quarta-feira, 21 de março de 2018

A Missa & Nada Mais

David Warren
A história da minha conversão ao Catolicismo foi longa e complexa. Fui-me apercebendo disto ao longo dos quinze anos desde que fui recebido, tinha eu já 50 anos. É normal olhar para trás, e não devemos deter-nos, mas na tentativa de nos compreendermos não somos apenas uma bolha no presente. Para além disso, julgo eu, aprendemos coisas em retrospectiva que de outra forma nos escapariam.

Tudo começou quando tinha seis anos. O meu pai pós-protestante, do Canadá mas a leccionar na Escola de Artes de Lahore, no Paquistão, matriculou-me na escola de St. Anthony. É fácil explicar porque é que um homem com as suas opiniões me colocaria à mercê de maristas e jesuítas irlandeses. Julgava que eles tinham os mais altos padrões académicos, nada mais.

Certamente levavam muito a sério o conhecimento. “Scientia cum Virtute”, não vá eu esquecer-me.

Mas também constituíam uma paródia, nem sempre humorística, de tudo o que mais tarde viria a ser condenado na polémica dos colégios internos no Canadá. Levei a minha dose de tareias no recreio, e mais do que a minha dose dos próprios irmãos. Não aceitavam desculpas, não adiantava alegar inocência. No mínimo, aprendi muito sobre injustiça, sobretudo de um director que me parecia ser psicopata (e que mais tarde abandonou a Igreja para se juntar a uma comuna budista na Califórnia).

Mas também aprendi outras coisas, de professores sinceros; incluindo da Catedral do Sagrado Coração, junto à escola. Sendo branco, era obrigado a ir. Até que descobriram que eu era protestante e levei tareia por ter ido.

E o que é que aprendi lá, pergunta o querido leitor? Algo ainda rudimentar, mas que ficaria comigo ao longo dos anos.

Nessa altura eu acreditava no que a minha mãe ateia me tinha contado, que a Missa era um rito mágico primitivo, deslocado, pela sua própria natureza, do nosso mundo moderno, científico e racional. A um certo nível os católicos eram como os bárbaros selvagens. Segundo os seus antepassados presbiterianos, eles eram supersticiosos. Faziam coisas estranhas e inexplicáveis, como falar com os mortos e comer pequenos pedaços de pão, julgando tratar-se de carne humana.

Ainda assim, devíamos ser simpáticos com eles.

E aquilo que eu aprendi no Sagrado Coração foi que tudo isso era verdade, acrescentado de incenso e sinos. (Isto era no tempo da Missa em Latim; quando lá voltei, décadas mais tarde, era urdu e batuques.)

E havia mais uma coisa, mas levou-me anos a desvendar o que significava. Aprendi que tinha uma sensibilidade católica. E mais, que não tinha uma sensibilidade protestante. Que sempre que existia um conflito entre as sensibilidades, encontrava-me espontaneamente no lado católico. Como explicar isto?

A algum nível intuitivo, parecia-me que o catolicismo era fértil, e que a alternativa era estéril. São João Paulo II viria a colocar a coisa de forma chocantemente precisa mais tarde quando falou da distinção entre a Cultura da Vida e a Cultura da Morte, embora não lhe desse qualquer carga sectária. Estava a referir-se à mesma diferença fundamental de mundivisão que distingue os verdadeiros católicos de tudo o que os rodeia no mundo moderno.

Mas concentremo-nos na Missa. Tornei-me católico no início da minha vida adulta, mais precisamente um anglicano “high church” (por causa do incenso e dos sinos, mais uma vez), até que finalmente troquei Cantuária por Roma. Aliás, passei um quarto de século sempre à beira de transitar, cada vez que os anglicanos faziam mais alguma coisa não-católica. Entretanto, por boa educação, frequentei muitos casamentos, funerais e até baptizados em locais mais protestante e observei os seus costumes, de fora.

A primeira, e talvez a última coisa a saber sobre as nossas diferenças é que do lado de lá têm “serviços”. Para eles, a Missa não é “instrumental”. É um mero memorial, porque Cristo disse “fazei isto”. E eles fazem, da melhor forma que conseguem, tal como lhes foi dito, mas sem a magia.

Já os católicos também fazem como lhes foi instruído, mas para nós os sacramentos têm um efeito. Não são um memorial, mas um acto que alcança algo. É o “Sacrifício da Missa”, e os nossos crucifixos tendem a ter “o homenzinho”, como disse certa vez um funcionário descerebrado de uma loja de bugigangas. E parece que vai jorrar sangue por cima dos nossos sapatos.

Estou aqui a distinguir entre aquilo a que chamo o “instrumental” e o “simbólico”. Os símbolos são, neste sentido, coisas intelectuais. São exangues. Um académico pode escrever tudo sobre símbolos, sem compreender um único. Pode produzir um longo dicionário de símbolos e manuais de etnografia, com referências cruzadas e índices. E mesmo assim não entenderá nada. 

O mesmo se aplica a uma enciclopédia de anjos e demónios, santos, mártires, duendes e fadas, sem a menor crença de que alguma dessas coisas é real.

E uso aqui o termo “real” de forma propositada. Estou a aludir aos conflitos medievais entre realistas e nominalistas – que, muito plausivelmente, se encontra na raiz de cada uma das nossas reformas modernas (do Século XVI, XVIII e agora do XXI).

No cerne de cada um está a rejeição do realismo – a ideia de que existem coisas reais fora de nós mesmos, que são reais independentemente de as aceitarmos ou não. Por exemplo: verdade, beleza, bondade. Em contrapartida, dá-se um avanço do nominalismo que crê que o homem cria a realidade quando lhe dá nome. Tudo é, no fim de contas, uma “construção social”, incluindo os conceitos de homem e de mulher, de cima e baixo. 

E dessa perspectiva, desde novo que eu era susceptível ao Catolicismo, pois sempre acreditei na realidade, e que havia mais coisas no Céu e na Terra do que poderíamos imaginar. Nunca ultrapassei esta sensação, e espero que isso não aconteça.

Sou um realista. Creio que até o selvagem mais primitivo é inteiramente homem, por isso é igual a mim. Porque os homens são reais, e continuarão a sê-lo, independentemente do que lhos chamarmos.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 16 de Março de 2018 em The Catholic Thing)

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