quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não Interessa Quem Ganha

David Warren
“Não se deve julgar os homens pelas suas opiniões, mas por aquilo que as suas opiniões fizeram deles.”

Esta, segundo Georg Christoph Lichtenberg, é uma regra de ouro. Tal como todas as regras de ouro, tem a habilidade misteriosa de ser instantaneamente esquecida. É mais fácil julgar os homens pelas suas opiniões, e elencá-los com base na semelhança com as nossas próprias. Tudo o resto requer alguma capacidade de discernimento espiritual.

O culto católico (e ortodoxo) dos santos desafia esta tendência para esquecer. Não respeitamos os santos pelas suas opiniões cristãs, damos essas por adquiridas e há muitos que partilham delas sem serem santos. Antes, apreciamos a forma como os santos dão vida a estas coisas inertes, porque o amor, sem aquilo que representa, não passa de uma opinião.

Não pretendo, com isto, menosprezar o Catecismo. É um manual de instruções daquilo em que acreditamos e explica como é que estas crenças se interligam. Sem ele facilmente nos perdemos, como se vê ao olhar para as pobres almas que se persuadiram de que podem fazer o seu próprio Cristianismo, improvisando. A sua sinceridade, partindo do princípio que é genuína, é rapidamente ultrapassada pela sua confusão.

“Eu sinto isto” e “eu penso aquilo” são expressões comuns na religião contemporânea, tanto dentro como fora da Igreja. Raramente ouço sequer uma referência decorativa à autoridade do magistério. Na verdade, o orador está a assumir o estatuto de profeta, com linha directa para Deus. Só que não fala em línguas, mas em clichés.

Mas o Catecismo, os Evangelhos (não modernizados), a Escritura como um todo, são o ponto de partida para a compreensão de algo que, no fim de contas, os ultrapassa. Cristo não se pode reduzir a um manual de instruções, nem veio à Terra para nos dar um. Foi a Igreja que reuniu estas coisas – incluindo o cânone das escrituras – para nos colocar no Seu caminho.

Temos nestas coisas, e na teologia católica que nelas assenta, um ponto de partida sólido para um destino que é inimaginável neste mundo. Os santos e os mártires guiam-nos para além dos horizontes que conseguimos manter em vista.

Foi a dimensão humana de Jesus que o tornou acessível a todos os homens. São as qualidades sobretudo humanas que fazem dos santos os seus companheiros de serviço – pois sabemos que estão a fazer coisas que estão ao alcance da capacidade humana.

Ou pelo menos devíamos saber: Que a fé pode mover montanhas; que a fé pode, no decurso de uma vida humana “normal” erguer-nos, ou antes, levitar-nos a um ponto de onde vemos que a santidade, com a Graça de Deus, é possível. (Como me disse uma vez um padre Anglicano, “Um primeiro passo rumo à santidade é compreender que a santidade é possível”).

Erguer-nos: erguer-nos de entre os mortos. É tudo o que se nos pede, e a ajuda divina é garantida. Mas não serão as nossas opiniões a elevar-nos. Pode-se dizer que essa elevação começa por seguir instruções, como tudo o que isso implica. Começamos com o esqueleto da crença cristã, mas para nos erguermos temos de lhe dar corpo.

Russell D. Moore
Por estranho que possa parecer, o meu objectivo com tudo isto é falar de política e Cristianismo, uma área em que as nossas opiniões nos pesam. Mas fui apanhado de surpresa ao ver que um pregador evangélico se tinha antecipado a mim. Refiro-me a Russel D. Moore, orador da “palestra Erasmus” deste ano do First Things. Na minha opinião vale bem a pena lê-lo ou escutá-lo durante umas horas.

Isto porque ele elabora sobre uma ideia parecida com aquela de Lichtenberg, que citei acima. Ele afirma, na sua palestra, e em resposta a questões colocadas depois, um fantástico paradoxo, que vale a pena interiorizar: Que Hillary Clinton, vista como inimiga por grande parte da Direita Evangélica, praticamente lhes pode fazer mal. Talvez, se for eleita, possa nomear o Anticristo para juiz do Supremo Tribunal, ou embarcar em aventuras militares no estrangeiro que apressem o Apocalipse; mas ainda assim não pode fazer mal à alma de um único evangélico, ou outro cristão qualquer.

Para isso ela não tem qualquer poder. Só poderia ter esse poder se exercesse sobre eles tamanha atracção que eles estivessem dispostos a defender os bens que ela está a vender. Só então é que ela estaria em posição de os poder corromper, e não quando eles não sonham sequer em votar nela.

Mas Moore sugere, contudo, que ao colocar a política acima da religião, para apoiar o incorrigível Donald Trump, que os campeões da Direita religiosa estão na verdade a colocar em perigo almas cristãs, pois estão dispostos a colocar de lado o seu apoio aos “valores da família” e ao que actualmente se chama “conservadorismo social” para conseguirem eleger o seu candidato. Com isso provaram ser puros “consequencialistas”, que é como quem diz, totalmente cínicos.

Embora se limite a criticar alguns anciãos da sua própria igreja – e, note-se, diante de um auditório sobretudo católico – Moore está a passar uma mensagem que atravessa as fronteiras das denominações. Para podermos ser de algum valor na política, ou para o nosso país, em primeiro lugar devemos ser cristãos. A partir do momento em que nos dispomos a fazer cedências – sobretudo cedências morais, para poder ganhar algum avanço – estamos perdidos e não servimos para ninguém.

“De nada serve ao homem trocar a sua alma pelo mundo, Ricardo. Mas por Gales?”, diz Thomas More no filme dos anos 60.

Ele é o santo padroeiro dos políticos precisamente porque apesar de estar sob tremenda pressão, pôs a fidelidade a Cristo e à sua Igreja acima não só do seu interesse pessoal, mas de qualquer objectivo político. Sejam quais tenham sido as suas opiniões, recordamos aquilo que fizeram dele: Um farol cuja luz atravessa as épocas.

Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, esta é a única forma cristã de agir. A questão de carácter vai directamente ao tutano, ao nosso tutano. Nunca nos devemos tornar tão mundanos que sacrificamos as nossas crenças cristãs para tentar alcançar o poder.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

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