sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ainda os judeus: Nem todos os protestantes pensam o mesmo

Quando escrevi este artigo, em resposta a outro do meu amigo Tiago Cavaco, alguns protestantes temeram que eu estava a generalizar as posições e interrogações do Tiago a todo o mundo das igrejas reformadas.

Não sendo de modo algum especialista, sei bem que existe uma imensa variedade no mundo protestante. Em todo o caso, fica aqui o esclarecimento e fica, também o simpático e-mail que recebi da pastora presbiteriana Rute Salvador, que publico com a sua autorização:

Li o artigo que escreveu a propósito da afirmação do Papa Francisco e das reações do pastor Tiago Cavaco. Nesse texto parece-me que considera a opinião dele como sendo reflexo da opinião geral dos "protestantes", como refere.

Não posso deixar de reagir, referindo que, sendo eu protestante, demarco-me desta aparente generalização, esta identificação com as posições daquele pastor que diferem de muitas das posições das igrejas originárias na Reforma e associadas ao Conselho Mundial de Igrejas ou a outras organizações ecuménicas.

Também me parece que é importante referir que, pelo menos para a maioria dos protestantes das igrejas históricas da Reforma (pertencentes ao COPIC, em Portugal, e às organizações ecuménicas internacionais), as afirmações e atitudes do Papa Francisco têm sido seguidas com interesse, respeito, simpatia e admiração. A meu ver, as suas palavras e as suas atitudes são muito mais congruentes com o que é a essência da fé cristã, do amor a Deus e ao próximo e da aceitação do outro (independentemente de subsistirem muitas diferenças). Tem, realmente, aproximado a Igreja Católica de muito do que era/é o sentimento e o pensamento de grande parte dos seus membros, que não se reviam em muitas "posições oficiais". Um trabalho admirável, de grande coragem, que creio ser inspirado no Evangelho. Admiro bastante mais este Papa do que o anterior, o que também contradiz a afirmação que faz no seu artigo (embora reconheça que haverá quem não seja desta opinião)...

Voltando à afirmação do Papa Francisco, devo dizer que me parece certíssima. Ainda que uma nova Aliança tenha surgido com Jesus Cristo, isso não invalida a antiga. Judeus e cristãos (e muçulmanos) adoram o mesmo Deus... um Deus que eu acredito que se pode revelar, na sua sabedoria, de muitas maneiras, em muitos momentos da história, de formas diferentes para que aqueles que são sua criação possam reconhecer a Sua presença. Devemos pregar o Evangelho? Claro! Devemos considerar que a nossa forma de fé é mais legítima do que outras? Tenho dúvidas...

O pastor/professor Dimas de Almeida costumava afirmar, nas suas aulas enquanto professor de Teologia, que se uma pessoa ou uma igreja se considerar "dona da verdade" (o que implica considerar que todos os outros estão errados) estará a meio caminho para a Inquisição. Nunca me esqueci desta afirmação, e faz parte da minha maneira de viver a minha fé.

Devo confessar que escrevi e apaguei muita coisa neste e-mail. Hesitei muito sobre se o deveria enviar ou não. Não costumo alimentar polémicas partilhando a minha opinião em blogues ou redes sociais... nem mesmo por e-mail. Respeito as opiniões diferentes da minha. No entanto, não pude deixar de me manifestar desta vez. Embora creia que não tenha sido essa a sua intenção, o que escreveu pode ser visto como uma generalização, que eu peço que procure evitar. As posições do pastor Tiago Cavaco são legítimas, mas são as dele. Não refletem o Protestantismo em geral.

1 comentário:

  1. Do texto: "Devemos considerar que a nossa forma de fé é mais legítima do que outras? Tenho dúvidas..."
    Então porque não se torna judia ou muçulmana??
    Rod

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