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Thursday, 9 November 2023

O caso do Pe Nuno Aurélio. Uma tragédia em todos os sentidos

Um bocadinho dramático, talvez, mas
não conseguia pensar em nada melhor...

No final da semana passada voltou a falar-se do caso do Pe Nuno Aurélio, do Patriarcado de Lisboa.

O Pe Nuno Aurélio foi acusado de ter abusado sexualmente de um rapaz da sua paróquia em 2013. Esse rapaz viria a suicidar-se mais tarde. Quando as alegações se tornaram públicas o Ministério Público arquivou o processo, por estar prescrito. Já o Patriarcado fez uma investigação preliminar, arquivada por falta de indícios.

Em 2022 o caso do Pe Nuno voltou a ser referido no relatório da Comissão Independente, como aliás não podia deixar de ser, uma vez que tinha estado na imprensa e uma das fontes para o relatório foi um levantamento de casos na comunicação social. Mas foi também referido por um padre do Patriarcado de Lisboa que entregou à Comissão Independente, ao Ministério Público e a pelo menos dois grandes órgãos de comunicação uma lista de 12 padres suspeitos de abusos. Esse sacerdote foi inicialmente apresentado com o pseudónimo Pe Cardoso, mas já é público que se trata do Pe Joaquim Nazaré. Nas suas declarações à imprensa, o Pe Nazaré insinuou a culpa do Pe Aurélio no caso do rapaz que se suicidou, e disse ainda que havia indícios de que teria havido mais casos na sua paróquia nova, em França, não obstante essa informação já ter sido desmentida pelo Patriarcado e pela Arquidiocese de Paris.

Em resposta, o Pe Aurélio moveu um processo contra o Pe Nazaré por calúnia e difamação, no Tribunal Patriarcal de Lisboa. O Pe Nazaré foi chamado a defender-se, o que recusou, nunca tendo colaborado com a justiça do Patriarcado. Uma vez que se recusou a fazer prova das acusações públicas que tinha feito, o Tribunal Patriarcal condenou-o por calúnia. A sentença passa por uma retratação pública, um pedido de desculpa pessoal e o pagamento de um salário ao Fundo Diocesano. O Pe Nazaré já disse publicamente que não tenciona cumprir a sentença.

O caso voltou a ser falado na imprensa porque um grande órgão de comunicação social fez notícia da sentença, com o título: “Abusos: Igreja castiga padre que denunciou 12 sacerdotes (‘invocando o Santo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo’)” Tanto quanto sei, a citação entre parêntesis é uma frase que aparece em todas as sentenças do Tribunal Canónico.

Tragédia após tragédia

Antes de continuar, aproveito para fazer uma ressalva importante: Eu não faço a menor ideia se o caso é verdadeiro ou não. Sei que há certamente casos verdadeiros que caem em saco roto por falta de provas, e sei que há denúncias falsas que estragam a vida aos acusados. Não sei em que campo cai este caso. Sei que o Pe Nuno insiste na sua inocência, e sei que há pessoas que não acreditam nele, e insistem na sua culpa. Portanto este texto não é uma defesa do Pe Nuno, nem uma condenação do processo, é simplesmente um texto que pretende mostrar como este caso é paradigmático de tudo quanto pode correr mal neste assunto do tratamento dos casos dos abusos sexuais na Igreja.

Dito isto, tudo o que temos aqui é uma tragédia, do início ao fim. Antes de mais nada, é uma tragédia que um rapaz se tenha suicidado. Seja o caso verdadeiro ou não, essa é a maior tragédia de todas. O suicídio é um indício conclusivo da veracidade do caso? Não. Uma vítima de abusos sexuais pode matar-se por causa do peso que carrega? Sem dúvida. Mas também é possível que o suicídio resulte de um mal-estar psicológico que por sua vez tenha contribuído também para inventar uma acusação contra uma pessoa inocente. Poderá haver um especialista em saúde mental que tenha acompanhado o rapaz e tenha sobre isso uma ideia mais fundamentada, não faço ideia, mas o resto da população deve evitar retirar conclusões precipitadas sobre o assunto.

Depois temos o arquivamento do processo civil por prescrição. Se a acusação era verdadeira, então temos uma tragédia, porque não se fez justiça nem se investigou devidamente. Se a acusação é falsa, idem aspas.

Surge então o processo canónico. Aqui já houve investigação, mas convém ressalvar que os serviços do Patriarcado de Lisboa, por melhores que sejam as suas intenções e capacidades, não têm os meios de investigação que tem o Ministério Público. Logo, aos olhos do mundo, a decisão do Patriarcado será sempre vista como coxa. Não é por acaso que, quando existem processos civis em curso, as autoridades eclesiásticas tendem a esperar pela sua conclusão para poderem reforçar a sua própria investigação. A investigação diocesana não foi, por isso, perfeita, mas foi o que foi. E eu tenho dito sempre que nós não temos outra opção senão confiar nos processos que existem. Não havendo processo civil, temos de confiar no processo canónico. É infalível? Nada na Terra é. Mas é o que temos. A tragédia aqui é que o Pe Nuno Aurélio viu o seu processo arquivado por falta de indícios, mas jamais se livrará do fantasma da acusação. É uma tragédia que partilha com muitos outros padres que se viram na mesma situação, mas não deixa de ser uma tragédia.

Boys will be boys

A tragédia seguinte é a falta de resposta da Igreja para estas situações. Já disse várias vezes que nestes assuntos falta um toque feminino na hierarquia – não leiam isto como um apelo à ordenação de mulheres, estou simplesmente a falar de maior presença de conselhos e influência feminina junto dos bispos e de quem toma decisões nas dioceses – uma visão maternal que cuide dos sacerdotes em situação de fragilidade. Dos casos que conheço pessoalmente de padres que foram acusados deste tipo de crime, ou mesmo de outros de natureza não sexual, com ou sem fundamento, a resposta da hierarquia tem sido sempre desoladora. Ou são colocados na prateleira, ou são enviados para longe, ou são deixados sem nomeação ad aeternum. Sempre com pancadinhas nas costas e palavras de encorajamento, mas na prática abandonados. Não é por maldade, é a forma tipicamente masculina de (não saber) lidar com situações de vulnerabilidade. Estas pessoas precisam de acompanhamento próximo como de pão para a boca, mas se não têm a sorte de ter uma rede de amigos – preferencialmente leigos e idealmente famílias – que os acolham e acompanhem, ficam perdidas.

É importante falar também sobre a questão da reintegração, quer dos padres que são ilibados ou vêem os seus casos arquivados por falta de indícios, quer dos que são condenados a penas canónicas que não passam pela expulsão do estado clerical e que as cumprem. A verdade é que nada está previsto.

No auge da polémica da Comissão Independente e das listas de padres no activo, fui contactado por uma pessoa ligada a uma comissão diocesana que queria criar procedimentos para a reintegração de sacerdotes nestas situações. Disse-lhe, cheio de confiança, que certamente isso existia nalgum lado, escusávamos de estar a inventar a roda, bastava descobrir um bom modelo para copiar. Não é que não existe mesmo? Ou se existe, eu não consegui descobrir. Até perguntei ao Pe Hans Zollner, provavelmente o maior especialista no assunto de abusos na Igreja, e ele confirmou que desconhecia a existência de quaisquer orientações.

Todos queremos que seja feita justiça de forma célere e transparente nos casos de abusos na Igreja, mas a verdade é que não se pode falar de justiça sem haver também um cuidado por quem já cumpriu a sua pena, ou para quem, para todos os efeitos, deve ser considerado inocente dos crimes de que era suspeito.

Eu não tenho uma solução mágica para isto, como é evidente, mas a ausência de orientações leva a que cada diocese trate à sua maneira, e na maioria das vezes mal, regressando ao abandono de que falámos acima. Isto também é trágico.

Entre a colaboração e a calúnia

Chegamos agora à questão do Pe Joaquim Nazaré. Eu entendo, aceito e até aplaudo a iniciativa do Pe Joaquim de entregar às autoridades eclesiais e civis, e à Comissão Independente, a informação de que dispunha, ainda que não passasse de boatos ou de recortes de jornais. Não há mal em fazer chegar essas informações a quem as possa depois investigar e averiguar. Onde ele errou, a meu ver, foi em decidir falar com a imprensa e, mais especificamente, tecer opiniões jurídicas sobre casos sem ter as devidas provas. Fazê-lo ao abrigo de um anonimato mal-amanhado – toda a gente que o conhece reconheceu-o e até eu, que não o conheço, sabia a identidade dele 24 horas depois de as notícias saírem – foi uma ideia ainda pior.

A mim também me chegam muitos boatos. Durante a fase do relatório e das listas, cheguei a ser contactado por um representante legal de uma alegada vítima de um padre, que me disse que o que o seu cliente queria era que o nome do alegado abusador se tornasse público, mas que não tencionava aprofundar o caso ou falar com as autoridades eclesiásticas para possibilitar um processo canónico. Como é evidente não colaborei com o que me pareceu claramente uma tentativa de assassinato de carácter, sobretudo sem ter a menor forma de poder verificar a veracidade das alegações. Mas caso não soubesse que o nome já era do conhecimento das autoridades civis e eclesiásticas, não teria problema nenhum em partilhar a informação que tinha recebido, para que eles pudessem investigar e tomar medidas. Uma coisa é colaborar com a justiça, outra é procurar escândalo. Seja qual for a motivação do Pe Joaquim Nazaré, ele não pode fazer acusações muito graves com base em opiniões pessoais ou alegações de que tem conhecimento.

Depois temos a decisão do Pe Nuno Aurélio de o processar no tribunal canónico, que é um direito que lhe assiste e de que se valeu. Poderia ter simplesmente deixado cair o caso? Poderia. Talvez fosse mais sensato, mas não o fez e não me parece que deva ser criticado por isso. A sentença do processo parece-me ter sido justa e esperada, e a pena aplicada perfeitamente razoável. A decisão do padre Joaquim Nazaré de não colaborar é também um direito que lhe assiste, mas revela desrespeito pela metodologia da Igreja que serve, o que é lamentável.

Por fim, temos a decisão, a meu ver também trágica, de um órgão de imprensa sério ter decidido noticiar este caso de uma forma sensacionalista. O título do artigo está claramente feito para passar a mensagem de que a Igreja está a castigar um padre por ele ter denunciado casos, o que se fosse verdade seria extraordinariamente grave, mas não é. Reforça também a ideia já muito disseminada de que a Igreja está interessada, acima de tudo, em encobrir casos e evitar escândalos, o que me parece injusto, sobretudo no caso do Patriarcado de Lisboa, que já deu provas de lidar com estes casos de forma rigorosa, sobretudo nos últimos anos. Há muito a criticar na forma como as dioceses e a Igreja portuguesa têm lidado com esta crise dos abusos, e eu não tenho tido a menor hesitação em meter o dedo na ferida quando sinto que é necessário ou pertinente, mas este tipo de situação, em que se pega numa sentença justa por difamação e calúnia, para a transformar num caso de perseguição e vingança, sem qualquer fundamento, não contribui para nada.

Temos, portanto, um rol de tragédias em que não me parece haver nada de positivo a salientar. Que bom que seria que fosse o último, mas temo que não será.

Leia também

Cronologia dos casos de abusos sexuais na Igreja em Portugal

O que sabemos das listas dos abusadores compostas pela Comissão Independente

Abusos em Portugal – O que já sabemos, o que falta saber

Friday, 18 August 2023

D. Rui Valério não é cardeal, a ponte pedonal também não será

O novo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, publicou uma bonita mensagem para os fiéis do Patriarcado, que vale a pena ler.

Esta é uma boa ocasião para recordar a todos que D. Rui Valério não é o Cardeal-Patriarca de Lisboa!!

Entretanto esta semana tivemos uma trapalhada de uma situação, quando as Câmara se Loures e de Lisboa anunciaram que iriam chamar à ponte pedonal sobre o Trancão “Ponte Cardeal D. Manuel Clemente” e logo surgiu uma petição a denunciar esse gesto como um desrespeito pelas vítimas dos abusos. Depois surgiu uma petição contrária e por fim D. Manuel pediu para que se abandonasse a ideia, pois não queria estar no centro de divisões. Pensei bastante escrever sobre este assunto, nomeadamente sobre como os anticlericalismos acabam sempre por assumir os piores vícios das religiões, nomeadamente o puritanismo extremo, mas talvez fique para outra altura. Partilho antes este texto do meu amigo José Maria Duque, que revela bem porque é que este rasgar das vestes dos “activistas cívicos” é cínico e hipócrita. Leiam.

A semana passada escrevi um bonito texto a agradecer a todos os que tornaram possível a JMJ em Lisboa, e ajudaram a fazer daqueles dias uma graça tão grande. Depois, obviamente, esqueci-me de o incluir no newsletter. Mas partilho-o agora.

Leiam aqui sobre os projectos em curso para tentar reavivar a Igreja na Terra Santa; e aqui sobre o mais recente episódio de violência anticristã no Paquistão.

Também a semana passada publiquei um artigo no The Pillar que pretende ir ao fundo da “polémica” das tendas eucarísticas na missa final da JMJ, e das píxides usadas noutra missa. Podem ler aqui.

Têm ainda para ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que sendo sobre o processo de “reavivamento eucarístico” em curso nos EUA, toca também na JMJ uma vez que questiona a utilidade deste género de mega-eventos. Eu disse questiona, não disse arrasa nem critica. Leiam para verem por vocês as conclusões de Stephen P. White.

Thursday, 17 August 2023

Patriarca sim, Cardeal Patriarca (ainda) não, Cardeal-Patriarca ainda menos

Faz uma semana que D. Rui Valério foi nomeado Patriarca de Lisboa. Logo as manchetes, os pivôs e os apresentadores de rádio nos informaram que Lisboa já tem um novo "Cardeal-Patriarca". 

Esta é uma boa ocasião, portanto, para recordar a todos que D. Rui Valério não é cardeal, nem sabemos ao certo quando será. Por isso, ao contrário do que a imprensa insiste em dizer, ele não é o “Cardeal-Patriarca de Lisboa”. Aliás – e esta é uma embirração minha – eu não percebo porque é que se insiste em aglutinar os títulos, sobretudo quando é o próprio Patriarcado a fazê-lo.

Como aprendemos sempre que existe uma nova nomeação, uma coisa é ser Patriarca, outra coisa é ser cardeal, uma não implica necessariamente a outra, por mais que exista a tradição – e no caso de Lisboa um compromisso estipulado em bula – de o Patriarca ser feito cardeal.

A confusão é agravada pelo facto de existirem diferentes níveis de cardeal. Há o Cardeal-Diácono, o Cardeal-Presbítero e o Cardeal-Bispo, o que por sua vez indica apenas uma hierarquia, pois não tem nada a ver com os cardeais serem diáconos, padres ou bispos. E sim, há cardeais que são apenas padres, embora seja raro.

Portanto, nesta lógica, um Cardeal-Patriarca seria mais um nível na hierarquia dos cardeais, acima até de Cardeal-Bispo. Só que não é, porque isso não existe.

Se Deus quiser – mais precisamente, se o Papa quiser – D. Rui Valério será um dia Cardeal. E nessa altura será o Cardeal Patriarca de Lisboa, mas não o Cardeal-Patriarca de Lisboa. Até lá é “apenas” o Patriarca de Lisboa, o que já não é nada mau, embora não seja equiparável a patriarcas orientais, mas isso vai ter de ficar para outro artigo…

Thursday, 10 August 2023

Rui Valério: Um missionário para o Patriarcado de Lisboa

O Papa acaba de nomear como novo Patriarca de Lisboa D. Rui Valério, até agora bispo das Forças Armadas e de Segurança.

Não conheço pessoalmente o novo Patriarca, mas aquilo que me têm dito os que o conhecem é que é um homem de oração, de uma profunda espiritualidade, e um pastor. Isso são, claro, grandes trunfos.

D. Rui Valério é também um homem muito ligado à missão. Para além de ter sido formado e ordenado nos Missionários Monfortinos, foi um dos missionários da Misericórdia durante o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, em Lisboa. A sua nomeação pode, por isso, reflectir a questão de o Patriarcado ser hoje também terreno de missão, uma vez que grande parte da sua população se encontra descristianizada, se não abertamente, pelo menos na prática.

Ao contrário do que tem sido a norma no Patriarcado nas últimas décadas, D. Rui Valério é também um homem com uma significativa experiência paroquial. Foi pároco em Castro Verde, no Alentejo – certamente uma realidade muito diferente da que vai encontrar em Lisboa, mas que pode ter-lhe dado uma boa bagagem – e foi também pároco no Patriarcado, nomeadamente em Póvoa de Santo Adrião. Enquanto pároco teve de lidar com situações por vezes difíceis, o que é essencial para o trabalho que terá agora pela frente.

O novo Patriarca faz este ano 59 anos, por isso, em condições normais, terá pelo menos 15, talvez 17 anos à frente da Igreja lisboeta. Toma posse a 2 de Setembro, na Sé Patriarcal.

Abusos, legado da JMJ e reformas

Um dos principais desafios que D. Rui Valério terá agora pela frente é a de dar continuidade ao processo de lidar com a questão dos abusos sexuais. Nesta situação em particular, Lisboa já tem muito caminho percorrido e pessoas de confiança em lugares-chave, por isso terá o trabalho facilitado. Há que continuar a ir agilizando processos e, sobretudo, não atrapalhar.

A este respeito note-se que D. Rui Valério chega com uma folha em branco. A diocese das Forças Armadas é a única que não teve qualquer denúncia de casos de abusos, o que é aliás compreensível dada a sua natureza. Isso significa que ninguém tem nada a apontar ao bispo na forma como ele lidou com casos, mas significa também que não sabemos como é que ele lidará com o assunto no futuro. Só podemos esperar que tenha aprendido muito com os bons exemplos e, também, com os maus exemplos dos seus pares no episcopado, ao longo dos últimos meses.

A nível teórico, tem algumas palavras sobre o assunto. Na altura em que foram provisoriamente afastados cinco padres do Patriarcado de Lisboa, foi questionado pela CNN e preferiu falar das vítimas: “Acho que aquilo que é importante nesta altura é nós começarmos a falar das vítimas. Este é o tempo das vítimas. É o tempo de irmos ao encontro delas. Não sei se nós temos exata noção de que quem foi vítima de um abuso desta natureza está numa condição de sofrimento... Há traumas que estão ativos e tudo isso é preciso cuidar, é preciso tomar conta”, afirmou. São palavras atenciosas e firmes. Esperemos que não haja qualquer dificuldade em passá-las à prática.

O novo Patriarca terá também muitos outros desafios práticos. Há decisões e reformas que é necessário fazer no Patriarcado de Lisboa. Será necessário em primeiro lugar discerni-las e depois aplicá-las. Como podemos adaptar a estrutura paroquial a um presbiterado cada vez mais pequeno? É possível travar, ou mesmo inverter essa crise vocacional? Um dos grandes perigos em qualquer diocese é a divisão dos padres em grupinhos e tendências, de costas voltadas, conseguirá ele evitar que isso aconteça em Lisboa, promovendo a unidade? Existe no Patriarcado um grande tecido de respostas sociais, como podemos tornar o seu funcionamento mais eficiente, promovendo economias de escala numa altura de dificuldades e em que o Estado parece cada vez mais apostado em tomar o lugar da Igreja neste campo?

E depois, claro, temos o facto de a sociedade portuguesa olhar para o Patriarca de Lisboa – erradamente, é certo, mas é uma realidade – como a figura-de-proa da Igreja nacional. D. Rui Valério tem duas licenciaturas de prestigiadas universidades em Roma, não será certamente desprovido de inteligência, mas D. Manuel Clemente já tinha uma reputação de figura intelectual que o ajudava a impor as suas opiniões. D. Rui Valério terá, nesse campo, de começar do zero e conquistar esse espaço.

Do ponto de vista puramente pessoal, e como católico do Patriarcado de Lisboa, posso dizer que conheço pessoalmente D. Manuel Clemente, desde a minha infância. Tenho por ele uma estima enorme e nunca tive dificuldade em ver nele uma figura de paternidade episcopal, o que tornava mais fácil gostar dele e colocar-me ao seu lado, mesmo nos tempos mais difíceis, e sem que isso me impedisse de criticar, em liberdade, o que achava que devia ser criticado.

Já D. Rui Valério não conheço de todo. Mas a partir de hoje – ou mais precisamente a partir do momento em que for empossado – ele é o meu bispo, o meu Patriarca, e tem da minha parte toda a lealdade e afectividade que como tal sinto que lhe devo. 

Monday, 10 July 2023

Decifrando a elevação de D. Américo a Cardeal

[Uma versão mais extensa e detalhada deste artigo foi publicada entretanto no Expresso]

Os jornalistas adoram dizer que já sabiam que as coisas iam acontecer, fortalecendo assim as suas credenciais de especialistas em certas matérias. Pois, da minha parte, posso dizer que fui apanhado totalmente na curva pela escolha de D. Américo Aguiar para cardeal.

Contudo, consumada a decisão do Papa, podemos tentar analisar e contextualizar.

Lisboa ou Roma?

Ao ouvir o anúncio, muitas pessoas assumiram que com este gesto o Papa está já a dar um sinal de quem vai suceder a D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. Aliás, faria mais que sentido. D. Américo é o “delfim” de D. Manuel. O actual Patriarca fez questão de o trazer do Porto, onde já tinham trabalhado juntos e onde D. Américo se tornou o seu braço direito; conseguiu que ele fosse nomeado bispo auxiliar de Lisboa e durante muito tempo pareceu um dado assente que D. Américo seria o sucessor designado.

Contudo, e com base nas informações que tenho até ao momento, esse cenário de D. Américo ser o próximo Patriarca de Lisboa está posto de parte. Tanto quanto sei, o seu nome nem consta da actual terna – a lista de três hipóteses elaborada pelo Dicastério para os Bispos, com o precioso auxílio da nunciatura – que vai ser apresentada ao Papa para ele escolher. Não que isso tenha impedido o Papa, no passado, de fazer as suas próprias escolhas… Contudo, neste caso, parece-me claro que D. Américo não será o próximo Patriarca.

Sendo assim, também é muito pouco provável que Francisco tenha criado D. Américo cardeal para o enviar para outra diocese em Portugal. (O Porto faria algum sentido, sendo a sua diocese de origem, e nos piores momentos da crise dos abusos em Portugal ainda me ocorreu que D. Manuel Linda fosse retirado de lá, mas, entretanto, recebeu novos auxiliares, pelo que deve estar para continuar por lá.) De resto, não vejo o Papa a enviar D. Américo para Setúbal, ou para a Guarda, nem a permanecer em Lisboa como auxiliar depois da saída de D. Manuel, pelo que presumo que a sua próxima paragem seja Roma. A confirmar-se o sucesso da JMJ, faria sentido ele ficar mais permanentemente ligado à organização destes eventos, ou outros do género. Tenho ouvido dizer que Francisco quer imprimir às JMJ um estilo diferente, mais ecuménico, e D. Américo pode ser o homem que pretende para executar isso.

Mas mesmo a decisão de arranjar um cargo para ele em Roma não explica a nomeação cardinalícia, pois uma das marcas do pontificado de Francisco é precisamente que já não existem postos que obrigam à nomeação cardinalícia. Daí que se há uma coisa de que podemos ter a certeza é de que esta decisão do Papa Francisco é um sinal de estima pessoal e um voto de confiança em D. Américo.

Subida meteórica

No meio disto tudo, convém não esquecer que D. Américo ainda não tem 50 anos e que, ainda por cima, a sua foi uma vocação tardia, tendo sido ordenado padre “apenas” aos 27 anos. Ou seja, em 22 anos ele passou de padre recém-ordenado a Cardeal, e tem agora 30 anos como cardeal eleitor, podendo por isso escolher os próximos Papas. Isto não significa que D. Américo seja “papabile”, parece-me muito prematuro falar de tais hipóteses, mas a confirmar-se a sua ida para Roma, e conhecendo o jeito para política, é de esperar que ele venha a desempenhar um papel importante em futuros conclaves, que serão quase certamente mais que um.  

Uma fartura de Cardeais portugueses

O aumento do número de cardeais portugueses durante o pontificado do Papa Francisco é incrível, sobretudo se tivermos em conta que neste pontificado Francisco tem feito questão de escolher cardeais das zonas mais variadas, em detrimento dos países do “velho mundo” católico.

A partir do momento em que D. Américo for elevado ao cardinalato teremos quatro eleitores, durante pelo menos os próximos quatro anos, mas esse número até pode aumentar. Caso D. Américo vá para Roma, o próximo Patriarca de Lisboa deve, segundo a bula “Inter praecipuas apostolici ministerii”, de Clemente XII, de 1737, ser elevado ao cardinalato logo no primeiro consistório a seguir à sua nomeação. É verdade que o Papa está acima das próprias bulas, e no caso de D. Manuel Clemente a elevação foi feita não no primeiro, mas no segundo consistório, já depois de D. José Policarpo ter morrido.

Aqui entram em conflito diferentes tradições e regras. Por um lado, a tal bula, e por outro o costume de não nomear cardeal um arcebispo (neste caso Patriarca) enquanto o seu antecessor ainda for eleitor. Mas a bula tem mais peso do que os costumes, embora nem uma nem os outros obriguem o Papa a nada.

Por enquanto, podemos contar pelo menos com quatro cardeais eleitores, e dois não eleitores. Ora, vejamos isto à luz da actual realidade de países comparáveis com Portugal:

  • A Irlanda, por exemplo, não tem um novo cardeal desde 2007.
  • A Austrália, há 20 anos.
  • Espanha tem, neste momento 12 cardeais, o dobro de Portugal, e vai ter mais dois, nomeados com D. Américo. Eleitores, tem seis e vai passar para oito, também o dobro. Mas Espanha tem quase cinco vezes mais população que Portugal, portanto em proporção pode-se dizer que Portugal tem mais cardeais do que Espanha.
  • A Áustria e a Bélgica têm uma população comparável com a de Portugal e tem apenas um cardeal cada, que é eleitor.
  • O Brasil tem oito cardeais, seis dos quais eleitores, e tem uma população 21 vezes maior que Portugal.
  • Portugal passa a ter mais dois cardeais que o Canadá, e o mesmo número de eleitores, tendo o Canadá quatro vezes mais pessoas que Portugal.

Enfim, percebem a ideia.

Se juntarmos a isto o facto de Portugal estar prestes a receber a segunda visita do Papa Francisco, quando países como Espanha não receberam nenhum, percebemos que Portugal tem tido um tratamento contracorrente neste pontificado, o que é muito interessante.

Thursday, 15 June 2023

Pe. Mário Rui: Afastamento levantado

[Nota: Rigorosamente, o processo ainda não foi arquivado, apenas foram levantadas as restrições ao ministério do Pe. Mário Rui. Contudo, este levantamento indica que o processo será formalmente arquivado muito brevemente. Fica feito o reparo, com o meu pedido de desculpa pela falta de rigor

O processo relativo ao Pe Mário Rui, do Patriarcado de Lisboa, foi arquivado. O arquivamento foi comunicado pelo Patriarca ao próprio na quarta-feira, dia 14, e torna-se pública a partir desta quinta-feira. Não sei se haverá comunicado no site do Patriarcado (se não há, devia haver), mas a informação também me foi confirmada por fonte próxima da Comissão Diocesana e sei que o próprio sacerdote fez questão de enviar uma longa declaração a amigos e paroquianos.

Antes de mais, esta é obviamente uma boa notícia. O arquivamento é sinal de que não foram encontrados quaisquer indícios que corroborem a denúncia anónima que foi feita contra ele à Comissão Independente. Sei que a alegada vítima também nunca se deu a conhecer, por isso não havia qualquer matéria que pudesse levar a que o processo continuasse.

Os textos que eu escrevi sobre o Pe. Mário Rui deram sempre azo a bastante discussão e muitas críticas, o que só atesta a sua enorme popularidade junto de muitos fiéis. Mas sempre fiz questão de dizer que nesta matéria de abusos é importante seguir os processos à letra. Isto implica que era importante investigar esta denúncia, o que foi feito, mas significa também que, uma vez arquivado o processo, esta decisão também deve ser aceite por todos e, por isso, o Pe. Mário Rui deve ser considerado inocente e tratado como tal.

Se bem se recordam, juntamente com o Pe. Mário Rui foram preventivamente afastados mais três padres do Patriarcado de Lisboa. Ao que consegui apurar, os processos destes sacerdotes estão um pouco mais atrasados, daí hoje só ser notícia a conclusão deste.

Em relação a este processo, algumas notas:

O processo decorreu mais ou menos dentro do tempo previsto, de três meses. Em tempo de Igreja, e mesmo em tempo de justiça civil, pode-se dizer que foi rápido e eficaz, dentro das expectativas deixadas por anteriores processos no Patriarcado de Lisboa e não só, o que mostra que as reformas impostas por Roma estão também a funcionar a este nível.

Nestes três meses o que é que se passou? A Comissão Diocesana recebeu do Patriarcado a lista de padres referidos em denúncias e recomendou ao patriarcado o afastamento provisório deste padre em particular, entre outros, para melhor investigação; foram recolhidos alguns dados provisórios e enviados para Roma; o Dicastério para a Doutrina da Fé mandou abrir uma investigação ao nível do Patriarcado e esta decorreu, sem que tivessem sido encontrados outros indícios que validassem quer a denúncia original, quer qualquer outra situação que se enquadre na tipologia de abuso de menores; o processo foi arquivado.

Este é um dado muito significativo. O abuso de menores tende a ser um padrão de comportamento. É raro – embora exista – o abusador que só abusa de um menor em toda a sua vida. Logo, os abusadores tendem a deixar um rasto por onde passam, que pode ser identificável numa investigação. Ora, durante o seu ministério o Pe. Mário Rui esteve muito envolvido em muitos ambientes onde teve contacto com menores, nomeadamente escolas, agrupamentos de escuteiros, movimentos, etc., O facto de, durante a investigação, não se ter encontrado qualquer outro indício para além da denúncia citada pela Comissão Independente, e que por falta de denunciante nunca passou de anónima, abona muito a favor da inocência do acusado.

Com o levantamento do seu afastamento provisório, o Pe. Mário Rui volta agora ao ministério activo, sem qualquer restrição.

Disse, numa primeira instância, que não apreciava o tom e o estilo com que ele escreveu uma primeira declaração, quando soube que era acusado, e mantenho essa minha opinião em relação a esta segunda declaração que ele publica hoje, em que dá conta do arquivamento. Discordo sobretudo das críticas que faz à Comissão Diocesana, que me parece que apenas cumpriu o seu mandato e as orientações vindas do Vaticano. Todo este processo já é suficientemente difícil, não me parece útil nem desejável minar o trabalho dos que foram escolhidos pelo Patriarca para o levar a cabo, por mais que uma pessoa em particular se tenha sentido injustiçado pela acusação que lhe foi feita.

Com este último desenvolvimento, actualizei a lista de casos para reflectir o arquivamento do processo do Pe. Mário Rui e também a cronologia.

Wednesday, 25 January 2023

O palco da JMJ: O que sabemos e o que está por explicar

Desde que o texto original foi publicado, fiz alguns acrescentos que estão a negrito. 

Adenda no dia 27/01
O D. Américo Aguiar deu ontem uma longa conferência de imprensa sobre este assunto. Para mim, o essencial que se tira dessa conferência de imprensa foi que a Igreja não tinha noção do preço desta obra em particular, que os organizadores da JMJ ficaram chocados com o valor e que da parte da Igreja fica o compromisso de ver se há alguma exigência da JMJ que esteja a encarecer a obra e que possa ser dispensada, descendo assim o preço. 
Veremos o que sai dessa análise, mas este parece-me um bom compromisso da Igreja e uma boa posição para assumir. 
E acho que isto mostra também que nós, católicos, não temos de sair sempre em defesa da instituição quando surgem casos destes, muito menos queixarmo-nos de que tudo não passa de um ataque à Igreja, defendendo-a cegamente. Ontem ficou visto que até aos bispos este valor chocou e que se vai fazer os possíveis para diminuir o valor. 
De resto, claro que o palco vai custar dinheiro, mas isso é em grande parte porque a Câmara quer - e se Deus quiser o tempo lhe dará razão - aproveitar a obra para valorizar o espaço e rentabilizá-la ao longo dos anos. 

Já todos ouvimos a notícia. O palco que vai acolher o Papa Francisco para a celebração da missa final da JMJ vai custar 4,2 milhões de euros, mais IVA.

Há várias coisas a sublinhar nesta questão, e algumas perguntas que me parecem estar por responder.

  • O palco vai ser pago pela Câmara Municipal de Lisboa. Não estou com isto a dizer que a Igreja não tem nada a ver com o assunto, claro que tem, mas não faz sentido, como já vi, comentar que o dinheiro fazia mesmo falta era às obras sociais da Igreja Católica, porque se a Câmara não gastasse esta soma aqui, certamente que não a iria doar. Ou seja, não é dinheiro que está a ser tirado da boca dos pobres, pelo menos não dos pobres de quem a Igreja cuida.
  • O evento vai custar muito dinheiro, incluindo muito dinheiro dos contribuintes. Mas espera-se que dê retorno. A vida é assim. Claro que isso não significa que não se deva pedir contas e responsabilizar as pessoas pelas decisões tomadas.
  • Em defesa da obra alguns estão a sublinhar que esta poderá ser aproveitada para eventos futuros. Convém esclarecer, porém, que tanto quanto me foi dado perceber, o que será aproveitado é a pala, e não o palco, ou pelo menos não o palco no formato que terá para a missa. Por isso importaria discriminar o valor da obra. Quanto custa o palco para a missa? E quanto custa a pala? E no meio disto tudo há outros custos? Comissões? Seria importante perceber isto em mais detalhe, porque se a Câmara insiste em gastar 3 milhões de euros numa pala que vai rentabilizar no futuro, isso é um problema da Câmara, mas se o grosso do custo tem a ver com as especificações dadas pela Igreja para o palco, por exemplo, isso já coloca o problema mais do lado da Igreja. Sem saber, não adianta estar a atirar opiniões para o ar. [Já existem algumas respostas a esta questão. Segundo a ECO, pouco mais de um milhão de euros serão gastos na pala, pelo que o restante será, presumo, para o palco. Também a Câmara explicou que o palco também vai ser aproveitado para o futuro, mas "muito redimensionado", ou seja, não se aproveita tudo o que lá está, mas aproveita-se alguma coisa].
  • A Câmara diz que a obra respeita as especificações mandadas pela Igreja. Isso é importante, mas carece de algumas explicações. As especificações eram para a obra toda, ou incluíam a pala, que tudo indica ser a parte mais dispendiosa? Seria possível fazer uma obra respeitando as mesmas especificações, mas mais barato?
  • Uma das especificações que imagino que tenha sido colocada pela Igreja tem a ver com a dimensão do palco. O palco tem de ser alto, para poder ser visto do recinto todo, mas tem de ter aquele tamanho? Ao que consta, o tamanho deve-se ao facto de terem de lá caber todos os bispos esperados. Confirma-se? E não podem os senhores bispos, ou a maior parte deles, ficar uns metros mais abaixo e assim o palco não ter de ser tão grande? É só uma ideia. [Segundo um comunicado feito quarta-feira pela fundação JMJ, o palco tem de suportar 2000 pessoas, mil das quais são bispos. Penso que é legítimo perguntar se seria mesmo necessário os mil bispos estarem no palco? É que certamente permitiria fazer uma obra de uma dimensão muito mais reduzida].
  • Não obstante tudo o que foi dito acima, 4,2 milhões de euros é uma autêntica barbaridade. Claro que eu, como 99% das pessoas que comentam este assunto, não sabia nada sobre palcos e preços de palcos até hoje. Por isso, antes de comentar falei com quem sabe. A opinião dessas pessoas é de que seria possível fazer melhor (no sentido de mais bonito) por muito, muito menos. Foi-me dito ainda que nem este arquitecto, que é funcionário da Câmara, seria o mais adequado para desenhar este tipo de obra, nem a Mota Engil é a empresa mais adequada para a construir. [A Câmara diz que consultou sete empresas e optou pela mais barata. Seria interessante saber quais as outras empresas e se foi consultada alguma empresa especializada em fabricar palcos.]
  • Há uma outra questão que carece de resposta. Num evento que beneficiou de quatro anos de planeamento, porque é que se esperou até tão tarde para avançar com o projecto e adjudicação da obra do palco? Talvez haja razões legítimas. Se calhar não se podia avançar sem ter uma vaga ideia do número de participantes, mas a verdade é que desde o início que se fala de cerca de um milhão. Isto devia ser explicado também, porque a pressa em concluir a obra e a falta de concurso público podem também ter contribuído para o alto preço

Não me parece que estas questões sejam de impossível resposta. A Câmara tem feito algum esforço para vir esclarecer, mas parece-me que há mais para se explicar. A Igreja tem estado em silêncio, o que é mais difícil de compreender, mas deve-se pôr a hipótese de a Igreja não ter dados à mão para vir prestar esclarecimentos, uma vez que o projecto é da Câmara e a despesa é da Câmara. Em todo o caso, politicamente, o silêncio está a tornar-se pesado e convém que alguém diga, rapidamente, alguma coisa em nome da organização da JMJ. [Entretanto surgiu o comunicado da fundação JMJ, acima mencionado e na quinta-feira o D. Américo fez uma longa conferência de imprensa sobre o assunto].

Fica o desafio para todos os que lêem este artigo para contribuírem para estes esclarecimentos, mas com opiniões fundados e factos, porque os achismos não acrescentam nada nesta fase.

Friday, 4 November 2022

Abusos - Um exemplo a seguir

A Arquidiocese de Évora informou esta sexta-feira que o padre que estava suspenso por suspeita de encobrir um caso de abusos não irá a julgamento civil nem canónico. Já o leigo, colaborador da paróquia de Samora Correia, vai ser julgado e encontra-se em prisão domiciliária, impedido de contactar com menores de 16 anos. Os detalhes estão já na cronologia.

Tanto o Tribunal como o Dicastério para a Doutrina da Fé entenderam que o padre poderá ter sido imprudente, por não compreender o risco de reincidência, mas não agiu com dolo nem com intenção de encobrir. 

Isto, pelo que me foi possível acompanhar, é o tratamento exemplar de um caso suspeito por parte da paróquia. Há uma suspeita, suspende-se preventivamente o envolvido, neste caso o padre, colabora-se com as autoridades, junta-se a informação e envia-se para Roma e no espaço de poucos meses está tudo resolvido, com transparência e em pratos limpos.

E isto tem uma vantagem adicional. O padre Heliodoro, que se viu no centro desta polémica, escusa de andar para o resto da vida envolto em suspeitas, porque o caso foi tratado com transparência. Não estou a sugerir que o que ele passou foi agradável, mas parece-me ser melhor que a alternativa, de ser tudo tratado em segredo, ou simplesmente abafado, e ser motivo de sussurros para o resto da vida. 

Um dos problemas evidentes da suspensão imediata preventiva é que se torna uma arma perfeita para vinganças pessoais. Tenho alguma coisa contra o padre Y? Escrevo uma carta, invento uma denúncia e tramo-lhe a vida. 

Mas mesmo isto torna-se mais difícil quando tudo é tratado de forma célere e transparente. Antigamente bastava pôr a circular um boato, e dificilmente ele se livrava para o resto da vida. Hoje, se tudo correr bem, a questão fica esclarecida, e bem, por quem tem o dever e o conhecimento de investigar.

Nem todos os casos serão tão claros, obviamente, mas já é um bom começo e parece-me que a Arquidiocese de Évora deve ser elogiada pela forma como agiu, dando um caso complexo por encerrado - no que ao sacerdote diz respeito - no espaço de menos de quatro meses. 

O mesmo poderia ser dito em relação ao caso do pároco de Massamá, no Patriarcado de Lisboa, que se resolveu de forma ainda mais rápida. 

É este o modelo a seguir! Que as outras dioceses ponham os olhos nestes resultados. 

Morte de D. Daniel, bispo auxiliar de Lisboa

Rezemos por D. Daniel, bispo auxiliar de Lisboa, que morreu esta madrugada depois de uma dura luta contra o cancro .

D. Daniel tinha apenas 56 anos. A sua morte prematura deixa o Patriarcado de Lisboa de luto e deixa o Patriarca, D. Manuel, mais desapoiado no seu trabalho. As nossas orações por ele também, que tanto precisa do nosso apoio. 

Segundo informação enviada pelo Patriarcado:

O corpo chegará à Sé de Lisboa esta sexta-feira, pelas 18h00, e às 21h30, a seu pedido, rezar-se-á a recitação do Terço, com os mistérios gloriosos, seguido do Ofício de Leitura.

A Missa exequial vai ser celebrada amanhã, sábado, às 11h00, na Sé, presidida pelo senhor Patriarca.

O féretro seguirá depois para Santo Isidoro e ficará na igreja paroquial até às 16h00, altura em que seguirá para o cemitério local, onde ficará sepultado.

Friday, 7 October 2022

Nova denúncia de abusos em Lisboa - Massamá

Soube-se esta sexta-feira que um padre pediu a suspensão do seu ministério no Patriarcado de Lisboa no seguimento de ter sido acusado de abuso sexual de menores, numa denúncia feita à Comissão Diocesana de Lisboa. 

Algumas reflexões sobre este caso.

O timing. Já antes critiquei o Patriarcado de Lisboa por falhas na comunicação destas situações, por muitas vezes o fazer em reacção quando sabe que estão prestes a sair notícias ou reportagens sobre os casos que até então eram mantidos em segredo. Argumentei que esta não me parece uma boa política de comunicação, primeiro porque deixa a narrativa nas mãos da imprensa e, segundo, porque não favorece a transparência e pode, eventualmente, facilitar o encobrimento. 

Esperemos para ver se foi o caso agora, mas pelo menos até ao momento não saiu nenhuma reportagem de que eu saiba. Resta perceber porque é que o Patriarcado decidiu divulgar os detalhes deste caso, incluindo o nome do suspeito, hoje, se o caso, como veremos, já tem pelo menos alguns meses.

O nome. Também já critiquei o facto de o Patriarcado não seguir uma linha no que diz respeito à divulgação do nome dos suspeitos. Alguns defendem que é melhor mesmo divulgar sempre o nome, assim evitando lançar uma suspeita sobre todos os outros sacerdotes, mas outros acham que não. Eu próprio não tenho a certeza, vejo vantagens e desvantagens em ambas as abordagens. Mas pelo menos deve haver uma linha. Nos mais recentes casos, nos primeiros dois não se revelou o nome do suspeito (o caso das mensagens impróprias enviadas num grupo de Whatsapp e na suspeita de violação de uma mulher adulta) mas agora revelou-se. [Na primeira versão deste artigo escrevi, por engano, que no caso das mensagens tinha-se revelado o nome. Não foi o caso]. 

O tal "segundo caso"? Quem me tem acompanhado, e a cronologia que mantenho sobre este assunto, sabe que em meados de julho o ex-procurador Souto Moura, que faz parte da comissão diocesana, falou em duas denúncias recebidas pela comissão desde a última vez que tinham sido revelados números, que tinha sido em maio. Uma dessas denúncias, sabia-se já na altura, dizia respeito ao tal caso das mensagens no grupo do Whatsapp, mas não se sabia qual era a segunda. Eu tentei saber alguns dados sobre esse tal segundo caso, sem sucesso. Não obtive sequer resposta ao email que enviei. Mais tarde D. Manuel Clemente, numa carta aberta, confirmou que havia um segundo caso que tinha sido enviado para Roma e que quando viesse uma decisão seriam revelados mais detalhes, tudo bem. 

Será este, então, o segundo caso? Tudo indica que sim. Mas isso levanta uma questão, que se prende com a primeira, do timing. Se os dados só iam ser revelados quando viesse resposta de Roma, então essa resposta já chegou? Se sim, qual foi? Se sim, porque continua em segredo de justiça no foro canónico? Não estou a fazer acusações, simplesmente a levantar questões que padecem de resposta. 

A data da suspensão. Por fim, um dado que pode ser apenas um mal-entendido, mas também pode ser importante, e eu não tenho a informação toda. Souto Moura deu a tal entrevista em meados de julho. Se este é o segundo caso, então isso significa que a Comissão Diocesana recebeu a denúncia pelo menos até ao dia 15 de julho, provavelmente antes. 

Mas a notícia da Renascença diz que o padre pediu a sua própria suspensão da paróquia, onde não comparece "desde agosto". Repito, isto pode ser um mal-entendido. Se calhar o padre deixou de aparecer mal se soube da denúncia, em julho, e a pessoa que falou com a Renascença enganou-se nas datas. É perfeitamente possível. Mas se não foi esse o caso, então como se explica que só se suspendeu em agosto?

Porque é que eu faço estas perguntas? Porque é precisamente nestes detalhes que se joga a transparência na resposta à crise dos abusos na Igreja e como estamos cansados de saber, sem essa transparência o problema apenas tenderá a eternizar-se. 

E já que estamos a falar de transparência... Aqui está a nota do Patriarcado sobre este assunto. Para a encontrar é preciso ir ao separador "Documentos" e depois "Outros Documentos", que é o décimo ítem da lista. Na homepage, só aparece muito lá para baixo, a seguir aos cânticos, aos mais recentes tweets e à agenda.

É possível que surjam respostas a estas questões nos próximos dias. Estarei atento, mas se alguém tiver mais informação, ou se virem noutros órgãos de imprensa mais dados, agradeço que me os façam chegar. 


 Ouça os dois episódios do Hospital de Campanha sobre os abusos em Portugal

Conversa com Pedro Gil - Parte 1

Conversa com Pedro Gil - Parte 2

Tuesday, 2 August 2022

Patriarcado de Lisboa sem direito a Silly Season

Costuma-se dizer que os meses de Verão são “silly season”, em que há escassez de notícias “sérias”. No que diz respeito à Igreja, isso não tem correspondido à verdade.

Em Portugal tem reinado o tema dos abusos sexuais. A acrescentar aos dois casos de que falei no último mail, ressurgiu um caso que radica dos anos 90 e que colocou o Patriarca sob alguma pressão, por não ter comunicado o caso às autoridades.

Estes três casos levantam algumas questões, que abordei neste artigo, deixando também algumas pistas com o objectivo de contribuir para o esclarecimento e melhor abordagem da questão em Portugal.

Hoje publiquei outro artigo no blog, em que analiso um pouco não o artigo que deu origem à mais recente polémica, mas sim a campanha que tem sido feita em torno do Patriarca que parece ter como objectivo pressioná-lo a demitir-se. A meu ver é uma campanha injusta e em nada beneficiaria as vítimas ou a melhoria da situação.

Entretanto tivemos hoje nova polémica, com o Patriarcado a informar que um padre foi suspenso depois de ter sido acusado de violação de uma mulher, maior de idade. A existência e o conteúdo do comunicado parecem indicar que o Patriarcado está a aprender com erros do passado e a apostar numa maior transparência.

E enquanto tudo isto se passava em Portugal, o Papa Francisco esteve no Canadá numa visita que marca uma nova etapa na relação da Igreja com abusos de toda a natureza que foram cometidos contra pessoas vulneráveis. Uma viagem que constitui um “passo fundamental rumo à reconciliação”, diz um bispo canadiano.

Tendo estado num campo de férias a semana toda, não pude acompanhar a viagem como gostaria, mas recomendo este resumo feito pela sempre brilhante Aura Miguel, na Renascença.

Deixo-vos com os dois artigos do The Catholic Thing que foram publicados desde o meu último mail. O do Pe. Jay Scott Newman é uma resposta a um artigo anterior, que também publiquei no blog. Esse artigo argumentava que sendo bom, claro, o conhecimento das escrituras não é essencial para a vida de um cristão. Newman contrapõe que “quem ignora as Escrituras ignora a Cristo”.

O artigo da semana passada é de David Bonagura, que argumenta que neste momento da vida americana, em que o aborto deixou de ser um direito constitucional, é fundamental o movimento pro-vida demonstrar que não defende que as mulheres – que são sempre vítimas também – sejam julgadas e eventualmente encarceradas por abortar. Vale bem a pena ler.

O Hospital de Campanha está de férias, e volta em Setembro, se Deus quiser, mas podem ouvir episódios antigos aqui.

Monday, 1 August 2022

Padre afastado por alegada violação

Actualização

Ao final do dia de segunda-feira a TVI transmitiu uma reportagem em que entrevistou a alegada vítima da violação e identificou o padre em questão. Tendo visto a reportagem fico com dúvidas de que o Patriarcado tenha feito o comunicado apenas por uma questão de transparência, como cheguei a indicar no texto inicial, parecendo antes que continua a prática de apenas lançar comunicados quando sabe que as notícias estão prestes a sair nos meios de comunicação. A alternativa é que a TVI soube do caso pelo comunicado e no próprio dia conseguiu identificar o padre e a vítima e entrevistá-la a tempo do jornal das 20h, o que me parece muito pouco provavel. 


O Patriarcado de Lisboa informa esta segunda-feira que um padre da diocese foi suspenso de actividade por suspeita de violação, e que o caso está entregue às autoridades. 

O comunicado do Patriarcado está aqui.

O caso não envolve um menor de idade, e por isso não é da competência da comissão para a protecção de menores. 

A Renascença diz ter apurado que o caso é de Julho, que a vítima é uma mulher e que os dois se conheciam há vários anos, desde antes da ordenação do sacerdote. 

No meu texto publicado aqui no final da semana passada referi que existia mais uma denúncia na Comissão de Lisboa, mas que não tinha sido tornada pública. Poderá ser este o caso e que, verificando-se que não se tratava de um/a menor de idade, se tenha concluído não ser do âmbito da comissão? Se não for o mesmo caso, então porque razão, mais uma vez, é que este teve direito a um comunicado e o outro não?

Pessoalmente, e sem outras informações, parece-me que serão casos diferentes. Segundo a RR o caso ocorreu em julho e na Carta Aberta do Patriarca lê-se que o tal segundo caso está entregue ao Dicastério da Doutrina da Fé, e que mal haja um desfecho será comunicado. Ora, se o caso foi em Julho acho muito pouco provavel que já tenha ido a Roma e vindo uma resposta em tão pouco tempo. 

Independentemente da resposta a estas perguntas, creio que o Patriarcado fez bem em lançar este comunicado, promovendo a transparência. Veremos se haverá desenvolvimentos.  

Thursday, 28 July 2022

Contributos para uma reflexão sobre a questão dos abusos na Igreja

Há mais de uma década que tenho estado a acompanhar os casos de abusos sexuais cometidos no universo da Igreja Católica em Portugal, mantendo uma cronologia actualizada no blog, que se encontra aqui.

Muita coisa mudou ao longo deste tempo, e nunca a questão foi encarada com tanta seriedade como agora.

Nas últimas semanas houve dois casos, contudo, que são inéditos no contexto português e que desafiam o paradigma até agora instalado, e um terceiro que também levanta algumas questões.

O primeiro caso tem a ver com um padre que foi suspenso não por cometer abusos, mas por não ter agido de forma suficientemente célere e conveniente para evitar que um leigo, com responsabilidades na sua paróquia, os cometesse. Que eu saiba é o primeiro caso deste género em Portugal e mostra que o problema a combater não é apenas o abuso sexual de menores, mas também o encobrimento de situações, ou inacção perante casos conhecidos, mesmo que não sejam praticados por membros do clero. É por isso um caso que deve servir de alerta para todos os sacerdotes e pessoas em posição de responsabilidade na Igreja.

O segundo caso envolve um padre que foi dispensado da actividade pastoral por enviar mensagens inapropriadas num grupo de WhatsApp em que constavam, entre outros, alunos menores, da escola da qual era capelão.

Este caso é relevante na medida em que parece testar os próprios limites do que constitui uma situação susceptível de ser considerada um abuso. Por um lado, o senso comum dir-nos-á que o envio de uma piada de mau gosto (e do que se sabe, estamos a falar disso mesmo), ou a utilização de linguagem discutível, num grupo – seja virtual, seja presencial – não é caso para grande alarme. Por outro, este caso demonstra que a própria definição daquilo que a Igreja, e a sociedade, consideram abusos está em evolução.

Em parte, isto acontece porque muitos abusos sexuais começam com coisas aparentemente inofensivas, e a troca de mensagens é uma delas. Não estou a dizer, de forma alguma, que este caso se enquadra, mas compreendo que num sistema que se quer rigoroso é preciso que mesmo estes casos, uma vez denunciados, sejam investigados pelas comissões diocesanas que têm sido montadas em cada diocese.

Importa, a este respeito, recordar que a averiguação não é nada mais que isso. Estes casos estão a ser averiguados porque houve uma denúncia e têm de ser averiguados. E os padres em questão foram dispensados da actividade pastoral porque, havendo uma investigação, as regras mandam que assim seja. Isso não significa que já tenham sido condenados por o que quer que seja. O melhor mesmo, nesta altura, é deixar as respectivas comissões fazerem o seu trabalho.

O terceiro caso, divulgado no dia 26 de julho pelo Observador, remonta aos anos 90 e diz respeito a um sacerdote que foi acusado de cometer pelo menos um acto de abuso sexual de menores, mas cuja vítima terá pedido a D. Manuel Clemente, quando se encontraram os dois, para não denunciar o caso nem o divulgar, apenas que garantisse que o padre não o pudesse repetir.

Esta situação não é inédita e coloca a Igreja num dilema. Respeitar a vontade da vítima e ficar de mãos atadas quanto à denúncia às autoridades, ou denunciar o caso, expondo assim a vítima e violando a sua vontade, correndo o risco de, com essa atitude, dissuadir outras vítimas de vir falar?

Não é uma questão fácil, mas eu tendo para achar que em todos os casos deve-se denunciar. Mais, num país como Portugal, as dioceses têm contactos suficientemente próximos com as autoridades para poder alertar para um padre sobre quem existe uma suspeita credível, sem expor a vítima, mas permitindo a estas que investiguem para ver se encontram mais dados que apontem para a existência de abusos, eventualmente contra outras vítimas. Claro que estamos a falar de um caso que se passou na década de 90 e esta minha posição é informada por muito do que se passou entretanto, o que pode justificar que há 30 anos a decisão da diocese tenha sido diferente.

Em todo o caso, não nos podemos esquecer que Portugal está a passar agora por uma fase que outros países já atravessaram há muito, e em circunstâncias muito mais graves, e por isso podemos e devemos aprender com essa experiência.

Termino com outra questão que me parece muito importante. O juiz Souto Moura disse, numa entrevista recente, que desde Maio a comissão de Lisboa, a que ele pertence, recebeu denúncias relativas a dois casos. Um é o caso das mensagens, mas o outro não é público, e sabemos que não é o caso reportado agora pelo Observador, porque segundo a Renascença, a comissão diocesana não recebeu qualquer denúncia relativa a este sacerdote. Se o segundo caso referido por Souto Moura não é público, é porque sobre esse caso não foi publicado qualquer comunicado pelo Patriarcado, o que nos deve motivar a pensar sobre a estratégia de comunicação do Patriarcado, e da comissão diocesana, neste campo dos abusos.

Uma das lições mais claras das crises de abusos noutros países é do valor da transparência. No começo, a imprensa era frequentemente apontada como sendo um dos inimigos, por estar a expor publicamente os males na Igreja, mas já se percebeu que isso foi um factor crucial para obrigar a uma mudança de paradigma que coloca as vítimas em primeiro lugar.

Temo que a Igreja em Portugal ainda esteja a olhar para a comunicação e para a transparência nestes casos apenas pela lente da reacção. Se a notícia se torna pública, ou se se sabe que vai tornar-se pública, então sai um comunicado, mas em caso contrário não se fala de nada.

Quando li a entrevista de Souto Moura tentei contactar a comissão diocesana para tentar obter alguns dados. Nunca pedi o nome da pessoa em causa, mas quis saber se se trata de um sacerdote, de um leigo, de um caso recente, de um caso de abusos ou de encobrimento, etc., com o objectivo de poder juntar este caso à cronologia, mas não obtive qualquer resposta, nem sequer uma mensagem a dizer que não pretendiam responder.

Este não me parece ser o caminho a seguir. Sei que não sou o único jornalista a queixar-se disto.

Não é fácil, sei que não é, e sobretudo não é claro. O envio de um comunicado a dizer que um padre foi suspenso pode ser meio caminho andado para que a identidade do mesmo seja revelada, mas o não reconhecimento público da existência sequer do caso é também um factor essencial para facilitar o seu encobrimento. Não estou a acusar ninguém de encobrir, apenas a dizer que é melhor que não existam os pressupostos que o facilitem.

Claro que há quem queira apenas escândalos para vender jornais e “dar clicks”, mas outros há, e julgo que não poucos, que acreditam que a verdade e a transparência, também aqui, nos libertarão.

 

Friday, 1 March 2019

Américo, o auxiliar

Lisboa tem um novo bispo auxiliar. Por acaso é o meu chefe. O Papa nomeou esta sexta-feira o padre Américo Aguiar para ocupar essa função. O agora D. Américo deixou uma mensagem para Lisboa, dirigida especialmente aos jovens, e outra para o Porto, de onde é natural. Em entrevista à Renascença o novo bispo falou da importância de se monitorizar os media, a bem da democracia.

D. Manuel Clemente elogia as “grandes qualidades” do novo bispo e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa acha que ele será um bispo “muito completo”. Até o presidente da Câmara de Lisboa fez questão de saudar a “renovação geracional” que a escolha representa.

Uma das obras mais próximas do coração de D. Américo é a Irmandade da Torre dos Clérigos, cujo restauro ele supervisionou e que muitos dos que comentaram a sua escolha destacaram.

Mudando radicalmente de assunto, os padres portugueses sagraram-se novamente campeões europeus de futsal. A sério malta, já podiam começar a dar oportunidades aos outros…

E já começaram a sair as mensagens de Quaresma! Conheça aqui a do seu bispo, caso já tenha sido divulgada.

Deixo-vos ainda com esta entrevista ao Joaquim Galvão, que quer implementar o dia do Perdão e da Reconciliação, a 1 de Março. Uma excelente iniciativa.


Thursday, 4 January 2018

Os tristes frutos da guerra

Frutos da guerra
Nos últimos dias têm circulado notícias sobre uma investigação da Polícia Judiciária relativa ao desaparecimento de arte sacra na Igreja de Santo Condestável, em Lisboa, sendo um anterior pároco o principal suspeito. O Patriarcado confirma a investigação e diz que “sem precipitar juízos que cabem aos tribunais, cumpra-se a lei e acompanhem-se as pessoas”. Parece ser um bom princípio.

O Papa Francisco e o Patriarca de Lisboa falaram ambos sobre o drama dos refugiados no dia de Ano Novo. Dias antes o Papa Francisco lembrou os verdadeiros frutos da guerra com uma foto histórica verdadeiramente impressionante.

O Santuário do Cristo Rei quer usar a arte para combater a ignorância religiosa.

Mais um atentado em Cabul, esta quinta-feira, reivindicado pelo Estado Islâmico.


Não foi de propósito, mas veio a calhar. Foi em dia de dérbi, quando os ânimos mais se exaltam, que publiquei o artigo do Catholic Thing que nos convida a uma reflexão sobre a ira e como ela se pode tornar um “falso deus”nas nossas vidas. Leiam e sigam os conselhos que vêm no fim. Para terem um ano melhor. 

Friday, 30 June 2017

Desordem no Iraque e ordenações em Lisboa

Miguel Vasconcelos, futuro padre
Domingo é dia de ordenações em Lisboa. São quatro novos padres e quatro diáconos permanentes que passam a estar ao serviço da diocese.


E hoje publiquei o último de quatro artigos sobre o que se vai passar no Iraque depois da libertação de Mossul. Olhamos desta vez para a comunidade Yazidi, que tanto tem sofrido nos últimos anos.

Tuesday, 18 April 2017

Terror no Egipto e miliatares a caminho de Fátima

Militares a caminho de Fátima, fingindo ser servitas...
Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Dificilmente terá sido pior que a de tantos coptas que no Egipto foram vítimas de um brutal duplo atentado no Domingo de Ramos. A Páscoa é uma época em que os terroristas gostam de vitimar cristãos, como aconteceu no ano passado no Paquistão, mas este ano as autoridades paquistanesas e egípcias dizem que impediram vários ataques novos.

São cerca de 100 os militares e familiares que este ano vão peregrinar a Fátima. Conheça mais sobre esta peregrinação muito especial.

Houve uma polémica durante a semana passada sobre as renúncias quaresmais no Patriarcado de Lisboa. Os serviços do patriarcado negam qualquer problema ou mau uso de fundos e dizem onde e como foi gasto o dinheiro desde 2011.

O Patriarca de Lisboa alertou na Quinta-feira Santa para os riscos da manipulação da natureza humana. D. Manuel deu também uma entrevista à Renascença, a propósito dos 80 anos da Rádio, que pode ver aqui.

Veja também a minha entrevista a Santiago, um seminarista Chinês que explica como mesmo antes de nascer os cristãos já são perseguidos naquele país… A transcrição integral da entrevista pode ser lida aqui.

Na quarta-feira passada publiquei um interessantíssimo artigo do Pe. Paul Scalia no The Catholic Thing que, em plena Semana Santa, nos convida a olhar para Judas e vermos até que ponto não temos muito em comum comele. Não deixem de ler, pois é intemporal. 

Wednesday, 29 March 2017

Reno em Portugal e traidores mexicanos

Clicar para aumentar
Começo com um convite. Vem a Portugal o fundador da revista e site First Things. R.R. Reno é uma figura de renome nos EUA, sobretudo no que diz respeito ao papel da religião na vida pública e política. Vai proferir uma conferência na quinta-feira, às 18h30 na Nova de Campolide. O convite está na imagem, não percam!


Portugal vai-se preparando para a vinda do Papa a Fátima. Já está feito o plano de contingência de saúde e de “situações de excepção”.

É possível conciliar a vida profissional e pessoal? Jovens empresários cristãos querem saber…

O Patriarcado tem uma aplicação para potenciar o turismo religioso.

As missões universitárias são um exemplo que pode ser seguido na Europa, considera o padre Duarte da Cunha. Caso será apresentado nestes dias em Barcelona.

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