quarta-feira, 16 de março de 2016

Penitência, Absolvição e o Perdão dos Pecados

Randall Smith
Estamos na Quaresma. É uma boa altura para nos confessarmos, embora as filas também sejam maiores. Lembro-me de me encontrar no final de uma dessas filas, à espera para me confessar, quando tive um pensamento terrível: E se eu passasse à frente de toda a gente na fila, me ajoelhasse diante do padre e dissesse: “Perdoa-me, padre, porque pequei. Acabei de passar à frente de uma data de pesso
as na fila”.

Será que ele me negaria a absolvição? Provavelmente não. Mas não tenho grandes dúvidas que a minha penitência seria voltar para o fim da fila e rezar Avé Marias até toda a gente acabar de se confessar.

A confissão é uma coisa bizarra. Não só entramos numa pequena divisão onde dizemos, em voz alta, todos os nossos pecados mais sórdidos e secretos, mas ouvimos uma pequena voz que nos diz as palavras do perdão, ainda antes de termos cumprido a penitência. Não devia ser ao contrário? Primeiro a penitência e depois a absolvição?

Claro que não. A penitência não é uma forma de ganhar o perdão de Deus. Aliás, ir-se confessar também não é. Cristo já nos conquistou esse perdão, através do seu sacrifício na Cruz. E esse perdão torna-se presente para nós através do seu Espírito Santo.

Mas se Deus já nos perdoou, e se a confissão torna esse perdão presente para nós de uma forma concreta, visível e audível, então para que serve a penitência?

Mesmo que alguém nos perdoe, isso não quer dizer que nós mudámos de alguma maneira. “Perdoar” é algo que a outra pessoa faz. E eu, que faço? Será que interiorizámos esse perdão? Mudou-nos? Dissemos verdadeiramente que “sim” ao amor transformador de Deus?

Digamos que eu roubo alguma coisa a alguém. Ao roubar, transformei-me num ladrão. Agora, digamos que essa pessoa, porque me ama, e porque não quer mais do que reconciliar-se comigo e fazer de mim seu amigo, ver-me andar para a frente e florescer, perdoa-me. A questão agora é: Será que vou continuar a ser ladrão?

O perdão abre a porta para uma relação modificada e uma vida nova. Mas seria um erro pensar que o perdão é o fim de um processo, quando na verdade é apenas o primeiro passo. O próximo passo é deixar que esse amor mude o meu coração e me coloque num novo rumo para a minha vida. Ninguém que nos ama verdadeiramente e nos perdoa quer que permaneçamos no nosso pecado, da mesma maneira que quem ama e perdoa a um alcoólico não o quer continuar a ver escravo do vinho.

A penitência depois da confissão é precisamente o primeiro desses passos numa nova direcção. Trata-se de compreender que o perdão de Cristo não é apenas algo que existe por aí, num vazio incorpóreo – uma nota de crédito que posso apresentar algum dia quando estiver a enfrentar o Céu ou o Inferno. O amor transformador de Deus não me deixa no meu pecado; o seu objectivo é transformar-me imediatamente. A graça do sacramento funciona mudando o meu coração. E se o meu coração for verdadeiramente mudado, então preciso de começar a viver de forma diferente.

Por isso, depois da confissão, tomo esses pequenos passos num novo rumo, cumprindo por inteiro, e fielmente, a minha penitência. Não porque imagino que ao fazer estas coisas estou a fazer por merecer o perdão e o amor de Deus. Não, nós amamos “porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo, 4). Só se eu aceitar o amor e o perdão de Deus é que posso mudar. Basta-me olhar para o crucifixo antes de entrar no confessionário para compreender que Ele me ama e que já me perdoou. Vou-me confessar, não para mudar Deus, mas para deixar que Deus me mude.

É normal que essa mudança não aconteça instantaneamente, nem de forma simples. A graça de Deus trabalha ao longo do tempo, e Deus tem o seu próprio ritmo. Deus não exige que nos tornemos perfeitos num instante. O que Deus pede, e o que o padre nos diz em seu nome, é: “Dá uns pequenos passos. Depois tem fé que eu estarei activo na tua vida, frequentemente de formas que não serás capaz de ver”.

Pode ser difícil confessar-se. Por vezes parece uma espécie de morte. E até é, pois morremos para nós mesmos. Mas esse “morrer para nós mesmos” é necessário se quisermos “viver em Cristo”.

As pessoas estão sempre a perguntar-me porque é que Deus precisa de um padre e da confissão para nos perdoar os pecados. Claro que Deus não precisa nem de uma coisa nem de outra, Ele já nos perdoou os pecados. Nós é que precisamos do padre e da confissão. Somos nós que precisamos de reflectir a fundo sobre as nossas vidas e ganharmos consciência das formas como nos afastámos de Deus. Somos nós que precisamos de coragem para pronunciar, em voz alta, por palavras e a uma pessoa de verdade, os nossos pecados, para que o som ressoe bem alto nos nossos ouvidos e nos nossos corações. E somos nós que precisamos de ouvir as palavras da absolvição, para que saibamos, naquele momento de vergonha e humildade, que Deus nos perdoa.

Os sacramentos tornam presente para nós o amor de Deus de uma forma física. Perguntar para que é que “precisamos” da presença física de um sacramento é como perguntar se na verdade “precisamos” de beijar a pessoa que amamos. Poderíamos amá-la à distância, de uma forma “espiritual”, mas assim a coisa tem muito menos piada. Enquanto seres humanos físicos, a maior parte das pessoas parece achar que a cena dos beijos até é uma coisa boa.

Antes de me converter ao Catolicismo, já adulto, achava que a confissão era uma das coisas mais absurdas que se podia fazer. Mas entretanto compreendi que o acto físico da confissão é um dos melhores aspectos do Catolicismo. É como ser beijado por Deus.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 9 de Março de 2016 em The Catholic Thing)

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