experiência que a água benzida funciona muito bem contra o demónio.

Uso o termo “experiência” no sentido lato e próprio daquilo que foi experienciado por aqueles em quem confiamos e não no sentido cartesiano atenuado daquilo que foi impingido aos meus sentidos em particular. Neste sentido, a experiência de Santa Teresa de Ávila é também a minha: “Tenho aprendido que não há nada como água benta para pôr os demónios em fuga e evitar que regressem”.

Muitos amigos têm-me dito o mesmo. Eram perturbados por sonhos deturpados, por exemplo, e depois de terem aspergido água benta na cama a cada noite, e de terem dito uma Avé Maria ou três, o problema desapareceu e nunca mais voltou. A minha experiência de vida tende a corroborar isto.

Os mesmos amigos, como seria de esperar, não deixam de recorrer à água benta quando metem os seus filhos na cama. O que me leva a outro elogio à água benta, para além da sua utilidade, isto é, a atracção que exerce sobre crianças e adultos que são como crianças.

As crianças são maravilhadas por sinos, fumo e fogo. A Igreja faz bem em apelar desta forma aos nossos sentidos. Mas se pensarmos bem a água, como o fogo, não é “suposto” estar dentro das casas. Por isso mesmo uma pequena vela – esse ponto de fogo brilhante, guardado por cera, mas com potencial de perigo caso consiga escapar – pode significar algo transcendente, a oração a subir, ou Deus e luz a descer.

É por isso que nos inclinamos para sermos aspergidos por água benta no Domingo de Páscoa, e molhamos os dedos na pia de água à entrada das igrejas. Como não é suposto haver água ali é fácil ver o influxo da graça de Deus e leva-nos facilmente a pensar no nosso próprio baptismo e na eficácia purificadora da confissão sacramental.

A família é uma igreja doméstica, não por si só, mas enquanto participante da vida da Igreja. Aquela pequena garrafa de água benta dentro de casa é um testemunho da realidade das Ordens Sagradas e do poder da Igreja nos sacramentos.

Como a água benta é considerada preciosa e só nos chega através do padre, é também uma forma de honrar o sacerdócio. E como a obtemos gratuitamente – basta trazer uma garrafa para a igreja para encher – ensina-nos que as coisas mais valiosas da vida não têm preço. São-nos dadas livremente por Deus, basta-nos procurá-las no sítio certo.

Por fim, a água é um elemento e a água benta é um elemento abençoado, testemunho da bondade da criação, da forma como a graça completa a natureza e a lógica da Encarnação.

A água benta contém todo um catecismo. Pode-se dizer que a verdadeira igreja não teria deixado de a criar e, uma vez que a verdade é sobredeterminada pelas provas, podemos também dizer que a existência e o uso da água benta, tal como 40 outras coisas, quase que basta para alguém se tornar católico.

Na tradição de São Francisco, gostaria então de dizer: “Bendito sejas, meu Senhor, através da Irmã Água Benta, que é muito útil, e humilde, e preciosa e casta”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 6 de Março de 2018)

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