quarta-feira, 17 de abril de 2013

Homens como Cristo, Cabeça da Igreja

Randall Smith
Durante o Inverno, depois de um nevão particularmente pesado, saí de manhã cedo e liguei o motor do carro da minha mulher, depois arranquei uma camada de gelo de dois centímetros do vidro e retirei cerca de 30 centímetros de profundidade de neve do caminho entre a casa e o carro. Enquanto a minha mulher retirava o carro da entrada da garagem não pude deixar de pensar para comigo, enquanto permanecia ali de pé na neve, cansado e com frio: Adoro ser casado!

A sério.

Casei-me um pouco tarde, por isso as alegrias de fazer coisas como limpar a neve para outro poder retirar o carro, ou retirar gelo do seu pára-brisas, estavam-me vedados durante os meus anos de solteiro. Estou verdadeiramente arrependido disso agora, embora seja difícil perceber, mesmo em retrospectiva, como é que Deus poderia ter lidado comigo de outra forma. Para poder gozar um casamento é necessário deixar de ser um egoísta tonto. Infelizmente, ainda não estava preparado.

Conheço muitas raparigas católicas solteiras que são talentosas e bonitas (onde é que andavam quando eu era mais novo?), e todas têm a mesma queixa. Onde estão todos os – aliás, – onde está qualquer bom homem católico que esteja pronto para casar? Costumava pensar que estavam apenas a carpir – as pessoas gostam muito de se queixar. Mas começo a entendê-las melhor. À medida que procuro encontrar esposos adequados para as muitas jovens católicas que estão ansiosamente à procura, descobri que de facto não há muito por onde escolher.

Adoro os meus alunos católicos. Alguns são mesmo porreiros. Mas mesmo os melhores deles não estão propriamente prontos para a alta competição, pelo menos por enquanto, e sabem-no. De facto, sabem-no até bem demais. Muitos não se imaginam a casar durante os próximos dez, talvez mesmo vinte anos – se é que se imaginam a casar sequer.

Não é por isso que deixam de desejar ter sexo, claro, mas essa é outra história. Desde que as noções de “casamento” e “sexo” foram basicamente separados na nossa sociedade, a falta de casamento não costuma apresentar um obstáculo demasiado difícil de ultrapassar para o desejo sexual de todos excepto os que (A) tiveram uma educação moral escrupulosa (cujo poder regulador tende a esvanecer perante o assalto constante de televisão, jogos de computador e pornografia); ou (B), os que são excessivamente "nerds" e incapazes de manter relações com mulheres. A triste verdade é que enquanto nos preocupamos em preencher as cabeças dos nossos filhos com informação técnica sobre coisas como computadores e sexo, fazemos pouco ou nada para os preparar para a vida de casados.

Deixem-nos ser felizes!

Ainda assim, por mais que possamos, e devemos, fazer muito melhor na preparação dos nossos jovens rapazes para a vida de casados, continuo a ter uma dúvida insistente: Talvez os homens, enquanto tal, nunca estejam preparados. Isto é, talvez seja só a partir do casamento que verdadeiramente crescemos e nos tornamos adultos civilizados e responsáveis. Talvez seja por isso que as sábias culturas do passado tentavam casar os seus jovens relativamente cedo: Não por causa do instinto sexual, mas porque queriam tornar os seus adolescentes irresponsáveis e confusos em esposos úteis e produtivos que pudessem, pela primeira vez na vida, fazer algo de realmente significativo que lhes desse verdadeira satisfação.

A questão é esta: Não me parece que a maioria dos homens possa ser mesmo feliz a não ser que estejam a sustentar, sacrificar-se ou a trabalhar desinteressadamente por uma esposa. Sei que pode ser difícil para um rapaz novo acreditar nisto, mas confiem em mim: cuidar de uma esposa é uma daquelas coisas que dá sentido à vida. Às vezes há sexo, outras vezes não. Mas o mais importante é que fez alguma coisa pela sua mulher e a vida dela é melhor por sua causa. Há algo no fundo de cada homem que não está completo até ele se sacrificar por algo maior do que ele. Para a maioria de nós, isso costuma ser a família.

A este respeito fico admirado com a forma como  muitas pessoas tratam as passagens de Efésios 5 e 1 Coríntios 1 – que traçam a analogia entre “maridos” e “Cristo”, por um lado, e “esposas” e “Igreja”, do outro. O significado da analogia parece-me claro em Efésios 5,25: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

Pagãos tolos que somos, ouvimos a palavra “Senhor” ou “Cabeça” e pensamos: “É suposto eu assenhorear-me da minha mulher e controlá-la, e ela deve ser-me submissa”. Talvez isso fosse verdade se o Deus cristãos fosse como Zeus, mas não é. Onde é que fomos buscar a ideia de que Cristo se tornou “cabeça da Igreja” assenhoreando-se dela e exigindo “submissão” aos seus caprichos? O elemento essencial do domínio de Cristo está no seu sacrifício desinteressado por nós na cruz. Nós, enquanto Igreja, somos chamados a receber esse sacrifício com gratidão e amor.

Desta perspective, as mulheres são solicitadas a receber este sacrifício por parte dos seus maridos e compreender que os seus maridos provavelmente não ficarão satisfeitos nem felizes enquanto não souberem que alcançaram algo másculo e responsável que torna a vida das suas mulheres muito melhor do que seria. De facto, quando uma mulher compreender que este tipo de sacrifício é essencial para o bem-estar do homem, e decide-se a descobrir que tipo de coisas o marido pode fazer por ela e aceita de bom grado esses dons, estará a ajudá-lo a tornar-se tão preenchido como possível nesta vida.

E se isso implica que ela tenha de passar menos tempo a limpar neve no Inverno, pois bem, esse é um esforço que ela terá de fazer.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 11 de Abril 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

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