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Wednesday, 28 April 2021

Momentos Memoráveis no Jardim

Hadley Arkes
O meu falecido professor Leo Strauss insistia que não há na Bíblia qualquer ensinamento distinto sobre “natureza”, nem direitos que derivam da natureza. Também não conseguia encontrar a presença do “direito natural” nem de um raciocínio moral que permitisse aceder à verdade moral, para além da “revelação”.

Mas o aspecto central do Judaísmo é a aliança entre Deus e Abraão e só existe um tipo de criatura que tem, pela sua própria natureza, a capacidade de pesar o bem a retirar de qualquer contrato, promessa feita ou compromisso, e depois honrar esse compromisso mesmo quando deixa de ser no seu interesse ou da sua vontade.

Quanto ao raciocínio moral do direito natural, a negociação entre Abraão e Deus sobre o destino de Sodoma e Gomorra é um incidente indicativo. “Não deve o Juiz de todo o universo fazer o bem?” Será que Ele destruirá os retos com os maus?

Se todo o nosso entendimento moral derivasse unicamente da revelação, então estaria Abraão a sugerir que Deus não tinha entendido bem as implicações da sua própria revelação? Ou estaria a apelar a um conjunto de princípios ou verdades morais que até Deus respeitaria, e que tinha adoptado para si?

Esse entendimento da Aliança era central para o significado do Judaísmo e do povo judeu. Jesus, na Última Ceia, estabelece uma nova aliança, mas como foi observado por Joseph Weiler, a noção de aliança manteve-se central para cristãos e para judeus – e para a compreensão de Deus.

Uma aliança, ou um contrato, implica a existência de duas ou mais partes com igual capacidade para contratar. Pode haver uma disparidade enorme entre poder e carácter, mas a questão está em saber se os homens, como foram criados por Deus, tinham a capacidade de medir o “bem” que poderiam ganhar com este acordo; sobre se estavam a dar o seu “consentimento” informado; e se poderiam ser responsabilizados por honrar o compromisso, manter a promessa.

O esquema dependia, então, de Deus ter diante de Si aquelas criaturas que tinha criado como “agentes morais”. A sua conduta não seria “determinada” por forças exteriores ao seu controlo. Elas tinham a liberdade de fazer escolhas e de serem responsabilizadas por elas.

Deus “propôs” uma aliança e estava a lidar com seres que tinham a liberdade de a aceitar ou rejeitar. Sem esse dado central, diz Weiler, Deus não teria mais interesse nessa aliança do que teria numa aliança com cães e cavalos, pois não estaria a lidar com Seres Humanos plenos. Ele não interviria para evitar que eles cometessem erros, ou maldades, porque não era o seu desejo criar um mundo de robots.

O mesmo Weiler tinha confrontado os líderes da União Europeia com a necessidade de fazerem as suas próprias e necessárias escolhas acerca de Deus. Nessa altura ele era já o mais competente estudioso de direito internacional e comparado. Nasceu na África do Sul, de uma linha de 500 anos de rabinos; fez os seus estudos em Cambridge e na Haia e no Instituto Universitário Europeu, em Florença. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas.

Enquanto consultor para a Convenção para o Futuro da Europa, conquistou os corações de muitos de nós. Weiler, um judeu ortodoxo, liderou a oposição ao movimento para purgar qualquer referência à tradição cristã da Constituição da União Europeia. Esse caminho não augurava nada de bom para judeus ou cristãos – nem ninguém.

Adão e Eva
Em resposta foi-lhe dito que isso minaria o carácter “secular” da União, e a sua “neutralidade” religiosa. Mas o que é que estava a ser minado? Como explicou Weiler, a liberdade de culto prevalecia mesmo em países com Igrejas oficiais (como Inglaterra e Dinamarca).

Foi então que colocou ao Presidente da Convenção esta questão acutilante: Porque é que a posição por defeito devia ser o laicismo? Metade das pessoas na Europa viviam em Estados cujas constituições faziam referência explícita a Deus, por isso porque é que essa não havia de ser a posição por defeito?

Weiler argumentou que a neutralidade era uma posição falsa e impossível. A escolha aqui, disse ele, era binária: “sim a Deus, ou não a Deus. Porque é que a exclusão de Deus seria mais neutra que a sua inclusão? Trata-se do favorecimento de uma mundivisão, o secularismo, acima de outra mundivisão, a religiosidade, mas neste caso é um secularismo disfarçado de neutralidade”.

Num recente encontro, Weiler regressou à sua insistência na centralidade desse “agente moral” que estabelece uma Aliança. Mas se Eva e Adão não tivessem qualquer conhecimento do bem e do mal antes de terem comido da árvore, como é que poderiam ser culpabilizados – e punidos?

Aqui Weiler oferece uma perspetiva muito diferente: Essa mão estendida para a maçã “impele Eva rumo à sua vocação humana plena – para viver e compreender-se enquanto agente moral… Para completar a sua criação à imagem de Deus”.

E dessa perspectiva, aquilo que até agora deve ser visto como a Queda de Adão e Eva pode ser descrito como a sua Ascensão. E a punição deve ser vista a uma luz bem diferente: “A tristeza é necessária para apreciar a alegria… a morte é aquilo que nos permite apreciar a vida” enquanto dom de Deus. Se fossemos programados para nunca fazer coisas más, jamais poderíamos alcançar a grandeza de conhecer e amar o “bem”.

Nas palavras do nosso querido falecido Michael Novak, esta é uma “Igrejas dos pecadores, pelos pecadores e para os pecadores”. Henry James recordou um Domingo em Roma, na Basílica de São Pedro, a ouvir música e a contemplar a cena, e disse que “a imensidão clara do local protegia a conversa e até o mexerico. A imagem não era a de um templo em particular, mas de ser formada pelas próprias paredes de uma fé que não estava para impor pequenos pudores”.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 20 de Abril de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 30 October 2019

Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


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Wednesday, 26 October 2016

Secularismo: Um Sistema Feito para Falhar

São João Paulo II, cuja festa celebrámos sábado passado, disse e fez muitas coisas que serão recordadas durante anos fora da Igreja. Mas recentemente li uma frase dele na interessante autobiografia de Michael Novak, de 2013, “Writing from Left to Right” que me apanhou de surpresa. Depois de um jantar no Vaticano, Novak congratulou o Papa pela queda do Comunismo. João Paulo respondeu mais ou menos nestes termos (Novak cita de memória), “livrar-nos desse sistema absurdo não foi milagre nenhum. Era uma questão de tempo. Foi feito para falhar.”

Os soviéticos tinham um grande exército; mais armas nucleares do que os Estados Unidos; um sistema policial e aparelho de Estado impiedosos; países satélite na Europa de Leste e Central; entrepostos em Cuba, África, Ásia e América Central e uma rede de simpatizantes comunistas e aliados à volta do mundo, incluindo os Estados Unidos. E contudo, à medida que o tempo passava e a sua incompatibilidade com o divino e o humano se revelava, tudo virou pó.

Claro que para isso contribuiu também a enorme coragem de muitas pessoas, como Solzhenitsyn, Sharansky, Havel, Walesa e muitos outros – incluindo mártires como o padre Jerzy Popieulsko, compatriota de Karol Wojtyla e milhares de outros nos campos de concentração e nas gulags. Ainda assim, o comentário feito por João Paulo II – em privado, sem cerimónias, como se estivesse simplesmente a afirmar o óbvio – mostra, de forma muito resumida, como um espírito profundo olhava para uma força maligna que – de acordo com a bitola meramente mundana do poder – podia ter durado indefinidamente: “Era uma questão de tempo. Foi feito para falhar”.

Nos nossos dias a América foi tomada por um secularismo ideológico e agressivo que parece estar a tornar-se norma do Ocidente e ter vindo para ficar por tempos indeterminados – uma marcha em câmara lenta rumo a um novo socialismo desumano. (Sendo que o actual espectáculo eleitoral não dá qualquer indício de produzir um resultado capaz de o combater). Por isso é bom recordar por que razão este tipo de sistema tem tudo para – provavelmente mais a curto prazo do que a longo – falhar.

Claro que há amplas razões humanas e culturais pelas quais o humanismo ideológico não é compatível com uma vida humana plena. Mas primeiro pensei que poderia ser útil ver umas provas concretas. A sempre útil Pew Research Center conduz estudos equilibrados e bem feitos da religião na vida pública. O seu estudo global, por exemplo, revela que os “nones”, ou seja, aqueles que não professam qualquer religião (e, por alguma razão, os budistas), têm as taxas mais baixas de nascença, muito abaixo da taxa de substituição, enquanto os cristãos e os muçulmanos têm as mais altas. Embora haja previsão de os “nones” crescerem um pouco nas próximas décadas, vão diminuir bruscamente enquanto percentagem da população global. Cristãos e muçulmanos serão, cada um, um terço da população mundial em 2100.

Na América os padrões são um bocado piores que o cenário global: Os “nones” devem continuar a crescer até serem cerca de 25%, mas os cristãos continuarão a constituir 66% da população do país em 2050 (um bocado abaixo dos 70% actuais).

A Pew limita-se, e bem, a analisar números. Mas que tipo de cristãos e de “nones” é que teremos em 2050? Essa é que é a questão central. Desde que cheguei a Washington nos anos 80, quando a religiosidade estava em ascensão, já vi como as tendências podem mudar. O Espírito sopra onde quer e à medida que as vidas dos “nones” se tornam mais e mais inegavelmente insípidas, como já acontece em partes da Europa, poderemos ser surpreendidos por ressurgimentos repentinos.

Tudo virou pó
Na encíclica Rerum Novarum, de 1891 – o texto fundacional da doutrina social católica dos tempos modernos – Leão XIII listou várias razões pelas quais o socialismo estava destinado a falhar. Ele sabia que (por enquanto) o fenómeno estava a aumentar, mas sabia também que era preciso chamar a atenção para os seus profundos erros sobre os seres humanos e a sociedade.

Podemos fazer o mesmo hoje com o inevitável fracasso do humanismo militante:

·         Sem a crença numa dignidade humana que radica no Criador, como se lê na nossa Declaração de Independência, não existe qualquer base para uma sociedade livre para além da fraca mentalidade de “viver e deixar viver”, que deixará de ter qualquer utilidade a partir do momento em que um grupo ou pessoa se torna suficientemente poderosa para dizer “vive assim, ou morre”.

·         Isto é, aliás, precisamente o que estamos a ver nas sociedades democráticas avançadas, um regime autoritário de direitos – alguns absurdos e novos como o casamento homossexual e as normas de casas de banho para transgéneros – que negam não só a história, a razão, a religião e a biologia, mas até o senso comum.

·         Tal como na antiga União Soviética, o regime levará a cabo esforços cada vez mais agressivos para sustentar uma visão da pessoa e da sociedade que na verdade se mina a si própria, mas trata-se de uma proposição falhada. Mesmo os pagãos sabiam que ser pode “expulsar a Natureza com uma forquilha, mas ela volta sempre”.

·         Que as Igrejas e as instituições formadoras de cultura, tais como as universidades e os media, parecem incapazes de compreender esta tendência, ou estão mesmo comprometidos com ela, é irritante. Mas no final de contas pouco importa. Quando o ciclo se completar, voltarão a cumprir as suas funções mais nobres.

·         Os secularistas militantes pensam que não estão a fazer nem mais nem menos do que ajudar a conduzir a história no rumo certo. Mas não existe um simples rumo. O desapontamento com os resultados – tal como aconteceu quando o a história não conduziu inevitavelmente ao “socialismo científico” – poderá bem ser o maior impulso para um renovamento espiritual.

Podíamos continuar, mas vocês percebem a ideia.

Claro que não sei quando é que tudo isto vai passar, mas para saber que falhará basta ter a confiança revelada por João Paulo II de que existe um Deus e uma natureza humana; que as sociedades, por mais decaídas, não o estão para sempre nem se encontram para lá da salvação; que os esquemas que são feitos para falhar, falharão.

O nosso desafio passa por ter o cuidado de viver bem entretanto e preparar-nos – e os espaços em redor – para o que inevitavelmente seguirá. 


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Outubro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 14 October 2015

Religião, Violência e Preconceito Ignorante

Randall Smith
Ligaram-me de um dos gabinetes de “relações públicas” da minha universidade, esta semana, a perguntar se poderia falar com um jornalista de uma estação de televisão local sobre o tiroteio na escola de Oregon.

“Porque é que querem um teólogo?”

“Porque o atirador poderá ter seleccionado as suas vítimas por serem religiosas.”

Como muitas outras, a nossa faculdade quer que os docentes aceitem estas entrevistas para que o nome da instituição apareça na televisão e as pessoas saibam que ela existe. Noutras universidades querem que os docentes dêem entrevistas para parecerem “peritos”, mas quem tiver essas expectativas terá uma grande desilusão. Os jornalistas não querem mais do que seis segundos do que quer que se seja sobre um assunto, normalmente os seis segundos mais banais e pouco esclarecedores que consigam encontrar. Assim, um perito sobre padrões de votação dirá, sagazmente: “E por isso é importante que todos votem”.

A avó dele poderia ter dito o mesmo. Mas eles vieram até à faculdade, montaram o equipamento, procuraram um bom ângulo para a câmara e filmaram-no a fazer meia dúzia de comentários inteligentes para que pudessem ficar com os seis segundos em que diz o que qualquer outra pessoa poderia ter dito. Essa frase é, provavelmente, o que eles queriam que ele dissesse à partida. Mais valia terem arranjado bonecos de ventríloquo da Disney, poupava-lhes tempo.

Mas precisamos da publicidade gratuita e eu respeito isso, por isso tento dizer que sim sempre que possível e penso num bom local para fazer a entrevista, onde o “camera man” possa obter uma boa imagem do campus. Sei que eles só procuram um “sound bite”, por isso quando aparecem digo ao jornalista: “Posso dizer estas duas frases. Se quer alguma delas então vamos despachar isto”. Normalmente ficam todos contentes, porque como eu eles também não querem perder o seu tempo, uma vez que ainda têm de voltar para a estação, editar e publicar a reportagem. Estão-se nas tintas para o que eu tenho a dizer e eu estou-me nas tintas para o facto de eles estarem nas tintas, desde que não se enganem no nome da universidade e a filmem (e na medida do possível a mim) de um ângulo lisonjeador.

Por isso quando apareceu a jornalista eu tinha um local seleccionado e estava pronto para ela me perguntar sobre este tipo que tinha morto pessoas religiosas. Estava preparado para dizer que é cedo na investigação e que não devemos chegar a conclusões precipitadas; que as pessoas tendem a tornar estas tragédias ideológicas, mas que devíamos ser pacientes e esperar pelos factos; que no massacre de Columbine um dos atiradores tinha perguntado a uma rapariga se era cristã e que quando ela disse que sim ele disparou sobre ela, mas que os investigadores não concluíram que o tiroteio tinha sido o resultado de ódio anticristão. Ia-lhe dizer que, quando pessoas loucas fazem coisas loucas, tirar conclusões rápidas sobre as suas “razões” – como se não fossem loucas – é um erro de palmatória.

Resumindo, ia tentar evitar tornar isto uma questão ideológica sobre o ódio de crentes por parte de secularistas, em primeiro lugar porque não havia provas para suportar essa conclusão e também porque me parece perigoso retirar conclusões gerais destas situações trágicas, para além da conclusão óbvia de claramente não estarmos a lidar com estes indivíduos perturbados da maneira certa. Parti do princípio que a jornalista encontraria algo relativamente inócuo para retirar disso tudo – provavelmente a última frase sobre o tratamento inadequado, que qualquer pessoa poderia ter dito.

Foi por isso com total surpresa que, depois de tudo montado, ela me perguntou: “Porque é que a religião causa tanta violência?”

Vigília pelas vítimas do tiroteio no Oregon
Espera… O quê? Este tipo entrou numa universidade e disparou sobre pessoas porque eram religiosas, e ela queria saber porque é que a religião causa violência? Isso é como perguntar o que é que as mulheres têm que as tende a tornar vítimas de violação?

Um dos meus colegas diz que eu deveria ter respondido: “Mas você está a culpar as vítimas?” É uma boa frase, devo admitir, mas ela teria simplesmente cortado essa parte, como faria se eu tivesse dito “o que é que torna os secularistas tão intolerantes e predispostos à violência?”

Por isso disse-lhe que, embora qualquer coisa possa ser usada para fins malévolos, a religião não é mais causa de violência que muitas outras coisas, como nacionalismo, xenofobia ou várias formas de utopia.

“Mas”, insistia ela, uma e outra vez, “não acha que a religião é particularmente uma causa de violência?”. Pensei para mim: “Espero que ela não esteja a pensar ir à mesquita mais próxima fazer as mesmas perguntas”. Não estava.

“Porque é que a religião é tão fracturante?”, quis saber. Disse-lhe que o Papa Francisco acabara de discursar diante de uma sessão conjunta do Congresso e que e esse episódio não tinha parecido particularmente “fracturante”. Pelo contrário, os congressistas pareciam mais conciliadores do que em qualquer altura dos últimos anos.

Claramente, esta mulher ouvia as palavras “violência” e “religião” e não conseguia senão juntá-las, partindo do princípio que uma era a causa da outra.

Nesse espírito, considerem os seguintes pares de palavras:

Negros/Problemas
Estrangeiros/Perigo
Mulheres/Fraqueza

Se alguém ligasse automaticamente a primeira palavra à segunda, saberíamos o que concluir sobre o assunto. Preconceito ignorante.

Teria isso dado um “sound-bite apropriado”? “Desculpa, minha senhora, mas não percebe que a sua pergunta a revela como uma preconceituosa ignorante?”

Olhando para trás, talvez devesse ter optado pelo “mas você está a culpar as vítimas?” e depois assegurado que estava a conseguir captar boas imagens das roseiras.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 8 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 May 2015

Pensemos livremente, mas todos da mesma maneira!

Perigo! Esta imagem pode impedi-lo de pensar livremente
O Papa Francisco vai encontrar-se com o presidente Raul Castro, de Cuba. Será no domingo e é a primeira vez que um presidente comunista de Cuba se dirige ao Vaticano.

Hoje o Papa Francisco elogiou os homens e as mulheres que se casam, dizendo que são “um recurso essencial para a Igreja e para o mundo”. Obrigado Santo Padre, também gostamos muito de si.

Ontem foi apresentado o calendário para o jubileu da misericórdia. Há eventos para todos, mas destaque especial para as periferias, como não podia deixar de ser.

Não sei de vocês, mas eu irrito-me imenso quando passo por uma estátua que me impede de pensar livremente, é uma grande maçada. Felizmente podemos agradecer à Federação Nacional do Livre Pensamento, em França, que está a mandar retirar essas estátuas irritantes, sobretudo as que incluem cruzes. Assim, com as nossas sociedades livres de cruzes, imagens de Nossa Senhora e estátuas do Papa, podemos todos pensar livremente, desde que pensemos da mesma forma…

Na China, por exemplo, há poucas imagens religiosas e por isso existe liberdade de pensamento. Tanta que o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros é livre de pensar que o seu país respeita e até promove a liberdade religiosa.

Mas há também boas notícias. Ao que parece o Boko Haram poderá estar a sofrer de fortes divisões internas e insatisfação entre os militantes.

Termino com a referência habitual ao artigo desta semana do The Catholic Thing. Anthony Esolen recorda as várias vezes em que os defensores da revolução sexual nos prometeram que as inovações que defendem não vão ter qualquer efeito nocivo para a sociedade, e todas as vezes em que se enganaram, e pergunta: “Porque é que havemos de confiar neles agora?

Wednesday, 18 February 2015

Redescobrindo a nossa verdadeira natureza humana

Pe. Bevil Bramwell
Estas últimas semanas têm sido terrivelmente tristes. Primeiro, houve os eventos horríveis em Paris, depois a destruição de igrejas no Níger, a morte de 2000 pessoas na Nigéria e comunidades religiosas atacadas no Médio Oriente. E isso foi só o início. Esta semana 21 cristãos coptas, trabalhadores egípcios na Líbia, foram decapitados por o que parece ser um novo ramo do Estado Islâmico e ainda ontem mais de 40 pessoas foram queimadas vivas pelo Estado Islâmico propriamente dito no Norte do Iraque.

Temos dificuldade em saber onde procurar respostas sobre o que fazer em relação a esta matança. Parte do problema é o facto de, no Ocidente, estarmos confusos sobre aquilo em que realmente acreditamos. Mas talvez as aberrações a que estamos a assistir nos forcem a pensar mais claramente sobre aquilo que defendemos, e porquê.

Numa entrevista com a “Meet the Press”, por exemplo, o editor sobrevivente da “Charlie Hebdo”, Gerard Biard, descreveu da seguinte forma a mais recente caricatura de Maomé naquela revista: “É o símbolo da liberdade de expressão, da liberdade religiosa, de democracia e secularismo”.

Com todo o respeito pela sua tristeza e pelo seu sofrimento, é incrível como aquilo que ele diz – e que muitos dos nossos conterrâneos dizem também – está dependente de definições idiossincráticas de liberdade, expressão, religião, democracia e secularismo. Tudo abstracções desenraizadas. Estamos a falar de liberdade jurídica, ou liberdade moral? Liberdade em relação a pessoas concretas? O que é que Biard entende por religião? E nós?

Mas existe uma referência autoritária. O documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, diz o seguinte: “Mas é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem.”

Bastam estas frases para que as palavras de Biard se dissolvam. Por exemplo, que “liberdade” é esta que humilha a religião de outra pessoa, não de uma maneira útil que possa servir para remediar aberrações, mas em termos ordinários e sexuais? Em tantos contextos, hoje, há certamente um bem maior a procurar. Quão baixo temos de descer para arranjar emprego, encontrar clientes, divertirmo-nos ou fazer programas de televisão?

Depois, temos a própria natureza da expressão. A Carta aos Efésios diz claramente: “Nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam.”

Eis a chave que explica porque é que precisamos de liberdade de expressão: Boa expressão. A expressão que procura o bem é composta por palavras edificantes. Isto é liberdade enquanto espaço para procurar o bem, que é Deus. Esta liberdade expressa a imagem divina em nós mesmos e reconhece a imagem divina nos outros.

Adão e Eva exercem a sua liberdade...
Para além disto, não são só os indivíduos que têm direitos, as comunidades humanas também têm. As comunidades precisam de pessoas que procurem activamente o bem – e não apenas o seu bem. Precisam de pessoas que vejam os outros como imagem de Deus e, por isso, como merecedores de um respeito que ultrapassa todas as outras considerações. Não é esta a verdadeira base da democracia? Os pais fundadores da América, todos eles, pensavam que sim.

O principal problema com a maioria das versões actuais de liberdade é o facto de assentarem numa visão do homem como não-relacional. Isto é, não têm respeito pelo facto de que cada pessoa humana existe em relação a outras. (E, no fim de contas, em relação a Deus, não como uma opção extra para aqueles que escolhem não ser “progressistas”, mas como parte essencial daquilo que somos.) A consideração subjacente para muitos dos nossos contemporâneos é de que o homem é uma entidade fechada, auto-sustentável e não um sujeito de relações.

O respeito pela “Liberdade de expressão, liberdade religiosa, de democracia e secularismo”, devia significar o respeito por todas as relações envolvidas nesses assuntos. Não o fazer é uma forma de violência. Não é, claramente, a violência brutal dos jihadistas, mas é uma violência à qual nos habituámos, por causa da nossa cegueira. A expressão – seja falada, escrita ou desenhada – pode ser uma forma de violência na medida em que viola a integridade e dignidade de outra pessoa enquanto imagem do divino.

A essência de uma sociedade individualista passa por evitar, deliberadamente, os valores comuns e altivos, garantindo que estes nunca se desenvolvam. Na melhor das hipóteses, as palavras abstractas tornam-se caixas vazias nas quais as elites podem enfiar os seus próprios significados. Podem ser arbitrários e contraditórios porque não precisam de respeitar os direitos e os deveres das relações.

Hoje existem muitas formas de ofender as relações humanas. Pascal disse que, tendo perdido a nossa natureza humana através do pecado, qualquer coisa se pode tornar nossa natureza. Mas será que o individualismo, sem qualquer restrição de natureza relacional, é o tipo de natureza que queremos promover actualmente?


(Publicado pela primeira vez no quarta-feira, 18 de Fevereiro 2015 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 26 November 2014

Os Limites da Era Secular


Randall Smith
O filósofo católico Rémi Brague, vencedor do prestigiado Prémio Ratzinger, esteve na minha universidade a semana passada. O francês é daqueles oradores que adora fazer comentários interessantes à margem do tema, uma característica que aprecio bastante. Num destes comentários mencionou que os “seculares” são aqueles cujas vidas se definem por um horizonte de 100 anos. “A palavra 'secular' não quer dizer mais que isso”, afirmou.

Nunca tinha pensado na palavra “secular” ou o seu antecessor saeculum desta forma, uma vez que a sua raiz cent- (de centum, que significa cem), não aparece. Por isso fui investigar.

Então descobri o seguinte. Na antiguidade romana um saeculum era considerado um tempo mais ou menos equivalente à vida de uma pessoa, ou os anos necessários para renovar completamente a população humana. De quanto tempo estamos a falar?

As opiniões divergem, mas durante a era de César Augusto os romanos estabeleceram que um saeculum eram 110 anos. As gerações seguintes ficaram-se por 100 certos e, em resultado disso, nas línguas românicas, as palavras derivadas de saeculum passaram a significar “um século”, como é o caso de siglo, em espanhol, secolo em italiano e siècle, em francês. Por isso o Prof. Brague tinha toda a razão quando dizia que a palavra “secular” tem a ver com “cem anos”, embora a relação seja mais clara em francês do que em inglês.

Consideremos então, a diferença entre uma visão “secular” do mundo, por oposição a uma visão ancorada na “eternidade” (in saecula saeculorum). Se vivesse na Europa de Leste em 1940, por exemplo, podia perfeitamente ouvir alguém dizer: “O Cristianismo está acabado: o comunismo é o futuro”. Ou então digamos que vivia na Roma de César Augusto, poderia perfeitamente ouvir dizer que “O futuro está com o Império Romano e não com um qualquer carpinteiro judeu crucificado”.

Sejamos justos, ambos os comentários fariam todo o sentido da perspectiva de uma pessoa a extrapolar com base na sua própria vida. Mas a extrapolação, como os cientistas bem sabem, pode ser uma coisa arriscada.

As pessoas tendem a dizer: “Não queres ficar do lado errado da história”. Ao que eu respondo: “Se tivesse vivido numa altura em que “ficar do lado errado da história significava recusar filiar-me no Partido Comunista na Polónia, então sim, eu preferia ficar do lado errado. E daqui a 200 anos quero que fique bem claro que eu escolhi um caminho diferente daquele que foi traçado pelas forças, supostamente irresistíveis, da 'história', que relativizaram ou suprimiram a dignidade humana em nome da marcha do 'progresso'”.

De uma perspectiva utilitarista dos próximos duzentos anos, compreende-se a afirmação: “Pensa nos bons resultados que podemos obter através da morte deste embrião.” Compreende-se como uma afirmação dessas possa ser tentadora no caso de nos dizerem que poderia conduzir a uma cura para o Alzheimers, por exemplo, ainda durante a nossa vida.

Mas, de uma perspectiva da eternidade, do ponto de vista de Deus, por assim dizer, uma vida inocente tem um valor infinito. Essa alma é eterna ao contrário de tudo aquilo que neste momento nos parece ser de valor – enriquecer, criar grandes negócios, fazer a próxima grande descoberta no ramo da ciência e tecnologia – estas coisas, como o Império Romano e como o grande movimento marxista, passarão com o tempo. 
 
Rémi Brague
Um dos benefícios de olhar para a história contemporânea de uma perspectiva da eternidade (ou, para sermos francos, de uma perspectiva histórica que ultrapasse as últimas centenas de anos) é o facto de se perceber mais claramente o quão efémera a história “secular” pode ser. “Também isto passará”. O Império Romano e os césares passaram. Os czares da Europa também. E a União Soviética. Alguns acreditam que, qualquer dia, o aborto, a eutanásia e a destruição de embriões para experiências em células estaminais, serão encaradas como hoje encaramos as leis de separação racial e a escravatura: aberrações trágicas da história.

E porém, embora a história possa de facto ser efémera, olhá-la do ponto de vista cristão fornece uma perspectiva da qual a podemos valorizar, mesmo com todas as suas limitações. Não vamos estabelecer o reino de Deus na terra, mas cada acto, cada escolha, tem uma importância infinita na eternidade.

As eras “seculares” tendem a dedicar-se a utopias que são inalcançáveis e que frequentemente dão aso a actos trágicos de desumanidade, animados pela esperança de realizar sonhos impossíveis. Quando estas esperanças se revelam ilusórias, o que sempre acontece, são substituídas por um sentido trágico de cinismo e niilismo. Se tudo o que procuramos alcançar vai desaparecer dentro de uma centena de anos, porquê o esforço?

O mundo moderno “secular” baloiça assim para a frente e para trás, de forma esquizofrénica, entre as esperanças ingénuas por projectos utópicos ilusórios e os medos niilisticos de que simplesmente não vale a pena viver. Para contrariar este “secularismo”, precisamos de uma narrativa que explique porque é que a vida humana, limitada como é, é boa – que viver vale a pena, mesmo que a vida seja limitada e terrivelmente imperfeita. Deus, ao enviar o seu filho unigénito, mostra-nos como o mundo é bom, como a vida é boa, mesmo no seu estado decaído.

O problema do “secularismo” não é o facto de ser demasiado “mundano”. O Cristianismo preocupa-se profundamente com o mundo: diz-nos que Deus sacrificou o seu único filho pelo mundo. O problema com o “secularismo” é que a sua visão do mundo é demasiado limitada, demasiado “bidimensional”. Num mundo bidimensional só conseguimos ver o que está à nossa frente e o que está atrás. Seria fácil concluir a partir desse ângulo que toda a página está recheada de rabiscos caóticos. É preciso subir um pouco para poder olhar de cima e ver que afinal se trata de um belíssimo desenho. Ou então é preciso ter fé no Artista.

Em Cristo o temporal e o eterno encontram-se e é nesse casamento que se encontra a salvação do mundo e a única verdadeira esperança da história.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 19 de Novembro 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 6 December 2013

A Alegria do Evangelho - A Igreja no Mundo

A Igreja na Praça pública...
Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. (#182)

Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco de Assis e da Beata Teresa de Calcutá? (#183)
Bravo Papa Francisco! Nada como meter o dedo na ferida.

Aliás, o próprio Papa Francisco está, paradoxalmente e contra a sua vontade, a ser o maior exemplo do que acaba de criticar!

Bento XVI ou o Patriarca de Lisboa criticam o aborto ou os excessos da secularismo anti-religioso? Lá estão os padrecos a meterem-se onde não devem, diz os mesmos do costume.

Papa Francisco critica o sistema económico internacional? Finalmente a Igreja a falar sobre questões importantes para a sociedade! Não percebem a contradição? E não pensem que é só uma questão da esquerda e dos liberais, embora seja sobretudo. Há forças conservadoras que fazem exactamente o mesmo, batendo palmas cada vez que a Igreja condena os males morais, mas rasgando as vestes quando o Papa fala de economia.

Um são pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que pensam diferente e os valorizem como tais, não implica uma privatização das religiões, com a pretensão de as reduzir ao silêncio e à obscuridade da consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto fechado das igrejas, sinagogas ou mesquitas. (...) O respeito devido às minorias de agnósticos ou de não-crentes não se deve impor de maneira arbitrária que silencie as convicções de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradições religiosas. (#255)
Porque é precisamente disto que se trata. Passámos da liberdade religiosa para a liberdade da religião, no sentido de as pessoas serem “livres da religião”. Bento XVI sempre disse que a Igreja não procura impor a sua mensagem, mas propor. Ninguém tem o direito de a impedir de o fazer.


Tuesday, 15 January 2013

Secularismo 3 - Liberdade Religiosa 1

"George Clooney de São Pedro"
A notícia do dia é o facto de o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem terem dado razão ao Reino Unido no caso de três pessoas despedidas por causa das suas crenças religiosas. Uma quarta queixosa venceu o seu caso. Secularismo 3 – Liberdade Religiosa 1.


Num tom mais leve, o secretário pessoal do Papa é capa da edição italiana da Vanity Fair. “Padre Georg – Ser bonito não é pecado” é a manchete… enfim.

A diocese de Évora lançou as redes com as quais espera apanhar novos trabalhadores para a messe.


Por fim, numa notícia da Renascença, da semana passada, falava-se de uma adventista do sétimo dia, que foi a tribunal para não ter de trabalhar ao sábado. No artigo falámos com uma socióloga especializada em religião. Por erro meu, identificava-se Helena Vilaça como sendo também adventista do sétimo dia. Isso partiu de uma confusão minha e já foi corrigido na notícia original. Sei que o erro causou-lhe algum incómodo, e bastante confusão a quem a conhece, e por isso peço as maiores desculpas.

Monday, 8 October 2012

Tsunami de secularismo afoga cristãos mornos

O tsunami do secularismo, ou Carcavelos hoje de manhã?

O ex-mordomo do Papa foi condenado a 18 meses de prisão. Vários observadores do Vaticano esperam agora que Bento XVI indulte o seu antigo funcionário, veremos.


E na Arábia Saudita os temidos polícias religiosos vão passar a ter menos poderes. Nomeadamente já não poderão deter nem interrogar pessoas suspeitas de violar os bons costumes islâmicos…

Wednesday, 25 January 2012

Cristãos sírios pela democracia e Papa pelo ecumenismo

Na Síria, um ano depois do começo dos protestos contra o regime, a questão continua particularmente complicada. A maioria dos cristãos parece ser contra as revoltas, mas alguns são a favor. Leia aqui o que têm a dizer.

Como de costume, a transcrição completa da entrevista, no inglês original, está aqui.

Hoje é Quarta-feira e por isso publicamos mais um artigo do site americano The Catholic Thing, em português. Robert Reilly fala das raízes teológicas do terrorismo islâmico na Nigéria e da questão da importância da razão para as religiões.

Bento XVI falou hoje da questão do ecumenismo, no dia em que acaba a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Leiam ainda o comentário de D. Manuel Clemente à mensagem de Bento XVI para o dia Mundial das Comunicações Sociais.

Em Israel continuam a suceder-se episódios desagradáveis na luta entre ultra-ortodoxos e secularistas em certas zonas do país. Ontem uma mulher foi violentamente atacada e o seu carro destruído num bairro de maioria ortodoxa.

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