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Friday, 27 October 2023

As palavras dos líderes religiosos da Terra Santa e bispos de pernas tremidas

Irmã Nabila, em Gaza, antes da guerra

Já vamos em quase vinte dias de conflito na Terra Santa, com o número de mortos sempre a subir. O que andam a dizer os líderes religiosos locais sobre esta guerra? Aqui podem ler as principais declarações, com alguns destaques meus, e aqui podem ler a minha primeira análise a estas declarações, onde concluo que infelizmente a voz que mais urgentemente precisa de ser escutada nesta situação é a que tem menos força.

Entre os palestinianos sitiados em Gaza incluem-se cerca de mil cristãos, que são na maioria ortodoxos, com alguns católicos. No dia 19 à noite Israel atingiu o complexo da Igreja Ortodoxa Grega, fazendo mais de uma dúzia de mortos. Alguns dos sobreviventes mudaram-se para a paróquia católica, que já estava sobrelotada, criando ainda mais pressão sobre os recursos. Aqui podem ler o testemunho de uma freira que está a ajudar a cuidar destes refugiados.

Esta sexta-feira o Papa Francisco convida-nos a fazer novamente um dia de jejum e oração pela paz na Terra Santa. Juntemo-nos a este esforço.

Mudando de assunto, o cardeal D. Américo já tomou posse enquanto bispo de Setúbal. Esta quinta-feira foi publicada uma longa entrevista em que o bispo não descarta a possibilidade de vir a ser Papa um dia, mas admite que lhe vão tremer as pernas quando chegar o dia de votar num conclave. Pelo meio há um detalhe importante: as contas ainda não estão fechadas, mas a JMJ deu lucro.

A primeira fase do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está a decorrer em Roma, está a chegar ao fim. Os participantes escreveram uma carta aos fiéis, e o Papa fez uma intervenção em que voltou a criticar o clericalismo.

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que volta a falar sobre a relação entre o Cristianismo e o poder secular. O padre Paul Scalia explora o significado de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, mas também de evitar que César se apodere daquilo que é de Deus. Leiam aqui, que vale a pena.

Wednesday, 5 July 2023

Que sínodo, e que sinodalidade?

Stephen P. White
No seu livro “Justiça de Quem, qual Racionalidade?”, o filósofo Alasdair MacIntyre argumenta que as diferentes teorias de justiça não podem ser compreendidas, quanto mais avaliadas, sem ser no seio de uma tradição de inquirição racional. Sem se ter em conta a tradição a partir da qual se abordam questões importantes sobre justiça – ou, pior ainda, imaginando-se totalmente livre de tal tradição – o mais provável é que o próprio não compreenda e, pior, conduza os outros ao erro, agravando a confusão, o relativismo e o conflito.

A Igreja não é meramente uma escola de pensamento teológico ou filosófico. Nem a sua identidade se resume à sua tradição intelectual, por mais magnífica que seja. Contudo, quando a Igreja pensa sobre como se deve organizar para poder proclamar a Boa Nova de forma mais eficiente, fá-lo a partir de um contexto distinto, de uma tradição específica. Quando se esquece, ou ignora essa tradição, as coisas correm mal.

O que nos traz ao encontro do Sínodo da Sinodalidade, em Outubro, sobre o qual muito já foi escrito, incluindo muitas críticas. Embora eu partilhe de muitas dessas críticas, permitam-me tecer alguns comentários cautelosos em sua defesa.

Uma das maiores críticas do Sínodo – uma crítica à qual a sua liderança, incluindo o Papa Francisco, tem sido particularmente sensível – é de que já existe uma conclusão predeterminada para os trabalhos.

O processo sinodal, dizem os críticos, está pensado para dotar de credibilidade uma agenda predeterminada vinda do topo, pelas mãos dos seus próprios organizadores. Embora tal agenda possa não beneficiar de credibilidade ou de apoio, o processo sinodal fará com que pareça o resultado da voz do Povo de Deus, o infalível sensus fidei!

O perigo dessa visão está no facto de ser simultaneamente plausível (vide o “caminho sinodal” alemão) e de gerar níveis venenosos de cinismo e desconfiança, e não apenas entre os teoristas da conspiração e os malucos da internet. Durante o Sínodo para a Família, de 2015, um grupo de cardeais expressou preocupações semelhantes directamente ao Papa Francisco. A sua carta foi divulgada na imprensa, que tentou pintá-los como inimigos do sínodo e, por extensão, do Santo Padre.

Num esforço para antecipar tais críticas, o Instrumentum Laboris do actual sínodo enfatiza o facto de não estar a apresentar conclusões antecipadas, mas apenas tópicos e perguntas para consideração e discernimento. É por isso que o I.L. insiste, correctamente, que, “não é um documento do Magistério da Igreja, nem um relato de uma sondagem sociológica; não propõe a formulação de indicações operacionais, nem objectivos, nem a elaboração plena de uma visão teológica”.

Estas afirmações de neutralidade convencem na mesma medida em que se confia nos organizadores do sínodo.

Quanto ao Papa Francisco, tem insistido que “o sínodo não é um parlamento, ou uma sondagem de opinião; o sínodo é um evento eclesial, e o seu protagonista é o Espírito Santo. Sem a presença do Espírito, não haverá sínodo”.

Isto pode ser lido como uma admissão, que entendo como bem-vinda, de que o sucesso do Sínodo não é um dado adquirido. Se for um esforço meramente humano, falhará.

A Igreja não pode suspender a crença em, ou fingir neutralidade para com aquilo que lhe foi revelado – a Escritura e a Tradição – na esperança de melhor poder compreender como proclamar a Boa Nova. A Igreja não pode conduzir o sínodo como se não fosse portadora, e mesmo encarnação de uma particular Tradição. Seria um erro grave tratar o Magistério como apenas uma “agenda” entre outras.

É importante reconhecer que o Sínodo, se for conduzido com fidelidade e disposição apropriadas, pode vir a ser uma grande benesse para a Igreja. Na verdade, em todo o lugar onde a Igreja está viva e missionária já se encontra a “sinodalidade”, ainda que poucos a chamem assim.

Onde é que podemos ver a sinodalidade já em acção? Em qualquer lugar onde a Igreja escuta cuidadosamente e avalia aquilo que ouve à luz do que foi revelado pela Escritura e pela Tradição. Em qualquer lugar onde os baptizados compreendem genuinamente que o pensamento aprofundado não é a mesma coisa que o discernimento espiritual, mas que ambos são necessários.

Em qualquer lugar onde os baptizados, leigos e clero levam a sério a responsabilidade de fortalecer a comunhão e participar plenamente na missão da Igreja de acordo com a vocação, lugar e circunstância de cada um.

Isto é que é sinodalidade autêntica: uma expressão genuína da eclesiologia da Lumen Gentium, e um poderoso testemunho da verdade do Evangelho. Alguém duvida seriamente que a Igreja e a sua missão estariam bem servidas com mais disto?

Contudo, existem muitas regiões dentro da Igreja, sobretudo aqui no Ocidente, onde esta vitalidade já não existe. Frequentemente são estas partes moribundas da Igreja que, reconhecendo a sua obsolescência, tentam desesperadamente “fazer acontecer” a “sinodalidade”.

Onde a prevalência de uma eclesiologia atrofiada e mundana impedem a sinodalidade de florescer de forma orgânica, tornar-se-ão mais aparentes os esforços para a forçar. O resultado será uma sinodalidade contrafeita, que lança os leigos e o clero uns contra os outros numa luta de poder, que vê a fidelidade à Escritura e à Tradição como obstáculos à missão e que medem o Evangelho segundo o Espírito do Tempo.

Os católicos devem evitar um optimismo ingénuo sobre o sínodo, e resistir ao tipo de inovação mal pensada que fez tantos danos à Igreja na sequência do Concílio Vaticano II. Mas também devemos ter cautela com o tipo de cinismo implacável que, ao tentar evitar o desastre, também impede uma genuína abertura às iniciativas do Espírito Santo.

O Sínodo é um processo arriscado, sem dúvida. Mas é também uma oportunidade para um momento de verdadeira graça e rejuvenescimento, uma oportunidade para a Igreja se tornar mais perfeitamente aquilo que já é. Isto apenas acontecerá se a sua disponibilidade para escutar for igualada por uma determinação de permanecer fiel à Escritura e à Tradição. A Igreja não pode discernir bem se fingir não conhecer aquilo que, na verdade, já conhece.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 2 de Julho de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Monday, 3 April 2023

O Caminho Sinodal Alemão

Participei hoje no programa "O Explicador", da Rádio Observador, para falar sobre o Caminho Sinodal alemão. 

Durante a minha participação tentei passar os seguintes pontos importantes: 

1. O caminho que a Igreja alemã está a trilhar é tirado a papel químico do caminho percorrido pela Igreja Anglicana ao longo das últimas décadas. O fim, se as coisas continuarem assim, prevê-se idêntico: uma divisão quiçá insanável na Igreja Universal.

2. A importância do dinheiro. Na Alemanha continua a existir uma relação promíscua entre a Igreja e o Estado. Quem é católico paga um excedente de impostos que são depois enviados para a Igreja. Quem não tem religião declarada fica com esse dinheiro no bolso. Isso dá aos alemães um incentivo para se desvincularem da Igreja e quanto mais esta está distante dos valores mainstream da sociedade, mais estes se desvinculam, resultando numa perda de receitas para os cofres da Igreja. Existe assim um incentivo particular para os bispos estarem "em sintonia" com os valores da sociedade, pois o contrário sai-lhes do pêlo, ou do bolso. 

3. A Igreja alemã está claramente a avançar a este ritmo para criar factos no terreno para depois, quando os assuntos forem discutidos num sínodo da Igreja Universal, poderem dizer que as coisas já estão feitas e não há nada a fazer sobre o assunto. 

Podem ouvir o programa completo aqui.


Wednesday, 9 November 2022

Escutar a Comunhão dos Santos

Stephen P. White

As recentes festividades de Todos os Santos e Fiéis Defuntos dão-nos a ocasião para nos afastarmos das circunstâncias presentes da Igreja e do mundo, e para ver as coisas com um horizonte mais alargado.

Mais do que uma constelação distante de exemplos morais, mais do que uma hoste de intercessores a rezar por nós diante do Trono da Graça, a Comunhão dos Santos é aquilo que espera cada um de nós cuja salvação foi alcançada pelo sacrifício de Jesus Cristo. A gloriosa diversidade de santos é aperfeiçoada pelo esplendor de Deus Trino, cuja vida agora partilham em pleno, na mesma medida em que o relfecte.

Se fomos feitos para a beatitude, se é esse o nosso destino final e objectivo, então a comemoração dos Fiéis Defuntos é uma recordação de que o caminho é estreito. As almas no Purgatório irão para o Céu. Mas enquanto rezamos pela sua purificação e rápida entrada na beatitude, não podemos se não recordar a necessidade urgente de arrependimento e de conversão nas nossas próprias vidas.

O que nos traz de volta ao lugar onde estamos, esta Igreja peregrina na Terra. E a verdade é que por aqui as coisas não andam especialmente bem.

Ao longo dos últimos meses e até anos a Igreja tem estado a atravessar mais um dos seus períodos de autorreflexão, que às vezes mais parecem um exercício de umbiguismo do que de examinação de consciência, em particular em torno do Sínodo sobre Sinodalidade.

Roma parece estar a preparar-se para declarar que o sínodo foi um enorme sucesso, antes mesmo de ter começado – isto apesar de algumas sérias preocupações com os níveis de participação e ingenuidade, para usar um termo simpático, em relação a alguns dos fundamentos da fé.

Independentemente do sínodo, é desconcertante ver que muito poucos católicos parecem compreender o que significa “sinodalidade” ou o que este Sínodo pretende alcançar. E é ainda mais desconcertante que toda a gente envolvida no sínodo parece estar disposta a passar ao lado deste facto inconveniente.

Por meio do nosso baptismo, todos participamos da missão da Igreja. Cada um de nós participa desta missão de acordo com a nossa particular vocação e circunstância. E a natureza hierárquica da Igreja e da autoridade eclesial existe para servir, e não para contradizer, esta missão compartilhada. Não existe um sector do Povo de Deus a quem este imperativo missionário não diga respeito.

Esta é, de forma resumida, a visão da Igreja conforme o Vaticano II e o Lumen Gentium, e em todo o lado onde a Igreja floresce é essa a realidade que vemos em acção. Se é isso que significa sinodalidade, então não podia ser mais a favor.

Mas se é isso que significa a sinodalidade, não é certamente assim que o Sínodo tem sido “vendido” e “promovido”.

É compreensível que todos aqueles que são responsáveis por conduzir o processo sinodal queiram que este seja um sucesso. Mas ao enfatizar a radical novidade do Sínodo, numa tentativa aparente de o tornar “relevante” e “excitante”, estão a prestar-lhe um mau serviço. Todo esse marketing e os slogans, que se aproximam do triunfalismo, que estão a sair de Roma parecem quase pensados para exacerbar o problema.

Confiar no Espírito Santo é uma coisa. Confiar nas promessas feitas a Pedro de que as Portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja é uma coisa. Mas confiar cegamente no discernimento e no juízo de um grupo de pessoas escolhidas acima de tudo pela sua disponibilidade para dizer o que quer que seja – por mais implausível e inconsistente – para poder apresentar o processo sinodal, ainda em desenvolvimento, como um triunfo imaculado, é outra coisa completamente diferente.

Na conferência de imprensa de apresentação do Documento da Etapa Continental, um dos conselheiros do secretário-geral do sínodo disse que “a sinodalidade não é uma forma de ser Igreja, é a forma de ser Igreja”. Tudo bem, mas então é suposto acreditarmos que até agora a Igreja não tem sido verdadeiramente a Igreja? Devemos acreditar que todos os ensinamentos e a sabedoria da Igreja ao longo de mais de dois mil anos não foram também fruto de cuidadoso discernimento?

Devemos mesmo acreditar que o sensum fidelium consiste das opiniões de uma proporção minúscula dos católicos que estão vivos hoje, ignorando dois milénios de testemunhos cujo discernimento e santa sabedoria são agora tratados muitas vezes com desprezo e rancor simplesmente porque descobrimos uma coisa nova e brilhante para substituir o que é “antigo” e “atrasado”?

A sinodalidade ou tem raízes profundas na vida da Igreja, ou é radicalmente e totalmente nova, mas não pode ser ambos. Aqueles que enfatizam a segunda para tentar convencer os fiéis de que o progresso está a ser um enorme sucesso – apesar de poucos perceberem alguma coisa do sínodo ou se preocuparem sequer com o assunto – parecem ter vistas curtas. Certamente isso não é um exemplo do tipo de discernimento e reflexão sóbrios dignos deste sínodo ou da Igreja.

A semana passada juntámo-nos ao resto da Igreja na celebração dos santos e para rezar pelas almas dos fiéis defuntos. Enquanto a barca de Pedro atravessa mares revoltos, podemos treinar ser uma “Igreja de escuta” voltando as nossas atenções para o testemunho daqueles que, pelas suas vidas, proclamaram a Verdade que salva. Ouvir, e imitar, aqueles que descobriram o caminho pela graça, através da porta estreita.

Uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus. (Hebreus 12, 1-2)

Eis uma palavra em que podemos confiar. Eis o Povo de Deus, determinado a livrar-se do pecado, com os olhos fixos em Jesus. Eis a Igreja da qual nós pecadores, aqui na Terra, somos apenas uma pequena parte. Ouçamos esta nuvem de testemunhas e caminhemos – ou corramos mesmo – juntamente com eles ao longo do caminho estreito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 3 de Novembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Thursday, 8 September 2022

Sinodalidades

O processo sinodal em Portugal tem gerado muito debate e controvérsia. Não estamos sós. Penso que em todo o mundo este processo tem gerado alguma confusão e diferenças de opinião. As pessoas de tendência mais conservadora tendem a ver o processo sinodal como um cavalo de Tróia para provocar mudanças nos ensinamentos da Igreja e as pessoas de tendência progressista esperam ver atendidas muitas das suas reivindicações. No meio de tudo isto, prepara-se um cenário perfeito para que todos se desiludam, uns porque o Sínodo não vai suficientemente longe, outros porque não vai longe de mais.

Tenho evitado escrever sobre este assunto, por uma série de razões, mas achei que nesta altura faria sentido escrever um curto texto a dar conta do estado actual do debate em Portugal, e apontando para os diferentes recursos que já existem.

Em primeiro lugar, temos o relatório do processo sinodal em Portugal, que pode ser lido aqui. O relatório é suposto ser um resumo dos diferentes relatórios diocesanos e foi elaborado por uma equipa de trabalho composta por sete pessoas, entre leigos e religiosos, nomeadamente Carmo Rodeia, Diretora do Departamento de Comunicação do Santuário de Fátima; Anabela Sousa, Diretora do Departamento de Comunicação da Diocese de Setúbal; Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja; Paulo Rocha, Diretor da Agência Ecclesia; Pedro Gil, Diretor do Departamento de Comunicação do Opus Dei; Padre Eduardo Duque, Diretor Nacional da Pastoral do Ensino Superior e Padre Manuel Barbosa, Secretário da CEP.

Diga-se o que se disser sobre o relatório, penso que dificilmente se pode fazer a acusação de este ser um elenco demasiado progressista ou demasiado conservador, muito menos de as pessoas envolvidas não serem sérias.

Há uma nota importante sobre este relatório que deve ser tido em conta. Ele não é o resumo apenas dos relatórios das 21 dioceses portuguesas, mas inclui ainda vários outros documentos que foram enviados por grupos de leigos e religiosos que pelas mais variadas razões não se enquadravam, ou não se sentiram enquadradas nos processos diocesanos. [Esta informação foi-me simpaticamente transmitida no dia 12/9 por um membro da equipa, e acrescentada ao texto no mesmo dia.]

Mal saiu o relatório surgiram críticas de que este não era verdadeiramente representativo da Igreja em Portugal. A primeira reacção foi na forma de uma carta aberta, que pode ser lida aqui. Seguem-se os nomes dos primeiros signatários desta carta, que pode ser assinada por outros através do link acima. Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, cronista do Observador e da Voz da Verdade; Mafalda Miranda Barbosa, Professora da Faculdade de Direito de Coimbra; Bernardo Trindade Barros, Advogado e Professor universitário; Gonçalo Figueiredo de Barros, Jurista e Empresário; Luís do Casal Ribeiro Cabral, Médico; Cónego Armando Duarte, Pároco dos Mártires, Lisboa; António Bagão Félix, Economista e Professor universitário; Pedro Borges de Lemos, Advogado; João Paulo Malta, Médico; Aida Franco Nogueira, Advogada; Paulo Otero, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Padre Mário Rui Leal Pedras, Pároco de São Nicolau, Lisboa.

Pouco depois de ter sido publicada esta carta, o Padre Peter Stilwell, ex-diretor da Faculdade de Teologia da Católica, e ex-vice-reitor da mesma universidade, escreveu um artigo publicado no Sete Margens em que revela que também ficou com dúvidas e frustrações em relação ao relatório, mas depois explica porque razão acha a Carta Aberta premeditada e desnecessária. É um artigo interessante que também vale a pena ler. (Full disclosure: o Padre Peter é meu tio e padrinho).

Entretanto surgiu uma outra carta, desta vez assinada por jovens, que também contesta o relatório, nomeadamente o seu “pendor negativista”. Pode ser lida e assinada aqui.

E, finalmente, temos uma outra proposta que me pareceu interessante por ser uma abordagem crítica, mas ao mesmo tempo construtiva. O Padre Duarte da Cunha e o Padre Ricardo Figueiredo juntaram-se, leram todos os relatórios diocesanos e elaboraram um relatório alternativo que consideram ser mais fiel aos textos das diferentes dioceses. Pode ser lido aqui. Contudo, deve ser tido em conta que este relatório alternativo não contempla os muitos outros documentos extra-diocesanos a que a equipa da CEP teve acesso, pelo que naturalmente existirão diferenças significativas.

Penso que estes são recursos suficientes para que os interessados se possam inteirar do tema.

Gostaria aqui de fazer apenas um comentário geral, evitando pronunciar-me sobre os conteúdos dos diferentes documentos.

Em primeiro lugar, devo dizer que apesar de estes documentos representarem alguma divisão na Igreja, o facto de existirem, e de as pessoas se sentirem motivadas para se pronunciar e contribuir, é um sinal positivo. Estamos perante pessoas que não concordam umas com as outras, mas penso que todos os textos são respeitosos e motivados pela vontade de contribuir para o bem da Igreja Portuguesa, no seio da Igreja Universal. O que é isso se não sinodalidade?

Outra coisa que noto, contudo, é um certo centralismo dos textos, que radicam todos da realidade de grandes centros urbanos, nomeadamente Lisboa. Obviamente não conheço todos os subscritores das duas cartas abertas, mas na primeira sei que todos são de Lisboa, ou vivem em Lisboa, excepto uma que vive e trabalha em Coimbra. Obviamente isto em nada invalida os seus argumentos, mas é preciso ter em conta que o relatório é um resumo de todos os relatórios diocesanos, e reflecte por isso a vivência de pessoas desde o Funchal até Bragança, e dificilmente essas vivências, preocupações e propostas se encaixam na realidade conhecida por pessoas que fazem a sua vida eclesial na capital e numa das maiores cidades de Portugal.

O mesmo se aplica, em menor dimensão, à carta aberta dos jovens. Aí temos subscritores de várias dioceses, nomeadamente: Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto, Portalegre-Castelo Branco, Évora, Leiria-Fátima, Funchal, Braga e Viana do Castelo. Nota-se um esforço louvável de inclusividade e maior representatividade, mas ainda assim são apenas metade das dioceses territoriais de Portugal.

Tudo isto torna ainda mais interessante o “relatório alternativo” apresentado pelos padres Duarte e Ricardo, pois esse parte directamente dos textos dos relatórios diocesanos.

Por fim, é possível que neste resumo me tenha esquecido de algum outro recurso que ajude a contribuir para esta discussão/processo sinodal. Se sim, agradeço que me informem, que terei todo o gosto em acrescentar.


Actualização: No dia 7 de Novembro acrescentei o texto de Leopoldina Reis Simões

Actualização: No dia 13 a CEP respondeu a críticas sobre o relatório.

Actualização: No dia 12 de Setembro acrescentei mais informação aos pontos sobre o relatório da CEP e o relatório alternativo do Pe Duarte da Cunha. 

Outros textos

Aqui outro texto de opinião que vale a pena ler, de José Maria Seabra Duque

Relatório sinodal: desafio a discernir e praticar juntosa renovação eclesial - Pe. Jorge Guarda

O que faremos deste texto? - Jorge Wemans

Conservadores e progressistas na fronteira do diálogo - Sofia Távora

O Relatório de Portugal, o caminho da sinodalidade - Maria Carlos Ramos

Ainda o Sínodo - Pe. Alexandre Palma

Sínodo sobre sinodalidade: Ninguém disse que seria fácil - Leopoldina Reis Simões



Wednesday, 27 October 2021

Papa no Canadá para acelerar reconciliação

O Papa vai ao Canadá para se encontrar com representantes das tribos que exigem um pedido de desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica no sistema de colégios internos que existiam para impor a cultura ocidental às suas crianças, e onde se praticaram abusos e violência em larga escala.

Estamos na Semana dos Seminários. Dizem os responsáveis que os candidatos ao sacerdócio são menos que antigamente, sim, mas de novos meios sociais e culturais.

Começou o processo sinodal em Lisboa. D. Manuel Clemente quer que este e as JMJ avancem em conjunto, sendo que para as JMJ isso pode ser em passo de corrida.

Os bispos do Reino Unido manifestaram-se contra o projeto de legalização do suicídio assistido.

Vivemos num tempo em que acreditamos que o conhecimento é que nos ilumina. Mas haverá conhecimento que nos cega? O padre Paul Scalia acredita que sim e explica porquê neste artigo do The Catholic Thing em português, partindo do episódio do cego Bartimeu.

Wednesday, 13 October 2021

Padres sob investigação em Viseu e o regresso a Fátima

Está sob investigação um padre de Viseu que é acusado de ter enviado mensagens de teor sexual a um menor de idade. A comissão de proteção de menores assume o caso e diz que ainda há outro em investigação.

A CEP diz que vai criar uma comissão nacional, composta por membros das comissões diocesanas e D. António Marto referiu-se aos casos de abusos como “uma situação de luto”.

Recordo que mantenho aqui no blog uma cronologia detalhada de todos os casos que têm sido públicos em Portugal nos últimos anos. 

O Papa Francisco lamenta os erros que existiram no passado – e que persistem nalguns casos – quando a evangelização se confunde com a imposição de um modelo cultural.

O regresso dos peregrinos a Fátima sem limites de lotação no santuário foi vivido com grande entusiasmo pelos fiéis, que lotaram o recinto. Veja aqui as imagens. Esta quarta-feira o arcebispo de Salvador da Bahia, no Brasil, encerrou as celebrações apelando aos fiéis que participem no processo sinodal que o Papa abriu no fim-de-semana passado.

Será a poesia o antídoto para o relativismo que marca a modernidade? O autor do artigo desta semana do The Catholic Thing acredita que sim e faz uns argumentos convincentes que vale a pena ler.

Wednesday, 21 July 2021

A Sinodalidade é aquilo que fizermos dela

Stephen P. White
“Sinodalidade” – um termo que tem ganho cada vez mais protagonismo neste pontificado – é o neologismo em busca de uma teologia. Isto não significa que o termo não tenha significado teológico, antes, que na medida em que a palavra descreve a “forma” que o Papa imagina para a Igreja no terceiro milénio, é um conceito ainda um pouco desfocado.  

Começando em Outubro, o Sínodo dos Bispos vai concentrar-se nestas questões na próxima assembleia sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O Papa Francisco está convencido de que a sinodalidade descreve a forma que a Igreja deve assmir no terceiro milénio. Mas ainda não é muito claro precisamente o que é que o Santo Padre quer dizer quando fala de sinodalidade e de uma Igreja sinodal.

Para começar, sabemos algo do que o Papa Francisco não quer dizer com sinodalidade. Ele não está a falar simplesmente da sinodalidade das Igrejas Orientais. Parece ter em mente algo mais do que o Sínodo dos Bispos, que se tem reunido para aconselhar os Papas ao longo dos anos desde o Concílio Vaticano II. Não encara uma Igreja sinodal como uma democracia, nem um sínodo como um plebiscito ou parlamento. O que ele quer dizer é “uma Igreja a caminhar em conjunto”, uma definição suficientemente vaga para justificar todas as clarificações feitas até agora.

 Comissão Teológica Internacional (CTI) estudou o tema da “sinodalidade na vida da Igrea” durante vários anos, o que resultou num relatório de 2018. Esse relatório obteve um parecer favorável do Papa Francisco e dá-nos uma visão mais robusta do que a sinodalidade significa, ou pode significar, para a Igreja Latina. E também, até certo ponto, o que não significa nem pode significar.

A sinodalidade, dizem-nos, não descreve um evento, mas um processo: “O modus vivendi et operandi específico da Igreja, do Povo de Deus, que revela e dá substância ao seu ser enquanto comunhão quando todos os seus membros caminham em conjunto, se reúnem em assembleia e tomam parte activa na sua missão evangelizadora”. O Povo de Deus, em união com os bispos, e com, e sob o Papa, discerne a vontade do Espírito Santo para o trabalho de discipulado missionário da Igreja.

Ainda assim, a ambiguidade da terminologia de sinodalidade – já para não falar da conflitualidade de recentes encontros do Sínodo dos Bispos e a situação complicada a desenrolar-se com o “Caminho Sinodal” da Igreja Alemã – colocam-nos perante uma série de problemas teológicos e práticos. Existem, certamente, razões para cepticismo sobre a forma como alguns possam representar erradamente a sinodalidade, numa tentativa de desconstruir doutrinal, minar a tradição e ameaçar a comunhão eclesial. Estas são preocupações legítimas.

Mas se a sinodalidade é uma caixa por ora vazia, não existem razões para não a preencher com coisas boas. Não há razão para que a ênfase do Papa Francisco na sinodalidade não seja uma ocasião para redescobrir, ou olhar de novo, para a constituição doutrinal do Concílio Vaticano Segundo sobre a Igreja, Lumen Gentium. Nas palavras da CTI: “Embora a sinodalidade não seja referida explicitamente como termo ou como conceito nos ensinamentos do Vaticano II, é justo dizer que a sinodalidade está no cerne do trabalho de renovação que o Concílio estava a encorajar”.  

De facto, o potencial de uma Igreja sinodal é exatamente uma Igreja que incorpora mais inteiramente o seu carácter e a sua missão de forma mais plena, através de todos os seus membros: recorrendo à Escritura e à Tradição, para que o carácter da Igreja se possa manifestar mais autenticamente e a missão universal da Igreja se possa cumprir de forma mais eficaz.

Neste sentido, uma Igreja verdadeiramente sinodal não implica um “recomeçar de novo”, nem a divisão da autoridade eclesial, de uma forma que apela melhor às sensibilidades modernas. Nem se trata de uma questão de mudar o formato da Igreja para se adaptar ao espírito dos tempos, com sínodos locais e regionais a determinar as suas próprias verdades, removendo aquilo de que não gostam, ou a acrescentar, de acordo com as modas locais.


Uma sinodalidade genuína levará a sério a universalidade da missão baptismal: cada fiem, sem excepção, deve comprometer-se inteiramente com a missão da Igreja, na medida em que as formas particulares de cumprimento dessa missão dependem dos dons, talentos, carismas, posição e ocupação de cada um.

Já podemos encontrar exemplos de uma sinodalidade saudável, construtiva e fiel aqui nos Estados Unidos. Pelas minhas contas, pelo menos dez dioceses e arquidioceses americanas já anunciaram, começaram ou completaram sínodos locais nos últimos anos. Bridgeport, Burlington, Dallas, Detroit, Milwaukee, Springfield, San Diego, Sacramento, St. Paul e Minneapolis, e Washington. Os resultados variam, mas no geral têm sido positivos.

Um arcebispo disse-me que a decisão de convocar um sínodo arquidiocesano foi a mais importante e melhor decisão pastoral que alguma vez tomou enquanto bispo. O sínodo local deu uma possibilidade para a sua Igreja local enfrentar desafios consideráveis, enquanto permitiu recentrar os esforços e os recursos no desafio mais importante e, sobretudo, mais fundamental de todos, “libertar o Evangelho”.

Até que ponto este tipo de sinodalidade que tem dado frutos ao nível local pode ser adaptado à escala global, ainda está por determinar. O processo sinodal que começa em Outubro terá uma primeira fase diocesana, seguida um ano mais tarde por uma fase continental e, finalmente, uma fase universal em 2023. Até que ponto é que uma Igreja de mais ou menos mil milhões de almas, espalhadas pelo mundo, pode discernir ou “caminhar em conjunto” através de um programa necessariamente tão impessoal não é nada evidente.

As preocupações com os obstáculos e possíveis abusos de sinodalidade devem ser reconhecidas, mas seria um erro terrível simplesmente descartar esta promessa de sinodalidade à primeira vista. Se a revigoração da missão evangelizadora da Igreja não for razão suficiente para os católicos se aplicarem ao máximo neste sínodo, então talvez esta outra os convença. A recusa ou a incapacidade dos fiéis de se comprometerem com o processo sinodal significa que só as vozes mais cínicas ou ideológicas é que serão ouvidas.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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