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Wednesday, 15 March 2023

O Único Caminho para um Coração Limpo

Anthony Esolen
Recentemente, durante uma conversa, comentei que a introdução da pílula nas relações entre rapazes e raparigas jovens tinha elevado perigosamente o risco das relações sexuais. Todas os prazos saudáveis que medeiam entre um encontro amigável e uma noite na cama foram varridos. De repente, nenhum dos sexos sabia muito bem o que esperar do outro. O resultado, como tenho estado a dizer há muitos anos, foi a solidão de todos os que não alinham no jogo e uma variedade de destroços morais e pessoais para quem alinha. E talvez, no final de contas, uma solidão ainda mais profunda, incluindo uma alienação completa do sexo oposto.

Como é que não prevemos isto? Como é que os católicos, e em particular os teólogos e filósofos, não compreenderam aquilo que pagãos como Platão, Aristóteles, Zenão o Estóico, Cícero e Marco Aurélio viram, que mascarar o pecado não altera o seu efeito, tal como polvilhar com açúcar não diminui o efeito de um prato de veneno?

O meu interlocutor ficou admirado, respondendo que se a pílula tivesse sido disponibilizada 40 anos antes, as pessoas de então teriam agido exactamente da mesma forma que os seus descendentes. Estava a sugerir que a geração do meu avô era tão fraca, egoísta e podre como a que aceitou a pílula.

Respondi que não podemos julgar as pessoas por aquilo que achamos que teriam feito, mas apenas por aquilo que de facto fizeram. Ele admitiu que os mais antigos eram melhores na arte do cortejo, mas contrapôs que fumavam cigarros em elevadores com crianças, ao que eu poderia ter respondido que os nossos tempos também estão repletos de obscenidade públicas, entretenimento ordinário e pornografia, tudo na presença de crianças e, no que diz respeito aos primeiros dois, encorajando mesmo a sua participação.

Há que fazer distinções. A natureza humana não muda. Os alemães que se tornaram nazis talvez fossem pilares das suas comunidades se tivesse crescido noutro local ou tempo; e qualquer um de nós, sobretudo aqueles com tendência para movimentos intelectuais ou para encontrar bodes expiatórios, coisa não rara entre a humanidade, poderia ter-se tornado nazi.

Talvez seja mais seguro dizer que este exercício não faz muito sentido. É como pensar como seríamos se tivéssemos nascido de outro sexo. Isso implicaria ter todo um outro corpo, mas não existe um “eu” flutuando por aí, dissociável do meu corpo.

Posso imaginar, ou adivinhar, o que eu, enquanto pessoa já existente, teria feito caso não tivesse feito um curso em Princeton que mudou a minha vida, ou caso não tivesse conhecido a minha mulher Debra, mas mesmo aí estou em território minado. Se calhar, quando tentamos adivinhar o que teríamos feito perante um determinado conjunto de circunstâncias, estamos na verdade a basear essa suposição naquilo que de facto já fizemos em circunstâncias semelhantes.

Por exemplo, aqueles que actualmente se divertem em difamar outros, ou em interpretar as suas palavras ou acções à pior luz possível, talvez tivessem dado óptimos informadores. Ou, pegando na coisa de outra forma, talvez os que actualmente partem do princípio que o lugar da relação sexual é numa relação comprometida e exclusiva, com vista à permanência (por mais iludidas que as pessoas possam estar em relação a tudo isso), teria praticado a castidade e a continência antes do casamento naquela altura.

Ainda assim, fazemos o que fazemos e os nossos actos tornam-se aquilo que somos. John C. Calhoun tratava os seus escravos de forma bondosa, e isso fez mais do que deixar uma marca na sua alma. Esse pecado consumiu a sua alma e assimilou-se a ela de tal forma que na sua velhice Calhoun já não sentia qualquer vergonha por ser esclavagista, olhando-o mesmo como um bem.

Não pretendo julgar a disposição eterna da sua alma. Deus é o juiz. Mas aquilo que vemos, podemos declarar. O pecado deforma e o pecado praticado com uma consciência tranquila, como parece ter ocorrido com Calhoun, deforma ainda mais. Daí que a prostituta que chorou aos pés de Jesus estivesse em melhor estado que Simão o Leproso, que pecava com orgulho e com a consciência límpida como a luz do dia.

O pecado está para a alma como a doença para corpo, mas com uma diferença fundamental que torna o pecado ainda mais perigoso. O corpo consegue combater a doença com os seus próprios recursos. A alma não consegue combater o pecado desta forma. Isto acontece, mais uma vez, porque o pecado é mais do que um invasor. “Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?”, clama São Paulo, descrevendo a luta daquele que sabe aquilo que é bom para a alma, que quer escolher esse bem, mas dá por si a escolher o mal. 

Pior ainda é a luta de quem já nem sequer reconhece o bem. Deve ser claro que nenhum esforço da alma lhe pode valer, uma vez que a escória está completamente misturada com o minério. O minério não tem qualquer forma de expulsar a escória, salvo uma. Só a operação da graça divina pode valer, com a palavra de Deus que penetra até à medula.

Daí decorre também a necessidade urgente de pregar a verdade. Ninguém nos diz que que Deus vai julgar uma ficção de nós mesmos, algo que poderíamos ter sido noutras circunstâncias, imaginárias. Ninguém nos diz que Ele deve salvar a mesma percentagem de nazis e de carpinteiros amish. Somos todos pecadores e todos ficamos aquém da glória de Deus.

Devemos voltar-nos para Deus e dizer: “Um novo coração me dá Senhor”. É algo grandioso que pedimos, porque a re-criação de uma só alma é uma maravilha maior do que a criação do mundo. Não devemos pedir a Deus que “julgue aquilo que eu poderia ter sido”, mas sim “perdoa aquilo que sou, e faz de mim uma pessoa nova”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Escreveu, entre outros, Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, and Nostalgia: Going Home in a Homeless World, e mais recentemente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts, em Warner, New Hampshire. Pode visitor o seu site em: Word and Song.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 11 de Março de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 16 November 2022

O Problema do Sexo “Recreativo”

Anthony Esolen
Estou grato à fé católica por me ter feito mergulhar, apesar das minhas hesitações, mais a fundo na realidade, quando tantas coisas à nossa volta parecem dirigidas à abstracção, a roubar a pouca noção que já temos do que é verdadeiro, e não apenas das ideias sobre o que é real, ou pior ainda, de palavras que passam por ideias sobre coisas.

Recentemente fui repreendido por uma mulher que defendia o direito ao aborto porque, dizia, “algumas pessoas gostam de ter sexo recreativo” e não deviam ter de se preocupar com gravidezes e partos no caso das hormonas sintéticas falharem, como tantas vezes acontece.

Pensei nessa expressão, “sexo recreativo” e como é cansado, estagnado, chato e pouco rentável o fingimento de que um homem e uma mulher se podem unir naquele acto singular sem que haja qualquer outro significado, como se fossem apenas fitas de velcro presas uma à outra por umas horas.

Os nossos corpos são mais sinceros. Eles preparam-se de inúmeras formas que ainda estamos a descobrir para gerar a criança que poderá ser o fruto dessa união. Mas nas mentes abstraídas de quem apenas quer brincar não existe criança, não existirá criança, não há nada se não “recreação”.  

E essa tentativa de sintetizar o acto é tão esforçada que a deixa desprovida de verdadeira humanidade.

Não faz sentido. De facto, muitas coisas deixam de fazer sentido no preciso instante em que dizemos que são recreativas. Pode-se rezar durante um jogo de futebol, ou durante um picnic. Até devemos fazê-lo! Mas embora se esteja a rezar rodeado de divertimento e pessoas a descontrair, a oração em si não é recreativa, nem poderia ser sem deixar de ser oração. Se estou a brincar às orações, não estou a rezar.

A guerra pode fazer com que um homem se sinta mais vivo do que alguma vez se sentiu em tempos de paz, como me admitiu certa vez um velho sábio. Mas não se pode travar uma “guerra recreativa”. Se é recreação, então não é guerra, e se é guerra, certamente não é recreação. A não ser que se seja um mercenário insensível ou um monstro moral, não se parte para a guerra a não ser que seja a valer.

Poderá conhecer o seu futuro cônjuge num ginásio, num estádio, ou a subir uma montanha, e poderá gostar de aproveitar o ar livre com ele, mas não existe tal coisa como “amor recreativo”, sob risco de deixar de ser amor. O amor é refrescante, torna o nosso lazer mais doce; o amor está para lá das coisas do dia-a-dia.

Mas se aquilo a que chama amor é apenas algo que faz por ser divertido, então não há mesmo amor no que está a fazer. Os sorrisos são todos oferecidos, custam pouco, mas o coração não se dá de barato.

Porque o amor, como diz São Paulo, tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo aguenta, e não existe amor maior do que a de um homem que dá a vida pelos seus amigos, diz Jesus.

E estes pensamentos trazem-nos de volta à questão fundamental: “O que é que andas a fazer?” A resposta não está numa manifestação de intenções, de motivos, de sentimentos ou de ideias, que frequentemente são apenas autorizações que passamos a nós mesmos para manter as consciências adormecidas.

Suponha que o João está a preparar um prato de restos traçados com veneno. “Toma Bobby”, diz, enquanto chama o cão do vizinho, “anda comer”. Queremos mesmo saber o que se passa na cabeça do João? O que o levou a querer fazer aquilo? O que pretende alcançar? As suas teorias pessoais sobre a alma dos caninos? Será que o deixaríamos dizer: “Isto para mim é apenas recreação. Estou a vingar-me do António. É um jogo. Ele está a ganhar por quatro pontos, mas com isto eu passo novamente para a frente”. Isso não seria ainda pior?

Este também pensava que era só recreação 
(linguagem explícita)

Duas pessoas jovens e apaixonadas cedem aos seus desejos, embora não estejam casadas. Aquilo que estão a fazer não é um mal em si, mas apenas pelas circunstâncias. Se fossem casados, seria uma coisa gloriosamente boa.

Isto nós compreendemos. Há algo do coração neste pecado, não obstante ser pecado, e embora o pecado não possa gerar nada de bom, os dois poderão, de uma forma confusa, estar a apontar para o bem. Mas quando os dois não estão apaixonados de todo, sem um pingo sequer de paixão, a fazer “desamor” por recreação? Isso já me custa mais a entender.

Uma das razões para isso, como já sugeri, é que a Igreja voltou a minha atenção para aquilo que é real. O que é que acontece quando os dois se fundem? Que ser poderão gerar? Que tipo de criatura será essa criança? Qual será a sua relação com o tempo e a memória?

Porque é que é errado que um ser que se recorda, que imagina, que providencia e que espera seja gerado por recreação? Nascer com um pai e uma mãe que não estão comprometidos um com o outro para a vida? Nascer sem uma família estável, numa longa linhagem de famílias em iguais circunstâncias que se estende para o passado e para o futuro?

Que ser é esse no útero? Não sem organização, como uma verruga; não inerte, como uma bolota no passeio; não inanimada, como um cristal; não morto, nem meramente vida em potência; nem canino, nem felino, nem nada para além de humano, com todas as capacidades de um homem, latentes, mas em desenvolvimento, com maravilhosa complexidade, exactidão e rapidez; uma criança, nossa irmã.

Quão misteriosa e bela é esta criança! A Igreja dirige-me os olhos e a alma para essa beleza objetiva.

O pecado mascara-se de “realismo”, no sentido em que assenta sobre a forma habitual do homem se ausentar da realidade. Mas as coisas que estão escondidas serão trazidas para a luz.

Algumas dessas coisas escondidas estiveram todo este tempo diante dos nossos olhos. Nem poderemos dizer ao nosso Juiz: “Se eu soubesse!”. Admitiremos a verdade. “Eu sabia, Senhor, mas não queria saber. Tem misericórdia da minha alma.”


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Escreveu, entre outros, Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, and Nostalgia: Going Home in a Homeless World, e mais recentemente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts, em Warner, New Hampshire. Pode visitor o seu site em: Word and Song.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 5 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Thursday, 8 April 2021

Monge detido por caridade na Turquia

Um monge na Turquia foi condenado a mais de dois anos de prisão por aquilo que considera ter sido apenas um acto de caridade cristã.

Está a formar-se uma comunidade de católicos chineses em Lisboa. Saiba mais aqui.

O Papa lamenta que exista ainda um fosso entre ricos e pobres no que diz respeito à saúde e diz que as leis do mercado não podem sobrepor-se à lei do amor e à saúde.

As cheias da semana passada em Timor-Leste causaram grande devastação e muitas vítimas. O Papa rezou pela situação e os salesianos, no terreno, ajudaram como puderam.

O que representa a bandeira arco-íris? Amor? Tolerância? Direitos? O autor do artigo do The Catholic Thing desta semana, Anthony Esolen, argumenta que representa toda a revolução sexual e que por isso mesmo deve ser arreada. Um artigo a ler aqui.

Wednesday, 7 April 2021

Arrear a Bandeira

Recentemente o Vaticano recusou permitir que clérigos católicos abençoem uniões entre pessoas do mesmo sexo, evitando um cisma imediato e mundial. Ninguém deve ficar surpreendido; aliviado, talvez, mas não surpreendido. O que o Vaticano fez foi negar-se a reverter toda a antropologia bíblica no que diz respeito aos sexos, já para não falar de uma visão coerente da criação – da ordem formal impressa com a sabedoria de Deus.

Mas o mundo continua.

Passadas poucas horas já tinha ouvido os críticos da Turner Classic Movies a defender os filmes antigos, apesar de estes por vezes estarem manchados por racismo-sexismo-homofobia-transfobia. Os críticos falavam como se não fosse possível qualquer pessoa decente contestar a sabedoria moral assente que toma todas estas coisas por iguais, a serem tratadas com a mesma reprovação.

Depois ouvi falar de dois rapazes de um liceu que foram escolhidos para representar dois amantes homossexuais numa peça de teatro. E de outro jovem, noutra escola, que teve de cantar uma música ordinária sobre ter uma erecção quando olha para outra rapariga da sua sala.

Os trios amorosos estão nas notícias a toda a hora. Duvido que haja uma única escola pública no país que não tenha hasteado a bandeira arco-íris, aqui, ali, em todo o lado, nos cadernos, nos planos de aula, em material de leitura e nas lapelas dos professores.

A maldade, disse Edmund Burke, é demasiado inteligente para aparecer sempre da mesma forma. As nossas paixões – orgulho, inveja, fúria, luxúria e avareza – mantêm-se iguais, mas mudam conforme as modas. É por isso que o homem ataca tão frequentemente formas que em larga medida já passaram. Burke chamava-lhe enforcar a carcaça.

E sabemos que as novas formas não atraem apenas monstros. Não duvido que tenha havido muitas pessoas simpáticas que hastearam a suástica nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os judeus, mas estavam satisfeitos por irem na corrente com os novos e revolucionários líderes de opinião bem-pensantes, construtores de autoestradas e restauradores da Alemanha.

Não duvido que na Rússia estalinista houvesse muitas pessoas simpáticas que hasteavam a foice e o martelo nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os ucranianos ou os ortodoxos recalcitrantes, mas estavam contentes por irem na corrente da novidade, e por aí fora. O desejo de obter emprego, de manter o emprego ou de merecer a aprovação dos líderes de opinião bem-pensantes pode ser muito tentador e não requer grande grau de coragem face ao mal.

Eu não estou a dizer que a bandeira arco-íris é igual à suástica ou à foice e martelo. Claro que não. Não estou a dizer que é igualmente má: quando estamos a lidar com males fundamentais a questão não tem qualquer sentido. Adorar a Baal era tão mau como adorar Moloch? Enquanto nós discutimos o estilo de luxúria ou de ódio, os princípios em si, tanto Baal como Moloch, apreciam um cognac espiritual flamejante e brindam. E Baal também matou os seus milhões.

Não tenho qualquer intenção de apontar o dedo a indivíduos. Tenho muita simpatia por pessoas que, num tempo de profunda solidão, se agarram a uma relação homossexual como uma última esperança. Mas o arco-íris representa toda a revolução sexual.

Não me refiro aqui ao pecado sexual, que teremos sempre connosco, tal como teremos mentiras, furto, homicídio, blasfémia e traição. A revolução sexual não é uma erva daninha. É uma árvore: plantada deliberadamente, regada e cuidada. Não é um acumular de pecados ou de maus hábitos. É um princípio que dá maus frutos.

O princípio é o da autonomia corporal: que o que os adultos fazem, sexualmente, é da sua conta e de mais ninguém. Junte-se a isto a paixão romântica para adoçar o princípio, junte-se o feminismo para obscurecer a verdade de que os homens são para as mulheres e as mulheres são para os homens, espere umas décadas para que os gostos se mudem e temos uma sequóia completa.


Não foram os homossexuais que plantaram e fertilizaram a árvore, embora tenham feito a sua parte. Mas não interessa agora como é que a árvore cresceu, e como cresceu de tal forma que agora cobre todo o mundo ocidental com a sua sombra. A questão é que a árvore tem de ser abatida.

Repito, não estou a dizer que não haverá pecado sexual. Estou a dizer que o princípio deve ser repudiado: a árvore é o princípio e dá o fruto mau desse princípio.

Temo que alguns católicos possam tolerar a árvore, porque não querem ferir os sentimentos daqueles que se deliciam com o fruto, ou porque, ainda que não tenham gosto por aquela maçã, gostam desta; porque a árvore é generosa e tem muito a oferecer para cada gosto, uma grande variedade de maus frutos.

Talvez os que plantaram a árvore não tenham tido a noção de que chegaria a isto. Talvez pensassem que uma certa cortesia poderia conter o mal: que piscaríamos o olho ao engate do João e da Maria, mas não ao do João e do Martim; aceitaríamos o divórcio apenas nos casos difíceis; aceitaríamos a contracepção, mas não o aborto; aceitaríamos a pseudogamia homossexual, mas não a poligamia; sem pensar que o aço moral mais firme não é suficientemente duro para conter um princípio mau.

E a cortesia, a simpatia, não é aço, é papel.

A árvore tem de vir abaixo.

Pensem, pensem só nas coisas humanas e normais que poderíamos ver, que se poderiam esperar, alcançar, coisas banais: muito amor saudável entre rapazes e raparigas, em vez de um campo minado tanto para os morais como para os imorais; direcção mais segura para jovens cujo caminho para o estado de homem ou de mulher adultos foi dificultado pelo infortúnio ou pelo pecado dos seus antepassados; uma apreciação mais clara e agradecida de cada sexo para o outro; e com tudo isso, pecados e falhanços, ervas daninhas que nascem, como sempre, mas em pequenas manchas, ou individualmente, e não de forma planeada, sem que toda a humidade e nutrição fossem canalizados para alimentar um leviatã vegetal.

É preciso arrear a bandeira.


Anthony Esolen é orador, tradutor e autor. As suas obras incluem: Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e o mais recente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts em Warner, New Hampshire.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 31 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 2 January 2019

Alguns homens nascem eunucos . . .

Anthony Esolen
Alguns homens nascem eunucos, alguns tornam-se eunucos pelo Reino do Céu e alguns, para grande lucro de cirurgiões e da indústria farmacêutica, são feitos eunucos por pais que os abandonam e por mães que não.

O último “castrato” a cantar profissionalmente, Alessandro Moreschi, morreu em 1922. Não se sabe se ele foi castrado ainda menino para preservar a voz, ou por causa de uma hérnia inguinal. Ainda existe uma gravação, em mau estado, da sua voz. O que se ouve é um soprano algo fibroso, não é o género de coisa para a qual um defensor da prática recomendaria a mutilação. Talvez outrora tenha sido mais forte e seguro. Não sabemos.

À medida que um rapaz se aproxima da puberdade, a sua voz ganha uma qualidade peculiar devido à configuração singular e temporária da sua laringe e cavidade oral. Produz um som que os mestres de coro valorizam muito e que inspirou os talentos de compositores como Palestrina, Allegri e Bach.

Para preservar esse timbre, por vezes um soprano rapaz aceitava ser castrado. Quando os “castrati” eram o último grito da moda nas cortes e nos coliseus da Europa iluminista, um rapaz talentoso de uma família humilde poderia ser tentado a aguentar a mutilação para poder ganhar dinheiro para si e para os seus pais.

Naturalmente isso também o levava a ser bem acolhido nos quartos de mulheres aristocratas, que brincavam com ele como fariam com um cachorro, sem envergonhar os seus maridos. Essa é a lógica por detrás do estratagema de Horner na peça lasciva de Wycherley “A Mulher do Campo”, embora neste caso a castração tenha sido supostamente necessária por causa de sífilis. Os eunucos também eram um alvo preferido por homossexuais.

Contranatura e bárbaro. O Papa Leão XIII condenou a prática quando assumiu o papado em 1878. Graças a Deus não a voltaremos a ver.

Mas estamos a assistir a coisas bem piores. Pensemos um bocado nisto.

Longe de mim desculpar de qualquer maneira os padres nojentos cujos vícios deturparam as vidas de tantos rapazes e jovens e reduziram várias paróquias e dioceses à penúria. Mas quando esses homens acabavam de apalpar as joias da família, estas pelo menos continuavam ligadas ao rapaz, que ainda poderia vir a tornar-se marido e pai de família.

Mas isso já não é o caso quando o rapaz “transita”, isto é, quando se submete a cirurgia para poder fingir ser a rapariga que não é, nem nunca poderá ser.

O rapaz que optava pela mutilação fazia-o para garantir algo que era, em si, um bem. É bom, e não mau, ter uma voz bonita. É bom ser um solista no “Miserere” de Allegri. Não é bom mutilar o corpo para isso. É bom, e não mau, poder ser o ganha-pão da família. Mas não é bom mutilar o corpo para o conseguir. É bom louvar a Deus. Não é bom expressar esse louvor através de algo que é contranatura, como a mutilação.

Esse rapaz, muito provavelmente, sabia bem o que era o sexo. Sabia-o melhor do que as nossas crianças agora. Teria visto os animais da quinta, teria dormido próximo de outras crianças e teria desenvolvido uma atitude prática para com as exigências mais embaraçosas da vida física. Teria estado próximo de homens a fazer trabalho fisicamente árduo, todos os dias da sua vida, trabalho que só os homens podiam fazer.
Alessandro Moreschi

Ele não estava a rejeitar o seu sexo. Não estava acometido da loucura de acreditar que na verdade era uma menina. Ninguém lhe tinha dito na escola que o seu sexo era responsável por todo o mal que existe no mundo. Não teria crescido num lar dividido pelo divórcio, com uma mãe infetada por fantasias feministas de um mundo purificado do masculino. Não teria tido que se sujeitar à hora do conto narrado por travestis. Não teria pornografia à distância de um clique. Não vivia no reino da ilusão. A mutilação assegurava, de facto, o bem em questão.

Não seria sujeito a uma cirurgia após outra. O seu corpo não seria bombeado com drogas perigosas, incluindo bloqueadores de puberdade e hormonas para fazer crescer os seios, que provavelmente virão a ser carcinogénicas. Não seria condenado a uma vida de dependência farmacêutica. Os seus ossos largos continuariam a crescer. O seu corpo seria um pouco mole, mas de resto pareceria um homem normal e não uma aberração. Não seria sujeito a uma operação para fazer uma vagina falsa.

Não faria parte de uma campanha para preservar e prolongar uma ética profundamente anticristã, como é a nossa revolução sexual. Como já disse, talvez fosse tentado pela homossexualidade, mas esse não seria o objectivo declarado da operação. Não estava envolvido na destruição da linguagem. Seria tratado por “ele” e provavelmente atirava-se a quem o tratasse de outra forma.

Não estava a estabelecer um precedente para outros violadores do sentido do humano: falo naqueles que acreditam que devemos fabricar-nos a nós mesmos, através da manipulação genética, úteros artificiais e outras pontes que o homem lança ao robot ou à besta. Não estava a lançar um precedente para pessoas doentes que acreditam que não serão inteiros enquanto não forem parciais: falo naqueles que não conseguem viver com a integridade dos seus corpos e que por isso encontram, nalgum lado, um médico malévolo que lhes remova um braço ou uma perna saudável.

Não estava na linha da frente da sujeição dos pensamentos, da linguagem e dos actos de pessoas normais e ordinárias à supervisão de um estado vasto e totalitário, com a sua simbiose de entretenimento e escolaridade massificados.

Por mais doentio que fosse fazer aquilo que eles faziam, o que fazemos agora é muito pior.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 20 September 2018

Não há pão para Malukkal

Freiras enfurecidas
Mais um bispo suspenso por abusos sexuais. Desta vez é na Índia e a vítima é uma freira. O bispo Franco Malukkal nega.

O Vaticano continua a tentar colocar-se na linha da frente da prevenção de abusos e anunciou hoje a realização de um mestrado sobre proteção de menores, em Roma.

Um missionário italiano foi raptado por jihadistas no Níger, e na Nigéria o Boko Haram ameaça matar a jovem que foi raptada em fevereiro e que não foi libertada por que se recusa a converter ao Islão.

Quem explora ou rejeita migrantes e refugiados acabará por “prestar contas” a Deus, garante o Papa.

Anthony Esolen constrói aqui um texto muito forte, e interessante, com base na obra clássica “O Paraíso Perdido” de John Milton, em que pergunta se os padres que abusam de crianças acreditam ou não em Deus e pede que venha rapidamente um “novo Samuel” para limpar a casa.

E deixo-vos ainda o convite para irem a Cascais, este fim-de-semana, ao Family Land, organizado pela Associação das Famílias Numerosas. É no hipódromo, promete diversão para toda a família e os bilhetes estão à venda na Blue Ticket, ou então no recinto, no próprio dia. As portas abrem às 10 e encerram às 19.

Wednesday, 19 September 2018

Quando o Padre se Torna Ateu

Anthony Esolen
Quando John Milton, no seu poema épico “Paraíso Perdido”, identifica e descreve os piores dos anjos caídos, diz-nos em que parte do mundo mediterrânico e do Levante eles se estabeleceram, quais falsos deuses, para serem adorados. Quanto mais perto de Sião, pior o demónio. Nesse sentido Moloch, que é o primeiro a ser referido, é o pior de todos, depois de Satanás e Belzebub.

Não bastava que fosse adorado pelos vizinhos amonitas:

Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egregio
(Salomão, o mais sábio d’entre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinom o vale ameno
Que ficou desde então, sob outro nome
De Tofete e Geena, emblema do Orco.[1]

Consegue imaginar algo pior do que seduzir o construtor do templo de Deus, Rei Salomão, a construir um templo para si, colado ao verdadeiro? Pode-se estar mais próximo que isso?

Sim, pode. É aí que Milton quer chegar. O último demónio que ele nomeia, supostamente o oposto do sanguinário e guerreiro Moloch, é o lascivo, efeminado Belial, amante do vício pelo vício.

E onde é que Belial é adorado? A resposta é preocupante:

Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais frequenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Eli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
                                
Belial não precisa que lhe construam templos ou altares. Ele já ali está, quando o padre se torna um verdadeiro ateu. Não que isso sirva de desculpa para os leigos, porque Belial também se instalou nas sedes de governo e nos costumes lascivos do povo:

Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram,
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial n’elas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos.

O vício específico de que disfrutam os filhos de Belial é perverso:

Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gaba quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Temos então de um lado Moloch, o devorador de crianças, brutal e sangrento, de templo encostado ao de Deus, e do outro lado o mal sexual e antinatural de Belial, que penetra tanto templos como cortes e que toma conta das ruas pela noite, determinando o estilo de vida das pessoas ou levando-as a esconder-se em casa, se puderem.

Moloch e Belial; infanticídio e sodomia; sangue derramado em vão e semente espalhada em vão; guerra pela guerra, lascívia pela lascívia; um deus da fertilidade que come a sua prole e um deus da esterilidade, cujo vício nem prole chega a conceder.

Como dizia o pregador, não há nada de novo debaixo do Sol.

As pessoas têm perguntado se é possível que os padres que tiveram relações sexuais com jovens, consensuais ou não, acreditavam em Deus. Eu tenho tentado recordar a capacidade ilimitada do homem para o fingimento e autoengano, para não falar de mera contradição. Mas talvez devêssemos olhar a questão de outra perspetiva. Milton não disse que Finéias e Hofni, filhos de Eli, eram ateus quando assumiram o seu cargo em Siló. Ele diz que eles se tornaram ateus.

Algumas pessoas perdem a sua fé em Deus por causa das tribulações que sofrem. Desesperam, sucumbindo à sensação de abandono. Outros perdem a fé em Deus por causa dos sucessos de que gozam. Presunçosos, são seduzidos pelo sentimento de invencibilidade. Qual é o caso do padre?

Não estou a estabelecer uma regra universal. Cada padre é um homem, como qualquer um de nós, e pode sofrer aquilo que qualquer um de nós sofre. Mas se perguntarmos quais as ameaças específicas para a fé dos padres, teremos de concluir que no nosso mundo elas vivem do lado do poder, do conforto e do prestígio, e não do lado da fraqueza, privação física e humilhação.

Isto não é uma acusação. Não estou a sugerir que os padres devam viver a pão e água, e que devem ser agredidos em via pública. Estou apenas a constatar um facto. Não é a perseguição que leva os nossos padres a perder a fé, é a complacência.

A Justa Ana com o Profeta Samuel
E o que acontece se perdem mesmo a fé? Mais uma vez, devemos ter o cuidado de recordar o enlear e as contradições do coração humano. Fugimos das verdades difíceis. Talvez o desgraçado cardeal McCarrick acreditasse que acreditava. Mas o que é que você faria se estivesse a tornar-se ateu e toda a sua vida tivesse sido orientada para uma só coisa, o ministério de Deus?

Não pode voltar à sua antiga profissão, porque não existe. Não pode vender os seus serviços, porque não existem. Não tem recursos para voltar à escola, mesmo que pudesse aguentar a vergonha. Não está preparado para trabalho físico, por isso as obras não são uma opção. Então fica quieto.

Se for sincero, reza, reza e mortifica-se, arranja um bom director espiritual e tenta sobreviver à tempestade. Se for fraco e insincero, deixa a sua fé enfraquecer cada vez mais enquanto tenta robustecer a sua imagem, convencendo-se de que é o arauto de uma nova fé, uma nova forma de crença. Só você sabe o que pertence verdadeiramente à fé e o que não pertence. Destrói. Tem ciúmes de pessoas que têm devoções que não o movem. Secretamente, regozija com o falhanço dos outros.

Segue o mundo, porque tem de seguir alguma coisa. Todos os seres humanos seguem uma bandeira, os ateus não são excepção. Mas o dia do pequeno Samuel está para chegar, e não será para si qualquer conforto. Senhor Deus, que seja em breve!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 16 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



[1] Na versão portuguesa baseei-me nesta edição, modernizando apenas alguma da ortografia

Wednesday, 12 September 2018

Voltei de férias, posso-me ir embora outra vez?

Antes de ir de férias falei várias vezes do caso McCarrick, nos EUA. O que para muitos parecia ser apenas uma crise localizada nos EUA revelou-se, como eu já imaginava, uma crise para a Igreja Global que hoje levou o Papa a convocar todos os presidentes de Conferências Episcopais para uma cimeira sobre abusos, em Fevereiro.

Isto no mesmo dia em que o sucessor de McCarrick anunciou que vai a Roma discutir a sua resignação e um relatório na Alemanha, revelado pela imprensa, mostra que houve pelo menos 3.700 casos de abusos sexuais naquele país nas últimas sete décadas.

Neste momento os bispos americanos preparam-se para viajar para Roma para discutir estes assuntos mais directamente com o Papa também e o secretário pessoal de Bento XVI disse ontem, numa data apropriada, que os abusos são o 11 de Setembro da Igreja.

Por cá, os bispos continuam a confiar que as directrizes já aprovadas chegam para lidar com eventuais casos de abusos. Esperemos que tenham razão.

O tema dos abusos continua a merecer atenção por parte dos autores dos artigos do The Catholic Thing. Anthony Esolen dá um murro na mesa neste artigo e o padre Vaverek considera que o que está verdadeiramente em causa é uma crise de abuso de autoridade.

Temos também dois artigos do jovem Casey Chalk. No primeiro ele aconselha-nos a, no meio da tempestade, rezar mais e com mais força e, no de hoje, adverte para o perigo de, no meio dos pedidos de responsabilização, não “protestantizar” a Igreja.

Wednesday, 15 August 2018

Basta!

Anthony Esolen
Que não ouçamos mais vozes de padres, prelados e autores católicos, a dissentir da verdade – da razão, da Escritura, do constante e claro ensinamento da Igreja no que diz respeito à criação da humanidade, homem e mulher; da união carnal desejada por Deus desde o princípio; da educação de rapazes para serem homens e de meninas para serem mulheres, criadas um para o outro; da bondade e da realidade do sexo e das suas expressões naturais na cultura humana; da natureza criada do casamento que era tão óbvia para os pagãos como é para os cristãos; da inadmissibilidade de separar a dimensão de prazer do acto sexual do seu propósito biológico e do seu sentido corporal; da indissolubilidade do casamento e dos avisos dos mais recentes Papas; da solidão, confusão e tristeza que resultam de todos os géneros de caricatura de casamento, incluindo a fornicação habitual e consensual.

Que não ouçamos mais palavras a menorizar a perversão dos actos que violam a própria estrutura dos sexos. Que cesse a denigração ingrata da masculinidade e feminidade verdadeiras e a submissão cobarde a todas as mentiras nojentas do entretenimento e da educação de massas, para as quais uma escola católica está apenas um ou dois anos atrás dos tempos – New York Times.  

Não queremos ouvir mais sobre pronomes da parte de padres, prelados e autores católicos, que praticaram ultrajes sobre as almas e os corpos de jovens padres e seminaristas, nem de quem os encobriu, por razões que só vocês conhecem, mas que não servirão para vos desculpar nem para evitar que façam o que é digno. Se está numa posição de autoridade, e nada fez, deve demitir-se. Pode ser substituído, não é indispensável. Basta.

Há vários anos o bispo da diocese canadiana onde vivemos no verão foi apanhado numa inspeção de rotina no aeroporto. Tinha na sua posse imagens pornográficas com crianças. A imprensa canadiana não foi mais específica do que isso. Resignou em desgraça e cumpriu uma curta pena na prisão. Agora, segundo ouvi dizer de um padre respeitável, vive com outro homem. Nada que nos surpreenda. Ele tinha o hábito de viajar para destinos peculiares no mundo, que nada tinham a ver com as características étnicas ou culturais da sua diocese, maioritariamente rural. Lugares onde a carne é barata.

Se é verdade que agora está a viver uma velhice confortável de pecado, não é tanto um exemplo de arrependimento, mas de contumácia e de desafio. Não há vergonha? Não estamos a falar de uma diocese recheada de padres homossexuais atrás de rapazes adolescentes, embora houvesse alguns, e as paróquias, que já não eram propriamente ricas, foram reduzidas à penúria pelo custo das indemnizações. Ele já sabia que assim era, e ainda sabe. Uma senhora idosa da nossa aldeia ofereceu 165 mil dólares para ajudar a manter aberta a igreja local e os paroquianos fartaram-se de trabalhar para restaurar o edifício, em vez de contratar um empreiteiro. Todo esse dinheiro foi esbanjado. 

As paróquias faliram todas e o seminário diocesano está vazio, e mesmo assim não vemos vergonha na chancelaria.

Não quero insinuar que os fiéis não têm também pecados. Em parte, recebemos líderes e pastores muito piores do que merecíamos, mas não merecíamos grande coisa. Toda a gente tem sido queimada e conspurcada pela devolução sexual. Todos tinham o hábito de piscar o olho e virar a cara. Não há quem não tenha culpa. “A Igreja está este bordel porque eu contribuí para que assim fosse”, é o que todos os cristãos deviam dizer, por ser a verdade.

Mas alguns cristãos, alguns católicos romanos, têm estado a combater uma luta desigual não só para se arrependerem do que fizeram mal, mas para sarar aquilo que feriram e reconstruir o que ajudaram a demolir.

É agora que precisamos de pastores que possam liderar-nos nesse combate e não que nos repreendam a cada passo e que nos carreguem com o peso da sua verborreia burocrática, não para sorrirem para aqueles que sabem o que se passa, assegurando-lhes calmamente que nada vai mudar. Não estou em luta contra o episcopado, que em larga medida tem culpa pelos escândalos dos últimos quinze anos e que não se sujeitou a qualquer sanção, preferindo cobrir as suas almas episcopais colectivas de elogios.

Eu quero acreditar nos bispos. Deus sabe que aceito a autoridade dos seus cargos. Mas digo-vos que se não querem travar o combate que temos pela frente, então é melhor que saiam da frente e deixar passar quem esteja disposto a fazê-lo. Chega de brandura e de chazinho. Todos os bispos, padres e autores católicos que sabiam sobre o incesto espiritual e as perversões macabras do anterior bispo da nossa capital, agora caído em desgraça, e que nada fizeram, têm a obrigação de, pelo menos desta vez, admitir o seu falhanço e partir.

Por favor, vão-se embora. Resignem, rezem, leiam, pensem, façam o que entenderem e que seja agradável ao Senhor, mas não continuem a obrigar a Igreja a carregar o vosso peso morto. São uma vergonha tanto para o crente como para o infiel. Vão-se embora.

E dêmos uma chance aos verdadeiros, bons e jovens sacerdotes de Deus, suficientemente novos para não terem qualquer ilusão sobre o que se passou na geração anterior à deles. Será possível serem piores do que os seus eternamente infantis superiores?



Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de Agosto de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 15 March 2018

A diocese do Porto tem uma nova cara, e é linda!

D. Manuel Linda é o novo bispo do Porto.


Numa primeira mensagem à sua nova diocese, D. Manuel Linda diz que vai ser um pastor com cheiro de ovelha. Deixou também uma mensagem de saudades à diocese das Forças Armadas, que agora fica vacante.

Está em Portugal o imã da Mesquita de al-Azhar, que é uma das figuras mais importantes do mundo islâmico. Amanhã publico uma entrevista com ele, estejam atentos, e também amanhã ele vai à mesquita de Lisboa participar na celebração dos 50 anos da comunidade, altura em que será lançada uma colecção de selos comemorativos.

E ontem foi publicado mais um artigo do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala de liberdade religiosa e objecção de consciência e deita abaixo o argumento tradicionalmente usado contra o direito à objecção de consciência, nomeadamente o das Testemunhas de Jeová que recusam transfusões de sangue. Afinal, explica, quem tem mais em comum com as Testemunhas de Jeová são aqueles que querem acabar com essa liberdade de consciência.

Wednesday, 14 March 2018

As Testemunhas de Belial

Anthony Esolen
Nos últimos tempos tenho sido um comentador pouco frequente – e não muito bem-vindo – numa página chamada The Imperial Academy, que é gerida por académicos de esquerda. É suposto ser um local de partilha de conhecimento, mas na prática é dedicado às fofoquices políticas do dia. Não sei bem como é que lá fui parar, mas pode ter sido pela mão do meu amigo, o excelente Robert P. George. Encaro isso como um ministério menor, o meu esforço em escrever pequenas porções de verdade para uma congregação maioritariamente ateia e secularista.

E há uma coisa em que tenho reparado. Não fiquei admirado por ver que os membros do Imperial Academy têm pouco respeito pela religião. O que me espanta é a hostilidade e o desprezo, sem que se vislumbre qualquer esforço por compreender em que é que acreditamos ou porquê, e como devemos agir com base na nossa fé, ou pelo menos evitar agir contra ela.

O outro dia o assunto foi o aborto e os membros expressaram a opinião de que se alguém não quer praticar um aborto não deve entrar num campo que o requer. Por outras palavras, se não queres fazer abortos, não vás para medicina. Católicos – irlandeses ou de outra estirpe – escusam de se candidatar.

Eventualmente, nestas discussões, alguém joga o que pensa ser o ás de trunfo. A cartada das Testemunhas de Jeová. “Então”, diz, “suponho que aceitarias ter uma testemunha de Jeová como cirurgião ou como hematologista”, que são dois campos em que nenhuma testemunha de Jeová quereria entrar, pois as transfusões de sangue são uma componente necessária e regular do trabalho. Embrulha!

Mas não é o ás de trunfo. Talvez um rei de um naipe menor, orgulhosamente a passear pela mesa de jogo, mas prestes a perder a vasa. Eis a razão porquê:

Os católicos não apelam à escritura para ditar as especificidades da prática da medicina. Apelamos de forma geral à natureza das coisas e à razão. A medicina, por definição, remedeia. Se tens febre, a medicina restaura o teu corpo até à temperatura normal. Se tens uma infecção, a medicina restaura a ordem saudável ao teu corpo. Se tens um membro partido, a medicina arranja-o. Se és vulnerável a uma doença facilmente transmissível, a medicina fornece-te protecção. Se tens um órgão que não funciona como deve ser, a medicina cura-o. Se o corpo apenas pode ser salvo através da remoção de um órgão ou de um membro doente, a medicina faz na prática aquilo que o próprio corpo faz através do seu sistema autoimune.

Reparem que não estou a apelar a qualquer coisa extrínseca à medicina e ao corpo. A testemunha de Jeová apela, porque não há nada na natureza do sangue que sugira que a hemoglobina de um homem não pode, ou não deve, ser usada por outro, como nada impede que o ar que um homem inala seja inalado por outro na respiração boca-a-boca.

Mas no que toca a questões como o aborto, a esterilização e a mutilação sexual, a testemunha de Belial faz esse apelo extrínseco. Não apela a uma visão deturpada da escritura, mas sim a uma visão deturpada do papel da vontade individual, da conveniência política ou à demografia mundial. Por outras palavras, a testemunha de Belial deixou o mundo da medicina para trás.

Mas não há nada de errado com a criança no útero. Isso é um simples facto. Nem há nada de errado, evidentemente, com os sistemas reprodutivos dos pais da criança. Claramente, esses estavam a funcionar correctamente. O aborto não restaura a saúde a um órgão ou a um membro doente, não protege contra doenças transmissíveis, não cura, não salva uma pessoa em perigo de morte.

O aborto não remedeia. Logo, tem tanto de medicina como terá a amputação de um membro saudável, independentemente de envolver trabalho com e sobre o corpo.

O liberal contrapõe com o problema dos pais da testemunha de Jeová que tentam impedir os seus filhos de receber sangue de um dador. Mas também isto é, na verdade, um argumento contra o liberal, por duas razões. A primeira é que uma coisa é praticar um acto que outra pessoa considera moralmente condenável, com o propósito de salvar uma vida. Mas é outra coisa diferente tentar obrigar todos os profissionais médicos a participar nesse acto. Seria como tentar obrigar um pacifista a pegar em armas em tempo de guerra. Para quê? Que tipo de mente faria uma coisa dessas?

Belial
Mas há outra questão que o liberal não está a ver que o liga de forma trágica à testemunha de Jeová. É tão simples como isto: Em ambos os casos acabamos com uma criança morta. Tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová recorrem a factores extra-médicos para definir o que é próprio da medicina, e tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová acabam por ter nas mãos a morte de uma criança inocente.

Se há alguma distinção entre os dois, tem de ser a favor da testemunha de Jeová. Afinal de contas, ele é vítima de uma teologia infeliz, mas não deseja a morte do seu filho. A testemunha de Belial, pelo contrário, deseja precisamente isso. A testemunha de Jeová limita, desnecessariamente, a medicina. Mas ao exceder a medicina, a testemunha de Belial destrói a própria medicina. A testemunha de Jeová tem medo de fazer algo que possa salvar uma vida. A testemunha de Belial não tem qualquer temor em matar. A testemunha de Jeová quer que lhe deixem em paz. A testemunha de Belial não te deixará em paz. A testemunha de Jeová não quer violar a sua consciência, por mais deturpada que esteja. A testemunha de Belial quer obrigar-te a violar a tua.

A testemunha de Jeová está a pensar em Deus – de forma errada. A testemunha de Belial está a pensar em ambição, carreira, dinheiro e sexo. Porque no final de contas, vai dar sempre nisso: libertação sexual, compulsão estatal e crianças mortas.

Ah, e para terminar… Há um nome para o tipo de governo do Século XX que procuraria obrigar o pacifista a pegar em armas. Chama-se “fascismo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no sábado, 10 de Março de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 17 January 2018

Francisco no olho do furacão, vestido modestamente, claro

Continua a visita do Papa ao Chile e hoje ele esteve “no olho do furacão”, numa região onde existe uma luta armada contra o Governo e ontem mesmo os militantes atacaram os polícias que faziam a segurança ao recinto onde hoje decorreu a missa. O Papa tinha palavras fortes para o Governo e para os militantes.

Hoje soube-se que ontem, depois do almoço, Francisco recebeu vítimas de abusos sexuais, a quem escutou, e com quem rezou e chorou.

Ainda ontem, já depois de eu ter enviado o email, Francisco encontrou-se com reclusas em Santiago e, depois, esteve com os religiosos e religiosas do país, a quem fez um discurso que é tão bonito, na minha opinião, que o coloquei no blog e convido-vos a ler na íntegra. É longo, mas vale a pena.

A diocese de Leiria celebra 100 anos desde que foi restaurada. Saiba mais aqui.

Se forem como eu, então a maior parte das vezes que lêem ou ouvem um católico discorrer sobre vestuário modesto e a explicar que os bikinis são um sinal visível do fim dos tempos, só vos apetece arrancar cabelos. Este artigo do grande Anthony Esolen não é desses. Há uma forma inteligente e racional de abordar este tema. Há contextos e lugares para (quase) tudo. Leiam que vale bem a pena.

Modéstia e Caridade

Anthony Esolen
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.

E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial. Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por atentado ao pudor.

Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando fui abrir a porta.

Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas informações, não era nada de privado.

Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”, enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.

Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O contexto é muito importante.

Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente enquanto não estava a pintar.

Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.

Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente nada em Peoria.

Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.

"Um par de chanatas e um sorriso"
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os “teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.

Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto. Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só. Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.

Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável, mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.

Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.

Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais abaixo”, ou então “vai-te lixar”.

Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses pensamentos.

E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a violência.

Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade, a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à linguagem e ao comportamento físico.

Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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